Nossa garota
Lágrimas de Crocodilo e o Túmulo da Vovó
A luz da manhã em Derry tinha um tom doentio, um amarelo pálido que parecia incapaz de aquecer qualquer coisa. Acordei com o som de Henry mexendo em algumas gavetas. Ele parou o que estava fazendo e se sentou na beira da cama, me observando com aquele olhar que misturava possessividade e uma espécie de adoração torta.
— Acorda, sapeca — disse ele, passando a mão pelo meu rosto. — Hoje o dia vai ser diferente.
Eu me espreguicei, sentindo meu corpo relaxado após o sono profundo da tarde anterior.
— Diferente como? — perguntei, ainda com a voz rouca.
Henry deu um sorriso de lado, aquele que indicava que ele e os meninos tinham planejado algo enquanto eu dormia.
— Decidimos que, depois do que aquele velho fez, você merece um descanso de ser a Hanna brava e inteligente. Pelas próximas vinte e quatro horas, você vai ser só o nosso neném. A gente cuida de tudo. Você só relaxa e deixa a gente te mimar.
Eu pisquei, processando a ideia. Ser tratada como um bebê por Henry Bowers, Patrick Hockstetter e Victor Criss era uma proposta tentadora e, ao mesmo tempo, levemente bizarra. Mas, vindo deles, eu sabia que significava proteção total.
— Vinte e quatro horas? — perguntei, fazendo o biquinho que Henry tanto gostava.
— Sem exceções — afirmou ele, levantando-se. — Agora, vai se arrumar. Temos um funeral para ir, por cortesia.
A casa de Henry era grande o suficiente para ter quatro banheiros, o que era uma raridade em Derry, mas uma necessidade quando o pai dele estava fora e o bando decidia se alojar por lá. Cada um de nós ocupou um banheiro para agilizar o processo. Entrei no chuveiro, deixando a água quente lavar qualquer resquício da sensação de sujeira que o vizinho tinha deixado em mim. Eu me sentia renovada, mas a ideia do velório ainda me causava um certo asco.
Saí do banho e fui escolher minha roupa. Se era para ir a um enterro em Derry, eu iria do meu jeito. Vesti uma calça jeans preta larga, que ficava confortável nos quadris, e combinei com um cropped preto que deixava um pouco da minha cintura à mostra. Calcei meus coturnos pretos pesados, que me davam alguns centímetros a mais de altura e uma sensação de poder. No rosto, apenas um rímel leve para destacar meus olhos cor de mel e um gloss.
Quando desci, os três já estavam prontos. Eles não usavam ternos — não eram esse tipo de garotos —, mas estavam vestidos de forma mais sóbria, com jaquetas escuras e expressões fechadas.
— Você está linda, neném — disse Victor, vindo até mim e passando o braço pelos meus ombros. — Pronta para ver o circo?
— Pronta — respondi, sentindo a adrenalina começar a subir.
O velório do Sr. Henderson estava sendo realizado em uma capela pequena e abafada, que cheirava a flores velhas e incenso barato. Assim que entramos, o som de soluços exagerados preencheu meus ouvidos. A família dele estava reunida em torno do caixão aberto, as mulheres escondendo os rostos em lenços rendados.
— Ele era um homem tão bom! — uma mulher mais velha, provavelmente uma irmã, gritava entre um soluço e outro. — Tão inocente, nunca faria mal a uma mosca! Por que o levaram tão cedo?
Eu senti uma risada borbulhando na minha garganta. Inocente? Aquele homem era um predador que se escondia atrás de uma fachada de velhice frágil. Olhei para o lado e vi que Patrick estava com um brilho maníaco nos olhos, claramente se divertindo tanto quanto eu com a hipocrisia da cena.
— Inocente — murmurou Henry, sua voz um trovão baixo perto do meu ouvido. — Se eles soubessem o que a "mosca" dele tentou fazer com o que é meu.
— É patético — sussurrei de volta. — Me dá vontade de rir na cara deles.
