Nunca desconfie de mim
O Eco do Prazer e a Fragilidade do Mármore
A luz do sol de Mônaco não pedia licença. Ela atravessava as cortinas de linho finíssimo da suíte master com uma insolência dourada, denunciando que o relógio já havia passado muito das dez da manhã. Lily tentou se mexer, um reflexo instintivo de quem sabia que tinha uma agenda a cumprir, mas seu corpo emitiu um protesto imediato e doloroso.
Cada músculo, das panturrilhas até a base da nuca, parecia ter sido recalibrado por uma força esmagadora. Suas pernas, quando tentou esticá-las sob os lençóis de seda egípcia, pareciam feitas de chumbo derretido. Havia uma ardência suave na parte interna de suas coxas e uma sensibilidade aguda em sua pele que a fazia recordar, em flashes vívidos e pecaminosos, de cada lugar onde as mãos grandes e possessivas de Oscar haviam passado.
Ela tentou chamar por ele, um sussurro baixo para saber se ele ainda estava por perto.
— Oscar... — A voz que saiu de sua garganta era um som irreconhecível. Estava rouca, quebrada, um fiapo de som que mal vencia o silêncio do quarto.
Lily levou a mão ao pescoço, surpresa. Ela tossiu levemente, mas a garganta ardeu. As lembranças da noite anterior voltaram em uma avalanche: a urgência dele na cozinha, a força com que ele a carregara pelas escadas e a forma como ele a fizera gritar seu nome até que suas cordas vocais simplesmente desistissem. Oscar Piastri, o homem que o mundo conhecia por sua calma estratégica, havia sido tudo, menos calmo, entre aquelas quatro paredes.
Ela olhou para o lado da cama. Vazio, como sempre. Oscar era um homem de hábitos férreos e, não importava o quão intensa tivesse sido a madrugada, a Piastri Corp exigia sua presença. Sobre o travesseiro dele, no entanto, havia um pequeno cartão creme com o timbre da família e uma única gardênia branca colhida do jardim do terraço.
*"Você estava tão linda dormindo que não tive coragem de te acordar. Mas, considerando o estado em que te deixei, duvido que você conseguisse levantar antes do meio-dia. Pedi para Agathe preparar algo especial. Tente descansar, se é que o meu ego vai permitir que você esqueça o que fizemos ontem. Te amo, O."*
Lily sorriu, sentindo um calor subir pelo rosto. Aquele homem seria a sua ruína.
Com um esforço hercúleo, ela conseguiu se sentar. A tontura foi passageira, mas a sensação de fraqueza nas pernas era real. Lily tentou ficar de pé, mas assim que seus pés tocaram o tapete de lã de ovelha, seus joelhos cederam levemente. Ela teve que se apoiar na mesa de cabeceira para não cair.
— Meu Deus, Oscar... — sussurrou ela, ou tentou sussurrar, soltando um riso sem som que terminou em uma careta de dor.
Ela conseguiu chegar ao banheiro, agarrando-se aos móveis como se estivesse em um navio durante uma tempestade. O espelho revelou o estrago: seus lábios estavam levemente inchados, seus cabelos eram um ninho de fios rebeldes e havia marcas arroxeadas em sua clavícula que nenhum corretivo de alta cobertura esconderia completamente. Ela parecia uma mulher que havia sido amada com uma ferocidade quase religiosa.
Após um banho morno que pareceu a única coisa capaz de trazer sua alma de volta ao corpo, Lily vestiu um robe de seda longo e pesado, amarrando-o firmemente na cintura. Ela não tinha condições de usar nada que exigisse esforço. Com passos curtos e lentos, quase arrastando os pés para manter o equilíbrio, ela iniciou a jornada até o andar de baixo.
Cada degrau da escadaria de vidro era um desafio. Ela se segurava no corrimão com as duas mãos, descendo um pé de cada vez, sentindo-se como uma senhora de noventa anos em um corpo de trinta. Quando finalmente alcançou o andar da cozinha, Agathe já estava lá, organizando algumas flores nos vasos de cristal.
A governanta virou-se ao ouvir o movimento e, ao ver Lily, não conseguiu conter um sorriso discreto, embora carregado de experiência.
— Bom dia, Sra. Piastri. Ou melhor, quase boa tarde — disse Agathe, aproximando-se para oferecer o braço como apoio, percebendo a dificuldade da patroa.
Lily aceitou o apoio com gratidão, sentando-se com cuidado em uma das cadeiras estofadas da ilha.
— Bom... dia... Agathe — a voz de Lily saiu como um chiado metálico. Ela apontou para a própria garganta, fazendo uma careta de desculpas.
