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Nossa garota

Céus de Algodão e Laços Inesperados

O ar em Derry parecia mais leve naquela tarde, como se a cidade tivesse decidido dar uma trégua em sua habitual opressão. Depois de uma manhã cheia de risadas e planos inusitados na cozinha dos Bowers, eu voltei para casa com o coração aquecido. Minha mãe estava na cozinha, cantarolando uma melodia antiga enquanto organizava algumas compras, quando o som da campainha ecoou pela sala.

Eu já sabia quem era. O Sr. Bowers não era homem de perder tempo quando decidia algo. Minha mãe trocou um olhar cúmplice comigo, um misto de surpresa e uma expectativa que ela tentava esconder atrás de um sorriso nervoso.

— Hanna, querida — disse ela, limpando as mãos no avental —, por que você não vai dar uma volta na praça? Aproveite o sol. Eu... eu preciso resolver um assunto com o Butch.

— Tudo bem, mãe — respondi com um olhar travesso. — Juízo, hein?

Eu já tinha trocado o pijama do Stitch por algo que me fizesse sentir mais eu mesma, mas ainda mantendo aquele toque de doçura que o dia pedia. Escolhi uma saia preta longa, que ia até a canela e balançava suavemente a cada passo. Combinei com um cropped branco cujas alças caíam delicadamente um pouco abaixo dos ombros, revelando a pele das minhas costas. Calcei meus tênis brancos da Nike, deixei meu cabelo preto longo solto ao vento e coloquei minha pulseira de ouro favorita. O colar com o pingente de estrela brilhava no meu pescoço, e minhas unhas, recém-feitas em branco com detalhes dourados, completavam o visual.

Caminhei até a praça central, sentindo o calor do sol no rosto. Sentei-me em um banco de madeira sob a sombra de uma árvore antiga, observando o movimento calmo de Derry. Eu estava perdida em pensamentos sobre como a vida era engraçada — horas antes eu era protegida por Henry e os meninos, e agora estava ali, apenas uma garota de dezessete anos aproveitando a tarde.

— Oi... Hanna? — Uma voz suave me tirou do devaneio.

Olhei para o lado e vi Beverly Marsh. Ela parecia um pouco hesitante, segurando a alça de sua bolsa com força. Em Derry, as linhas entre os grupos eram geralmente bem traçadas: você era do bando do Bowers ou era uma vítima. Mas eu sempre fui a exceção, o ponto de equilíbrio que ninguém sabia como classificar.

— Oi, Bev — respondi, abrindo um sorriso gentil que pareceu desarmá-la instantaneamente.

— Posso me sentar com você? — perguntou ela, apontando para o espaço vazio no banco.

— Claro que pode. Senta aí.

Começamos a conversar sobre coisas banais — a escola, o calor insuportável de Maine no verão, os professores chatos. Beverly era inteligente e tinha um brilho nos olhos que eu admirava. Ela me olhou por um momento, curiosa.

— Sabe, eu te vi sozinha aqui e pensei... bom, meus amigos estão logo ali no riacho. Você não quer vir ficar com a gente? É melhor do que ficar sentada olhando para o nada.

Eu hesitei por um segundo. O que Henry diria se me visse com o "Clube dos Perdedores"? Mas então lembrei que eu era Hanna, e eu fazia minhas próprias regras.

— Eu adoraria, Bev. Vamos lá.

Caminhamos juntas até a beira do canal, onde o grupo de meninos estava reunido. Quando nos aproximamos, o silêncio caiu sobre eles como uma cortina pesada. Bill, Eddie, Stan e Ben arregalaram os olhos, e Mike parecia pronto para correr. Eles conheciam minha fama por associação; eu era a namorada de Henry Bowers, o pesadelo de cada um deles.

— Gente, essa é a Hanna — disse Beverly, tentando quebrar o gelo.

