Nova visão
Pulsações e Pontos de Ruptura
O relógio de parede no escritório do *Tocha* parecia bater mais alto naquela noite, ou talvez fosse apenas o silêncio compartilhado entre Clark e Chloe que amplificava cada pequeno som. Eles estavam sentados no chão, encostados nos arquivos de metal, dividindo uma caixa de donuts e dois copos térmicos de café que já estavam mornos. A adrenalina do resgate de Pete no moinho havia baixado, deixando em seu lugar uma vulnerabilidade crua, mas estranhamente confortável.
Clark observava Chloe enquanto ela analisava as fotos que havia tirado no laboratório da LuthorCorp. A luz do laptop iluminava seu rosto, destacando a concentração feroz em seus olhos. Ele sentiu um aperto no peito que não tinha nada a ver com kryptonita. Era uma admiração profunda, uma percepção tardia de que a força dela não vinha de poderes solares, mas de uma resiliência inquebrável.
— Você está fazendo aquele "olhar de raio-x emocional" de novo, Clark — comentou Chloe, sem desviar os olhos da tela. — Eu sinto meus segredos sendo desintegrados.
— Eu só estava pensando no quanto você é teimosa — respondeu ele, com um sorriso de canto, fechando a caixa de donuts e se aproximando mais dela. — Você quase foi sequestrada por cientistas loucos hoje e a sua maior preocupação é se a resolução das fotos está boa para a primeira página.
Chloe finalmente fechou o laptop e se virou para ele, cruzando as pernas. O sarcasmo habitual estava presente, mas havia um brilho de cansaço em seus olhos.
— A informação é a única arma que eu tenho, Clark. Você tem a super-força, o Lex tem os bilhões, e eu tenho a verdade. Se eu parar de perseguir a verdade, o que sobra de mim?
Clark estendeu a mão e tocou a ponta do nariz dela, um gesto carinhoso que a fez piscar, surpresa.
— Sobra a mulher que me faz querer ser melhor. A mulher que não precisa de uma capa para ser a pessoa mais corajosa que eu já conheci.
O ar entre eles mudou, tornando-se denso e carregado. Chloe engoliu em seco, a inteligência rápida falhando por um momento diante da intensidade do olhar de Clark. Ele não estava mais recuando; ele estava avançando, reivindicando um espaço na vida dela que antes era apenas um território de sonhos proibidos.
— Clark, você não pode simplesmente dizer coisas assim — sussurrou ela, a voz falhando levemente. — Meu sistema imunológico contra o seu charme não foi projetado para ataques diretos dessa magnitude.
— Então talvez você deva parar de lutar — disse ele, a voz baixando para um tom perigosamente sexy.
Ele se inclinou, encurtando a distância até que suas respirações se misturassem. Clark passou a mão pela nuca de Chloe, os dedos se perdendo nos fios loiros curtos, e a puxou para um beijo que era, ao mesmo tempo, um porto seguro e um incêndio. Não era mais sobre esquecer Lana; era sobre descobrir Chloe. Cada toque dele era assertivo, como se ele estivesse gravando sua presença na pele dela, deixando claro que não havia outro lugar no mundo onde ele preferiria estar.
Chloe gemeu baixinho contra os lábios dele, suas mãos agarrando a camisa de flanela de Clark com uma urgência que ela não conseguia mais esconder. Durante anos, ela havia guardado aquele desejo em uma gaveta trancada no fundo de sua mente, e agora que Clark havia arrombado a fechadura, não havia como voltar atrás.
— Clark... — ela murmurou quando eles se separaram por um milímetro. — Se isso for um sonho induzido por gases tóxicos do moinho, eu juro que vou ficar muito brava quando acordar.
— Não é um sonho, Chloe — ele afirmou, encostando a testa na dela. — Eu estou aqui. E não vou a lugar nenhum.
Ele a ajudou a se levantar do chão com uma facilidade desconcertante, mantendo as mãos firmes em sua cintura. Chloe sentia-se pequena diante dele, mas nunca inferior. Pela primeira vez, a diferença de poder entre eles parecia irrelevante diante da conexão que compartilhavam.
— O que fazemos agora? — perguntou ela, tentando recuperar um pouco de sua racionalidade jornalística. — O Lex não vai esquecer o que aconteceu no moinho. Ele vai ligar os pontos. Ele sabe que você estava lá.
Clark soltou um suspiro pesado, sua expressão tornando-se séria e, por um momento, sombria. A arrogância que ele exibia antes deu lugar a uma determinação protetora.
— Deixe o Lex comigo. Ele pode ter todas as câmeras e laboratórios do mundo, mas ele não sabe do que eu sou capaz quando as pessoas que eu amo estão em perigo.
— "As pessoas que você ama", Kent? — Chloe arqueou uma sobrancelha, o coração disparado. — Isso foi um plural genérico ou uma admissão específica?
Clark sorriu, aquele sorriso que costumava desarmar vilões e, mais importante, desarmava Chloe Sullivan.
— Você é muito intrometida, sabia? Sempre querendo a confirmação por escrito.
— É o meu trabalho, Clark. Preciso de fontes confiáveis.
Ele a puxou para perto novamente, prendendo-a contra o arquivo de metal. O som do metal batendo contra a parede ecoou no escritório vazio.
— Minha fonte é o meu coração, Chloe. E ele está gritando o seu nome há muito mais tempo do que eu tive coragem de admitir.
