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O acaso

O Silêncio entre as Tatuagens

O apartamento de Gabi no Leblon era um santuário de minimalismo e sofisticação. Paredes em tons de areia, móveis de design assinado e uma iluminação indireta que transformava a vista da Lagoa Rodrigo de Freitas em uma pintura viva. Naquela noite, porém, o silêncio habitual do lugar foi substituído pelo som suave de uma playlist de jazz chileno que Erick havia sugerido.

Eles haviam fugido de mais uma "social" na casa de Léo Pereira. A exposição constante, os flashes e as brincadeiras dos companheiros de time eram divertidos, mas ambos sentiam uma necessidade urgente de apenas... ser. Sem câmeras, sem hashtags, sem o "Efeito Gabi" causando pequenos desastres em público.

Gabi estava na cozinha, tentando — com um esforço hercúleo de concentração — não quebrar nada enquanto servia um risoto que havia pedido no seu restaurante favorito. Ela sabia suas limitações; cozinhar estava fora de cogitação se quisesse manter a cozinha intacta.

— Precisa de ajuda, *mi amor*? — A voz de Erick ecoou baixa atrás dela.

Ela deu um pequeno pulo, a colher de prata quase escapando de seus dedos. Erick estava encostado no batente da porta, vestindo apenas uma calça de moletom cinza. Sem camisa, as luzes da cozinha realçavam cada detalhe das tatuagens que cobriam seu torso como uma armadura de tinta.

— Você tem que parar de fazer isso — disse Gabi, colocando a mão no peito e rindo. — Meu coração já não tem uma saúde muito boa perto de você, e esses seus passos de gato não ajudam.

Erick caminhou até ela, ignorando o risoto e envolvendo a cintura de Gabi com seus braços fortes. Ele apoiou o queixo no ombro dela, respirando o perfume de baunilha e flores brancas que ela sempre usava.

— *Es el instinto del campo* — murmurou ele em seu ouvido, a voz vibrando contra a pele dela. — *Moverse sin que el adversario lo note.*

— Eu não sou seu adversário, Erick — ela se virou nos braços dele, passando as mãos pelos ombros largos do jogador. — Pelo contrário, acho que sou a única pessoa que realmente se rendeu a você sem luta.

Erick a olhou nos olhos. Havia uma intensidade ali que ele raramente mostrava ao mundo. Para a torcida, ele era o Pitbull; para a imprensa, o chileno misterioso. Mas ali, sob a luz suave da cozinha de Gabi, ele parecia vulnerável de uma forma que a deixava sem fôlego.

— *A veces me asusta* — confessou ele, falando em espanhol, como sempre fazia quando o assunto era profundo demais para o seu português ainda em construção. — *Lo rápido que te metiste aquí.* — Ele pegou a mão dela e a pressionou contra o lado esquerdo do seu peito. O coração dele batia forte e constante.

— Eu também tenho medo — Gabi admitiu, perdendo-se no labirinto de desenhos na pele dele. — Minha vida sempre foi sobre imagem, Erick. Sobre o que as pessoas veem na capa de uma revista. Com você, eu sinto que... eu não preciso posar. Posso tropeçar, posso ser desastrada, posso ser só a Gabrielly da Silva Santos.

Erick sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto.

— *Para mí, la Gabrielly que tropieza es mucho más hermosa que la de la revista Vogue.*

Ele a conduziu até a sala, onde haviam deixado algumas almofadas no chão, perto da imensa janela de vidro. O jantar foi calmo, trocando histórias sobre a infância dele em Antofagasta e as lembranças dela crescendo no subúrbio carioca antes da fama internacional. Era uma intimidade construída em palavras baixas e olhares longos.

Depois de terminarem, Gabi se acomodou entre as pernas de Erick, as costas encostadas no peito dele. Ele começou a passar os dedos pelos cachos pretos dela, desfazendo o penteado impecável que ela usara durante o dia.

— Sabe — disse ela, pegando a mão dele e analisando os desenhos nos dedos —, eu nunca perguntei o significado de todas elas.

— *Cada una es un pedazo de mi historia* — Erick explicou, trazendo a mão dela para o seu braço. — *Mi familia, mi fe, los lugares donde sufrí y donde fui feliz.*

Gabi seguiu o traçado de uma bússola no antebraço dele com a ponta dos dedos.

— E essa aqui? — perguntou ela, apontando para uma pequena marca perto do pulso que parecia mais recente.

— *Esa representa el camino* — ele disse em voz baixa. — *A veces nos perdemos para encontrar algo mejor. Yo tuve que cruzar los Andes para encontrarte a ti, ¿no?*

Gabi sentiu os olhos marejarem. Ela se virou para encará-lo, sentada no colo dele agora, as pernas envolvendo sua cintura. A proximidade era elétrica. Ela conseguia sentir o calor que emanava do corpo dele, o cheiro de sabonete e pele quente.

