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O Agente Secreto

O Despertar da Serpente

O corredor do hotel cheirava a mofo e a desinfetante barato, um contraste violento com o perfume de jasmim que ainda parecia impregnado na pele de Bobbi. Cada passo dado sobre o tapete gasto era uma contagem regressiva. Ele verificou o tambor do revólver — seis balas, seis chances de mudar o destino ou de selar o seu próprio fim.

Ao chegar ao topo da escadaria de madeira que rangia sob o peso de sua culpa, Bobbi viu a silhueta de Augusto. O padrasto estava parado junto à porta de vidro da entrada, a fumaça do cigarro subindo em espirais preguiçosas sob a luz amarelada do poste de rua. Ele parecia calmo, a personificação de uma morte paciente que não precisa correr porque sabe que a vítima não tem para onde ir.

Bobbi desceu os últimos degraus. O barulho de suas botas no piso de ladrilhos fez Augusto virar a cabeça lentamente.

— Você demorou três minutos a mais do que o necessário — disse Augusto, jogando a bituca no chão e esmagando-a com a ponta da bota lustrada. — Estava se despedindo?

— Você mentiu para mim a vida inteira — respondeu Bobbi, a voz saindo mais rouca do que pretendia. Ele parou a três metros de distância, mantendo a mão direita perto da cintura. — Sobre minha mãe.

Augusto soltou um suspiro curto, quase um riso de desprezo.

— Eu não menti, Bobbi. Eu apenas omiti os detalhes que não serviriam para o seu treinamento. Sua mãe era um entrave. Ela queria uma vida de comercial de margarina para você, em um país que estava prestes a pegar fogo. Eu te dei uma carreira. Eu te dei um propósito. Ghirotti nos deu o poder. Agora, deixe de sentimentalismo e me dê o número do apartamento.

— Eu não vou te dar nada, Augusto.

O silêncio que se seguiu foi denso. Lá fora, um carro passou em alta velocidade pela Avenida Cais de Santa Rita, os pneus cantando no asfalto úmido. Augusto estreitou os olhos grisalhos, e Bobbi viu o momento exato em que a figura paterna desapareceu por completo, dando lugar ao predador que Henrique Ghirotti havia contratado.

— Você está escolhendo o lado errado da história, garoto — disse Augusto, a voz agora num tom perigosamente baixo. — Aquela garota é uma comunista, uma revolucionária de fachada que não duraria um dia em um interrogatório do DOPS. Você está jogando sua vida fora por um rabo de saia e um idealista que o governo quer apagar.

— Eu estou escolhendo o meu lado — retrucou Bobbi, dando um passo à frente. — E o meu lado não inclui você.

— Então você não me deixa escolha.

O movimento de Augusto foi rápido, fruto de décadas de prática, mas Bobbi era mais jovem e a adrenalina da traição o tornava letal. Antes que Augusto pudesse sacar a arma do coldre sob o paletó cinza, Bobbi avançou, não com a arma, mas investindo o corpo contra o do padrasto. Eles atravessaram a porta de vidro, que se estilhaçou em mil pedaços sobre a calçada de Recife.

Eles rolaram pelo chão, entre cacos de vidro e a poeira da noite. Augusto desferiu um soco pesado no rosto de Bobbi, abrindo um corte em seu supercílio. O sangue quente começou a escorrer, embaçando sua visão.

— Você sempre foi fraco, Bobbi! — gritou Augusto, tentando alcançar a pistola que havia caído a poucos metros. — Muita técnica, pouco estômago!

Bobbi chutou a mão de Augusto e se levantou, limpando o sangue do olho com a manga da camisa. Ele sacou sua própria arma e a apontou para o homem que o criara.

— Acabou, Augusto. Vá embora. Pegue o primeiro voo para Congonhas e diga a Ghirotti que o serviço falhou. Se eu te vir perto daquele prédio ou da Sophia de novo, eu não vou errar o tiro.

Augusto, ainda no chão, olhou para o cano da arma e depois para o rosto de Bobbi. Ele viu algo ali que nunca tinha visto antes: uma determinação que não vinha do medo, mas de algo muito mais perigoso — o amor.

