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O amigo?

Entre a Espada e o Coração

O acampamento na Clareira das Bestas nunca pareceu tão pequeno quanto nas horas que se seguiram à chegada de Arthur Leywin. O silêncio que antes era preenchido pelas bravatas de Darvus agora era uma mistura de reverência e uma tensão elétrica que emanava do recém-chegado.

Arthur estava sentado em um tronco, limpando uma adaga com movimentos rítmicos e precisos. Tessia, para o absoluto espanto de seus companheiros, não estava em sua tenda ou revisando mapas. Ela estava sentada exatamente ao lado dele, com um dos braços entrelaçados ao dele, a cabeça ocasionalmente encostada em seu ombro enquanto observava o fogo. A guerreira disciplinada e a princesa altiva pareciam ter dado lugar a uma jovem que finalmente encontrara seu porto seguro.

— Então... — Stannard começou, quebrando o silêncio enquanto ajustava seus óculos, a curiosidade acadêmica vencendo o medo. — Arthur, você mencionou que as coisas vão ficar perigosas. Você fala como se tivesse informações que nem mesmo as guildas de aventureiros possuem.

Arthur ergueu os olhos azuis, e Stannard sentiu um calafrio. Não era malícia, era a profundidade de alguém que já vira o fim do mundo e estava tentando evitá-lo.

— As guildas veem o que está na superfície — respondeu Arthur, sua voz calma cortando o ar da noite. — Eu vejo o que está sendo movido nas sombras. O Conselho está em alerta máximo, e o vovô Virion... bem, ele não está exatamente dormindo tranquilo ultimamente.

Darvus, que estava tentando parecer ocupado com seu machado, bufou, embora com menos convicção que antes.

— Você fala do Comandante Virion como se fosse o seu vizinho de porta, Leywin. Ele é o líder dos elfos, um dos magos mais poderosos do continente.

Tessia soltou uma risada suave, apertando o braço de Arthur.

— Darvus, o vovô praticamente adotou o Arthur. Se ele pudesse, teria mantido o Arthur trancado no castelo de Zestier apenas para ter alguém com quem jogar xadrez e discutir táticas de guerra o dia todo.

— Na verdade — Arthur interveio com um sorriso de canto —, ele geralmente tenta me bater com a bengala dele sempre que eu ganho no xadrez. Ele é um velho teimoso.

O trio de aventureiros trocou olhares incrédulos. Chamar o lendário Virion Eralith de "velho teimoso" era algo que poucos ousariam, mas Arthur o fazia com uma familiaridade que beirava o absurdo.

— A propósito — continuou Arthur, voltando sua atenção para Tessia —, recebi uma mensagem por meio de um emissário real antes de vir para cá. O Rei Glayder e a Rainha Priscilla pediram para que eu passasse em Sapin assim que possível. Parece que Curtis e Kathyln estão tendo dificuldades com alguns dissidentes políticos.

— Os Glayders? A família real de Sapin pediu sua ajuda pessoalmente? — Caria perguntou, deixando cair a pedra de amolar. — Arthur, quem exatamente é você além de ser o amigo de infância da Tessia?

Arthur guardou a adaga na bainha e olhou para o fogo, as chamas refletindo-se em seus olhos intensos.

— Sou alguém que prefere a paz, mas que foi treinado para a guerra — respondeu ele de forma enigmática. — Mas, no momento, sou apenas um membro temporário da equipe de vocês.

A conversa foi interrompida quando uma patrulha de aventureiros de outra unidade passou perto do acampamento. Entre eles, uma maga de cabelos loiros e armadura leve parou, reconhecendo Tessia, mas seus olhos logo se fixaram em Arthur. Ela se aproximou com um sorriso audacioso.

— Ora, ora, Princesa Tessia. Não sabia que tinha recrutado modelos para sua equipe — disse a maga, ignorando os outros e focando inteiramente em Arthur. — Eu sou Lilia, da unidade de busca avançada. E você, gracinha, qual o seu nome?

A atmosfera no acampamento mudou instantaneamente. A temperatura pareceu cair vários graus. Tessia, que até então estava relaxada, endireitou as costas imediatamente. Seus olhos verdes brilharam com uma intensidade perigosa e sua mão, que antes apenas segurava o braço de Arthur, agora o reivindicava com possessividade.

— Ele está comigo, Lilia — disse Tessia, sua voz soando como o estalar de um chicote de gelo. — E o nome dele não é da sua conta.

Lilia soltou uma risadinha, sem se intimidar.

— Não precisa ser tão territorial, Princesa. Só estava sendo amigável. Um rosto como o dele é raro nesta parte da Clareira das Bestas.

Arthur, sentindo a mana de Tessia começar a flutuar de forma instável devido à irritação, colocou sua mão sobre a dela, entrelaçando seus dedos. O toque foi instantâneo. A mana de Tessia se acalmou, e ela olhou para ele, encontrando um olhar cheio de paciência e um carinho que desarmou sua fúria.

— Está tudo bem, Tess — murmurou Arthur, para depois se voltar à intrusa com uma expressão de absoluta indiferença. — Lilia, certo? Agradeço o elogio, mas minha atenção já está muito bem ocupada. Sugiro que continue sua patrulha.

A frieza na voz de Arthur foi tão cortante que Lilia deu um passo atrás, o sorriso desaparecendo. Ela murmurou algo sobre "elfos possessivos" e saiu apressadamente.

Tessia bufou, cruzando os braços e desviando o olhar, as bochechas levemente coradas.

— Ela é uma idiota — resmungou a princesa.

