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Nos 3

O Milagre de Otávio e a Promessa de uma Vida

O silêncio do banheiro principal da mansão de Ester era quase ensurdecedor. Camila estava sentada no chão de mármore aquecido, as costas apoiadas na lateral da banheira de hidromassagem, os olhos fixos no pequeno bastão de plástico sobre a bancada. Duas linhas. Vermelhas, nítidas, incontestáveis.

Aos dezenove anos, Camila sentia o peso do mundo em seus ombros. O medo não era da maternidade em si, mas da reação de Ester. Ester, a mulher de negócios implacável, a mulher que já tinha tudo, a mulher que era o seu porto seguro. Será que ela queria um filho agora? Será que isso estragaria a dinâmica perfeita que ela, Ester e Karla haviam construído?

Duas semanas se passaram. Duas semanas em que Camila fingiu indisposições, evitou vinhos nos jantares luxuosos e chorou escondida no chuveiro. Karla, sempre intuitiva e calma, notava algo errado, mas respeitava o espaço da namorada, enquanto Ester redobrava os mimos, preocupada com a palidez súbita de sua "pequena".

Naquela noite de sexta-feira, o clima estava ameno. Ester estava sentada no sofá da biblioteca, lendo alguns contratos, enquanto Karla folheava uma revista de arte ao seu lado. Camila entrou no cômodo com os passos incertos, os olhos vermelhos e as mãos escondidas atrás das costas.

— Mila? — Ester levantou os olhos imediatamente, fechando a pasta. — O que houve, meu amor? Você está chorando de novo?

Camila não conseguiu responder de imediato. Um soluço escapou de sua garganta, e ela caiu de joelhos no tapete, soluçando compulsivamente. Karla correu para o seu lado, abraçando-a, enquanto Ester se ajoelhava à sua frente, o rosto transbordando preocupação.

— Por favor, fala comigo — pediu Ester, segurando o rosto de Camila. — Você está doente? Alguém te fez algo?

— Eu... eu estraguei tudo — balbuciou Camila entre lágrimas. — Você vai ficar brava... você vai me deixar...

— Deixar você? — Ester soltou uma risada nervosa, embora seus olhos estivessem úmidos. — Camila, você é o meu coração. Nada no universo me faria deixar você. O que aconteceu?

Com a mão trêmula, Camila estendeu o teste de gravidez. Ester o pegou, seus olhos correndo pelo visor. O silêncio que se seguiu pareceu durar uma eternidade. Karla, olhando por cima do ombro de Ester, soltou um arquejo de surpresa e levou a mão à boca.

Ester não disse nada por longos segundos. Ela olhava para o teste, depois para a barriga ainda plana de Camila, e então para os olhos aterrorizados da namorada.

— Ester, desculpa... eu não queria... — Camila começou a se desculpar desesperadamente, mas foi interrompida.

Ester a puxou para um abraço tão apertado que Camila perdeu o fôlego. A empresária enterrou o rosto no pescoço da mais nova, e Camila sentiu algo molhado ali. Ester estava chorando.

— Brava? — Ester sussurrou, a voz embargada de uma alegria que Camila nunca tinha ouvido. — Camila, eu sou a pessoa mais feliz do mundo. Você está carregando um pedaço nosso aqui dentro. Como eu poderia ficar brava com o maior presente da minha vida?

— Você quer? — perguntou Camila, incrédula.

— Eu quero mais do que tudo — afirmou Ester, afastando-se para beijar cada centímetro do rosto de Camila. — Nós vamos cuidar de você, vamos cuidar dele. Vai ser perfeito.

Karla se juntou ao abraço, rindo e chorando ao mesmo tempo.

— Nós vamos ser mães, Mila! — Karla exclamou, beijando a bochecha da latina. — Imagine só a bagunça que vai ser essa casa!

Os meses seguintes foram uma sucessão de descobertas e excessos. Ester, como era de se esperar, transformou a gravidez de Camila em um evento de estado. O quarto do bebê foi projetado pelos melhores arquitetos, com móveis trazidos da Itália e tecidos orgânicos da mais alta qualidade.

Aos cinco meses, durante um ultrassom detalhado, elas descobriram que seriam mães de um menino.

— Ele tem o seu perfil, Ester — observou Karla, apontando para a tela granulada. — Olha esse narizinho.

— Ele vai ser lindo — murmurou Ester, apertando a mão de Camila.

— Eu já sei o nome — declarou Karla, com aquela serenidade que lhe era peculiar. — Otávio. Significa "o oitavo", mas para nós, soa como força e tradição. Otávio.

— Otávio — repetiu Camila, sentindo o bebê chutar pela primeira vez. — Eu amei, Karlinha.

A gravidez, no entanto, trouxe um efeito colateral inesperado: os hormônios de Camila a deixaram dez vezes mais carente e insaciável. Se antes ela já era possessiva, agora ela era uma extensão constante de Ester. Ela não suportava ficar longe da namorada e, principalmente, desenvolveu uma fixação quase mística pelo corpo de Ester.