— Ghirotti nunca para, Bobbi. Se não formos nós, serão outros. E eles virão com metralhadoras, não com avisos — disse Augusto, levantando-se devagar, as mãos espalmadas. — Você acabou de assinar a sua sentença de morte. E a dela também.

Augusto deu as costas e caminhou em direção à escuridão de uma viela lateral. Bobbi permaneceu com a arma erguida até que os passos do padrasto sumissem por completo. Seus pulmões ardiam. Ele sabia que Augusto tinha razão sobre uma coisa: o tempo havia acabado.

Ele voltou correndo para o quarto do hotel. Sophia estava sentada na cama, enrolada no lençol, os olhos verdes arregalados de susto com o barulho dos vidros quebrados e a ausência de Bobbi.

— Bobbi! O que aconteceu? Você está sangrando! — Ela correu até ele, as mãos trêmulas tocando seu rosto.

— Não temos tempo para explicações, Sophia. Você precisa me ouvir agora. — Ele a segurou pelos ombros, a urgência em sua voz fazendo-a estremecer. — Eles sabem onde o Marcelo está. Eles sabem do apartamento 402.

Sophia empalideceu, a cor fugindo de seu rosto bronzeado.

— Como? Quem sabe?

— O meu padrasto. O homem que me trouxe aqui. Sophia... eu não sou quem você pensa. Eu não vim aqui a negócios com Ghirotti para vender terras. Eu sou um assassino de aluguel. E o Marcelo é o meu alvo.

O silêncio que caiu sobre o quarto foi mais doloroso do que o soco de Augusto. Sophia recuou um passo, seus olhos verdes se enchendo de uma mistura de horror e incredulidade. O carisma que ela sempre carregava pareceu murchar diante da verdade nua e crua.

— Você... — ela sussurrou, a voz quebrada. — Você estava me usando? Para chegar até ele?

— No começo, sim — admitiu Bobbi, sentindo cada palavra como uma facada em si mesmo. — Mas tudo mudou. Eu não contei a localização para ele. Eu briguei com ele lá embaixo. Ele está indo embora, mas Ghirotti vai mandar outros. Precisamos tirar o Marcelo de lá agora.

Sophia olhou para ele por um longo tempo. O mundo revolucionário dela, feito de panfletos e reuniões clandestinas, acabara de colidir com o mundo real e sangrento de Bobbi.

— Se você estiver mentindo... se isso for uma armadilha... — ela começou, as lágrimas finalmente transbordando.

— Se fosse uma armadilha, o Marcelo já estaria morto e eu estaria tomando uísque com Augusto — interrompeu Bobbi. — Sophia, por favor. Confie em mim uma última vez. Me leve até o prédio.

Ela assentiu, a determinação voltando aos seus olhos com uma força renovada. Ela se vestiu rapidamente, enquanto Bobbi recarregava sua arma e limpava o sangue do rosto no lavatório.

Eles saíram do hotel pelos fundos, evitando a recepção. A noite de Recife estava pesada, o ar úmido parecia carregar o prenúncio de uma tempestade. Eles correram pelas ruas desertas do bairro de São José, onde as sombras dos casarões antigos pareciam observar cada movimento.

Ao chegarem ao prédio de refugiados, o clima era de uma paz enganosa. Sophia subiu as escadas correndo, com Bobbi logo atrás. No quarto andar, ela esmurrou a porta do 402.

— Marcelo! Marcelo, abra! Sou eu, Sophia!

A porta se abriu uma fresta, revelando o rosto cansado e barbudo de Marcelo, ou Armando. Seus olhos castanhos, marcados por anos de clandestinidade, saltaram para Bobbi e depois para a arma na cintura do rapaz.

— Quem é ele, Sophia? — perguntou Marcelo, a voz baixa e firme.

— Um aliado, eu acho — respondeu ela, entrando e puxando Bobbi para dentro. — Ele diz que o Ghirotti enviou assassinos. Eles sabem que você está aqui. Precisamos sair agora.

Marcelo olhou para Bobbi com uma intensidade que parecia ler sua alma. Ele não parecia surpreso. Homens como ele viviam esperando por aquele momento.