— Oh, querida — Agathe soltou uma risadinha abafada, voltando-se para o fogão. — O Sr. Piastri me avisou que a senhora poderia estar um pouco... indisposta. Vou preparar um chá de mel, limão e gengibre agora mesmo. É o melhor para recuperar a voz.
Lily assentiu, apoiando os cotovelos no mármore e descansando o rosto nas mãos. Ela se sentia exausta, mas era uma exaustão deliciosa.
— O Sr. Piastri saiu muito cedo? — Lily tentou perguntar, a frase saindo entrecortada e falha.
— Às sete em ponto, como sempre — respondeu Agathe, mexendo o chá. — Mas ele parecia... diferente hoje. Estava mais sorridente. Até brincou com o motorista, o que é raro para uma manhã de terça-feira. Ele deixou ordens expressas para que a senhora não fosse incomodada com nada da fundação hoje.
Agathe colocou a xícara fumegante na frente de Lily, junto com um prato de torradas integrais e frutas frescas cortadas milimetricamente.
— Beba devagar — recomendou a governanta. — E, se me permite o conselho, não tente caminhar muito hoje. O Sr. Piastri às vezes esquece que nem todo mundo tem a energia de um atleta olímpico, especialmente quando ele está... inspirado.
Lily sentiu o rosto queimar. Agathe era quase parte da família, mas a evidência física do vigor de Oscar era um pouco constrangedora. Ela tomou o primeiro gole do chá, sentindo o líquido quente acalmar a irritação em sua garganta.
— Ele é... intenso — Lily conseguiu dizer, a voz voltando minimamente, embora ainda muito baixa.
— Ele é um Piastri — Agathe deu de ombros, começando a limpar a bancada. — Homens assim não fazem nada pela metade. Seja gerir uma multinacional ou amar a esposa. Eles entregam tudo.
Lily ficou em silêncio por um tempo, observando o movimento calmo da casa. Era estranho estar ali, naquele palácio de vidro, sentindo-se tão vulnerável fisicamente enquanto seu marido comandava impérios lá fora. Ela tentou se levantar para pegar um guardanapo que havia caído, mas um choque de dor subiu por suas coxas e ela soltou um gemido baixo, voltando a se sentar imediatamente.
— Fique parada, Sra. Lily! — Agathe ralhou gentilmente, pegando o guardanapo para ela. — Eu cuido de tudo. A senhora precisa de repouso. Quer que eu chame o massagista particular?
Lily balançou a cabeça negativamente.
— Não... acho que o toque de qualquer outra pessoa agora seria... estranho. Eu só preciso de tempo.
— O tempo cura tudo, menos a saudade que ele tem da senhora — comentou Agathe. — Ele ligou três vezes desde que saiu. Perguntou se a senhora já tinha acordado, se tinha comido, se parecia estar com dor...
Lily sorriu. Oscar podia ser possessivo e, às vezes, até um pouco bruto em sua paixão, mas seu cuidado pós-intimidade era inigualável. Ele nunca a deixava se sentindo apenas um objeto de desejo; ele a tratava como um tesouro que ele, inadvertidamente, havia manuseado com força demais e agora precisava polir com carinho.
— Ele é um exagerado — sussurrou Lily.
— Ele é um homem apaixonado, senhora. E, depois do que aquela secretária tentou fazer na empresa, acho que ele sentiu a necessidade de reafirmar que o mundo dele começa e termina na senhora.
Lily concordou com um aceno. Ela passou o resto da manhã ali mesmo, na cozinha, conversando com Agathe em frases curtas e gestos. Ela tentou ajudar a organizar a lista de compras para o jantar, mas Agathe se recusava a deixá-la carregar até mesmo um iPad.
— A senhora está de licença médica — brincou a governanta. — Licença do Sr. Piastri.
Por volta das duas da tarde, Lily decidiu que precisava tentar se movimentar um pouco mais. Ela queria ir até o terraço para tomar um pouco de ar fresco. A jornada da cozinha até a área externa, que normalmente levaria trinta segundos, levou quase cinco minutos. Seus passos eram curtos, e ela precisava parar a cada poucos metros para massagear as pernas.
Ao chegar à espreguiçadeira, ela se deixou cair com um suspiro de alívio. O sol de Mônaco aquecia sua pele, e a brisa do mar ajudava a clarear sua mente. Ela pegou o celular e viu que havia uma mensagem de vídeo de Oscar.
Ela deu o play. Oscar estava em seu escritório, o fundo mostrando a vista deslumbrante de Monte Carlo, mas a câmera estava focada apenas em seu rosto. Ele parecia impecável, mas havia um brilho de travessura em seus olhos claros.
