Nossa garota
O Sangue e o Berço
O silêncio que se seguiu aos gritos lá embaixo era denso, mas não era desconfortável. Para quem vivia em Derry, e especialmente para quem convivia com Henry Bowers e seu bando, o som da violência era apenas o ruído de fundo de uma cidade que apodrecia por dentro. Henry estava sentado ao meu lado na cama, a respiração ainda um pouco acelerada, os olhos fixos em mim com uma intensidade que queimava. Ele notou que eu ainda estava aérea, o toque asqueroso daquele velho parecendo um fantasma grudado na minha pele.
Henry estendeu a mão. Havia um pequeno corte em seu nó do dedo, uma lembrança da mandíbula do Sr. Henderson. Com um movimento lento, quase hipnótico, ele passou o dedo sujo com um rastro de sangue seco na ponta do meu nariz, traçando uma linha vermelha sobre as minhas sardas.
— Ei, olha para mim — sussurrou ele, tentando me distrair do choque. — O lixo já foi recolhido.
Eu pisquei, focando nos olhos dele, e senti um pequeno sorriso brincar nos meus lábios apesar de tudo. Henry tinha um jeito muito próprio de ser gentil; era uma gentileza envolta em arame farpado.
Lá embaixo, ouvi o som da torneira da cozinha sendo aberta com força. Patrick e Victor estavam lavando as mãos, removendo os vestígios da "conversa" que tiveram com o vizinho. Pouco depois, ouvi a porta da frente se fechar. Eles estavam indo até a delegacia local para plantar a semente de uma história qualquer — que tinham encontrado o velho morto, ou que alguém tinha invadido a casa. Em Derry, a polícia nunca fazia perguntas difíceis para os Bowers se não houvesse uma testemunha viva para contestar. E o Sr. Henderson certamente não falaria mais nada.
— Hanna — chamou Henry, inclinando a cabeça para o lado. — Faz aquela sua cara.
— Que cara? — perguntei, minha voz voltando ao normal, embora ainda um pouco suave.
— A cara de menina fofa que você faz quando quer me dobrar. Faz para eu ver uma coisa.
Eu dei uma risadinha e, cedendo ao pedido dele, inclinei um pouco a cabeça, arregalei meus olhos cor de mel e fiz um biquinho leve, deixando meu lado "neném" transparecer. Henry soltou um suspiro pesado, como se toda a raiva do mundo estivesse deixando seu corpo, e esticou a mão para apertar minha bochecha com força, mas sem machucar.
— Tão fofa — murmurou ele, com um sorriso raro e genuíno. — Tão sapeca e tão fofa. É um perigo, sabia?
Ele se inclinou e ligou a TV velha que ficava sobre a cômoda. O chiado da estática logo deu lugar a um programa qualquer de fim de tarde. Recostei-me nele, sentindo o calor do seu corpo, e comecei a brincar com a mão dele, traçando as linhas da sua palma e os calos que ele tinha de tanto segurar o canivete ou o guidão da bicicleta. Era um momento de paz estranho, construído sobre o caos que acabara de acontecer lá fora.
Depois de alguns minutos, Henry se moveu.
— Preciso ir ao banheiro — avisou, levantando-se da cama.
Eu o observei sair, sentindo uma pontada súbita de carência. O episódio com o velho tinha me deixado mais sensível do que eu gostaria de admitir. Quando Henry voltou para o quarto, parando perto do pé da cama, eu me sentei e estiquei os dois braços na direção dele, em um gesto mudo pedindo colo.
Henry parou, me encarando com uma sobrancelha erguida e um meio sorriso divertido.
— O que é isso? Você virou um nenê agora, Hanna? — perguntou ele, a voz carregada de um carinho bruto.
— Sou um nenê — respondi, fazendo uma voz fininha e manhosa, forçando o biquinho novamente.
— Uma neném muito fofa e muito sapeca, isso sim — ele riu, aproximando-se e passando os braços por baixo das minhas coxas e costas, levantando-me com uma facilidade impressionante.
