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O amigo?

O Legado de um Rei e as Memórias de um Avô

A manhã na Clareira das Bestas não começou com o som suave dos pássaros, mas sim com o impacto seco de corpos atingindo o chão e o zunido de mana cortando o ar. Arthur não estava brincando quando disse que seria rigoroso. Em apenas duas horas, Darvus já havia sido jogado contra três árvores diferentes, Caria estava ofegante com os braços tremendo e Stannard tentava, sem sucesso, rastrear a posição de Arthur enquanto o ruivo se movia como uma sombra entre as correntes de vento.

— De novo — ordenou Arthur, parado no centro do campo improvisado. Ele não tinha sequer uma gota de suor na testa. — Darvus, você está atacando onde eu *estava*, não onde eu *vou estar*. Antecipe o fluxo da mana, não o movimento do músculo.

Darvus se levantou, limpando o sangue do canto da boca com as costas da mão.

— É fácil falar quando você se move como um demônio teletransportador — resmungou o guerreiro, mas havia um brilho de respeito genuíno em seus olhos agora.

Tessia observava de lado, sentada em uma pedra, bebendo água e tentando esconder o sorriso orgulhoso. Ela sabia que Arthur estava pegando leve, mas para seus amigos, aquilo já era o limite absoluto de suas capacidades.

Após mais uma hora de tortura — ou "treinamento básico", como Arthur chamava —, o grupo finalmente desabou ao redor da fogueira para o almoço. A tensão inicial da chegada de Arthur havia se dissipado, substituída por uma curiosidade insaciável. Agora que sabiam que ele era real e que a princesa era completamente devota a ele, as perguntas começaram a surgir.

— Então... — Caria começou, recuperando o fôlego enquanto devorava uma ração de viagem. — Como é que o Comandante Virion realmente lida com você, Arthur? Porque, para nós, ele é o "Vovô", mas ele também é o homem que pode fazer um exército inteiro se ajoelhar com um olhar.

Arthur soltou uma risada curta, guardando sua espada de treino.

— O Vovô Virion é uma contradição ambulante. Em um momento ele está planejando a defesa de uma fronteira com uma frieza assustadora, e no outro ele está tentando me subornar com vinhos raros para eu contar detalhes sobre as minhas missões ou... bem, sobre a Tess.

Tessia engasgou com a água, ficando instantaneamente vermelha.

— Arthur! Não conte as partes embaraçosas!

— Ah, agora você *tem* que contar — provocou Darvus, inclinando-se para a frente. — Ele é o tipo de avô que ameaça espetar o namorado da neta com uma lança de prata?

— Pelo contrário — disse Arthur, lançando um olhar travesso para Tessia. — Ele é o maior incentivador. Na verdade, às vezes ele é um pouco... direto demais. Ele vive dizendo que o linhagem dos Eralith precisa de "sangue novo e forte" e fica nos empurrando para salas vazias no castelo.

— Ele fez o quê?! — Stannard ajustou os óculos, chocado.

— Uma vez — continuou Arthur, ignorando os protestos de Tessia —, estávamos no jardim real, em uma área teoricamente privada. Eu e a Tess estávamos... conversando.

— "Conversando", sei — Caria deu uma cotovelada no ar.

— Estávamos nos beijando — corrigiu Arthur com uma naturalidade que fez os três ouvintes arregalarem os olhos. — E o Vovô Virion apareceu por trás de uma estátua. Em vez de tossir ou ficar bravo, ele simplesmente cruzou os braços, ficou observando por um minuto e depois disse: "Arthur, sua postura está errada. Se você vai segurá-la assim, precisa dar mais apoio à base das costas para que ela não se canse".

O silêncio que se seguiu foi quebrado pela gargalhada estrondosa de Darvus.

— Não pode ser! O grande Virion Eralith dando dicas de beijo?

— Ele é terrível — reclamou Tessia, escondendo o rosto nas mãos. — Ele não tem senso de privacidade quando se trata de nós dois. Ele diz que, como já somos "praticamente casados aos olhos do destino", ele não precisa bater na porta.

— Isso explica muita coisa — comentou Stannard. — Mas e os rumores sobre vocês dois serem... bem, um pouco ousados demais em público? Ouvi dizer que em uma festa em Etistin, vocês sumiram por duas horas e voltaram com as roupas amassadas.

Tessia levantou a cabeça, seu rosto agora em um tom de escarlate que rivalizava com o cabelo de Arthur.

— Foi um erro tático! — exclamou ela. — O salão estava abafado e o Arthur sugeriu um lugar mais fresco. Como eu ia saber que a varanda dava para o pátio onde os guardas faziam a troca de turno?

