Nunca desconfie de mim
O Silêncio Atrás do Vidro e o Fogo da Indignação
O ar condicionado da Piastri Corp. parecia subitamente insuficiente para o calor que subia pelo pescoço de Lily. A audácia daquela mulher, sentada com um sorriso de satisfação predatória atrás de uma mesa que deveria representar a ordem e o profissionalismo da empresa de seu marido, era como um tapa físico. Lily, sempre conhecida por sua doçura angelical e por sua paciência inesgotável, sentiu algo se quebrar dentro de si. Não era apenas a proibição de ver Oscar; era o veneno nas palavras da secretária, a insinuação barata de que havia uma "conexão" entre eles.
— Eu não vou ficar aqui para ser insultada por alguém que claramente não entende o conceito de ética profissional — disse Lily, sua voz falhando levemente, não por fraqueza, mas pela força da indignação.
A secretária, cujo crachá dizia "Srta. Miller", soltou um riso seco e voltou sua atenção para as unhas perfeitamente lixadas.
— Como eu disse, querida, a saída é por ali. Tente não borrar a maquiagem no caminho. O Sr. Piastri detesta dramas desnecessários.
Lily não respondeu. Se abrisse a boca, temia que as lágrimas de raiva que picavam seus olhos caíssem ali mesmo, dando àquela mulher a vitória que ela tanto desejava. Ela girou nos calcanhares, as solas de seus sapatos de grife ecoando no mármore como tiros de retribuição silenciosa. Ela passou pelo saguão, ignorando os olhares curiosos dos recepcionistas lá embaixo, e entrou em seu carro.
As mãos de Lily tremiam no volante. Ela não queria ir para casa. A cobertura luxuosa em Mônaco, com sua vista deslumbrante e silêncio sepulcral, só a faria remoer cada palavra venenosa daquela mulher. Ela precisava de alguém que a conhecesse além do título de "esposa do CEO".
— Hannah? — Lily disse ao celular, a voz embargada assim que a amiga atendeu. — Você tem um horário? Agora. Eu preciso sair de perto do mundo do Oscar por um segundo ou vou explodir.
Vinte minutos depois, Lily entrava no salão exclusivo de Hannah, um refúgio de tons pastéis e aroma de lavanda. Hannah, sua melhor amiga de anos, já a esperava com uma taça de champanhe e um olhar preocupado.
— Lily, você parece que viu um fantasma. Ou que quer matar um — comentou Hannah, conduzindo-a para a poltrona de veludo.
— Eu quero matar a nova secretária do Oscar — desabafou Lily, deixando a bolsa Hermès cair no chão sem o menor cuidado. — Ela me barrou. Ela me chamou de "modelo de caridade". E, Hannah... ela insinuou que eles têm um caso. Que ele precisa de "estímulos diferentes".
Hannah parou o que estava fazendo, os olhos arregalados.
— Ela disse o quê? Aquela mulher tem desejo de morte? O Oscar é completamente louco por você. Ele mal consegue olhar para uma planilha sem mencionar o seu nome.
— Eu sei disso! — Lily exclamou, finalmente deixando uma lágrima de frustração escapar. — Mas o jeito que ela falou, a confiança dela... e o fato de que ele está tão mergulhado naquele trabalho que nem percebe quem contrata. Eu me senti minúscula, Hannah. Como se eu fosse apenas um acessório que ele deixa em casa.
Enquanto Hannah começava a trabalhar nas unhas de Lily, o celular desta última começou a vibrar na mesa lateral. O nome "Oscar" brilhava na tela, acompanhado por uma foto dos dois sorrindo em um barco no verão passado.
Lily olhou para o aparelho. A raiva ainda latejava em suas têmporas.
— Não atenda — disse Hannah, lendo o pensamento da amiga. — Deixe ele suar um pouco. Se ele não sabe o que está acontecendo na própria antecala, ele precisa aprender da maneira mais difícil.
Lily suspirou e virou o celular de bruços. O silêncio era sua única arma no momento.
***
Enquanto isso, no quadragésimo andar da Piastri Corp., a atmosfera havia mudado drasticamente. Oscar acabara de sair de uma reunião exaustiva sobre a expansão da logística na Ásia. Ele esticou os ombros, sentindo a tensão nos músculos das costas, e caminhou em direção à sua mesa, esperando encontrar o relatório da tarde.
