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Nossa garota

Herança de Sangue e Segredos de Família

A luz da manhã de Derry atravessava as cortinas empoeiradas do quarto de Henry, criando feixes dourados onde a poeira dançava preguiçosamente. Eu abri os olhos devagar, sentindo o peso reconfortante do macacão do Stitch e a maciez da naninha de cetim que ainda apertava contra o peito. A chupeta de pérolas ainda estava presa aos meus lábios, e por um breve segundo, eu me permiti apenas ser, sem o peso dos dezessete anos ou das responsabilidades de ser a "garota durona" do bando.

O som de risadas baixas e o cheiro de café fresco e bacon subiam da cozinha. Desci da cama com um pulo, sentindo a energia renovada. Corri pelos corredores, meus pés descalços fazendo um som suave contra a madeira, e desci as escadas quase tropeçando nas orelhas do meu pijama. Quando entrei na cozinha, vi os três ali, encostados nos balcões, parecendo muito mais relaxados do que no dia anterior.

— Mas olha só quem acordou! — exclamou Victor, levantando uma caneca de café em saudação.

Eu ignorei o comentário e corri direto para o Henry, que estava de costas para a porta. Pulei em suas costas, abraçando seu pescoço com força e enterrando o rosto em sua nuca.

— Ei, calma lá, sapeca! — Henry riu, segurando minhas coxas para que eu não caísse. Ele me girou e me colocou no chão à sua frente. — O que foi? Aconteceu alguma coisa? Algum pesadelo?

Eu olhei para ele, tirei a chupeta da boca por um momento e abri um sorriso que iluminou meu rosto inteiro.

— Não aconteceu nada, Henry — eu disse, com a voz transbordando alegria. — Eu só queria dizer que ontem foi o melhor dia da minha vida. Sério. Obrigada por cuidarem de mim.

Os três trocaram olhares e sorriram. Era raro ver o Bando Bowers com expressões tão genuinamente suaves. Patrick, que estava sentado na mesa brincando com um isqueiro, inclinou a cabeça para o lado.

— A gente faria de novo, Hanna. Você sabe disso.

Eu me sentei no balcão, balançando as pernas, e a curiosidade começou a bater. Lembrei-me de que, em alguns momentos da noite anterior, eles haviam sumido por um tempo considerável enquanto eu cochilava ou brincava com meus tesouros da caixa.

— Escutem — comecei, olhando de um para o outro —, onde é que vocês foram ontem à noite? Vocês sumiram por um tempão.

Henry se aproximou, pegando um pedaço de bacon e me oferecendo.

— Fomos ver o Belch — explicou ele. — Aquele idiota não aparecia há dias, nem dava sinal de vida. Ficamos preocupados que ele tivesse se metido em alguma encrenca com os Perdedores ou algo pior.

— E ele está bem? — perguntei, preocupada com o quarto membro do nosso grupo.

— Está sim — Victor respondeu, encostando-se na pia. — Só está com uns problemas chatos em casa. O pai dele está pegando pesado de novo, então ele resolveu ficar na dele para não sobrar para ninguém. Mas ele manda lembranças para a "neném" do bando.

Eu ri, sentindo um alívio percorrer meu peito. Concordei com a cabeça, satisfeita com a resposta, e deixei minha chupeta de pérolas ali mesmo no balcão, ao lado da fruteira. Aproximei-me de Henry novamente e entrelacei meus braços em sua cintura, descansando a cabeça em seu peito enquanto ele conversava com Victor e Patrick sobre carros e os planos para a escola na semana seguinte. Era um momento doméstico estranho, mas perfeito para nós.

Mais tarde, o clima de camaradagem foi interrompido pelo som de pneus no cascalho lá fora. Victor e Patrick se despediram rapidamente, sabendo que o "tempo de folga" do Sr. Bowers havia acabado.

— Se cuidem — disse Patrick, piscando para mim antes de sair pela porta dos fundos.