— Oi, meu amor — disse ele no vídeo, a voz suave. — Liguei para a Agathe e ela disse que você está caminhando como se tivesse acabado de montar um cavalo selvagem por dez horas seguidas. Sinto muito por isso... ou talvez não sinta tanto assim. Espero que o chá tenha ajudado a sua voz, porque quero ouvir você hoje à noite, mesmo que seja apenas para me xingar por ter sido tão impaciente. Volto cedo. Tente não se esforçar.
Lily encostou o celular no peito, fechando os olhos. Ela podia sentir o eco dos toques dele, a memória da pele dele contra a sua, o peso de seu corpo e a forma como ele a reivindicara como se o mundo fosse acabar ao amanhecer.
A tarde passou lentamente. Lily tentou ler um livro, mas sua mente divagava para as cenas da noite anterior. Ela se sentia marcada, não apenas fisicamente, mas na alma. O confronto na empresa com a secretária Miller parecia uma memória de anos atrás, tamanha era a paz que agora sentia. Oscar havia varrido qualquer dúvida ou insegurança com a força de sua devoção.
Perto das cinco da tarde, ela sentiu que precisava de um chá de camomila. A caminhada de volta para a cozinha foi um pouco menos dolorosa, mas ela ainda se segurava nas paredes.
— Agathe? — chamou ela, sua voz agora um pouco mais clara, embora ainda rouca.
— Sim, senhora?
— Você acha que... — Lily hesitou, sentindo-se um pouco tola — ...você acha que ele percebe o quanto ele me desarma?
Agathe parou o que estava fazendo e olhou para Lily com carinho.
— Sra. Lily, o Sr. Oscar é um homem que lê pessoas para viver. Ele sabe exatamente o efeito que tem sobre a senhora. Mas a diferença é que ele não usa isso para poder. Ele usa isso para se sentir conectado. Ele precisa saber que a senhora é dele tanto quanto ele é seu. E, pelo seu estado hoje, acho que ele teve a confirmação que precisava.
Lily sorriu, bebendo seu chá. Ela olhou para as próprias mãos, vendo o anel de diamante que brilhava em seu dedo.
— Eu não trocaria essa dor nas pernas por nada no mundo — admitiu ela em um sussurro.
Agathe riu, uma risada calorosa e cúmplice.
— Eu sei que não, senhora. Agora, vá para o sofá. Vou trazer um escalda-pés com sais de Epsom. O Sr. Piastri deve chegar em uma hora e, se ele a vir sofrendo para andar, é capaz de comprar uma cadeira de rodas de ouro só para não ver a senhora sentir dor.
Lily obedeceu, arrastando-se até o sofá imenso da sala de estar. Ela se cobriu com uma manta de cashmere e esperou. O som do elevador, pouco tempo depois, fez seu coração acelerar.
As portas se abriram e Oscar entrou. Ele não parecia o CEO cansado após um dia de fusões e aquisições. Ele parecia um homem voltando para casa após uma vitória. Ele jogou a pasta e o paletó no chão e caminhou direto para Lily.
Ele se ajoelhou no tapete à frente dela, pegando suas mãos e beijando as palmas com uma ternura que contrastava violentamente com o homem da noite anterior.
— Como você está? — perguntou ele, os olhos percorrendo o rosto dela com preocupação genuína.
— Sem voz... e sem pernas — ela respondeu, a voz rouca saindo em um tom de brincadeira.
Oscar soltou um riso baixo, escondendo o rosto no colo dela.
— Eu perdi o controle, Lily. Eu sei. A ideia daquela mulher te tratando daquele jeito... eu só precisava sentir que você estava aqui, que você era real e que era minha.
— Eu sou sua, Oscar — disse ela, passando os dedos pelos cabelos dele. — Mas, da próxima vez, tente lembrar que eu não sou feita de aço como os seus prédios.
Ele levantou a cabeça, um sorriso sexy e arrependido nos lábios.
— Vou tentar. Mas não prometo nada. Você me provoca demais, Sra. Piastri.
Ele a pegou no colo, com uma facilidade que sempre a impressionava, e a ajeitou melhor contra seu peito.
— Hoje à noite — disse ele, beijando a ponta do nariz dela —, nós vamos apenas ficar aqui. Vou pedir para a Agathe servir o jantar no quarto e eu vou cuidar de você. Sem pressa. Sem dor. Apenas nós.
Lily se aninhou no abraço dele, sentindo o cheiro de sucesso e de amor que emanava de seu marido. Ela podia estar sem voz e mal conseguindo caminhar, mas em meio ao luxo de Mônaco e à intensidade de Oscar Piastri, ela nunca se sentira tão poderosa. O império dele era vasto, mas o trono, ela sabia, pertencia apenas a ela. E enquanto ele a segurava daquele jeito, Lily sabia que qualquer sacrifício físico era um pequeno preço a pagar pela soberania absoluta no coração do homem mais poderoso que já conhecera.