No entanto, ele percebeu um burburinho incomum entre os assistentes juniores perto da área da recepção. A Srta. Miller estava retocando o batom, parecendo estranhamente animada.
— Sr. Piastri! — disse ela, levantando-se com um sorriso que não atingia os olhos. — A reunião foi produtiva?
— Sim, Miller. Algum recado? — Oscar perguntou, a voz curta e profissional. Ele estava com fome e, mais do que tudo, com saudades de Lily. Ele pretendia ligar para ela e pedir que o encontrasse para um jantar tardio.
— Ah, nada importante. Apenas uma mulher que apareceu aqui sem agendamento. Uma tal de Lily. Ela foi bastante... insistente, eu diria. Tive que pedir que ela se retirasse, pois estava perturbando o ambiente.
Oscar parou no meio do caminho. O nome "Lily" saindo da boca daquela mulher soou como um erro de sistema em sua mente estratégica. Ele se virou lentamente, a expressão ficando gélida.
— Lily? — repetiu ele, o tom de voz baixando perigosamente. — Uma mulher loira, vestindo um blazer Chanel creme e uma bolsa bordô?
A secretária hesitou, percebendo a mudança drástica no humor do chefe.
— Sim... ela disse que era sua esposa, mas como o senhor sabe, muitas mulheres tentam esse truque e...
Oscar não a deixou terminar. Ele deu um passo à frente, e a aura de poder que ele normalmente mantinha sob controle transbordou, preenchendo o corredor.
— Você barrou a minha esposa? — A pergunta foi feita em um sussurro mortal.
— Sr. Piastri, eu estava apenas seguindo o protocolo de segurança para sua privacidade...
— Onde ela está? — Oscar rosnou, ignorando as desculpas.
— Ela... ela saiu. Parecia um pouco alterada.
Oscar sentiu um aperto no peito que nenhuma crise financeira jamais lhe causara. Lily, sua doce e calma Lily, viera vê-lo e fora humilhada em sua própria empresa. Ele pegou o celular no bolso e discou o número dela imediatamente.
Caixa postal.
Ele tentou de novo. Novamente, a voz gravada de Lily o atendeu, o que o fez cerrar os dentes. Ela nunca ignorava suas ligações, a menos que estivesse profundamente magoada.
Ele olhou para a secretária, que agora tremia visivelmente.
— Você está demitida — disse Oscar, com uma clareza cortante. — Pegue suas coisas e saia. Se eu descobrir que você disse mais uma palavra desrespeitosa sobre a Sra. Piastri para qualquer pessoa neste prédio, eu garantirei que você nunca mais consiga um emprego nem como recepcionista de estacionamento nesta cidade.
Ele não esperou a resposta. Oscar correu para o elevador privativo, seu coração martelando contra as costelas. Ele precisava encontrá-la.
Ao chegar ao estacionamento, ele entrou em seu carro e saiu em disparada. Ele tentou a casa deles, mas os funcionários disseram que ela não havia retornado. Ele ligou para o motorista dela, que informou tê-la deixado no salão de Hannah.
Oscar soltou um suspiro de alívio, mas a ansiedade não diminuiu. Ele sabia que Lily não era de fazer cenas, mas o silêncio dela era muito mais doloroso do que qualquer grito.
Quando ele estacionou em frente ao salão de Hannah, não se importou com os paparazzi que ocasionalmente rondavam a área. Ele entrou no estabelecimento com a determinação de um homem em uma missão de resgate.
Hannah o viu pelo espelho e fez um sinal com a cabeça para Lily, que estava sentada de costas para a porta, com as mãos sob a luz UV.
— Lily — disse Oscar, sua voz suave, mas carregada de urgência.
Lily não se virou. Ela continuou olhando para suas unhas, embora Hannah pudesse ver que os ombros da amiga haviam ficado rígidos.
— O que você está fazendo aqui, Oscar? — perguntou Lily, a voz fria. — Não tem nenhuma reunião multibilionária que exija sua atenção total? Ou talvez sua secretária precise de mais "conexão"?
Oscar caminhou até ficar ao lado dela, ajoelhando-se para que pudesse olhar em seu rosto. Ele ignorou Hannah, que se afastou discretamente para dar privacidade ao casal.
— Meu amor, olhe para mim — pediu ele, pegando uma das mãos dela, apesar do protesto silencioso de Lily. — Eu acabei de saber o que aconteceu. Eu a demiti na mesma hora. Eu juro, Lily, eu não fazia ideia de que ela era capaz de tal insolência.