— A-a-a Hanna? — Bill gaguejou, ajeitando os óculos. — A Hanna do B-B-Bowers?

Antes que o clima ficasse insuportável, Richie Tozier deu um passo à frente, ajustando os óculos fundo de garrafa no nariz com um sorriso atrevido.

— Pelo amor de Deus, Bill! Olhem para ela. Ela é bonita demais para ser um dos capangas do Henry. Se bem que, se o Henry tivesse esse visual, eu talvez deixasse ele me bater mais vezes.

Eu não aguentei e soltei uma gargalhada alta. O humor de Richie era contagiante.

— Viu só, gente? — Richie exclamou, apontando para mim. — Ela ri das minhas piadas! Ela é gente boa oficializada. Seja bem-vinda ao clube dos excluídos, princesa.

A tensão se dissipou como fumaça. Em poucos minutos, eu estava sentada na grama com eles, participando da conversa. Eles eram engraçados, rápidos e, acima de tudo, acolhedores. Eddie me explicou detalhadamente por que a água do canal era um risco biológico, enquanto Ben me contou curiosidades sobre a história de Derry que eu nem imaginava. Eles me fizeram rir tanto que minha barriga começou a doer.

— Você não é nada como o Henry descreve nos... bom, você sabe — comentou Stan, parecendo surpreso.

— O Henry tem o jeito dele — respondi com calma —, mas eu tenho o meu. E o meu jeito gosta de pessoas legais.

Depois de um tempo, o sol ficou ainda mais forte. Beverly me olhou e fez um sinal com a cabeça.

— Hanna, vamos comprar um sorvete? Estou derretendo.

— Vamos nessa! — Levantei-me, limpando a grama da saia.

Caminhamos até a sorveteria do centro, rindo e conversando como se fôssemos amigas de infância. Eu pedi um de baunilha com calda de chocolate, e ela foi de morango. Enquanto voltávamos para o grupo, saboreando os sorvetes, percebi que havia algo libertador em estar com Beverly. Não havia a necessidade de proteção constante ou a sombra da violência. Era apenas amizade feminina pura.

Voltamos para perto dos meninos e passamos o resto da tarde ali. O tempo voou. Quando o céu começou a ganhar tons de laranja e roxo, percebi que não queria que o dia acabasse. Olhei para Beverly e tive uma ideia.

— Bev, o que você acha de eu dormir na sua casa hoje? — perguntei, animada. — A gente podia conversar mais, ver algum filme...

Os olhos dela brilharam de alegria.

— Sério? Você faria isso? Eu ia adorar!

Peguei meu celular e liguei para minha mãe. O Sr. Bowers ainda devia estar lá, então a voz dela soava estranhamente feliz e distraída.

— Mãe? Posso dormir na casa de uma amiga hoje? A Beverly Marsh.

— A Beverly? — Minha mãe pareceu surpresa, mas logo suavizou. — Claro, querida. Divirta-se. O Butch ainda está aqui, estamos... conversando. Pode ir tranquila.

Desliguei o telefone e dei um pulinho de felicidade, abraçando Beverly. Os meninos assoviaram e Richie fez algum comentário inapropriado sobre "festa do pijama" que o fez levar um tapa no braço de Eddie.

A noite na casa da Beverly foi mágica. O apartamento dela era pequeno e simples, mas ela o tornava acolhedor. Ela me emprestou um pijama de seda azul marinho que ficava um pouco curto em mim, mas era extremamente confortável. Passamos horas sentadas na cama dela, comendo pipoca e trocando segredos.

— Sabe, Hanna — disse ela, enquanto pintávamos as unhas uma da outra —, eu sempre tive um pouco de medo de você. Por causa do Henry. Mas você é... doce. E muito forte também.

— Obrigada, Bev — respondi, soprando minhas unhas para secar. — O Henry me protege do mundo, mas às vezes eu sinto que preciso de espaços como este. Onde eu possa ser apenas a Hanna que gosta de estrelas e de rir até perder o fôlego.

