Nunca desconfie de mim
O Eco das Sombras no Palácio de Cristal
A noite em Mônaco era de um silêncio absoluto, interrompido apenas pelo murmúrio rítmico do sistema de climatização da cobertura, que mantinha o ar sempre na temperatura perfeita. O quarto estava mergulhado em uma penumbra azulada, cortada apenas pelos reflexos das luzes da marina que atravessavam as cortinas entreabertas.
Oscar dormia com a profundidade de quem havia finalmente encontrado paz. Ele estava deitado de costas, o braço direito servindo de travesseiro para Lily, enquanto a mão esquerda repousava possessivamente sobre a cintura dela, mantendo-a colada ao seu corpo. O peitoral largo de Oscar, firme e quente, era o refúgio onde Lily enterrava o rosto todas as noites. Para o mundo, ele era o CEO implacável; para ela, ele era a âncora que a impedia de derivar para o abismo.
No entanto, abaixo da superfície daquela pele macia e do sono tranquilo, o subconsciente de Lily começou a traí-la.
O cenário nos sonhos dela mudou abruptamente. O luxo de Mônaco desapareceu, substituído pelo cheiro acre de mofo e álcool barato de uma casa antiga em Melbourne. As paredes não eram de vidro, mas de madeira descascada. O silêncio não era de paz, mas de medo.
No sonho, Lily era pequena, encolhida em um canto enquanto os passos pesados e irregulares de seu padrasto ecoavam pelo corredor. O som da fivela do cinto batendo contra o chão de madeira era um chicote psicológico. Ela tentava gritar, mas sua voz, já fragilizada pela noite anterior, não passava de um sopro seco. A figura sombria se aproximava, a mão grande e áspera estendendo-se para agarrar seu braço, as palavras cruéis sendo cuspidas como veneno sobre sua inutilidade.
— Você não é nada — a voz do homem do passado rugiu no sonho. — Ninguém vai te amar. Você é apenas um fardo.
A sensação de sufocamento aumentou. Lily sentia que o ar estava sendo drenado do quarto. No sonho, ela tentava correr, mas suas pernas — já doloridas e fracas pela realidade da noite anterior — falhavam, deixando-a à mercê da sombra que a perseguia.
Na cama luxuosa, o corpo de Lily começou a reagir. Ela começou a tremer violentamente, pequenos espasmos percorrendo seus ombros. Sua respiração tornou-se curta e sibilante. Uma lágrima quente escapou de seus olhos fechados, seguida por outra, molhando a pele do peitoral de Oscar.
— Não... por favor... — ela murmurou entre dentes, um som carregado de uma agonia infantil.
Oscar, cujo sono era leve quando se tratava de Lily, despertou instantaneamente. A sensação da umidade em seu peito e o tremor do corpo dela o colocaram em alerta máximo. Ele não precisou de mais de um segundo para entender o que estava acontecendo.
— Lily? — A voz dele saiu grave, rouca de sono, mas tingida de uma preocupação imediata.
Ele se sentou parcialmente, apoiando-se no cotovelo, enquanto usava a outra mão para acariciar o rosto dela com uma delicadeza extrema, tentando não assustá-la ainda mais.
— Ei, meu amor... acorde. É apenas um sonho. Você está segura. Lily!
Lily deu um solavanco, os olhos abrindo-se abruptamente, dilatados pelo terror. Por um microssegundo, ela não viu o quarto em Mônaco ou o rosto preocupado de Oscar; ela viu a sombra do passado. Ela soltou um soluço lancinante e tentou se afastar, as mãos empurrando o peito dele em um gesto de autodefesa cega.
— Não me toca! Por favor, não me bate! — ela gritou, a voz saindo em um tom agudo e desesperado, quebrando o silêncio da madrugada.
O coração de Oscar apertou de uma forma que nenhuma crise financeira jamais conseguira. Ele sabia da história dela; sabia das cicatrizes invisíveis que o padrasto de Lily havia deixado em sua alma muito antes de ele aparecer para resgatá-la. Ver sua esposa, a mulher que ele tratava como uma divindade, reduzida àquela criança aterrorizada, despertou nele uma fúria fria contra o passado e uma necessidade protetora avassaladora.