— Não vale a pena o esforço, Hanna — disse Victor, mantendo a vigilância constante ao redor. — Vamos apenas cumprir o papel e sair daqui.
Ficamos nos fundos da capela por alguns minutos, observando as pessoas de Derry fingirem que se importavam com um homem que a maioria provavelmente evitava na rua. O drama era excessivo, uma encenação barata que começou a me irritar. A energia pesada daquele luto falso estava me sufocando.
— Eu não aguento mais esse teatro — falei, puxando a manga da jaqueta de Henry. — Vou lá fora.
— Eu vou com você — disse Patrick prontamente.
— Não, fiquem aqui — pedi, querendo um momento de paz. — Eu vou até o cemitério. Quero visitar o túmulo da minha avó. Faz tempo que não passo lá, e o túmulo dela fica no mesmo setor onde vão enterrar esse traste.
Henry hesitou, seus instintos protetores lutando contra o desejo de me dar o que eu queria.
— Vinte minutos, Hanna — ordenou ele. — Se você não voltar para o portão principal em vinte minutos, a gente vai atrás de você.
— Combinado — sorri, dando um beijo rápido na bochecha dele, o que o deixou visivelmente mais calmo.
Saí da capela e respirei o ar fresco do lado de fora, mesmo que o ar de Derry sempre tivesse aquele toque de mofo e segredos enterrados. Caminhei pelas trilhas de pedra do cemitério, observando as lápides cinzentas cobertas de musgo. O setor onde minha avó estava enterrada era um dos mais antigos, onde as árvores eram altas e frondosas, criando sombras longas mesmo sob o sol pálido.
Encontrei a lápide dela rapidamente. "Amada e Lembrada", dizia a inscrição. Minha avó tinha sido a única pessoa na minha família que realmente entendia o meu espírito selvagem. Sentei-me na grama baixa ao lado do túmulo, sentindo uma paz que o velório barulhento tinha me roubado.
— Oi, vovó — sussurrei, passando a mão pela pedra fria. — As coisas estão meio loucas por aqui. Mas não se preocupe, eu tenho quem cuide de mim.
Fiquei ali por algum tempo, perdida em pensamentos, longe da falsidade da família Henderson e da brutalidade necessária do mundo de Henry. No entanto, o silêncio do cemitério começou a ser interrompido pelo som de passos pesados se aproximando.
Eu me levantei, meus sentidos ficando alertas. Derry não era um lugar para se baixar a guarda, nem mesmo em um cemitério. No entanto, relaxei quando vi as três silhuetas familiares surgindo entre as árvores. Henry vinha na frente, seguido por Patrick e Victor.
— O tempo acabou, neném — disse Henry, parando a poucos metros de mim.
— Eu sei. Só estava me despedindo — respondi, limpando um pouco de terra da minha calça.
— Aquela gente começou a carregar o caixão — Victor comentou, fazendo uma careta de desgosto. — O show de horrores está se mudando para cá. É melhor a gente sair antes que a choradeira chegue perto de você de novo.
— Concordo — falei, caminhando até eles.
Patrick se aproximou e, sem aviso, me pegou no colo novamente, como se eu fosse realmente uma criança pequena.
— O que você está fazendo, Patrick? — perguntei, rindo.
— As vinte e quatro horas ainda não acabaram — explicou ele, começando a caminhar em direção à saída, longe do funeral que se aproximava. — E nenéns não devem caminhar em cemitérios sujos. Podem pegar um resfriado ou algo pior.
Eu encostei a cabeça no peito dele, sentindo o ritmo constante do seu coração. Olhei para trás e vi a procissão do Sr. Henderson chegando ao longe. Eles pareciam formigas pretas em um mar de cinza. Doeu-me pensar que alguém como ele recebia uma despedida tão "digna", enquanto o mal que ele fazia era ignorado.