Arthur soltou um riso baixo, puxando-a para mais perto, sem se importar com os olhares fixos de Darvus, Caria e Stannard.

— Você sabe que não precisa ficar com ciúmes, não sabe? — perguntou ele, inclinando-se para sussurrar perto do ouvido dela. — Ninguém mais consegue me dar tanto trabalho quanto você, Tess.

— Isso não foi um elogio, Arthur Leywin! — retrucou ela, embora o sorriso estivesse voltando aos seus lábios.

— Foi o meu jeito de dizer que não tenho olhos para mais ninguém — disse ele, beijando a têmpora dela.

Darvus limpou a garganta ruidosamente, parecendo desconfortável com a demonstração de afeto.

— Certo, certo. Já entendemos. O herói lendário é um romântico incurável e a nossa líder é uma manteiga derretida por ele. Mas e quanto ao treinamento? Você disse que as coisas iam ficar perigosas.

Arthur mudou sua postura. O namorado carinhoso desapareceu, e o Rei Grey assumiu o controle. Ele se levantou, e a pressão de sua presença fez com que até mesmo as chamas da fogueira parecessem se curvar.

— Amanhã ao amanhecer, eu vou avaliar cada um de vocês — declarou Arthur. — Se vamos enfrentar o que está por vir, o nível atual de vocês não é suficiente. Darvus, seu manejo de machado é potente, mas você desperdiça mana em movimentos puramente estéticos. Caria, suas manoplas são rápidas, mas sua base é frágil contra oponentes mais pesados. Stannard, você confia demais nos seus aparelhos e esquece que a mana ao seu redor é sua melhor ferramenta de detecção.

Os três ficaram em silêncio, chocados. Ele mal os tinha visto lutar — apenas alguns movimentos curtos durante a montagem do acampamento — e já havia dissecado suas maiores fraquezas com precisão cirúrgica.

— E eu, Arthur? — perguntou Tessia, levantando-se também, o desafio brilhando em seus olhos.

Arthur olhou para ela. Havia uma mistura de orgulho e preocupação em seu olhar.

— Você, Tess, é forte. Mas você ainda luta como se tivesse algo a provar ao mundo. No campo de batalha, você não prova nada a ninguém; você apenas sobrevive e garante que os seus sobrevivam. Vamos trabalhar no seu controle sobre a vontade da besta.

— Você vai ser rigoroso? — perguntou Caria, com um sorriso nervoso.

Arthur caminhou até a borda da clareira, olhando para a escuridão da floresta.

— O inimigo não terá piedade. Eu também não terei durante o treino. Mas eu prometo uma coisa: enquanto eu estiver aqui, nenhum de vocês cairá.

Naquela noite, enquanto o grupo tentava dormir, a presença de Arthur sentado na entrada do acampamento, em vigília silenciosa, trouxe uma paz que eles não sentiam há meses. Tessia dormia em sua tenda, mas Arthur sabia, através do vínculo sutil que compartilhavam, que ela estava finalmente descansando sem pesadelos.

Ele olhou para a palma de sua mão esquerda, onde as cicatrizes contavam histórias de batalhas que seus novos amigos nem podiam imaginar. Ele não era apenas o "Arthur" das histórias de bardo. Ele era a esperança de Dicathen, e ele carregaria esse peso, não importa o quão pesado se tornasse.

Perto da madrugada, Tessia saiu da tenda, caminhando silenciosamente até ele. Ela se sentou ao seu lado, enrolada em uma manta.

— Não consegue dormir? — perguntou ele, sem desviar os olhos da floresta.

— Senti sua falta — admitiu ela em voz baixa. — Mesmo com você aqui, às vezes parece que você vai desaparecer de novo. Que tudo isso é um sonho.

Arthur envolveu-a com o braço, puxando-a para o seu calor.

— Não é um sonho, Tess. Eu atravessei o inferno para voltar para você. E não pretendo ir a lugar nenhum.

— Promete?

Arthur olhou nos olhos verdes dela, sentindo a sinceridade e a vulnerabilidade que ela raramente mostrava. Ele sabia que o futuro era incerto, que deuses e demônios espreitavam além do horizonte, mas naquele momento, sob as estrelas da Clareira das Bestas, ele fez a única promessa que importava.

— Eu prometo, Tessia. Pela minha vida, eu prometo.

Ela sorriu, encostando a cabeça em seu peito, ouvindo o batimento constante e forte do coração dele. Para o resto do mundo, ele era Arthur Leywin, o prodígio, o guerreiro, o mito. Mas para ela, ele era apenas o seu Arthur. E isso era mais do que suficiente.

Enquanto o sol começava a despontar no horizonte, tingindo o céu de laranja e roxo, Darvus saiu de sua tenda e viu os dois. Ele parou por um momento, observando a silhueta de Arthur contra a luz da manhã. Ele finalmente entendeu que as histórias não eram exageradas para fazer os nobres se sentirem seguros. Elas eram, na verdade, um aviso.

Um aviso de que, quando o mundo começasse a queimar, haveria um homem capaz de caminhar entre as chamas. E, vendo a forma como Arthur olhava para Tessia, Darvus soube que aquele homem queimaria o mundo inteiro se isso significasse mantê-la a salvo.

— Bem — sussurrou Darvus para si mesmo, pegando seu machado —, acho melhor eu começar a levar esse treino a sério. Se o "mito" vai nos ensinar, é melhor estarmos prontos para o inferno.

Arthur ouviu o comentário, mesmo de longe, e um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. O treinamento começaria agora. E Dicathen precisaria de cada grama de força que eles pudessem reunir.

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