Nova visão
Manchetes e Entrelinhas
O sol da manhã em Smallville tinha uma tonalidade diferente naquela quarta-feira. Para Chloe Sullivan, a luz que atravessava as janelas do porão do *Tocha* não era apenas um lembrete de que ela precisava de mais café, mas sim um holofote sobre a nova e vertiginosa realidade em que se encontrava. Clark Kent ainda estava lá. Ele não havia desaparecido com o nevoeiro da madrugada, nem havia tido um surto de amnésia conveniente que o fizesse correr de volta para os campos de tulipas de Lana Lang.
Ele estava sentado em uma das mesas auxiliares, folheando uma edição antiga do jornal escolar, parecendo absurdamente doméstico e, ao mesmo tempo, perigosamente fora de lugar naquele ambiente de arquivos empoeirados. A mandíbula dele estava marcada pela sombra de uma barba por fazer, o que apenas acentuava aquela nova aura de maturidade que Chloe ainda estava tentando processar.
— Você está me encarando de novo, Chloe — disse Clark, sem tirar os olhos do papel, um sorriso convencido brincando nos lábios.
— Eu sou uma jornalista, Clark. Observação é a base do meu ofício — rebateu ela, ajeitando a gola de sua blusa e tentando recuperar sua postura profissional, embora seu coração estivesse dando saltos ornamentais no peito. — Além disso, estou tentando determinar se você é um impostor de uma dimensão paralela. O Clark que eu conheço estaria, a esta hora, ajudando o Sr. Kent com as cercas ou suspirando perto do celeiro.
Clark fechou o jornal e levantou-se. O movimento foi fluido, transbordando uma confiança que ele parecia ter finalmente aceitado como parte de si. Ele caminhou até ela, parando a poucos centímetros, forçando-a a inclinar a cabeça para trás para manter o contato visual.
— O Clark que você conhece decidiu que as cercas podem esperar e que suspirar é um desperdício de oxigênio — ele disse, a voz baixa e vibrante. — Especialmente quando há coisas muito mais interessantes para se fazer no porão da escola.
Chloe sentiu o calor subir pelo pescoço.
— Uau. Onde você guardou esse Clark arrogante e assertivo todo esse tempo? Em uma caixa de chumbo? Porque, honestamente, é um pouco perturbador o quanto isso funciona comigo.
Clark riu, um som rico que pareceu preencher cada fresta do escritório. Ele estendeu a mão, retirando uma mecha de cabelo loiro do rosto dela, deixando os dedos descansarem por um momento na curva de sua orelha. O toque era carinhoso, mas havia uma possessividade subjacente que fez Chloe estremecer.
— Eu só cansei de me desculpar por quem eu sou ou pelo que eu quero — afirmou ele. — E o que eu quero, Chloe... é você. Sem dramas, sem segredos sobre garotas que moram na casa ao lado. Apenas a verdade.
— A verdade é uma mercadoria cara nesta cidade, Clark — murmurou ela, fechando os olhos por um segundo para saborear a sensação do toque dele. — Você tem certeza de que não está apenas usando meu brilho intelectual para ofuscar a dor de um coração partido?
Clark segurou o queixo dela com firmeza, mas com uma suavidade que a desarmou completamente.
— Olhe para mim.
Chloe obedeceu. Os olhos azuis dele estavam límpidos, sem o rastro de melancolia que costumava acompanhá-lo sempre que o nome de Lana era mencionado.
— Eu passei anos tentando me encaixar em um molde que nunca serviu para mim — explicou Clark. — Com a Lana, eu sempre senti que precisava ser perfeito, ou que precisava me esconder para não quebrá-la. Com você... eu sou apenas o Clark. O Clark que comete erros, o Clark que é intrometido, o Clark que você conhece melhor do que ninguém. Eu não estou procurando consolo, Chloe. Estou procurando clareza. E eu a encontrei aqui.
— Isso foi quase poético — disse ela, o sarcasmo voltando como um mecanismo de defesa, embora seus olhos estivessem brilhando. — Se você continuar assim, vou ter que te dar uma coluna de opinião no jornal.
— Eu prefiro os benefícios de ser o assistente pessoal da editora-chefe — ele provocou, inclinando-se para dar um selinho rápido e firme nela.
O momento foi interrompido pelo som estridente do telefone de Chloe. Ela soltou um gemido de frustração e se afastou, atendendo o aparelho.
— Sullivan. Sim... O quê? No moinho abandonado? — Ela pegou uma caneta, o instinto jornalístico assumindo o controle. — Certo, estou indo para lá. Não, não chame a polícia ainda, ou o Lex vai chegar primeiro.