O momento foi interrompido por um movimento brusco na entrada do porão. Clark se colocou instantaneamente na frente de Chloe, seus músculos retesados, os olhos fixos na porta que se abria.
Era Lana.
Ela estava parada na soleira, o cabelo úmido da garoa lá fora, os olhos vermelhos como se tivesse chorado por horas. Ela parecia pequena e frágil, a imagem exata da garota que Clark passara anos tentando proteger.
— Clark? Chloe? — Lana disse, a voz trêmula. — Eu... eu fui até a fazenda, mas sua mãe disse que você estava aqui. Eu precisava falar com você. O que aconteceu hoje no festival... eu agi mal, eu sei, e eu só queria...
Lana parou de falar quando percebeu a proximidade entre Clark e Chloe. Seus olhos desceram para as mãos de Clark, que ainda seguravam protetoramente os braços de Chloe. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Chloe sentiu o velho instinto de se afastar, de dar um passo para trás e deixar o palco para a protagonista da história de Clark. Mas, antes que pudesse se mover, sentiu os dedos de Clark se fecharem mais firmemente ao redor de sua mão. Ele não se afastou. Ele não soltou.
— Lana — disse Clark, e sua voz não tinha a hesitação habitual. Era firme, quase distante. — O que aconteceu no festival ficou no passado. Eu sinto muito se você está passando por algo difícil, mas eu não sou mais a pessoa a quem você deve recorrer para resolver seus problemas.
Lana piscou, visivelmente chocada. A rejeição direta de Clark era algo que ela claramente não esperava.
— Clark, eu... eu pensei que nós tínhamos uma conexão. Eu pensei que, apesar de tudo, você sempre estaria lá.
— Eu sempre serei seu amigo, Lana — continuou Clark, sua postura exalando uma força que Chloe nunca o vira usar contra a ex-namorada. — Mas as coisas mudaram. Eu mudei. E eu finalmente percebi que passei tempo demais tentando salvar algo que nunca foi real para você.
— E agora você está com ela? — Lana perguntou, apontando para Chloe com uma mistura de mágoa e descrença. — Com a Chloe?
Chloe sentiu uma pontada de raiva. O tom de Lana sugeria que ela era uma escolha de segunda classe, um prêmio de consolação. Ela abriu a boca para retrucar, mas Clark foi mais rápido.
— Eu não estou "com a Chloe" porque ela é uma alternativa, Lana — disse ele, a voz agora carregada de uma arrogância fria que fez Lana recuar um passo. — Eu estou com a Chloe porque ela é a única pessoa que realmente me vê. Ela é a pessoa que eu escolho, todos os dias, de agora em diante.
Lana olhou de Clark para Chloe, as lágrimas transbordando. Sem dizer mais nada, ela se virou e saiu correndo pela porta, o som de seus passos desaparecendo rapidamente no corredor da escola.
Chloe soltou a respiração que nem sabia que estava prendendo. Ela olhou para Clark, que ainda encarava a porta aberta.
— Isso foi... intenso — comentou ela, a voz baixa. — Você tem certeza de que está bem? Foi uma ruptura e tanto com o seu "destino" de porcelana.
Clark se virou para ela, e a frieza em seus olhos desapareceu instantaneamente, substituída por um calor carinhoso.
— Eu nunca me senti tão bem, Chloe. Foi como se um peso que eu carregava há anos tivesse finalmente caído.
— Você foi um pouco arrogante com ela, sabia? — Chloe sorriu, acariciando o braço dele. — "A pessoa que eu escolho". Isso foi bem dramático, Kent.
— Eu quis dizer cada palavra — ele respondeu, puxando-a para um abraço apertado. — Eu cansei de ser o herói que sofre em silêncio. Eu quero ser o homem que é feliz com a mulher que ama.
Chloe escondeu o rosto no peito dele, ouvindo o batimento rítmico e poderoso do coração de Clark. Era um som que lhe dava segurança, uma promessa de que, não importa quais monstros o Lex Luthor criasse ou quais segredos o espaço sideral escondesse, eles enfrentariam tudo juntos.
— Bem — disse ela, afastando-se apenas o suficiente para olhar para ele com seu brilho sarcástico habitual —, se você terminou de expulsar seus fantasmas do passado, nós ainda temos um pequeno problema chamado "LuthorCorp nos caçando".
Clark riu, pegando a jaqueta de Chloe e colocando-a sobre os ombros dela.
— Então é melhor irmos. Eu conheço um lugar onde o Lex nunca vai nos procurar.
— Onde? — perguntou ela, curiosa.
— No topo do moinho de vento da fazenda. A vista é incrível, e eu posso garantir que ninguém vai nos interromper enquanto eu tento te convencer de que você é a manchete mais importante da minha vida.
Chloe revirou os olhos, mas não conseguiu conter o sorriso.
— Você está ficando muito bom nisso, Clark. Se continuar assim, vou acabar escrevendo um editorial sobre como o amor transforma alienígenas em poetas românticos.
— Eu correria o risco — disse ele, antes de pegá-la nos braços.
Em um borrão de velocidade e vento, eles deixaram o porão do *Tocha* para trás. A noite de Smallville, antes cheia de incertezas e sombras, agora parecia vasta e cheia de possibilidades. Clark não estava apenas fugindo de seus problemas; ele estava correndo em direção ao seu futuro. E Chloe, segura em seus braços, finalmente entendeu que não era mais a coadjuvante de ninguém. Ela era a história. Ela era o porto seguro. E, para Clark Kent, ela era tudo o que importava.