— Lily, sou eu. É o Oscar. — Ele não recuou. Em vez disso, ele a envolveu em um abraço firme, mas cuidadoso, prendendo as mãos trêmulas dela contra o próprio peito. — Olhe para mim, querida. Respire. Você está em casa. Ninguém vai te tocar. Eu nunca deixaria.
Lily lutou por mais alguns segundos, o choro tornando-se um pranto convulsivo que sacudia todo o seu corpo. Aos poucos, o perfume de sândalo de Oscar e a firmeza familiar de seus braços começaram a romper a névoa do pesadelo. Ela focou nos olhos claros dele, que brilhavam com uma mistura de amor e dor por vê-la sofrendo.
A percepção da realidade voltou como uma onda. Ela desabou contra ele, enterrando o rosto na curva do pescoço de Oscar, as mãos agarrando-se às costas dele como se sua vida dependesse daquele contato.
— Ele... ele estava lá, Oscar — ela soluçou, as palavras saindo sufocadas. — Ele disse que eu não era nada... que você ia se cansar de mim... que eu era um fardo.
Oscar fechou os olhos, apertando-a ainda mais contra si. Ele beijou o topo da cabeça dela, deixando os lábios descansarem ali por um longo momento.
— Escute bem o que eu vou te dizer — disse ele, a voz vibrando com uma autoridade inabalável. — Aquele homem morreu para você no dia em que você saiu daquela casa. Ele não tem poder aqui. Ele não tem poder sobre você.
— Mas parecia tão real — ela gemeu, o corpo ainda trêmulo. — Eu senti o medo... a mesma sensação de ser pequena e não ter para onde ir.
— Você nunca mais será pequena, Lily. E você sempre terá para onde ir. — Oscar se afastou apenas o suficiente para segurar o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhar para ele. — Você é a Sra. Piastri. Você é a mulher que comanda o meu coração e a minha vida. Você é a pessoa mais forte que eu conheço por ter sobrevivido a tudo aquilo e ainda ter tanta doçura para dar ao mundo.
Lily tentou limpar as lágrimas, mas elas continuavam a cair. A vulnerabilidade física da noite anterior parecia ter aberto uma porta para a vulnerabilidade emocional que ela tentava manter trancada.
— Desculpe por te acordar — ela disse, a voz rouca e falha. — Você tem aquela reunião importante com os investidores de Dubai de manhã...
Oscar soltou um suspiro curto, quase uma risada incrédula.
— Lily, você realmente acha que eu me importo com investidores de Dubai agora? — Ele a puxou de volta para o seu colo, sentando-a de lado enquanto a balançava suavemente. — O mundo pode queimar lá fora, e eu não sairia deste quarto enquanto você não estivesse bem. A Piastri Corp pode esperar. O meu mundo está aqui, nos meus braços, chorando por causa de um monstro que eu gostaria de ter tido a chance de destruir pessoalmente.
Lily sentiu o peito dele subir e descer, o ritmo constante acalmando seu próprio coração acelerado. Ela se sentia exausta, uma fadiga que ia além dos músculos doloridos.
— Por que essas coisas voltam, Oscar? — perguntou ela em um sussurro. — Eu sou tão feliz com você. Por que o medo ainda me encontra no escuro?
— Porque a alma tem memória, querida — disse ele suavemente, acariciando os cabelos dela. — Mas nós vamos construir memórias novas, mais fortes que as dele. Cada noite que você dorme aqui, segura, é uma vitória sobre ele. E eu vou estar aqui em cada uma dessas noites.
Ele a deitou cuidadosamente de volta nos travesseiros, mas não se afastou. Oscar se acomodou ao lado dela, puxando o edredom para cobri-los e mantendo-a aninhada sob seu braço.
— Tente dormir de novo — ele pediu. — Eu não vou fechar os olhos. Vou ficar vigiando você.