— Ela não foi apenas insolente, Oscar. Ela foi cruel. E ela se sentiu confortável o suficiente para insinuar que você e ela tinham algo. Por que ela pensaria isso? — Lily finalmente o encarou, e a mágoa em seus olhos claros partiu o coração dele.
Oscar sentiu uma onda de culpa. Ele sabia que passava horas demais no escritório, que às vezes era tão focado que não percebia as nuances das pessoas ao seu redor.
— Porque ela é uma oportunista delirante, Lily. Eu mal sabia o sobrenome dela. Você sabe que eu não vejo ninguém além de você. Eu entro naquele prédio, trabalho como um louco para construir o nosso futuro, e a única coisa que me mantém sã é saber que vou voltar para casa e encontrar você.
— Mas hoje eu fui até você — disse Lily, a voz falhando. — E eu fui tratada como uma intrusa. Na empresa que leva o seu nome. O nome que eu também carrego.
Oscar levou a mão dela aos lábios, beijando os nós dos dedos com uma reverência quase religiosa.
— Eu sinto muito. Eu falhei com você hoje. Eu deixei o trabalho me cegar para o que realmente importa. Eu nunca, jamais, permitiria que alguém falasse assim com você se eu estivesse presente. Você é a rainha daquele lugar, Lily. Você é a dona de tudo o que eu possuo.
Lily olhou para ele, vendo a sinceridade absoluta nos olhos castanhos dele. Oscar Piastri, o homem que intimidava governos e CEOs experientes, estava ali, ajoelhado no chão de um salão de beleza, implorando pelo seu perdão.
— Ela disse que eu estava vestida para um chá de idosas — murmurou Lily, um pequeno sorriso involuntário começando a surgir nos cantos de sua boca, apesar da raiva.
Oscar soltou uma risada curta, aliviado por ver um lampejo da Lily que ele conhecia.
— Aquela mulher não saberia o que é elegância nem se fosse atingida por um raio da Chanel. Você está perfeita. Você é a mulher mais linda que eu já vi, seja de alta-costura ou usando uma das minhas camisetas velhas em casa.
Lily suspirou, a tensão finalmente deixando seu corpo. Ela passou a mão livre pelo cabelo dele, desarrumando os fios castanhos que ele sempre mantinha tão alinhados.
— Você realmente a demitiu?
— Com escolta de segurança e uma promessa de que a carreira dela acabou se ela abrir a boca — afirmou Oscar, a dureza voltando brevemente à sua voz. — Ninguém machuca você e sai impune.
Lily puxou a mão da luz UV e olhou para Oscar.
— Eu não queria que você fosse o "CEO implacável" hoje. Eu só queria almoçar com o meu marido.
— Então vamos fazer isso agora — disse Oscar, levantando-se e puxando-a para cima com ele. — Hannah, desculpe interromper o serviço, mas vou levar minha esposa. Mande a conta para o meu escritório com um bônus pelo transtorno.
Hannah apenas acenou, sorrindo ao ver o casal se reconciliando.
Oscar envolveu a cintura de Lily, protegendo-a enquanto caminhavam para a saída. Antes de entrarem no carro, ele a parou, segurando seu rosto com as duas mãos.
— Eu te amo, Lily Zneimer Piastri. E eu vou passar o resto da semana, do mês e da vida provando que não existe "conexão" no mundo que chegue aos pés do que eu sinto por você.
— Você vai ter que se esforçar — brincou ela, embora seus olhos brilhassem com amor. — Começando por um almoço muito caro e, talvez, aquela bolsa que eu vi na vitrine ontem.
Oscar sorriu, o rosto sexy e jovem iluminado por uma alegria genuína.
— Feito. E depois, eu vou desligar meu celular, e a Piastri Corp. que se exploda. Eu sou todo seu.
Enquanto o carro se afastava, Lily encostou a cabeça no ombro largo de Oscar. A raiva da manhã havia se dissipado, substituída pela segurança de que, não importa quão alto Oscar subisse no mundo dos negócios, ele sempre desceria para encontrá-la exatamente onde ela estivesse. E qualquer um que tentasse se colocar entre eles aprenderia, da maneira mais difícil, que o amor de Oscar Piastri era a força mais poderosa de seu império.