Novos agentes
O Espelho Quebrado da Perfeição
A Dra. Aristhéia Vaughn era conhecida na Agência Central como a "Leitora de Almas". Com vinte anos de experiência em traumas de guerra e espionagem, ela já havia visto de tudo — desde agentes com transtorno de estresse pós-traumático severo até sociopatas funcionais. No entanto, enquanto observava os quatro jovens sentados à sua frente na sala de terapia, ela sentiu um frio na espinha que nada tinha a ver com o ar-condicionado.
Eles estavam sentados em uma simetria assustadora. Jack, Josh, Luna e Kira. Não havia um tique nervoso, uma perna balançando ou um olhar fugidio. Eles eram, por definição, impecáveis.
— É um prazer ver rostos conhecidos — começou Aristhéia, forçando um sorriso profissional enquanto folheava as pastas antigas de Harry, Oliver, Sarah e Alyssa. — Embora vocês insistam que não são quem os registros dizem.
— A insistência não é nossa, Doutora — respondeu Jack, a voz calma e profunda. — É da Agência. Nós apenas estamos aqui para cumprir a cláusula de saúde mental do contrato que nos foi imposto.
Aristhéia tentou uma abordagem diferente. Durante duas horas, ela aplicou testes projetivos, questionários de personalidade e análise de microexpressões. O resultado foi frustrante. Eles respondiam com uma precisão lógica que beirava o inumano. Não havia sinais de dissociação, nem de psicopatia, nem de trauma reprimido. Eles eram, psicologicamente falando, "limpos".
— Isso é impossível — murmurou ela, após os quatro deixarem a sala com a mesma sincronia com que entraram.
Helena e Marcus a esperavam no corredor, ansiosos.
— E então? — perguntou Helena, as mãos apertando a alça da bolsa. — Eles se lembraram de algo? Você conseguiu o diagnóstico?
Aristhéia suspirou, ajustando os óculos.
— Eu tenho três teorias, e nenhuma delas me agrada. A primeira é que eles sofreram uma lavagem cerebral tão profunda que as identidades originais foram deletadas, não apenas escondidas. A segunda é que eles desenvolveram um transtorno de identidade compartilhado como mecanismo de defesa coletivo para sobreviverem ao que quer que tenham passado. E a terceira... — Ela hesitou. — A terceira é que eles estão nos torturando conscientemente. Eles decidiram que Harry, Oliver, Sarah e Alyssa morreram, e criaram essas personas como uma armadura impenetrável.
— Mas qual delas é a verdadeira? — Marcus questionou, a voz rouca.
— Nenhuma foi confirmada — admitiu a médica. — Eles são impecáveis demais. E na psicologia, a perfeição absoluta é o maior sinal de que algo está terrivelmente errado.
Enquanto caminhavam em direção ao refeitório, Helena e Marcus notaram o alvoroço. A notícia de que os "prodígios perdidos" estavam vivos se espalhara como pólvora. Agentes veteranos e funcionários da manutenção, que outrora mimavam as crianças com doces e elogios, cercaram o grupo.
— Harry! Meu Deus, você cresceu tanto! — exclamou o velho Silas, o armeiro da agência, tentando abraçar Jack.
Jack deu um passo lateral, um movimento fluido e calculado, evitando o contato. Seu olhar para Silas era o de um estranho olhando para um inseto curioso.
— Meu nome é Jack, senhor. Acho que o senhor me confunde com outra pessoa.
— Oliver, sou eu, o Pete! — um agente de campo sorriu, estendendo a mão para Josh. — Lembra de quando treinávamos infiltração no duto de ventilação?
Josh olhou para a mão estendida de Pete como se fosse um objeto contaminado.
— Não tenho o prazer de conhecê-lo, Agente Pete. E meu nome é Josh. Por favor, mantenha o protocolo profissional.
O clima no refeitório esfriou instantaneamente. O entusiasmo dos funcionários transformou-se em um choque silencioso. Não era apenas o fato de eles negarem os nomes; era a indiferença gélida nos olhos. Não havia ódio, o que seria compreensível. Havia um vazio absoluto. Eles olhavam para as pessoas que os amaram como se fossem ruídos de fundo.
Mais tarde, na enfermaria, Helena encontrou a enfermeira chefe, Martha, que fora responsável por monitorar a implantação dos rastreadores enquanto eles estavam sedados. Martha estava pálida, organizando alguns prontuários.
— Helena, você precisa ver isso — disse Martha, a voz trêmula.
Ela abriu os arquivos de imagens térmicas e escaneamentos corporais realizados durante a contenção.
— O que foi? Alguma complicação com o rastreador?
— Não — Martha balançou a cabeça, apontando para as cicatrizes mapeadas nos torsos e membros dos quatro. — Essas crianças... Helena, o corpo deles é um mapa de horrores. Há marcas de queimaduras químicas, cicatrizes de chicote, entradas de projéteis que foram extraídos sem anestesia adequada. A pele deles é mais tecido cicatricial do que derme saudável em certas áreas.
Helena sentiu o estômago revirar.
