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O acaso

O Idioma do Coração e Outros Pequenos Naufrágios

O sol da manhã entrava pelas janelas do Ninho do Urubu, mas o pensamento de Erick Pulgar estava a quilômetros dali, mais especificamente no apartamento de uma certa morena de cachos indomáveis. Ele estava sentado no banco do vestiário, observando o par de chuteiras que Gabi havia devolvido — e que, por algum milagre, não estavam trocadas dessa vez.

— Pulgar, meu parceiro, você está com aquela cara de quem está tentando traduzir Camões mentalmente — brincou Arrascaeta, sentando-se ao lado do compatriota sul-americano. — O que foi? A Gabi te deu um nó tático?

Erick suspirou, passando a mão pelo rosto.

— *Giorgian, es difícil* — confessou ele. — Ela é perfeita, entende? Mas eu sinto que, toda vez que falo em espanhol, ela me olha com aquele brilho de quem acha fofo, mas eu quero que ela entenda tudo. Quero falar a língua dela. No fundo, sinto que se eu falar português bem, talvez ela tropece menos.

Arrascaeta soltou uma gargalhada genuína.

— Amigo, o "Efeito Gabi" não tem tradução. Ela vai tropeçar até se você falar latim. Mas eu te ajudo. Vamos começar com o básico para o jantar de hoje.

O treino seguiu intenso, mas nos intervalos, a cena era inusitada: o volante chileno, conhecido por sua postura de "pitbull" e poucas palavras, estava com um caderninho e a função de áudio do Google Tradutor ligada. Gerson e Bruno Henrique passavam e davam dicas, algumas úteis, outras que claramente eram pegadinhas que fariam Gabi rir por décadas.

Enquanto isso, no outro lado da cidade, Gabrielly estava em um estúdio fotográfico enfrentando seu próprio caos.

— Gabi, querida, a pose é "femme fatale", não "vítima de queda livre"! — gritou o fotógrafo, enquanto Gabi tentava se equilibrar em um salto agulha de quinze centímetros sobre um chão de linóleo encerado.

— Desculpa, Jean! É que esse sapato tem vida própria — Gabi riu, recuperando o equilíbrio no último segundo após quase derrubar um rebatedor de luz.

— É o amor, Jean! — Paloma, que acompanhava a amiga, gritou do fundo do estúdio. — Ela está flutuando tanto que esqueceu como se caminha na Terra.

Gabi revirou os olhos, mas o sorriso em seu rosto a entregava. Ela pegou o celular no intervalo e viu uma mensagem de Erick.

*Erick: "Hoje... eu busco você. Jantar. Eu... cozinhar? Não. Eu levar você lugar especial. Beijo, meu desastre."*

Ela sentiu o coração derreter. O português dele era quebrado, esforçado e absolutamente adorável. Ela digitou de volta: *"Mal posso esperar, meu chileno favorito. Tenta não se perder no caminho, ou eu vou acabar indo parar em Niterói por engano!"*

Às oito da noite, o interfone de Gabi tocou. Ela estava terminando de prender o cabelo — ou tentando, já que havia deixado o elástico cair dentro do ralo da pia e precisou de dez minutos para resgatá-lo com uma pinça. Quando finalmente abriu a porta, Erick estava lá.

Ele usava uma camisa de linho azul-marinho que contrastava com suas tatuagens no pescoço e um sorriso nervoso que ela nunca tinha visto antes.

— *Hola, Gabi* — ele começou, mas logo pigarreou, corrigindo-se. — Não. Oi, Gabi. Você... você está linda. Como... como uma... uma estrela? Não, um sol. Muito brilhante.

Gabi sentiu as bochechas esquentarem. Ela deu um passo à frente para abraçá-lo, mas, como o destino não perdoa, seu pé prendeu no tapete felpudo da entrada. Ela foi projetada para frente, mas Erick, com os reflexos de quem antecipa jogadas de perigo, a segurou firme pelos ombros antes que ela atingisse o peito dele com muita força.

— *Cuidado* — ele riu baixo, voltando para o português. — Eu pegar você. Sempre.

— Você está estudando, não está? — ela perguntou, subindo as mãos pelo peito dele. — O seu português está ficando perigoso para o meu coração, Pulgar.