Ela desligou o telefone e olhou para Clark, que já estava em alerta, sua postura mudando instantaneamente para a de um protetor.
— Problemas? — perguntou ele.
— Pete. Ele acha que encontrou algo relacionado àqueles carregamentos estranhos que mencionei na semana passada. Algo que cheira a LuthorCorp e a substâncias que não deveriam estar em solo de Smallville.
Clark suspirou, mas não havia a habitual relutância em seus olhos.
— Eu vou com você.
— Clark, você tem tarefas na fazenda e...
— Chloe — interrompeu ele, pegando a jaqueta dela na cadeira e entregando-a. — Se vamos fazer isso, vamos fazer juntos. E eu não vou deixar você entrar em um moinho abandonado sozinha enquanto houver capangas do Lex por perto. Considere isso parte do meu novo "eu" assertivo.
Ela sorriu, aceitando a jaqueta.
— Tudo bem, Kent. Mas se você usar sua super-velocidade e me deixar comendo poeira, eu escrevo um obituário muito pouco lisonjeiro sobre sua vida social.
O trajeto até o moinho foi preenchido por uma conversa leve, algo que Chloe sentia falta. Eles falaram sobre tudo e nada, evitando deliberadamente o peso do que havia acontecido na noite anterior, embora a tensão romântica estivesse lá, como uma corrente elétrica entre os bancos do caminhão. Quando chegaram, o local parecia deserto, mergulhado em um silêncio sinistro.
— Pete? — Chloe chamou, saindo do veículo.
Clark parou ao lado dela, seus olhos percorrendo o edifício de madeira apodrecida. Chloe sabia que ele estava usando sua visão de raio-x, e a segurança que isso lhe trazia era algo que ela raramente admitia em voz alta.
— Ele não está aqui — disse Clark, sua voz ficando tensa. — Mas há algo lá dentro. No subsolo. O cheiro de produtos químicos é forte.
— Consegue ver o que é? — perguntou ela, aproximando-se da entrada.
— Chumbo — rosnou Clark. — As paredes do porão foram revestidas. Eles sabiam que alguém como eu poderia olhar.
— Ou eles estão escondendo algo tão perigoso que não querem que vaze — teorizou Chloe, já sacando sua câmera digital. — Vamos lá, detetive. Hora de brilhar.
Eles entraram cautelosamente. O interior do moinho era um labirinto de engrenagens enferrujadas e sombras longas. Clark caminhava na frente, sua força física sendo um escudo natural para Chloe. Quando chegaram à escadaria que levava ao porão, o som de vozes abafadas ecoou lá de baixo.
— ... o Sr. Luthor quer os resultados até sexta-feira — dizia uma voz fria e impessoal. — Não importa a dosagem. Se os espécimes não sobreviverem, tragam mais da escola.
Chloe sentiu um arrepio na espinha. Ela olhou para Clark e viu a mandíbula dele travar. A arrogância gentil de minutos atrás desapareceu, substituída por uma fúria controlada que a lembrava de que Clark Kent era a pessoa mais poderosa do planeta.
— Fique aqui — sussurrou ele.
— Nem pensar — sussurrou ela de volta. — Eu preciso de fotos, Clark. Sem provas, é apenas a palavra de uma adolescente contra o império de Lex.
Clark hesitou, mas depois assentiu, segurando a mão dela com força antes de descerem o último lance de degraus. O que encontraram era um laboratório improvisado, cheio de tanques de vidro e luzes fluorescentes. Pete Ross estava amarrado a uma cadeira em um canto, parecendo tonto, mas consciente.
Antes que os dois guardas armados pudessem reagir, Clark se moveu. Para Chloe, foi apenas um borrão de movimento. Em um segundo, os homens estavam de pé; no outro, estavam desmaiados contra a parede oposta, suas armas retorcidas como se fossem feitas de plástico.
Clark correu até Pete, desfazendo as cordas com um único puxão.
— Pete! Você está bem? — perguntou Chloe, ajoelhando-se ao lado do amigo.
— Chloe? Clark? — Pete piscou, tentando focar a visão. — Eles... eles estavam testando um novo tipo de refinamento de meteoro. Estavam falando sobre "estabilizar a mutação".
— Nós vamos tirar você daqui — disse Clark, ajudando Pete a se levantar. Ele olhou para Chloe, que já estava disparando fotos freneticamente de cada documento e frasco no laboratório. — Chloe, temos que ir. Eles podem ter reforços.
