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Novos agentes

O Espetáculo das Máscaras

O salão de festas do Palácio de Cristal em Viena transbordava uma opulência que beirava o obsceno. Lustres de cristal Swarovski lançavam prismas de luz sobre vestidos de seda e smokings feitos sob medida. O objetivo da missão era simples, porém delicado: proteger o "Coração de Ártemis", um diamante azul de valor incalculável que seria leiloado para fins beneficentes, mas que, segundo a inteligência da Agência, era o alvo de um sindicato internacional de mercenários.

Para Helena e Marcus, no entanto, a missão parecia um campo minado emocional.

— Todos em posição? — A voz de Luna ecoou nos comunicadores subdérmicos. Ela estava na van tática, a dois quarteirões de distância, cercada por monitores que rastreavam cada pulso de calor e sinal de rádio no edifício. — O perímetro está limpo, mas detectei três frequências criptografadas não identificadas. Fiquem espertos.

— Entendido, suporte — respondeu Jack, sua voz soando perfeitamente modulada, sem o tom cortante dos últimos dias.

No centro do salão, Jack e Kira eram a imagem da perfeição aristocrática. Ele vestia um terno de veludo azul-noite que realçava seus ombros largos; ela, um vestido de fenda profunda em tom prata metálico que parecia derreter sobre sua pele. Eles interpretavam o Visconde e a Viscondessa de Beaumont, herdeiros de uma fortuna vinícola francesa.

Marcus, postado a poucos metros como o segurança pessoal do casal, observava-os através de seus óculos escuros, que na verdade eram scanners de retina. Ele sentia um nó no estômago. Anos atrás, quando Harry e Alyssa tinham apenas catorze anos, receberam uma missão de treinamento que exigia que fingissem ser um casal em uma festa escolar. O resultado fora um desastre cômico: Harry ficara vermelho como um pimentão e Alyssa passara o tempo todo reclamando que "fingir romance com um irmão era a coisa mais nojenta do mundo".

Agora, a realidade era outra.

— Querida, você está absolutamente radiante esta noite — disse Jack, sua voz carregada de um charme aveludado enquanto deslizava a mão pela cintura de Kira, puxando-a para mais perto.

Kira inclinou a cabeça, encostando o rosto no ombro dele com uma naturalidade desconcertante. Ela soltou uma risada cristalina, tocando o peito de Jack com a ponta dos dedos.

— E você, meu amor, está muito galanteador. Está tentando me convencer a comprar o diamante ou apenas querendo me levar para dançar?

Eles começaram a valsar. Os movimentos eram fluidos, íntimos. Jack a conduzia com uma firmeza que sugeria anos de paixão, e Kira retribuía com olhares de soslaio que fariam qualquer observador acreditar que eles estavam perdidamente apaixonados. Não havia hesitação, não havia o antigo desconforto juvenil. Havia apenas uma atuação tão impecável que chegava a ser cruel.

— Marcus, você está vendo isso? — a voz de Helena soou no canal privado dele. Ela estava do outro lado do salão, agindo como assistente de Josh.

— Estou — murmurou Marcus, sem mover os lábios. — É... assustador. Eles agem como se fizessem isso a vida inteira. Não há um traço de Harry ou Alyssa ali.

— Eles não são eles, Marcus — a voz de Luna interveio pelo rádio, fria e técnica. — Parem de procurar fantasmas e foquem nos alvos. Três homens suspeitos entrando pelo setor sul.

Enquanto isso, Josh estava mergulhado em seu próprio papel. Ele interpretava Julian Vane, um prodígio da tecnologia do Vale do Silício, conhecido por sua excentricidade e arrogância juvenil. Helena, ao seu lado, segurava um tablet, tentando manter a compostura profissional enquanto o observava interagir com um grupo de investidores alemães.

— Ah, a segurança cibernética desta festa é uma piada! — exclamou Josh, gesticulando com uma taça de champanhe. Ele deu uma piscadela para um dos convidados e soltou uma risadinha nervosa, exatamente como Oliver costumava fazer quando contava uma piada interna que ninguém entendia. — Se eu quisesse, poderia fazer todos os celulares deste salão tocarem a nona sinfonia de Beethoven agora mesmo. Não seria engraçado, Helena?

Helena estancou. Aquele tom de voz... aquela risadinha. Era Oliver. O Oliver que ela conhecia, o menino que amava travessuras tecnológicas e que sempre buscava a aprovação dela com aquele olhar brilhante.

— Senhor Vane, por favor, comporte-se — disse Helena, a voz falhando levemente.

Josh virou-se para ela. Por um breve segundo, o olhar gélido de Josh desapareceu, substituído por uma expressão de pura travessura infantil. Ele se aproximou e sussurrou, alto o suficiente para que ela ouvisse sem o comunicador:

— Você sempre foi tão séria, tia Lena. Devia relaxar um pouco. O champanhe está excelente.

O coração de Helena disparou. "Tia Lena". Era como ele a chamava nas tardes de domingo na antiga sede. As lágrimas queimaram seus olhos, e ela sentiu uma onda de esperança tão forte que quase a fez perder o equilíbrio.

— Oliver? — ela sussurrou, a voz carregada de súplica.

O rosto de Josh mudou instantaneamente. A centelha de familiaridade foi apagada como uma chama sob um balde de gelo. Ele voltou a olhar para os investidores, a expressão agora vazia de qualquer calor humano.

— Peço desculpas pela minha assistente — disse Josh aos alemães, com uma voz monótona e corporativa. — Ela tem trabalhado demais e às vezes confunde os nomes dos clientes.

Helena sentiu como se tivesse levado um tapa. A indiferença voltou a reinar, mais afiada do que nunca.

