Novos agentes
O Eco do que Morreu
As luzes brancas e frias do apartamento residencial da Agência Central zumbiam suavemente, um som eletrônico que preenchia o vazio deixado pelo silêncio dos quatro ocupantes. Eles haviam acabado de retornar da missão em Viena. As roupas de gala, símbolos de uma opulência que eles desprezavam, foram jogadas sobre o sofá de couro preto como peles descartadas de animais que mudaram de forma.
Jack estava de pé junto à janela blindada, observando as luzes da cidade lá embaixo. Sua postura era rígida, a tensão nos ombros traindo um descontentamento que ele raramente permitia que aflorasse. Josh estava sentado à mesa, limpando seu tablet com um pano de microfibra, os movimentos mecânicos e repetitivos.
— Foi uma jogada arriscada, Josh — disse Jack, sem se virar. Sua voz era um trovão contido, carregada de uma autoridade que não admitia réplicas.
Josh não parou o que estava fazendo. O silêncio se arrastou por alguns segundos antes de ele responder.
— Funcionou. Ela baixou a guarda. O perímetro estava seguro.
— Não estou falando da missão — Jack virou-se, os olhos fixos no companheiro. — Estou falando de você. Agir como o Oliver, usar aquele tom de voz... você cruzou uma linha que concordamos em nunca tocar.
Luna, que estava encostada na parede oposta, soltou um suspiro pesado. Ela ainda usava parte do equipamento tático por baixo do robe de seda que vestira apressadamente.
— Mexeu comigo também — admitiu Luna, a voz mais baixa do que o normal. — Por um segundo, no canal de áudio, eu quase respondi. Quase chamei você pelo nome dele. Foi... visceral.
Josh finalmente parou de limpar o tablet. Ele olhou para as próprias mãos, que tremiam quase imperceptivelmente. Ele cerrou os punhos, escondendo a fraqueza.
— Foi mais difícil do que eu pensava — confessou Josh, a voz rouca. — Eu fiz para provocar a Helena. Eu queria ver a esperança nos olhos dela para depois esmagá-la. Queria que ela sentisse o gosto do que perdemos. Mas, quando eu disse "Tia Lena"... algo em mim protestou. Foi como se uma parte de mim que eu achei que tinha morrido na floresta tentasse respirar de novo.
Jack caminhou até o centro da sala, parando diante de Josh.
— É exatamente por isso que é perigoso — disse Jack, com uma frieza cortante. — Harry, Oliver, Sarah e Alyssa não são disfarces. São fantasmas. E fantasmas são parasitas. Se você começar a brincar de ser o Oliver, as memórias dele vão começar a corroer o Josh. E nós precisamos do Josh para sobreviver.
— Ele tem razão — interveio Luna, aproximando-se. — Não podemos nos permitir o luxo de sermos aqueles jovens ingênuos de novo. A ingenuidade foi o que nos fez acreditar que a Agência era nossa família. Foi o que nos fez ficar no galpão até ser tarde demais. Se voltarmos a ser eles, mesmo que por um minuto, a dor volta junto. E a dor nos torna lentos.
Kira, que até então permanecera nas sombras do corredor, entrou na sala. Sua expressão era de pura revolta. Seus olhos, geralmente gélidos e calculistas, brilhavam com uma fúria contida que parecia direcionada especificamente a Josh.
— Você é um idiota, Josh — sibilou Kira.
Josh arqueou uma sobrancelha, tentando recuperar sua máscara de indiferença.
— Foi apenas uma tática, Kira. Não seja dramática.
Kira avançou rapidamente, cruzando a distância entre eles em um borrão de movimento. Antes que Josh pudesse reagir, ela o agarrou pelo colarinho da camisa e o empurrou contra a parede. O impacto ecoou na sala silenciosa. Jack e Luna não se mexeram; eles sabiam que Kira precisava disso.
— Quando eu era a Alyssa — disse Kira, o rosto a centímetros do dele, a voz tremendo de ódio —, o Oliver era a única pessoa que me fazia rir quando o treinamento era insuportável. Ele era o meu melhor amigo. Ele era a única coisa pura que eu tinha naquele inferno.
Josh tentou desviar o olhar, mas ela o segurou com força.
— E você — continuou ela — usou a memória dele como uma piada. Você profanou o único resto de humanidade que eu ainda guardava em segredo. Você não provocou apenas a Helena, Josh. Você me feriu.
— Eu sinto muito se feri seus sentimentos, Kira — retrucou Josh, tentando usar o sarcasmo como escudo —, mas a Alyssa morreu. E o Oliver também.
Kira soltou um riso amargo e, em um movimento súbito, desferiu um soco potente no estômago de Josh. Ele dobrou-se, perdendo o ar, mas ela não parou. Ela o puxou de volta e o jogou no chão, montando sobre ele com uma agilidade letal. Ela não usou técnicas de imobilização limpas; ela usou a força bruta, a agressividade pura que a Agência tentava controlar neles.