— Você precisa dormir, Oscar — ela protestou fracamente.
— Não. Eu vou ficar aqui. Vou garantir que, se qualquer sombra tentar chegar perto de você, ela tenha que passar por mim primeiro. E garanto que ninguém quer enfrentar um Piastri com raiva.
Lily deu um pequeno sorriso, o primeiro desde que acordara. Ela sabia que ele estava falando sério. Oscar era capaz de mover montanhas por ela, e aquela proteção feroz era o que a fazia se sentir, pela primeira vez em sua vida, verdadeiramente intocável.
— Obrigada — ela sussurrou, fechando os olhos. — Por me salvar. De novo e de novo.
— Eu não te salvei, Lily. Você se salvou. Eu apenas tive a sorte de ser o homem que te encontrou depois da batalha.
O silêncio voltou a reinar no quarto, mas agora era um silêncio preenchido pela presença vigilante de Oscar. Ele ficou acordado por horas, observando a respiração dela se tornar lenta e regular novamente. Ele observou as luzes de Mônaco mudarem de cor enquanto a madrugada avançava, sua mão nunca deixando de acariciar o braço de Lily em um movimento rítmico e hipnótico.
Perto das cinco da manhã, quando os primeiros raios de sol começaram a tingir o céu de um rosa pálido, Oscar sentiu Lily relaxar completamente. O pesadelo havia sido derrotado, expulso pela luz da devoção dele.
Ele se inclinou e beijou a têmpora dela, um juramento silencioso renovado no silêncio da aurora.
— Ninguém nunca mais vai te machucar — ele prometeu para o vazio do quarto. — Eu juro por tudo o que construí.
Quando o despertador de Oscar tocou às seis da manhã, ele o desligou antes mesmo do primeiro bipe. Ele pegou o celular e enviou uma mensagem curta para sua secretária pessoal — a substituta eficiente que ele havia contratado após o fiasco da Srta. Miller.
— "Cancele todos os meus compromissos de hoje. Não aceito chamadas. Só retornarei ao escritório quando eu decidir que é o momento. Não me questione."
Ele jogou o telefone de lado e voltou a fechar os olhos, desta vez permitindo-se descansar. A Piastri Corp era um império de bilhões, mas para Oscar, o verdadeiro poder estava no fato de que ele podia se dar ao luxo de parar o tempo para curar as feridas da mulher que amava.
Lily acordou algumas horas depois, desta vez sem sobressaltos. O sol inundava o quarto, e a primeira coisa que viu foi o rosto de Oscar, a poucos centímetros do seu. Ele estava acordado, observando-a com uma suavidade que a fez esquecer instantaneamente o terror da madrugada.
— Bom dia — disse ele, a voz profunda e doce.
— Bom dia — ela respondeu, percebendo que sua voz estava um pouco melhor. — Você não foi trabalhar?
— O trabalho não é a minha prioridade hoje — afirmou ele, puxando-a para um beijo lento e reconfortante. — Hoje, meu único trabalho é garantir que você tenha um dia perfeito. O que você quer fazer? Podemos pegar o iate e sumir no mar, ou apenas ficar aqui e pedir tudo o que você quiser do melhor restaurante da cidade.
Lily olhou para ele, vendo o CEO, o marido, o protetor e o amante, tudo fundido em um único homem que a olhava como se ela fosse o sol em torno do qual seu universo girava.
— Eu só quero ficar aqui — disse ela, abraçando-o pelo pescoço. — Com você.
— Então é aqui que ficaremos — declarou Oscar, selando a promessa com um abraço que dizia, sem precisar de palavras, que as sombras do passado nunca teriam chance contra a luz do presente que eles haviam construído juntos.
Naquela manhã, em Mônaco, os negócios pararam, as ações flutuaram e o mundo corporativo se perguntou onde estava o grande Oscar Piastri. Mas ele não se importava. Ele estava exatamente onde precisava estar: servindo de escudo para o coração de Lily, provando que, no império dos Piastri, o amor era a única lei que nunca seria revogada.