Poucos minutos depois, a porta da frente se abriu com um estrondo familiar. Era o pai do Henry. Eu não hesitei; saí correndo pelo corredor e pulei nos braços dele antes mesmo que ele pudesse largar a mala. Diferente de como ele agia com o resto do mundo, o Sr. Bowers me segurou com um riso rouco e um abraço apertado que quase me tirou o fôlego.

— Ora, ora, veja só quem está aqui! — Ele me colocou no chão e me olhou de cima a baixo, notando imediatamente o pijama do Stitch e o meu cabelo preso em maria-chiquinha. — Vejo que você finalmente achou a sua caixa de tesouros, não foi?

Eu assenti com entusiasmo, sentindo minhas bochechas corarem.

— Achei sim! Foi maravilhoso.

O Sr. Bowers cruzou os braços, com um brilho divertido nos olhos.

— E onde está o meu filho imprestável? — perguntou ele, embora o tom não fosse de raiva.

— O Henry está tomando banho — respondi, apontando para o andar de cima.

Ele caminhou em direção à cozinha e eu o segui. Ele parou no meio do caminho, olhou para a bagunça de pratos de doce e a mamadeira que ainda estava na pia, e soltou uma risada alta.

— Deixe-me adivinhar — disse ele, voltando-se para mim. — Os meninos estiveram aqui e você foi tratada como uma neném o dia inteirinho, estou certo?

— Totalmente certo — concordei, rindo junto com ele.

Nós nos sentamos à mesa da cozinha. O Sr. Bowers parecia mais relaxado do que eu o via há anos. A viagem parecia ter feito bem a ele, ou talvez fosse apenas o fato de estar longe da tensão constante de Derry por alguns dias. Ele pegou uma caneca de café e, após um silêncio pensativo, olhou para mim com uma expressão mais séria, mas suave.

— E a sua mãe, Hanna? — perguntou ele de repente. — Como ela está? Ela está bem?

Eu me surpreendi com a pergunta, mas respondi prontamente.

— Ela está bem, sim. Trabalhando muito, como sempre.

Ele tamborilou os dedos na mesa, parecendo hesitar sobre a próxima pergunta.

— Ela... ela finalmente largou daquele traste do seu pai? — A voz dele tinha um tom de desprezo quando mencionava meu pai, o que não era segredo para ninguém.

— Largou sim — respondi, observando-o atentamente. — Eles assinaram os papéis há pouco tempo. Ela está morando sozinha agora.

O Sr. Bowers soltou um suspiro que pareceu carregar o peso de anos. Ele desviou o olhar para a janela, e eu, sendo a garota curiosa e abusada que sempre fui, não resisti.

— O senhor gosta dela, não gosta? — perguntei, com um sorriso travesso.

Ele tentou negar, balançando a cabeça e fazendo uma careta de "não seja boba", mas o rubor que subiu pelo seu pescoço o entregou.

— Ora, Hanna, não seja ridícula. Eu sou um velho rabugento e...

— Ah, qual é! — interrompi, rindo. — O senhor gosta dela desde que eu era pequena. Eu via como o senhor olhava para ela quando ela ia me buscar aqui. O senhor até tentou negar agora, mas eu sei a verdade.

Ele finalmente cedeu, soltando um riso curto e derrotado.

— Está bem, está bem. Eu gosto dela. Satisfeita? Ela sempre foi a mulher mais incrível que eu já conheci. Forte, decidida... e aguentou aquele imbecil por tempo demais.

Eu me inclinei sobre a mesa, apoiando o queixo nas mãos.

— Então o senhor tem que tentar pedir ela em namoro! — exclamei, animada com a ideia.

Ele me olhou como se eu tivesse sugerido que ele pulasse de um penhasco.

— Hanna, pense bem. Isso seria... estranho. Você e o Henry já namoram. Se eu e a sua mãe ficarmos juntos, o que isso faz de vocês? Meio-irmãos que namoram? As pessoas em Derry já falam merda o suficiente da nossa família.