— Ester, por favor — gemia Camila em uma tarde chuvosa, puxando a empresária para a cama. — Eu preciso sentir você. O Otávio está pedindo.

— O Otávio ou você, pequena? — provocava Ester, rindo, embora nunca negasse nada à sua grávida.

Camila vivia em cima de Ester. Ela adorava a sensação do membro de Ester dentro dela, sentindo que aquele era o vínculo máximo que as unia. Mesmo com o barrigão crescendo, elas encontravam posições confortáveis, e Ester a tratava como se fosse feita de cristal, embora Camila pedisse por intensidade. O sexo durante a gravidez tornou-se uma celebração da fertilidade e do domínio que a empresária exercia sobre a latina, algo que sempre acalmava os instintos mais selvagens de Camila.

Quando Otávio nasceu, em uma manhã de primavera, a vida delas mudou de cor. O bebê era a imagem de Ester, mas com os olhos expressivos de Camila. As três pareciam ter nascido para aquilo. Ester era a proteção, Karla era a paciência e Camila era o afeto puro.

Pouco depois do primeiro aniversário de Otávio, Ester decidiu que era hora de oficializar o que o mundo já sabia. Em uma cerimônia íntima nos jardins da mansão, sob um arco de flores brancas, Ester, Karla e Camila trocaram alianças e promessas de amor eterno. Foi um casamento triplo, simbólico e legalmente amarrado por contratos que garantiam a união daquela família fora dos padrões, mas transbordante de verdade.

Dois anos se passaram num piscar de olhos.

A casa agora era preenchida por risadas infantis e o som de pequenos pés correndo pelo mármore. Otávio, aos três anos, era um menino enérgico e carinhoso, que idolatrava suas "três mamães". Mas a família não parou por ali.

Sentada em uma poltrona de amamentação no novo quarto cor-de-rosa da casa, Karla segurava uma pequena trouxinha nos braços. Olivia.

Olivia tinha apenas três meses e havia nascido de Karla. A decisão de Karla engravidar veio de um desejo comum de que todas vivessem a experiência de gerar. Desta vez, foi Camila quem escolheu o nome.

— Ela é tão calma, Karla — sussurrou Camila, aproximando-se com Otávio no colo. — Diferente desse furacão aqui.

— Ela puxou a calma da mamãe Karla — disse Ester, entrando no quarto e depositando um beijo na testa de cada uma das suas mulheres. — Mas tem os olhos curiosos da Camila.

Ester sentou-se no chão, ao lado da poltrona de Karla, e Otávio pulou do colo de Camila para os braços da "mamãe Ester".

— Papai do céu deu duas irmãs para mim? — perguntou Otávio, ainda confundindo um pouco as definições, mas transbordando amor.

— Deu sim, meu campeão — respondeu Ester, abraçando o filho. — E deu as melhores mamães do mundo para vocês dois.

A vida delas era um porto seguro. Ester continuava à frente de suas empresas, mas agora suas prioridades eram chegar em casa a tempo do banho das crianças. Karla tornara-se uma ilustradora de livros infantis de sucesso, trabalhando em seu ateliê em casa. E Camila, a alma vibrante do grupo, cuidava da harmonia de todos, ainda sendo a mais ciumenta e apegada.

— Você está olhando muito para a babá nova, Ester — brincou Camila, enquanto observava Ester ajudar Karla a colocar Olivia no berço.

Ester parou, olhou para Camila e soltou aquela gargalhada gostosa que só a latina conseguia provocar.

— Camila, meu amor, eu tenho duas esposas maravilhosas, um filho que é a minha cara e uma bebê que é um anjo — disse Ester, aproximando-se de Camila e envolvendo-a em seus braços. — Por que no mundo eu olharia para qualquer outra pessoa?

— Só para garantir — disse Camila, fazendo um biquinho e selando seus lábios nos de Ester.

Karla aproximou-se, abraçando as duas por trás, exatamente como faziam anos atrás, antes de toda aquela aventura começar.

— Nós conseguimos, não conseguimos? — perguntou Karla, a voz cheia de gratidão.

— Conseguimos muito mais do que sonhamos — respondeu Ester.

Naquela noite, enquanto as crianças dormiam e o silêncio voltava a reinar na mansão, as três se recolheram para o imenso quarto principal. Entre lençóis de seda, risos baixos e o calor de corpos que se conheciam profundamente, elas celebraram a família que construíram.

O ciúme de Camila agora era temperado pela segurança de ser mãe e esposa. A calma de Karla era o alicerce de uma casa cheia de vida. E o poder de Ester era usado para proteger o seu verdadeiro tesouro: o amor multiplicado.

A história que começara com uma confissão de amor desesperada em um sofá de couro transformara-se em um legado. Um legado de que o amor não tem formas fixas, não tem limites e, quando é verdadeiro, é capaz de criar mundos inteiros. E naquele quarto, sob o brilho da lua, o mundo de Ester, Karla e Camila era, finalmente, completo.