— Eu tentar — ele disse, concentrado. — Quero falar... coisas bonitas. Para você entender. Sem tradutor.

Eles foram para um restaurante reservado no Alto da Boa Vista, um lugar cercado por árvores e luzes de fada, onde a discrição era a regra. Erick fez questão de abrir a porta do carro e de puxar a cadeira, embora Gabi quase tenha sentado no chão porque a cadeira escorregou um pouco para trás.

— *Dios mío* — ele murmurou, rindo enquanto a estabilizava. — Gabi, você é... um perigo para a física.

— É o meu charme, Erick. Eu mantenho as pessoas ao meu redor em estado de alerta — ela brincou, pegando o cardápio.

Durante o jantar, Erick se recusou a falar espanhol. Ele lutava com as palavras, gesticulava e, às vezes, parava por longos segundos para encontrar o termo certo.

— Gabi — ele começou, segurando a mão dela por cima da mesa. — Eu... eu não sou de falar muito. No Chile, silêncio é bom. Mas com você... eu quero dizer. Você é a mulher mais... — Ele franziu a testa, buscando a palavra. — Corajosa? Não. Forte. E gentil. Eu gosto como você trata as pessoas. No desfile da VS... eu vi. Você é luz.

Gabi estava emocionada. Ela sabia o esforço que aquilo representava para um homem tão reservado.

— Erick, você não precisa falar perfeitamente. Eu entendo você, mesmo quando você não diz nada.

— Mas eu quero — ele insistiu. — Quero dizer que... eu não queria ser solteiro mais desejado. Eu só queria... encontrar você. O vídeo da Paloma... foi sorte. Muita sorte.

— Foi o melhor erro da minha vida — ela confessou.

O jantar estava perfeito até que o garçom trouxe a conta. Gabi, ao tentar pegar sua bolsa que estava pendurada na lateral da cadeira, fez um movimento brusco. Seu cotovelo atingiu o copo de água gelada, que virou diretamente no colo de Erick.

— NÃO! — Gabi gritou, levantando-se tão rápido que quase virou a mesa. — Erick, meu Deus! Eu sou uma idiota! Está gelado? Você se queimou? Não, era água, não queima... Ai, meu Deus, desculpa!

Ela pegou o guardanapo de pano e começou a secar a calça dele freneticamente, em uma área que, novamente, era bastante comprometedora.

— Gabi... Gabi, para — Erick disse, rindo tanto que seus olhos lacrimejaram. Ele segurou as mãos dela, forçando-a a olhar para ele. — Está tudo bem. Água é bom. Refresca.

— Eu estraguei o jantar romântico — ela lamentou, com os olhos cheios de água. — Você se esforçando tanto para falar português, sendo um príncipe, e eu te batizo com água mineral.

Erick se levantou, puxou-a para perto e a beijou no meio do restaurante, sem se importar com a mancha úmida em sua calça.

— *No arruinaste nada* — ele disse, voltando ao espanhol por um segundo antes de se corrigir. — Não estragou nada. É você. Se você não derrubar algo, eu vou pensar que você é uma impostora.

Eles saíram do restaurante rindo. Na volta para casa, o clima era de uma leveza que Gabi nunca havia experimentado em outros relacionamentos. Com Erick, até os desastres eram leves.

Quando chegaram à porta do prédio dela, Erick estacionou o carro e desligou o motor. Ele se virou para ela, a expressão ficando séria novamente.

— Gabi — ele disse, pegando um pequeno papel do bolso da camisa. — Eu escrevi. Porque falar é difícil ainda.

Ele abriu o papel amassado e leu, com um sotaque carregado, mas uma sinceridade cortante:

— "Gabrielly. Você é meu desastre favorito. Eu não me importo com o café, com a água ou com as quedas. Se você cair, eu caio com você. Eu quero... — ele hesitou, olhando para ela — ...eu quero caminhar ao seu lado. Mesmo que seja tropeçando."

Gabi não aguentou. As lágrimas caíram, borrando levemente o rímel que Jean tinha aplicado com tanto cuidado horas antes.

— Isso foi a coisa mais linda que alguém já me disse, Erick.