— Eu queria te pedir desculpas de novo — sussurrou ela, as mãos espalmadas no peito dele. — Pela exposição. Eu sei que você gosta de silêncio, e eu trouxe todo esse barulho para a sua vida. O vídeo, os comentários, os paparazzi no aeroporto...

Erick colocou um dedo sobre os lábios dela, silenciando-a.

— *Gabi, escucha* — ele disse, sério. — *El ruido de afuera no importa si aquí adentro estamos en paz. Tú eres mi paz ahora.*

Ele a puxou para um beijo que começou lento, quase exploratório, mas que rapidamente ganhou profundidade. Não era como os beijos apressados nos bastidores dos eventos ou as despedidas rápidas na academia. Era um beijo que falava de entrega. Gabi sentia as mãos de Erick subirem pelas suas costas, a pele dele encontrando a dela sob a seda do seu robe, e cada toque dele parecia queimar.

Eles se separaram por um instante, as testas coladas, as respirações entrecortadas.

— *¿Estás segura?* — perguntou ele, a voz rouca, os olhos escuros fixos nela, buscando qualquer sinal de hesitação.

— Eu nunca tive tanta certeza de nada, Erick — ela respondeu, a voz firme apesar da emoção. — Só... por favor, tente não me deixar cair. Você sabe como eu sou.

Erick soltou uma risada baixa e vibrante, pegando-a no colo com uma facilidade que a fez se sentir pequena e protegida.

— *Nunca te dejaré caer, mi desastre* — ele prometeu. — *Y si caes, será siempre en mis brazos.*

Ele a carregou até o quarto, onde a luz da lua entrava pelas frestas da cortina, criando um jogo de sombras e prata sobre a cama. Ali, o tempo parecia ter parado. Não havia Flamengo, não havia Victoria's Secret, não havia redes sociais. Havia apenas o homem que falava pouco e a mulher que sentia demais.

Enquanto ele a despia com uma delicadeza que contrastava com sua força física, Gabi sentia que cada insegurança sua desaparecia. Erick a tratava como se ela fosse a obra de arte mais preciosa do mundo, mapeando cada curva do seu corpo com beijos lentos e mãos firmes.

— Suas tatuagens... — ela arfou quando ele se inclinou sobre ela — ...elas são lindas sob essa luz.

— *Tú eres la que brilla, Gabi* — ele murmurou, descendo os beijos pelo pescoço dela até o colo.

O encontro deles foi uma dança de contrastes. A intensidade de Erick, o "Pitbull" que não recuava em campo, transformou-se em uma paixão paciente e profunda. Gabi, a modelo que vivia sob as luzes da ribalta, encontrou no silêncio dos braços dele o seu verdadeiro palco.

Cada toque era uma descoberta. Ela descobriu que Erick tinha uma pequena cicatriz na costela que ele nunca mencionara. Ele descobriu que Gabi soltava pequenos suspiros em espanhol quando ele a beijava de certa maneira. Foi uma noite de entrega total, onde as barreiras da linguagem e da fama foram derrubadas.

Horas depois, quando a madrugada já começava a dar sinais de que o sol logo surgiria, eles estavam deitados, cobertos apenas por um lençol de linho fino. Gabi tinha a cabeça apoiada no peito de Erick, ouvindo o ritmo agora calmo do seu coração.

— Erick? — ela chamou baixinho.

— *Dime.*

— O que você estava pensando naquele dia no avião? Quando eu caí no seu colo?

Ele soltou um suspiro nasalado, uma risada contida.

— *Pensé que Dios me había enviado un regalo del cielo, pero que el regalo venía con un poco de turbulencia* — ele brincou, apertando-a mais contra si. — *Y después, cuando escuché el video de tu amiga en el celular del pasajero al lado, supe que estaba perdido. Ya no había vuelta atrás.*

Gabi riu, escondendo o rosto no pescoço dele.

— Eu quase morri de vergonha. Achei que você ia me achar uma louca fútil.

— *Nunca* — ele disse com firmeza. — *Vi a una mujer hermosa que no tenía miedo de parecer tonta por un momento. Eso es lo más real que he visto en mucho tiempo.*

Eles ficaram em silêncio por um tempo, aproveitando a quietude. Mas, sendo Gabrielly, o silêncio nunca durava para sempre sem um pequeno incidente.

Ao tentar se esticar para pegar um copo de água na mesa de cabeceira, Gabi calculou mal a distância. Sua mão bateu na luminária de design, que balançou perigosamente. Ao tentar segurar a luminária, ela acabou derrubando o copo, espalhando água por todo o tapete e parte do lençol.

