Nunca mais faz isso
A Ressonância do Silêncio
O corredor do Princeton-Plainsboro parecia mais longo do que o normal. House caminhava com a batida rítmica de sua bengala contra o piso de linóleo, um metrônomo que tentava, sem sucesso, organizar o caos de pensamentos em sua mente. O efeito do Vicodin que ele acabara de tomar ainda não havia atingido a corrente sanguínea, mas a dor em sua perna era secundária comparada à estranha dormência que sentia no peito.
Ele entrou em sua sala e fechou a porta com mais força do que o necessário. O quadro branco estava lá, com os restos de um diagnóstico anterior que ele já não se importava em apagar. Ele se jogou em sua cadeira de couro, apoiando a perna sobre a mesa, e fechou os olhos. A imagem de Cuddy, pálida e vulnerável naquele arquivo morto, recusava-se a ser arquivada.
— Você está atrasado para o diferencial — a voz de Wilson veio da porta, que se abriu sem cerimônia.
House não abriu os olhos.
— O diferencial pode esperar. A morte é paciente, Wilson. Ela não tem compromissos para o jantar.
Wilson entrou e sentou-se na cadeira à frente dele, observando-o com aquele olhar de oncologista que tenta ler metástases em uma alma.
— Eu vi vocês dois saindo daquele armário. Ela parecia... abalada. E você parecia... bem, você parecia que tinha acabado de ver um fantasma. O que aconteceu lá dentro, House?
— Física básica, Wilson. Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, a menos que o espaço seja de quatro metros quadrados e a fechadura seja feita por estagiários incompetentes. O calor subiu, o oxigênio baixou, e a Cuddy teve um momento de "donzela em perigo".
— E você? — Wilson inclinou-se para frente. — Você foi o cavaleiro de bengala?
House finalmente abriu os olhos, o azul gélido disparando um aviso para o amigo recuar.
— Eu fui o médico. Eu impedi que a administradora do hospital tivesse uma síncope e sujasse o chão com o almoço caro dela. Nada mais.
— Você está mentindo — disse Wilson, com um meio sorriso. — Suas mãos estão tremendo.
House olhou para as próprias mãos, que repousavam sobre o cabo da bengala. Elas não estavam tremendo, mas ele sentia os tendões tensos, como se ainda estivessem segurando as mãos frias de Lisa.
— É a abstinência. Ou o café ruim. Saia daqui, Wilson. Tenho vidas para salvar ou, no mínimo, para prolongar a miséria.
Wilson suspirou, levantando-se.
— Ela se importa com você, House. E o fato de isso te apavorar tanto é a coisa mais triste que eu vejo neste hospital todos os dias.
A porta se fechou, deixando House sozinho com o zumbido do ar-condicionado. Ele pegou uma bola de tênis e começou a jogá-la contra a parede. *Pá. Pá. Pá.* O ritmo era reconfortante, mas o silêncio da sala parecia ecoar as palavras dela: *"Você é apenas um homem cuidando de uma amiga."*
Enquanto isso, em sua sala, Lisa Cuddy tentava se concentrar em uma planilha de orçamento de equipamentos de imagem. Os números dançavam diante de seus olhos. Ela ainda podia sentir o cheiro de sabão e hospital que emanava da camisa de House, uma fragrância que, para qualquer outra pessoa, seria estéril, mas para ela, agora, parecia o cheiro da segurança.
Uma batida suave na porta a tirou de seus pensamentos. Era Wilson.
— Você está bem, Lisa? — ele perguntou, entrando e fechando a porta. — House me deu a versão dele, que envolveu termodinâmica e sarcasmo.
Cuddy soltou uma risada curta e sem humor, passando a mão pelo cabelo.
— Eu tive um ataque de pânico, James. Um de verdade. Eu não conseguia respirar, as paredes pareciam estar se movendo para dentro... Eu achei que fosse morrer ali, entre pastas de 1994.
— E o House?
— Ele foi... — ela hesitou, procurando a palavra certa — ...ele foi o House. Mas sem as piadas de mau gosto, pelo menos por alguns minutos. Ele me segurou. Ele me fez focar nele.
Wilson cruzou os braços, encostando-se na parede.
— Ele não sabe lidar com isso. Com a gratidão. Ele vai ser um pesadelo pelas próximas quarenta e oito horas para compensar o fato de ter sido humano.
— Eu sei — disse ela, olhando para a porta. — Mas não muda o que aconteceu. Ele tem esse lado, James. Ele só tem pavor de que alguém o use contra ele.
A tarde passou com uma lentidão torturante. House tentou focar em um caso de um homem com erupções cutâneas e soluços persistentes, mas sua equipe — Chase, Cameron e Foreman — parecia estar falando em outra frequência.
— Pode ser lúpus — sugeriu Cameron, sempre esperançosa pela doença autoimune.
— Nunca é lúpus! — gritou House, batendo a bengala na mesa, assustando os três. — É uma vasculite sistêmica ou ele está apenas escondendo que comeu algo estúpido. Vão, façam uma biópsia de pele e vasculhem a casa dele. Procurem por qualquer coisa que não seja "tédio".
Assim que eles saíram, House se levantou. Ele precisava de algo. Ele não sabia se era de mais comprimidos ou de uma briga. Geralmente, os dois serviam.
Ele caminhou até a sala de Cuddy. Através do vidro, ele a viu ao telefone, gesticulando com uma caneta. Ela parecia ter recuperado sua fachada de autoridade, o que deveria tê-lo deixado aliviado. Em vez disso, sentiu uma irritação irracional. Ele entrou sem bater.
Cuddy fez um sinal para ele esperar, mas House começou a vasculhar a gaveta de lanches dela.
