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O Agente Secreto

Entre Lençóis e Espinhos

O Pátio de São Pedro emanava um misticismo que Bobbi não conseguia ignorar. As pedras irregulares do chão, a fachada imponente da igreja e o aroma de café fresco misturado ao cheiro de tapioca criavam um cenário que parecia pertencer a outro mundo, longe da violência seca de São Paulo. Ele chegou cedo, o coração batendo em um ritmo que não era provocado pelo exercício, mas por uma ansiedade que beirava o pânico. Quando Sophia apareceu, usando um vestido leve que balançava com a brisa e aquele sorriso que parecia desafiar a ditadura inteira, o mundo ao redor de Bobbi simplesmente emudeceu.

— Pontual para um paulista perdido — disse ela, aproximando-se com a naturalidade de quem conhecia cada fresta daquelas calçadas. — Achei que Augusto fosse te prender em alguma reunião de negócios importante hoje.

Bobbi sentiu um gosto amargo na boca ao ouvir o nome do padrasto.

— Ele tem os assuntos dele, eu tenho os meus — respondeu Bobbi, tentando manter a voz firme. — E hoje, meu único assunto é você.

Eles caminharam pelas ruas estreitas, a conversa fluindo entre o sarcasmo dela e o mau humor defensivo dele. Sophia falava sobre a faculdade, sobre os sonhos de ver um Brasil onde as pessoas não precisassem se esconder nas sombras, e Bobbi apenas ouvia, fascinado e aterrorizado. Ele era a sombra da qual ela falava, embora ela ainda não soubesse.

— Você mencionou que mora naquele prédio perto da Rua da Aurora — disse Bobbi, tentando soar casual, embora cada palavra pesasse como chumbo. — Deve ser barulhento, com tanta gente vivendo junta.

— É um caos — ela riu, balançando os cachos. — Mas é um caos cheio de vida. Dona Zezé cuida de todo mundo como se fôssemos filhos dela. Eu divido o espaço com o Marcelo. Ele é como um pai para mim, sabe? O homem mais inteligente e corajoso que já conheci.

Bobbi estacou por um breve segundo, o sangue gelando nas veias. A confirmação veio como um soco no estômago.

— Você... você mora no mesmo apartamento que ele? — perguntou, a voz levemente falha.

— Sim, no 402. Por quê? — Ela o olhou com curiosidade, os olhos verdes semicerrados em uma mistura de diversão e suspeita. — Está planejando me visitar sem avisar para conferir se eu não estou escondendo nenhum outro paulista lá?

— Não, eu só... — Bobbi pigarreou, desviando o olhar para uma vitrine qualquer. — Só achei que você tivesse seu próprio espaço.

— Naquele prédio, ninguém tem "seu próprio espaço" de verdade. Compartilhamos o teto, a comida e os ideais. É assim que sobrevivemos.

Bobbi sentiu um conflito dilacerante. Ele tinha a informação. Apartamento 402. Era tudo o que Augusto precisava. Bastava uma palavra e o serviço estaria feito. Mas olhar para Sophia e imaginar o terror naqueles olhos verdes quando a porta fosse arrombada... era algo que ele não conseguia suportar. Pela primeira vez na vida, o assassino de aluguel quis ser apenas um homem.

— Esquece o Marcelo. Esquece o Ghirotti. Esquece tudo — Bobbi disse, parando de repente e segurando as mãos dela. — Sophia, eu não quero falar de política. Eu não quero falar de onde você mora ou de quem você protege. Eu só quero... fugir disso tudo por algumas horas.

Sophia o estudou em silêncio. Ela via a tensão nos ombros dele, a névoa de tristeza nos olhos escuros. Ela não sabia dos segredos dele, mas sentia que Bobbi era uma alma em guerra consigo mesma.

— Tem um hotelzinho perto do cais — sussurrou ela, o sarcasmo dando lugar a uma suavidade rara. — É simples, meio decrépito, mas ninguém faz perguntas lá. Se você quer fugir do mundo, paulista... eu vou com você.

O hotel era exatamente como ela descrevera: paredes descascadas, o som do ventilador de teto rangendo como um lamento e o cheiro de maresia entrando pela janela entreaberta. Mas, para Bobbi, aquele quarto de poucos metros quadrados era o único lugar seguro em todo o estado de Pernambuco. Ali, ele não era o enteado de um monstro ou o braço direito de um político corrupto.