— Eu treinei com o Arrascaeta por duas horas — ele confessou, sorrindo de lado. — Ele disse que se eu errasse, ele ia contar para a Bárbara e ela ia me proibir de ir aos churrascos.

— Eu vou matar o Giorgian — Gabi riu, limpando o rosto. — Mas ele te ensinou bem.

Eles ficaram ali, abraçados dentro do carro, o silêncio sendo preenchido apenas pelo som da respiração um do outro. Erick começou a traçar círculos na palma da mão de Gabi, um gesto que ela aprendera a amar.

— *Gabi?*

— Oi?

— Eu tenho um... presente. De verdade. Não é caneleira.

Ele estendeu uma caixinha pequena. Gabi a abriu com cuidado, temendo que ela saltasse de suas mãos e caísse em algum vão impossível do carro. Dentro, havia uma pulseira de ouro delicada com um pequeno pingente de bússola e uma pequena pedra de lápis-lazúli, a pedra nacional do Chile.

— Para você não se perder — ele disse, com um brilho travesso nos olhos. — E para lembrar que, não importa onde você tropeçar, a bússola aponta para... aqui. — Ele apontou para o próprio peito.

Gabi o beijou com uma intensidade que dizia tudo o que as palavras em português ou espanhol não conseguiam expressar.

— Eu te amo, seu chileno teimoso — ela sussurrou contra os lábios dele.

Erick parou por um segundo, processando a frase. Ele sabia o que significava "eu te amo". Era a frase que ele mais tinha praticado no tradutor.

— Eu... eu amo você também, Gabi — ele respondeu, a voz firme. — Muito. Mais que futebol.

— Uau, mais que futebol? — ela brincou, tentando aliviar a carga emocional. — Agora eu sei que é sério.

— Muito sério.

Eles subiram para o apartamento dela. Ao entrar, Gabi tentou tirar os sapatos de salto, mas acabou se desequilibrando e batendo com o quadril na mesa de centro, derrubando um vaso de flores secas.

Erick apenas balançou a cabeça, rindo, enquanto a pegava no colo para evitar que ela pisasse nos restos do vaso.

— *Definitivamente* — disse ele, voltando para o espanhol enquanto a levava para o quarto — *necesitas un seguro de vida. O un marido que sea fisioterapeuta.*

— Eu prefiro um volante do Flamengo — ela rebateu, enroscando os braços no pescoço dele.

Naquela noite, entre sussurros em duas línguas e carinhos que não precisavam de tradução, Gabrielly e Erick selaram um pacto silencioso. O mundo lá fora podia continuar comentando, as hashtags podiam continuar subindo, e Gabi certamente continuaria derrubando coisas. Mas agora, havia uma ordem no caos.

No dia seguinte, o grupo das amigas estava em polvorosa no grupo de WhatsApp.

*Paloma: "GENTE! O Pulgar postou outro story! É a mão da Gabi com uma pulseira de bússola e a legenda em PORTUGUÊS!"*

*Bárbara: "O que dizia???"*

*Melissa: "Dizia: 'Para ela sempre encontrar o caminho de volta para casa. Meu amor.' EU ESTOU CHORANDO!"*

*Emily: "Gabi, você domesticou o Pitbull ou ele que te ensinou a ter direção?"*

Gabi leu as mensagens enquanto tomava café — usando uma caneca de plástico, por sugestão (e segurança) de Erick. Ela olhou para o lado e viu o jogador dormindo calmamente, uma das mãos tatuadas repousando sobre o travesseiro dela.

Ela pegou o celular e postou uma foto dos dois pés deles entrelaçados sob o lençol.

*"Às vezes, a gente precisa tropeçar para cair no lugar certo. Gracias por me ensinar a falar com o coração, @erickpulgar. ❤️"*

Abaixo, o primeiro comentário, postado segundos depois de ele acordar e ver a marcação:

*@erickpulgar: "Sempre com você, meu desastre. Juntos. (Espero não ter erros de português aqui 😂)"*

A internet, é claro, quebrou novamente. Mas dentro daquele quarto no Leblon, o único som que importava era o riso de dois corações que, finalmente, falavam a mesma língua.