— Só mais um segundo... — Ela parou diante de um monitor que exibia uma série de nomes. — Clark, olhe isso.
Clark se aproximou e leu a lista. Eram nomes de estudantes de Smallville High. Jovens que haviam sido afetados pela chuva de meteoros ao longo dos anos. No topo da lista, circulado em vermelho, estava o nome de Chloe Sullivan.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Chloe sentiu o sangue fugir de seu rosto. Ela sempre soube que sua exposição aos meteoros era um risco, mas ver seu nome em um alvo da LuthorCorp tornava tudo real demais.
— Eles não vão tocar em você — disse Clark. Sua voz não era apenas assertiva agora; era absoluta. Ele se virou para ela, ignorando Pete por um momento, e colocou as mãos em seus ombros. — Eu juro, Chloe. Ninguém vai encostar um dedo em você.
— Eu sei me cuidar, Clark — disse ela, embora sua voz tivesse uma leve trepidação. — Mas obrigada.
— Não é apenas proteção, Chloe — ele continuou, os olhos brilhando com uma intensidade protetora que ela nunca vira direcionada a ninguém, nem mesmo a Lana. — É que eu acabei de encontrar o que eu realmente precisava. Não vou deixar o Lex ou qualquer outra pessoa tirar isso de mim.
Eles saíram do moinho enquanto as sirenes da polícia — chamadas anonimamente por Clark em super-velocidade — começavam a soar ao longe. Pete foi levado para o hospital para observação, deixando Clark e Chloe sozinhos novamente no caminhão, estacionados em um mirante de onde podiam ver as luzes da cidade começando a piscar com o entardecer.
— Foi um dia agitado para um "primeiro encontro" oficial — comentou Chloe, tentando aliviar a tensão.
Clark desligou o motor e virou-se para ela. O interior do caminhão estava na penumbra, criando uma atmosfera de intimidade súbita.
— Você está assustada? — perguntou ele, ignorando a piada.
— Com o Lex me caçando como um rato de laboratório? Um pouco. Com o fato de que meu melhor amigo é um alienígena que acabou de destruir um laboratório com as mãos? Nem tanto — ela sorriu fracamente. — Mas o que mais me assusta, Clark... é o amanhã. O que acontece quando o efeito da novidade passar e você perceber que eu sou apenas a Chloe que te corrige os erros de gramática?
Clark soltou o cinto de segurança e se inclinou sobre o console central, aproximando seu rosto do dela.
— A Chloe que me corrige não é uma novidade, é a minha constante — disse ele, a voz rouca e carinhosa. — E sobre o Lex... ele pode ter os recursos dele. Mas ele não tem a menor ideia do que eu sou capaz de fazer para manter você segura.
Ele a beijou novamente, mas desta vez não havia a urgência faminta da noite anterior. Era um beijo lento, profundo, cheio de uma promessa silenciosa de permanência. Chloe sentiu o peso do mundo diminuir. Durante anos, ela desejou ser a pessoa por quem Clark lutaria, a pessoa que ele colocaria acima de tudo. E agora que ela estava naquela posição, percebeu que não era apenas sobre ser "escolhida". Era sobre ser compreendida.
— Você é muito arrogante, sabia? — murmurou ela contra os lábios dele, entrelaçando os dedos na nuca dele.
— Aprendi com a melhor — respondeu ele, sorrindo. — Agora, que tal esquecermos os Luthors e as manchetes por algumas horas? Eu ouvi dizer que o Talon tem um estoque novo de café e eu adoraria ver você tentando me explicar por que aquele filme de ficção científica que vimos semana passada é cientificamente impossível.
Chloe riu, sentindo uma felicidade genuína borbulhar em seu peito.
— Ah, Kent... você não sabe no que se meteu. Prepare-se para uma palestra de duas horas sobre física quântica.
— Eu mal posso esperar — disse Clark, ligando o caminhão.
Enquanto eles se afastavam, deixando para trás os segredos do moinho e as sombras do passado, Clark olhou pelo retrovisor. Ele não via mais a fazenda Lang ou o fantasma de um amor de infância que nunca floresceu de verdade. Ele via o caminho à frente, e ao seu lado, a mulher que sempre foi sua luz, mesmo quando ele estava cego demais para ver.
Lana era o sonho que ele tivera quando criança. Chloe era a realidade que ele escolhia viver como homem. E, pela primeira vez em sua vida, Clark Kent sentia que estava exatamente onde deveria estar. A manchete da vida dele finalmente fazia sentido, e ele não pretendia deixar que nada, nem ninguém, mudasse o foco daquela história.