Eu dei de ombros, sem me importar nem um pouco.

— Ah, quem liga para o que as pessoas de Derry pensam? A gente já é esquisito de qualquer jeito. E eu não tenho preconceito com isso, nem o Henry teria. A gente se ama, e se o senhor e a minha mãe se amam, por que não?

O Sr. Bowers sorriu, parecendo considerar a ideia pela primeira vez de forma real.

— Você tem um ponto, pequena. Mas você sabe que, se eu for me declarar para ela e ela aceitar, eu vou ter que aguentar a braveza dela, não vou? Aquela mulher tem um gênio que faz o meu parecer brincadeira de criança.

Nós dois caímos na risada, imaginando a cena de dois temperamentos tão fortes tentando conviver.

— É verdade — concordei, limpando uma lágrima de riso do canto do olho. — O senhor vai ter que andar na linha. Ela não aceita desaforo de ninguém, nem do "grande Butch Bowers".

Nesse momento, Henry apareceu na porta da cozinha. Ele estava com o cabelo úmido e vestia uma camiseta limpa, parecendo confuso com a risadaria.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou ele, olhando de mim para o pai.

O Sr. Bowers imediatamente mudou sua postura, empertigando-se na cadeira e tentando retomar sua expressão de "pai durão", embora o brilho nos olhos ainda estivesse lá.

— Onde você estava, garoto? — rosnou ele, mas sem veneno. — Deixando a casa uma bagunça e tratando a Hanna como se ela fosse um brinquedo?

Henry revirou os olhos, caminhando até a geladeira.

— Ela gosta, pai. Não finja que o senhor não faria o mesmo.

O Sr. Bowers se levantou e, para a surpresa de Henry, foi até ele e o envolveu em um abraço rápido, mas firme.

— Senti sua falta, moleque — disse ele, dando um tapa no ombro do filho. — E escute... a Hanna estava me dando uns conselhos amorosos. Eu decidi que vou tentar me declarar para a mãe dela.

Henry parou com a mão na porta da geladeira, processando a informação. Ele olhou para mim, depois para o pai, e eu vi o exato momento em que a engrenagem girou na cabeça dele.

— Espera aí — disse Henry, franzindo a testa. — Se vocês ficarem juntos... a Hanna e eu vamos ser... tipo... irmãos?

— Meio-irmãos — corrigi, segurando o riso. — Mas a gente já namora, então tecnicamente seríamos meio-irmãos que namoram.

Henry ficou em silêncio por cinco segundos inteiros, uma expressão de pura confusão e choque estampada no rosto, antes de começar a rir de forma histérica.

— Cara, essa cidade é muito louca — disse ele, balançando a cabeça. — Mas quer saber? Vá em frente, pai. A mãe da Hanna é a única pessoa que eu conheço que conseguiria colocar o senhor no lugar. Eu apoio totalmente.

Nós três rimos juntos na cozinha, um som que raramente ecoava naquela casa com tanta leveza. Henry se aproximou de mim, passando o braço pelo meu pescoço e me puxando para um beijo rápido no topo da cabeça.

— Viu só o que você começou, sapeca? — sussurrou ele. — Agora a nossa família vai ser a mais bagunçada de Derry.

— E a mais feliz — respondi, olhando para o Sr. Bowers, que já parecia estar ensaiando o que diria para a minha mãe.

Naquele momento, enquanto o sol de Derry brilhava lá fora e as sombras da cidade continuavam a espreitar, dentro daquela cozinha, tudo parecia estar exatamente onde deveria estar. Éramos quebrados, éramos violentos e éramos estranhos, mas éramos uma família. E, acima de tudo, éramos protegidos pelo amor que tínhamos uns pelos outros, fosse ele o amor de um namorado, de um pai ou a doce inocência de uma garota que ainda guardava sua chupeta de pérolas no balcão.