Eles se entregaram um ao outro com uma urgência desesperada. Bobbi beijava Sophia como se estivesse tentando pedir perdão por crimes que ainda não cometera, e ela o recebia com a paixão de quem sabia que o amanhã era uma incerteza constante naqueles anos de chumbo. O calor do Recife parecia se concentrar todo naquele quarto, mas nenhum dos dois se importava.

Horas depois, a cidade lá fora havia silenciado, exceto pelo som distante das ondas batendo no porto. Sophia dormia profundamente, a respiração calma, um braço jogado sobre o peito de Bobbi. Ele, no entanto, permanecia desperto, encarando as sombras que o ventilador projetava no teto. Ele tomara uma decisão: não contaria nada a Augusto. Ele daria um jeito de tirar Sophia e Marcelo da cidade antes que o padrasto perdesse a paciência. Ele trairia o único homem que conhecera como pai para salvar a mulher que acabara de conhecer.

O silêncio foi subitamente quebrado por um som estridente e metálico.

O telefone sobre a mesa de cabeceira estava tocando.

Bobbi sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ninguém sabia que eles estavam ali. Ele não havia dito a ninguém o nome do hotel, nem mesmo ele sabia que acabariam ali até Sophia sugerir.

Ele estendeu a mão trêmula e tirou o fone do gancho. Não disse nada. Apenas esperou.

— O amor é uma distração perigosa, Bobbi — a voz de Augusto veio do outro lado da linha, fria e cortante como uma navalha. — Especialmente quando você esquece que eu te ensinei tudo o que você sabe. Inclusive como seguir alguém sem ser notado.

Bobbi apertou o fone com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Ele olhou para Sophia, que se mexeu levemente no sono, mas não acordou.

— Como você conseguiu este número, Augusto? — sussurrou Bobbi, a voz carregada de veneno.

— Eu sou um profissional, garoto. Diferente de você, que está agindo como um amador emocionado. Você achou mesmo que eu ia te deixar passear pela cidade com a protegida do alvo sem vigiar cada passo? O recepcionista aqui embaixo é um homem muito razoável quando vê uma nota de cem cruzeiros e o cano de uma arma.

— Vá embora, Augusto. Eu resolvo isso amanhã.

— Amanhã é tarde demais. Ghirotti está perdendo a calma. E eu também. — Houve uma pausa, e o som de um isqueiro riscando ecoou pelo telefone. — Você tem a localização exata do Marcelo, não tem? Eu vi o jeito que ela falou com você no Pátio. Você sabe onde ele está.

— Eu não sei de nada — mentiu Bobbi, sentindo o suor frio escorrer pelo pescoço.

— Não minta para mim. Eu te criei. Eu matei sua mãe para que você tivesse um futuro, e não vou deixar uma garota de olhos verdes jogar tudo isso no lixo.

O coração de Bobbi parou. A confirmação do boato, dita com tamanha casualidade, foi como um tiro.

— O quê? — a voz de Bobbi era apenas um sopro.

— Você ouviu bem. Eu fiz o que precisava ser feito naquela época, e farei o que for preciso agora. — A voz de Augusto tornou-se subitamente sombria. — Saia desse quarto agora, Bobbi. Deixe a garota aí. Me encontre na esquina em cinco minutos com o endereço do apartamento. Se você não descer... bom, eu já estou no saguão. E eu sei o número do quarto de vocês. O 204 tem uma vista linda para o mar, não é? Seria uma pena se o sangue dela manchasse aqueles lençóis brancos.

A linha ficou muda.

Bobbi ficou segurando o fone, o som do sinal de ocupado martelando em seus ouvidos como uma sentença de morte. Ele olhou para Sophia. Ela parecia tão frágil, tão alheia ao monstro que estava a poucos metros de distância, subindo as escadas ou esperando no saguão com uma arma carregada.

O jogo terminara. Bobbi não tinha mais para onde fugir. Ele olhou para sua própria jaqueta, onde sua pistola estava escondida, e depois para o rosto sereno de Sophia.

Ele sabia que, para salvá-la, teria que se tornar o assassino que Augusto sempre quis que ele fosse. Mas, desta vez, o alvo não seria o homem que Ghirotti odiava.

Lentamente, Bobbi levantou-se da cama, cuidando para não acordar Sophia. Ele vestiu a calça e pegou a arma. O metal estava frio contra sua pele, mas sua mente estava em chamas. Ele beijou a testa de Sophia uma última vez, um adeus silencioso, e caminhou em direção à porta.

Lá fora, o corredor do hotel estava escuro e silencioso, mas Bobbi sabia que o mal o esperava no fim da escada. E, pela primeira vez na vida, ele não estava com mau humor. Ele estava com sede de sangue.