Dormimos tarde, exaustas de tanto conversar. No dia seguinte, o despertador tocou cedo para a escola. O clima era de segunda-feira, mas eu ainda sentia a vibração positiva do dia anterior.

— Vamos? — perguntou Beverly, terminando de amarrar os sapatos.

— Vamos, mas eu preciso passar na minha casa rapidinho para pegar minha bolsa e trocar de roupa para o uniforme — expliquei.

Caminhamos juntas até a minha casa. Quando chegamos, vi o carro do Sr. Bowers ainda estacionado na frente, o que me fez sorrir. Entrei rapidamente, peguei minhas coisas, dei um beijo rápido na minha mãe — que estava com um brilho radiante no rosto — e saí correndo.

Chegamos à escola juntas, caminhando pelo pátio principal. Eu ainda estava com o pijama da Beverly por baixo de um casaco largo, rindo de alguma piada que ela tinha contado no caminho.

— Olha só quem chegou — sussurrou Beverly, apontando com o queixo para a entrada lateral.

Henry, Patrick e Victor estavam encostados no muro, fumando e observando os alunos chegarem. Quando Henry me viu caminhando ao lado de Beverly Marsh, a expressão dele passou de tédio para um choque absoluto. O cigarro quase caiu de sua boca.

— Hanna? — Henry deu um passo à frente, os olhos alternando entre mim e Beverly. — O que... o que você está fazendo com ela?

Eu parei na frente dele, ajeitando a mochila no ombro e dando um sorriso radiante.

— Bom dia para você também, Henry! — Eu me aproximei e dei um beijo rápido no canto da boca dele. — Eu dormi na casa da Bev. Ela é incrível.

Patrick soltou uma fumaça densa, olhando para nós com um divertimento cínico.

— O mundo está virando de cabeça para baixo — comentou Patrick. — Primeiro o velho morre, depois o Butch vira romântico e agora a nossa Hanna é melhor amiga dos Perdedores?

— Ela não é uma "Perdedora", Patrick — eu disse, olhando-o nos olhos com firmeza. — Ela é minha amiga. E eu espero que vocês a tratem com respeito.

Victor deu de ombros, parecendo indiferente, mas Henry ainda parecia processar a informação. Ele olhou para Beverly, que sustentou o olhar dele com uma coragem que eu sabia que vinha, em parte, da minha presença ali.

— Se ela é sua amiga, Hanna... — começou Henry, suspirando e passando a mão pelo cabelo — então ela está sob a minha proteção também. Mas se o Tozier abrir a boca para falar alguma merda...

— Eu cuido do Richie — interrompi, rindo. — Ele é inofensivo, Henry.

Beverly me deu um tchauzinho e seguiu para sua sala, deixando-me com os meninos. Henry me puxou para perto, envolvendo minha cintura com o braço.

— Você não para de me surpreender, sapeca — sussurrou ele no meu ouvido. — Dormiu na casa da Marsh?

— Dormi. E quer saber? Ela tem um pijama ótimo.

— Imagino que sim — Henry sorriu, a possessividade voltando aos seus olhos, mas de uma forma mais suave. — Mas hoje à noite você dorme comigo. Senti sua falta.

— Eu também senti a sua, Henry. Mas agora, vamos para a aula. Temos um ano para terminar.

Caminhamos para dentro da escola, e eu senti os olhares de Derry sobre nós. A namorada do Bowers e a garota Marsh. O bando de lobos e o clube dos excluídos. As linhas estavam começando a se apagar, e eu era a tinta que misturava as cores. Em Derry, o mal podia ser antigo e profundo, mas naquele momento, sob o sol da manhã, a amizade e o amor pareciam ser as únicas coisas que realmente importavam. Eu era Hanna, a garota que amava monstros e abraçava perdedores, e eu nunca estive tão certa de quem eu era.