Ele ficou em pé no meio do quarto, me balançando levemente como se eu fosse realmente pequena. Eu entrelacei meus braços em volta do pescoço dele e encostei a cabeça em seu ombro, fechando os olhos. O cheiro de Henry — uma mistura de pólvora, cigarro e um perfume barato que ele usava — era o meu porto seguro. O movimento rítmico e o calor do seu peito me envolveram de tal forma que o cansaço do dia finalmente me venceu. Eu apaguei ali mesmo, suspensa nos braços do garoto mais perigoso de Derry.
Não sei quanto tempo se passou até que ouvi o som da porta do quarto se abrindo novamente e o burburinho de vozes baixas.
— Mas o que é isso? — A voz de Patrick ecoou, arrastada e cheia de sarcasmo. — Desde que horas a Hanna virou um nenê de colo?
Eu abri os olhos devagar, ainda meio tonta de sono, e vi Patrick e Victor parados na porta. Eles pareciam relaxados, as roupas levemente desalinhadas, mas as mãos agora estavam limpas.
— Desde a hora que vocês saíram — respondeu Henry, sem me soltar. — Ela decidiu que é pequena demais para andar sozinha.
Eu me mexi nos braços de Henry, bocejando, e olhei para os dois.
— Eu sou um nenê — reafirmei, a voz ainda rouca de sono, olhando para Patrick.
Patrick deu um passo à frente, encostando-se no batente da porta com aquele olhar predatório que ele sempre tinha, mas que, para mim, era apenas o jeito dele de demonstrar interesse.
— Uma neném muito carente, pelo visto — comentou ele, esticando a mão para bagunçar meu cabelo preto.
Olhei para Patrick e, movida por aquele impulso de querer atenção de todos eles, estiquei meus braços na direção dele, abandonando o porto seguro de Henry.
— Colo — pedi.
Patrick soltou uma risada curta, mas não hesitou. Ele me pegou dos braços de Henry, acomodando-me contra o seu peito. Patrick era mais magro que Henry, mas seus braços eram firmes e ele tinha uma energia elétrica, como se estivesse sempre prestes a explodir.
— Viu só? Nem é difícil carregar você — disse Patrick, ajeitando-me nos braços. — Você é super leve, Hanna. Parece que se o vento soprar forte, você voa.
Encostei a cabeça no ombro dele, sentindo os ossos mais proeminentes de Patrick, mas me sentindo igualmente protegida. Henry sentou-se na beira da cama, observando-nos, e pegou um cigarro, mas não o acendeu, apenas o girava entre os dedos.
— E aí? Como foi na delegacia? — perguntou Henry, voltando ao tom sério.
— Foi de boa — respondeu Victor, sentando-se na única cadeira do quarto e jogando a cabeça para trás. — Os policiais acreditaram na história. Dissemos que ouvimos barulhos, fomos checar e o velho já estava lá, caído. Com a fama que ele tinha de beber e a idade, ninguém vai contestar um "acidente" doméstico.
— Amanhã vai ser o enterro do velho — completou Patrick, enquanto caminhava lentamente pelo quarto comigo no colo. — Hoje já estão organizando o velório naquela funerária barata perto do centro. Menos um pervertido no mundo.
— Menos um lixo perto da Hanna — rosnou Henry, e eu senti a possessividade na voz dele como um abraço quente.
Eu ouvia a conversa deles como se estivesse submersa em água morna. A segurança que eles me proporcionavam era absoluta. Em qualquer outro lugar, três rapazes como eles seriam vistos como monstros, mas ali, naquele quarto, eles eram os meus guardiões. Eles tinham matado por mim, ou pelo menos garantido que quem me desrespeitasse nunca mais tivesse a chance de fazê-lo.
— Ela dormiu de novo? — ouvi a voz de Victor perguntar, soando distante.
— Shhh — Patrick murmurou. — Acho que sim.
Senti Patrick me colocar de volta na cama com uma delicadeza que ninguém em Derry acreditaria que ele possuía. Henry puxou o lençol sobre o meu corpo, e os três continuaram a conversar, mas suas vozes agora eram apenas sussurros baixos, um murmúrio constante que servia como uma canção de ninar.
— A gente cuida dela amanhã no enterro — disse Henry. — Ninguém chega perto.
— Ninguém nunca chega perto dela — respondeu a voz de Patrick, sumindo conforme eu mergulhava em um sono profundo e sem sonhos, protegida pelas sombras dos garotos que Derry tanto temia.