— Ai, não! — Ela se sentou rapidamente, olhando para o estrago. — Erick, me desculpa! Eu sou impossível, eu estraguei o momento, eu...

Erick apenas se sentou, observando a poça de água e a expressão de pânico genuíno no rosto dela. Ele começou a rir. Não era uma risada de deboche, era uma gargalhada de pura felicidade.

— *Es increíble* — disse ele, puxando-a de volta para a cama, ignorando a água. — *Ni siquiera en la cama puedo estar a salvo del "Efecto Gabi".*

— Eu vou limpar, eu juro — ela disse, tentando levantar, mas ele a segurou.

— *Deja eso. Mañana lo limpiamos* — ele disse, rolando para cima dela e prendendo seus pulsos acima da cabeça, com delicadeza. — *Ahora, tengo una mejor idea de cómo usar nuestro tiempo antes de que decidas derribar la casa entera.*

— E qual seria a ideia, senhor Pulgar? — perguntou ela, com um sorriso travesso.

— *Menos palabras, Gabi* — ele repetiu a frase que se tornara o mantra deles. — *Mucho menos palabras.*

E enquanto o sol começava a nascer sobre o Rio de Janeiro, Gabrielly percebeu que, por mais que ela tropeçasse na vida, sempre haveria um par de braços tatuados e um sotaque chileno para lembrá-la de que o equilíbrio era superestimado. O que importava era com quem você caía.

Na manhã seguinte, o despertador de Gabi tocou às sete. Ela tinha uma reunião com uma agência internacional. Erick tinha treino no Ninho do Urubu.

— Preciso ir — ela lamentou, sentindo o peso do braço dele sobre sua cintura.

— *Cinco minutos más* — ele pediu, a voz ainda rouca de sono.

— Se eu ficar mais cinco minutos, vou acabar derrubando o café na cama e perdendo o emprego.

Erick abriu um dos olhos, sorrindo.

— *Vale la pena.*

Gabi levantou-se e foi até o banheiro. Quando voltou, pronta para se trocar, viu que Erick estava sentado na beira da cama, segurando o celular dela.

— *Gabi... mira esto.*

Ela se aproximou, preocupada. Na tela do Instagram, uma foto que um paparazzi havia tirado deles saindo da casa de Arrascaeta na noite anterior estava viralizando. Na foto, Gabi estava tropeçando no degrau da calçada e Erick a segurava pela cintura, ambos rindo.

A legenda de um dos maiores sites de fofoca dizia: "O Pitbull e a Deusa: Erick Pulgar não solta Gabrielly nem quando ela tenta voar (literalmente)".

Gabi suspirou, esperando que ele ficasse irritado.

— Sinto muito, Erick. De novo.

Ele se levantou, caminhou até ela e a beijou na testa. Depois, pegou o próprio celular e, para a surpresa dela, comentou na postagem do site de fofoca.

*"Ella no se cae, solo me da excusas para abrazarla más fuerte."*

Gabi sentiu o coração derreter.

— Você está ficando muito bom nisso, sabia? — disse ela, abraçando-o pelo pescoço.

— *Aprendo rápido con la mejor* — ele respondeu. — *Ahora ve a tu reunión. Yo tengo que ir a que mis compañeros se burlen de mí por ser un romántico.*

— Eles só estão com inveja — Gabi piscou para ele.

— *Lo sé. Yo también tendría envidia de mí mismo.*

Enquanto ela o via sair pela porta, minutos depois, Gabi percebeu que sua bolsa de mão estava sobre a mesa. Ela a abriu para pegar as chaves e soltou uma gargalhada que ecoou pelo apartamento.

Dentro da sua bolsa Prada, não estavam as suas chaves. Estava uma única caneleira do Flamengo, com o número 5 e a bandeira do Chile.

— Erick! — ela gritou, correndo até a varanda.

Lá embaixo, ele já entrava no carro. Ele olhou para cima, viu a caneleira na mão dela e apenas deu de ombros, mandando um beijo no ar.

— Definitivamente — Gabi disse para si mesma, rindo enquanto voltava para dentro —, nós somos o desastre mais lindo desse mundo.

Ela pegou o celular e mandou uma mensagem para Paloma: *"Não ouse apagar aquele vídeo. Foi a melhor coisa que você já fez na vida."*

A resposta veio em segundos: *"Eu sei, Gabi. Eu sempre sei. Agora vai trabalhar e tenta não quebrar o cenário!"*

Gabi sorriu, guardou a caneleira de Erick na bolsa como se fosse um amuleto de sorte e saiu para enfrentar o mundo. Afinal, ela sabia que, não importa o quão forte ela tropeçasse, agora havia alguém que amava cada um de seus desastres. E esse alguém falava espanhol, tinha o corpo marcado por histórias em tinta e o coração mais firme que qualquer zaga de futebol.