— Ghirotti é um homem persistente — comentou Marcelo, pegando uma pasta de couro e uma maleta pequena. — E você, rapaz? Por que está nos ajudando?

— Porque eu cansei de matar por gente que não vale o chão que pisa — respondeu Bobbi. — E porque ela acredita em você.

— Uma razão tão boa quanto qualquer outra — disse Marcelo com um meio sorriso triste.

Eles começaram a descer as escadas quando o som de pneus freados bruscamente ecoou na rua. Bobbi olhou pela janela do corredor. Dois carros pretos haviam parado em frente ao prédio. Homens de terno escuro e óculos escuros, apesar da noite, desembarcaram. Não era Augusto. Eram os agentes de Ghirotti, a "limpeza" oficial.

— Eles chegaram — anunciou Bobbi, sentindo o frio na espinha. — Pelos fundos, rápido!

Eles desceram para o térreo, mas a saída dos fundos já estava sendo vigiada. O prédio, um labirinto de corredores estreitos e quartos superlotados, começou a acordar com o barulho da invasão. Gritos de crianças e o choro de mulheres ecoavam pelos corredores enquanto os agentes de Ghirotti subiam, chutando portas.

— Para o telhado — ordenou Marcelo. — Há uma passagem para o prédio vizinho.

Eles subiram as escadas enquanto os tiros começavam a ecoar nos andares de baixo. Bobbi parou no meio do caminho, virando-se para Sophia e Marcelo.

— Continuem. Eu vou segurá-los aqui na escadaria.

— Você vai morrer, paulista! — exclamou Sophia, segurando o braço dele.

— É melhor eu morrer lutando por algo que presta do que viver sendo o que eu era — disse Bobbi, soltando-se gentilmente. — Leve ele daqui, Sophia. Vá para Olinda, procure o contato que o Marcelo tem lá.

Sophia hesitou, seus olhos verdes encontrando os dele em um adeus mudo. Ela se inclinou e o beijou rapidamente, um beijo que tinha gosto de sal e desespero.

— Não morra, Bobbi. Eu ainda não te perdoei por ser um assassino.

Ela e Marcelo subiram para o telhado. Bobbi ajoelhou-se atrás de uma mureta de concreto na curva da escada, apontando sua arma para o lance debaixo.

O primeiro agente apareceu segundos depois. Bobbi não hesitou. O disparo ecoou no espaço confinado, e o homem caiu para trás. O caos se instalou. Mais tiros foram trocados, o cheiro de pólvora substituindo o cheiro de maresia.

Bobbi sentiu uma queimação no ombro esquerdo. Ele havia sido atingido, mas a dor era secundária. Ele disparou novamente, mantendo a posição. Ele era um alvo pequeno em um lugar escuro, e ele conhecia cada truque que aqueles homens usavam, porque ele fora um deles.

Lá em cima, no telhado, ele ouviu o som de passos correndo e o rangido da estrutura metálica que ligava os prédios. Eles haviam conseguido. Sophia e Marcelo estavam a salvo, desaparecendo na noite de Recife.

Bobbi sorriu, apesar da dor e do sangue que agora encharcava sua camisa. Ele olhou para o teto, imaginando a imensidão do mar que cercava a cidade. Ele não era mais o garoto mal-humorado de São Paulo que seguia as ordens de um padrasto cruel. Ele era um homem livre, mesmo que essa liberdade durasse apenas mais alguns minutos.

— Vem buscar, seus covardes! — gritou ele, disparando sua última bala contra as sombras que subiam a escada.

A resposta veio em uma saraivada de tiros que iluminou o corredor escuro. Bobbi sentiu o impacto, um, dois, três... e então o silêncio.

Enquanto sua visão escurecia, a última imagem que passou por sua mente não foi a de Augusto ou de Ghirotti, mas a de Sophia sentada naquele banco de pedra em Olinda, com o sol refletido em seus olhos verdes, falando sobre um futuro onde ninguém precisaria ter medo das sombras.

Recife continuava linda, mesmo sob o luar de 1970. E, naquela noite, as sombras não tiveram dentes para todos. Alguns, finalmente, haviam encontrado a luz.