Mas então olhei para os garotos ao meu redor. Henry caminhava ao nosso lado, a mão sempre perto do bolso onde guardava o canivete, os olhos escaneando cada arbusto e cada lápide. Victor fechava a retaguarda, atento a qualquer movimento suspeito.
— Vocês são loucos — murmurei, fechando os olhos enquanto Patrick me balançava levemente no trajeto.
— Somos o seu tipo de loucos, Hanna — respondeu Henry, sua voz soando como uma promessa.
Saímos do cemitério e fomos para o carro de Henry. O trajeto de volta para casa foi silencioso, mas não era um silêncio tenso. Era o silêncio de quem tinha feito o que precisava ser feito e agora estava apenas aproveitando a companhia um do outro.
Quando chegamos à casa de Henry, ele estacionou o carro e desligou o motor, mas ninguém se moveu imediatamente.
— E agora? — perguntei, ainda no banco de trás entre Patrick e Victor.
— Agora — começou Henry, virando-se no banco da frente para me olhar — a gente termina o seu dia de neném. Sem vizinhos pervertidos, sem velórios falsos e sem ninguém para te incomodar.
— Eu quero chocolate — anunciei, decidindo testar até onde aquela brincadeira de "ser cuidada" iria.
Victor soltou uma risada e abriu a porta do carro.
— Eu vou até a loja do Sr. Keene buscar. Mais alguma coisa, sua alteza?
— Pipoca — acrescentei, sorrindo. — E eu quero escolher o filme.
— Vai ser um longo dia — brincou Patrick, mas ele me ajudou a sair do carro com uma delicadeza que contradizia completamente o rapaz que, horas antes, tinha ajudado a espancar um homem até a morte.
Entramos na casa e eu me joguei no sofá da sala. Henry ligou o ventilador para espantar o calor abafado de Derry e sentou-se no chão, bem na minha frente, apoiando os braços nos meus joelhos.
— Você está bem mesmo, Hanna? — perguntou ele, a voz baixa e séria. — Depois de ver a família dele e tudo mais?
Eu olhei para Henry, vendo a preocupação real por trás da fachada de delinquente.
— Estou, Henry. Ver a família dele só me mostrou que as pessoas preferem acreditar em mentiras confortáveis do que na verdade feia. Mas eu sei a verdade. E eu sei que vocês me protegeram. Isso é o que importa.
Henry assentiu, parecendo satisfeito com a resposta. Ele pegou minha mão e beijou os nós dos meus dedos.
— Sempre vamos proteger você.
Victor voltou pouco tempo depois com sacolas cheias de guloseimas. Passamos o resto da tarde e o início da noite amontoados naquela sala. Eu estava no centro, com Henry de um lado, Patrick do outro e Victor esticado no tapete aos nossos pés. Comemos chocolate, pipoca e assistimos a filmes de terror antigos, rindo das mortes falsas na tela, que pareciam tão pálidas comparadas à realidade da nossa cidade.
A cada vez que eu me mexia ou pedia algo, um deles prontamente atendia. Era um contraste fascinante: os garotos que aterrorizavam as crianças de Derry e desafiavam qualquer autoridade estavam agindo como servos dedicados de uma garota de dezessete anos com sardas no nariz.
Conforme a noite avançava e o cansaço começava a bater, eu me senti afundar no sofá, cercada pelo calor deles.
— O tempo de neném está quase acabando? — perguntei com a voz sumida.
— Ainda temos algumas horas — sussurrou Patrick, passando o braço por trás da minha cabeça.
— Aproveita, sapeca — disse Victor, fechando os olhos. — Amanhã você volta a ser a Hanna brava que coloca a gente na linha.
Eu sorri, fechando os olhos também. Em Derry, o perigo estava em cada esquina, e o mal muitas vezes usava o rosto de um vizinho idoso ou de uma cidade indiferente. Mas ali, naquela casa velha e mal cuidada, eu tinha o meu próprio exército. Eles eram manchados, eram violentos e eram temidos, mas eram meus. E, por aquela noite, isso era tudo o que eu precisava para dormir em paz.