— Eu estou em uma conferência com o conselho, House! — sibilou ela, cobrindo o bocal do telefone.
— Diga a eles que o hospital vai explodir. É mais interessante que o balanço trimestral — ele respondeu, encontrando um pacote de biscoitos integrais e abrindo-o.
Ela encerrou a chamada abruptamente, seus olhos brilhando com uma mistura de raiva e algo que House não queria identificar.
— O que você quer? Se veio aqui para fazer uma piada sobre o meu colapso no arquivo, sinta-se à vontade. Vamos acabar logo com isso.
House mastigou um biscoito, sentando-se na beirada da mesa dela.
— Eu vim conferir se você ainda estava pálida. O rosa voltou às suas bochechas. O que significa que seu sistema nervoso simpático voltou a funcionar. Pena. Você é mais silenciosa quando está em choque.
Cuddy levantou-se, ficando cara a cara com ele. A proximidade trouxe de volta a memória do cubículo apertado.
— Por que você faz isso? — perguntou ela, a voz baixa e perigosa. — Por que você veio aqui agora? Você não quer biscoitos, House. Você tem uma caixa cheia deles no seu armário, que você roubou da pediatria.
— Eu gosto de ver você irritada. É a ordem natural das coisas — ele deu de ombros, mas seus olhos não sustentaram o olhar dela por muito tempo.
— Você veio ver se eu estava bem — afirmou ela, com uma certeza que o desarmou. — E você odeia o fato de que se importa o suficiente para ter vindo.
— Eu não me importo — ele retrucou rapidamente. — Eu só não quero que você desmaie em uma reunião e eu tenha que assumir as funções administrativas. Eu teria que usar gravata. É uma questão de preservação de estilo de vida.
Cuddy deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal dele. House não recuou.
— Obrigada, Greg. De novo.
A menção ao seu primeiro nome foi como um choque elétrico. House sentiu a necessidade súbita de dizer algo cruel, de quebrar o clima, de restabelecer a distância segura de dois metros e sarcasmo infinito que os separava.
— Se você me chamar de Greg de novo, eu vou processar o hospital por assédio sexual — disse ele, mas a voz não tinha a força habitual.
— Você é um covarde — ela sussurrou, não como um insulto, mas como uma observação clínica. — Você salva vidas porque tem medo da morte, e você se isola porque tem medo de viver.
— E você é uma psicóloga de botequim que deveria focar em por que gosta de contratar médicos aleijados e narcisistas — ele rebateu, levantando-se da mesa.
Ele caminhou até a porta, mas parou com a mão na maçaneta. O silêncio entre eles era denso, carregado com tudo o que não havia sido dito no arquivo morto e tudo o que nunca seria dito nos corredores iluminados por lâmpadas fluorescentes.
— A propósito — disse ele, sem se virar —, os biscoitos são horríveis. Você precisa de mais açúcar na sua vida. Ou de um hobby que não envolva quase morrer soterrada por papéis.
— Talvez meu hobby seja tentar entender você, House. É um quebra-cabeça muito mais difícil do que qualquer um dos seus pacientes.
House soltou uma risada seca.
— Cuidado, Cuddy. Esse é o tipo de quebra-cabeça que não tem solução. No final, você só descobre que faltam peças fundamentais.
Ele saiu da sala, a bengala batendo no chão como um coração mecânico. Ele voltou para sua sala de diagnóstico, onde sua equipe já o esperava com os resultados da biópsia.
— É vasculite — anunciou Foreman, colocando as lâminas no negatoscópio. — Você estava certo.
— Eu sempre estou certo — resmungou House, pegando o prontuário. — É o meu fardo.
Ele começou a dar as ordens para o tratamento, sua mente voltando ao modo analítico, frio e preciso. Mas, enquanto explicava a dosagem de prednisona, sua mão direita, a que não segurava a bengala, tocou inconscientemente o bolso do paletó, onde o blazer de Cuddy estivera encostado horas antes.
Mais tarde naquela noite, o hospital estava mergulhado na penumbra do turno da madrugada. House estava em sua sala, ouvindo um disco de jazz antigo, com as luzes apagadas. Ele observou através do vidro quando Lisa Cuddy saiu de sua sala, carregando sua bolsa, pronta para ir para casa.
Ela parou diante da porta dele. Por um momento, House achou que ela fosse entrar. Ele sentiu seu pulso acelerar — uma reação fisiológica estúpida, ele diria a si mesmo. Mas ela apenas olhou para a silhueta dele no escuro, deu um leve aceno de cabeça que poderia ser apenas um ajuste de postura, e continuou andando.
House tomou mais um comprimido. A dor na perna estava lá, constante como uma velha inimiga, mas a sensação de sufocamento que sentira no arquivo morto não havia desaparecido completamente. Ele percebeu, com o cinismo que era sua marca registrada, que o problema de ficar preso em um quarto apertado com Lisa Cuddy não era a falta de ar.
Era o fato de que, pela primeira vez em anos, ele havia se lembrado de como era respirar acompanhado.
Ele pegou sua bengala e se levantou, saindo para a noite fria de New Jersey. O hospital Princeton-Plainsboro continuaria lá no dia seguinte, as doenças continuariam a surgir, e ele continuaria a resolvê-las. Mas, enquanto caminhava em direção ao seu carro, Greg House permitiu-se um único pensamento que não era clínico: ele esperava que a manutenção do hospital demorasse um pouco mais para consertar a próxima porta que emperrasse.
Afinal, como ele mesmo dizia, todos mentem. E a maior mentira que ele contava a si mesmo era que preferia estar sozinho.