— Eles nunca reclamaram de dor — sussurrou a enfermeira. — Mesmo quando o sedativo estava perdendo o efeito, eles acordaram e a primeira coisa que fizeram foi verificar se as unhas ainda estavam no lugar. O que quer que tenha acontecido naqueles dois anos... eles não sobreviveram apenas a uma explosão. Eles sobreviveram a um inferno sistemático.
Na manhã seguinte, Miller exigiu uma demonstração de habilidades. Ele precisava saber se o investimento da Agência naqueles "novos" ativos valia o risco político. O ginásio de treinamento estava lotado. Helena e Marcus observavam da galeria superior, o coração na mão.
O treinamento começou com uma simulação de nível 10 — o mais alto da escala.
— Jack, você assume a liderança — ordenou Miller pelo alto-falante.
O que se seguiu foi uma dança de morte e eficiência. Jack não era apenas forte; ele era uma força da natureza. Ele derrubava os instrutores de combate com golpes que visavam pontos vitais com uma precisão cirúrgica. Ele se movia como o centro de um furacão, coordenando a equipe com sinais de mão quase imperceptíveis.
— Josh, posição! — comandou Jack.
Josh, que Helena lembrava como o menino brincalhão que gostava de desmontar relógios, agora era um espectro tecnológico. Enquanto se movia entre as coberturas, seus dedos voavam por um teclado holográfico de pulso. Em segundos, ele hackeou o sistema de defesa da simulação, transformando as torres automáticas contra os próprios "inimigos" virtuais. Sua estratégia era fria; ele não apenas vencia, ele desmantelava a lógica do oponente.
— Kira, cobertura lateral!
Kira desapareceu. Literalmente. Usando o cenário e as sombras, ela se movia de uma forma que desafiava a percepção visual. Quando reaparecia, era para desferir um golpe incapacitante em um instrutor antes de sumir novamente. Seu disfarce não era apenas visual; ela mudava a postura, o peso do corpo, tornando-se irreconhecível a cada transição.
— Luna, limpe o caminho!
Luna, a pequena Sarah que tinha medo de trovões, estava postada no ponto mais alto do ginásio. Ela não usava uma mira telescópica; parecia não precisar. Cada disparo de sua arma de treino atingia o centro exato da testa dos alvos móveis, um após o outro, em uma cadência rítmica e aterrorizante. Ela não piscava. Ela era o próprio rifle.
Ao final de dez minutos, todos os instrutores estavam no chão, e o sistema da Agência havia sido completamente dominado. Os quatro jovens se reuniram no centro do ginásio, nem sequer ofegantes.
Marcus, ao lado de Helena, estava boquiaberto.
— Eles são melhores que nós — admitiu ele, a voz cheia de uma mistura de orgulho e pavor. — Eles são melhores que qualquer um que já passou por aqui.
Helena desceu as escadas correndo, ignorando o protocolo, e se aproximou deles no centro do tatame.
— Harry... Jack... isso foi incrível! — disse ela, a voz embargada. — A Sarah... quero dizer, Luna, sua pontaria é exatamente como a do seu pai, mas muito mais rápida. E Josh, a maneira como você lidou com o firewall...
Jack olhou para ela. Não havia brilho de satisfação pelo elogio.
— Agradecemos a avaliação técnica, Agente Helena — disse ele, a voz desprovida de emoção. — Mas as comparações familiares são irrelevantes. Luna não tem pai. Josh não tem passado. Somos apenas ferramentas. Se o Diretor Miller estiver satisfeito, gostaríamos de retornar aos nossos aposentos.
— Por que vocês fazem isso? — Helena explodiu, as lágrimas finalmente caindo. — Por que nos tratam como se fôssemos estranhos? Nós choramos por vocês! Nós quase destruímos nossas carreiras tentando provar que a explosão foi uma armação!
Kira deu um passo à frente, inclinando a cabeça daquele jeito que Helena reconhecia, mas seu sorriso era venenoso.
— Vocês choraram pelos mortos, Helena. Mas nós somos os que ficaram. E os que ficaram não têm nenhuma obrigação de confortar a consciência pesada de quem os deixou para trás.
— Nós não deixamos vocês! — gritou Marcus, chegando logo atrás. — O galpão explodiu, não havia sinais de vida!
Josh deu de ombros, um gesto de pura indiferença que doeu mais do que um soco.
— Uma conclusão lógica para mentes limitadas. Nós, por outro lado, aprendemos que a única lealdade que importa é a que existe entre nós quatro. A Agência é apenas um contratante. Vocês são apenas funcionários.
Eles começaram a caminhar em direção à saída, mas Jack parou ao lado de Helena, sussurrando perto de seu ouvido, baixo o suficiente para que apenas ela ouvisse:
— A indiferença é a forma mais pura de tortura, não é? Vocês querem o nosso perdão, querem a nossa memória... mas não dar o que vocês querem é a única coisa que nos mantém livres.
Ele se afastou, seguindo seus companheiros. Helena ficou parada no meio do ginásio, sentindo-se mais sozinha do que no dia em que viu o galpão queimar. Eles estavam vivos, sim. Mas a tortura deles havia apenas começado. Eles não usariam armas contra a Agência; usariam o vazio. E naquele silêncio gélido, a Agência Central começaria a desmoronar por dentro, assombrada pelos fantasmas de quatro crianças que se recusavam a voltar para casa.