— Alvos em movimento — anunciou Luna. — Jack, Kira, o grupo sul está se aproximando do pedestal. Marcus, intercepte o homem de terno cinza perto da coluna C.

A transição foi imediata. O casal apaixonado e o herdeiro excêntrico desapareceram. Jack soltou a cintura de Kira e, em um movimento coordenado, ambos se posicionaram nos flancos do diamante. Marcus bloqueou o caminho do mercenário com a precisão de um muro de concreto, enquanto Josh, usando seu tablet, desativou silenciosamente os dispositivos de interferência que os invasores tentavam usar contra os alarmes do palácio.

A luta foi silenciosa e rápida, ocorrendo nas sombras das cortinas de veludo e nos corredores de serviço. Jack nocauteou dois homens com golpes de palma que não fizeram barulho algum, enquanto Kira, usando o salto agulha de seu sapato prata como arma improvisada, neutralizou o terceiro.

Em menos de cinco minutos, a ameaça fora contida sem que um único convidado percebesse que um assalto estivera em curso.

— Missão cumprida — disse Jack, ajustando a gravata borboleta diante de um espelho, sem uma gota de suor no rosto. — Luna, chame a equipe de limpeza da Agência para recolher o lixo nos fundos.

Uma hora depois, todos estavam de volta à van tática, estacionada em um beco escuro. O luxo de Viena fora deixado para trás, substituído pelo cheiro de eletrônicos e suor. Luna retirava os fones de ouvido, enquanto Jack e Kira trocavam de roupa em silêncio absoluto.

Helena não aguentou. Ela se aproximou de Josh, que estava fechando seu laptop.

— Por que você fez aquilo, Josh? — perguntou ela, a voz trêmula de indignação e dor. — No salão. Você me chamou de "Tia Lena". Você agiu como o Oliver. Você sabe que é ele! Por que continuar com essa tortura?

Josh levantou os olhos. Não havia o brilho de Oliver ali. Havia apenas o cansaço de um soldado veterano.

— Eu não sei do que você está falando, Agente Helena — respondeu ele, a voz plana.

— Não minta! — exclamou ela. — Você usou o jeito dele, a risada dele. Você fez isso de propósito para me atingir!

Josh deu um suspiro longo, quase entediado.

— Ah, aquilo? Foi apenas uma construção de personagem. A Dra. Vaughn disse que eu precisava ser mais "humano" em infiltrações sociais. Eu analisei os arquivos da Agência sobre o tal Oliver e decidi que aquela personalidade boba e infantil seria um bom disfarce para desarmar os convidados. Funcionou, não funcionou? Você mesma ficou distraída.

Helena recuou, sentindo um frio gélido na alma.

— Uma... personalidade boba? — ela repetiu, a voz quase um sussurro. — Você usou a memória do menino que você foi como uma ferramenta de manipulação?

— Eu usei um perfil psicológico disponível no banco de dados para garantir o sucesso da missão — corrigiu Josh, levantando-se e colocando a mochila no ombro. — Se isso mexeu com seus sentimentos, sugiro que procure a Dra. Vaughn para uma sessão de reciclagem emocional. Agentes de campo não deveriam se apegar a perfis de infiltração.

Marcus, que observava Jack e Kira, deu um passo à frente, encarando Jack.

— E quanto a vocês dois? Aquela cena no salão... vocês se odiavam em missões de casal. Harry dizia que preferia levar um tiro a ter que beijar a mão da Alyssa.

Jack terminou de abotoar sua jaqueta tática negra e olhou para Marcus com uma indiferença que parecia uma barreira física.

— O Harry de quem você fala devia ser um agente muito amador — disse Jack. — Emoções pessoais não têm lugar em uma infiltração de elite. Kira e eu somos parceiros. Se a missão exige que sejamos amantes, seremos os melhores amantes que este mundo já viu. Se exigir que sejamos inimigos mortais, eu cortaria a garganta dela sem hesitar, e ela faria o mesmo comigo.

Kira assentiu levemente, verificando o fio de sua faca de combate, o rosto como uma máscara de mármore.

— O que vocês não entendem — disse ela, guardando a arma — é que o Harry e a Alyssa que vocês conheceram eram crianças brincando de espião. Eles tinham o luxo de sentir nojo ou vergonha. Nós não temos esse luxo. Nós somos o que a sobrevivência nos tornou.

— Vocês são monstros — sussurrou Marcus, a voz carregada de uma tristeza profunda.

Jack deu um meio sorriso, um gesto desprovido de qualquer humor.

— Não, Marcus. Nós somos o resultado do seu abandono. Vocês nos deixaram naquele galpão para morrer como crianças. Nós escolhemos renascer como algo que nunca mais pudesse ser ferido por pessoas como vocês.

Ele passou por Marcus, seguido por Kira e Josh. Luna, que permanecera em silêncio durante todo o tempo, fechou a porta traseira da van e olhou para Helena uma última vez antes de subir na cabine.

— A propósito — disse Luna, sua voz soando metálica através do comunicador que ela ainda não havia desligado —, o diamante era falso. A Agência o trocou semanas atrás para testar nossa lealdade. Nós sabíamos disso desde o início.

Helena e Marcus ficaram parados no beco escuro enquanto a van se afastava. O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer explosão. Eles haviam recuperado os corpos, mas as almas daqueles jovens haviam se transformado em armas de precisão, apontadas diretamente para o coração de quem mais os amava.

E a pior parte, Helena percebeu enquanto limpava as lágrimas, era que eles estavam se divertindo com a tortura. Cada lampejo de lembrança, cada gesto familiar, não era um sinal de retorno, mas uma isca cruel para lembrá-los de que, embora estivessem ali, os meninos que eles amaram nunca mais voltariam para casa.

Eles eram perfeitos. Eram impecáveis. E eram completamente inalcançáveis.

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