Ela agarrou o rosto dele com as duas mãos, forçando-o a olhá-la.
— A Alyssa nunca faria isso, não é? — perguntou Kira, a voz agora mortalmente calma. — A Alyssa choraria. A Alyssa pediria desculpas. A Alyssa teria medo de te machucar.
Ela apertou os dedos contra as bochechas de Josh, cravando as unhas.
— Mas eu não sou ela. Eu sou a Kira. E se você ousar trazer o Oliver de volta para esta sala, se você ousar me fazer lembrar daquela garota fraca que eu costumava ser... eu juro por tudo o que passamos na floresta que eu mesma apago você.
Josh tossiu, tentando recuperar o fôlego, os olhos fixos nos dela. Ele viu a dor crua escondida atrás da fúria de Kira. Ele viu o quanto aquela pequena encenação em Viena havia estilhaçado as defesas que eles levaram anos para construir.
— Prometa — exigiu Kira, a voz quebrada. — Prometa que nunca mais vai usar a voz dele. Prometa que nunca mais vai chamá-la daquele nome.
Josh fechou os olhos por um momento. O eco da voz de Helena chamando por "Oliver" ainda ressoava em sua mente como uma tortura. Ele percebeu que Jack estava certo. A indiferença era a única proteção deles. Se eles começassem a abrir as portas para o passado, a Agência não precisaria de armas para destruí-los; eles se destruiriam sozinhos.
— Eu prometo — sussurrou Josh, finalmente.
Kira o soltou, levantando-se com uma respiração trêmula. Ela limpou as mãos na calça, como se estivesse se livrando de algo sujo. Sem dizer mais nada, ela virou as costas e caminhou em direção ao seu quarto, batendo a porta com força.
O silêncio voltou a reinar, mas agora era um silêncio pesado, carregado de uma melancolia que nenhum deles queria admitir.
Jack aproximou-se de Josh e estendeu a mão para ajudá-lo a levantar. Josh a aceitou, levantando-se com dificuldade, a mão no estômago onde Kira o atingira.
— Ela precisava disso — disse Jack, a voz suavizando apenas um pouco. — E você também.
— Eu sei — respondeu Josh, limpando um traço de sangue no canto da boca. — Foi um erro. Eu achei que podia controlar o jogo, mas... a Helena... o olhar dela quando eu disse aquilo...
— Eles querem que voltemos a ser crianças, Josh — disse Luna, aproximando-se dos dois. — Eles querem o conforto de saber que não nos destruíram completamente. Mas nós fomos destruídos. O que está aqui agora é o que sobrou das cinzas. E cinzas não sentem falta do fogo.
Jack olhou para os dois, sua equipe, sua única e verdadeira família.
— Lembrem-se — disse Jack, com uma solenidade que parecia uma oração fúnebre. — Harry, Oliver, Sarah e Alyssa morreram naquele galpão. O que estamos fazendo aqui é apenas um trabalho de necropsia em uma agência que ainda não percebeu que é um cadáver. Não deem a eles o que eles querem. Não deem a eles a satisfação de ver um reflexo do passado. A indiferença é a nossa única arma. E é a única forma de garantir que, quando sairmos daqui, não sobre nada para eles lembrarem.
Josh assentiu, a determinação voltando aos seus olhos, agora mais frios do que nunca.
— Nunca mais — afirmou Josh.
Luna tocou o ombro de Jack, um gesto de apoio silencioso.
— Amanhã temos treinamento de tiro de longa distância — disse ela, voltando ao seu tom profissional. — Miller vai estar assistindo. Ele quer ver se a Luna é tão boa quanto a Sarah prometia ser.
— Então vamos mostrar a ele — concluiu Jack, caminhando em direção ao seu próprio quarto. — Vamos mostrar que a Luna é algo que a Sarah nunca teria coragem de se tornar.
Enquanto as luzes do apartamento se apagavam uma a uma, os quatro jovens permaneciam em seus quartos, separados por paredes de concreto e metal, mas unidos por uma promessa de silêncio. Eles eram perfeitos, eram impecáveis e, naquela noite, entenderam que a perfeição exigia um sacrifício final: o assassinato diário de quem eles costumavam ser.
Lá fora, nos corredores da Agência, Helena e Marcus ainda sussurravam sobre a esperança que viram em Viena, sem saber que aquela pequena faísca tinha sido o gatilho para o enterro definitivo das crianças que eles tanto queriam salvar. O jogo de tortura continuaria, mas agora, os agressores haviam aprendido que, para ferir o inimigo, precisavam primeiro garantir que seus próprios corações fossem feitos de pedra.