— A parte divertida — Arthur acrescentou, divertindo-se com o desespero de Tessia — não foi os guardas nos verem. Foi o fato de que, quando voltamos, o pai da Tess, o Rei Alduin, parecia pronto para declarar guerra a Sapin, enquanto o Virion apenas piscou para mim e levantou um polegar.

— O Comandante é um homem de cultura, claramente — Darvus riu, mas depois sua expressão ficou mais curiosa. — Mas sério, Leywin... como é a sensação? Digo, você é um rei reencarnado, ou pelo menos tem a mente de um. Como você lida com esse lado "humano" e... impulsivo?

Arthur ficou em silêncio por um momento, a brincadeira sumindo de seus olhos. Ele olhou para Tessia, que agora o observava com carinho, a mão dela deslizando para a dele.

— Na minha vida anterior, eu não tinha nada disso — disse Arthur, sua voz mais profunda. — Eu era uma arma. Um trono cercado de gelo. Aqui, com a Tess, com o Vovô, com minha família... eu aprendi que a força não vale nada se você não tiver algo pelo qual valha a pena ser vulnerável.

O clima ficou reflexivo por um instante, até que Caria, com um sorriso malicioso, decidiu quebrar a melancolia.

— Tudo bem, isso foi profundo. Mas vamos voltar às fofocas. Tessia, é verdade aquela história de quando o Virion entrou no seu quarto no castelo no ano passado? O boato que corre entre as damas de companhia é... intenso.

Tessia soltou um gemido de agonia pura.

— Eu vou matar o Vovô. Eu juro que vou.

— O que aconteceu? — Stannard perguntou, agora totalmente investido.

Arthur limpou a garganta, parecendo um pouco sem jeito pela primeira vez desde que chegara.

— Digamos que... eu tinha acabado de voltar de uma viagem longa. Eu estava com saudades, a Tess estava com saudades. Estávamos no quarto dela, e eu a tinha puxado para o meu colo enquanto estávamos sentados em uma poltrona grande. Estávamos em um momento... bem intenso.

— Ele estava me beijando como se o mundo fosse acabar — murmurou Tessia, desistindo de esconder. — E a mão dele estava... bem, ele estava segurando meu seio por cima do vestido, e eu estava com as pernas entrelaçadas na cintura dele.

Darvus quase caiu para trás. Caria soltou um grito abafado de surpresa.

— E então — continuou Arthur, suspirando —, a porta simplesmente voou. Não foi um toque, foi um estouro de mana. Era o Virion. Ele entrou segurando um relatório de guerra, olhou para nós, parou por três segundos — que pareceram três anos — e disse: "Tessia, querida, eu disse que queria bisnetos fortes, mas talvez devêssemos esperar até depois da reunião do Conselho desta tarde. Arthur, você está usando a mão esquerda para apoio? A direita é mais eficiente para o equilíbrio dela no seu colo".

— E ele saiu! — gritou Tessia, jogando uma pequena pedra em direção à floresta. — Ele simplesmente saiu e fechou a porta como se tivesse acabado de comentar sobre o clima! Eu não consegui olhar para o meu avô por uma semana sem querer entrar em combustão espontânea!

O acampamento explodiu em gargalhadas. Até Stannard, geralmente o mais contido, estava dobrado ao meio de tanto rir. A imagem do lendário e temido Virion Eralith agindo como um instrutor de romance para o casal mais poderoso do continente era demais para processar.

— Eu retiro o que disse — Darvus conseguiu dizer entre as risadas. — Eu não quero ser o Arthur. A pressão de ter o Virion como "coach" de relacionamento é perigosa demais para um homem comum.

Arthur sorriu, apertando a mão de Tessia.

— Tem seus riscos. Mas os benefícios... — ele olhou para Tessia, e o brilho em seus olhos azuis fez com que ela esquecesse instantaneamente toda a vergonha — ... os benefícios fazem cada interrupção valer a pena.

A conversa continuou pela tarde, com Arthur compartilhando histórias menos picantes e mais heroicas, mas o gelo havia sido quebrado de forma definitiva. Darvus, Caria e Stannard não viam mais Arthur apenas como o "mito de bardo" ou o "rei frio". Eles viam o homem que amava sua amiga, o jovem que carregava o peso do mundo, mas que ainda conseguia ficar sem jeito com as travessuras de um avô intrometido.

Quando o sol começou a se pôr, Arthur se levantou, a expressão voltando à seriedade estratégica.

— Chega de histórias por hoje. O Vovô Virion pode ser engraçado quando quer, mas ele me enviou aqui por um motivo. As Bestas de Mana nesta região estão agindo de forma errática. Há uma influência de mana corrompida começando a se espalhar.

O grupo ficou sério instantaneamente. A transição de Arthur de "namorado provocado" para "líder militar" era assustadoramente rápida.

— O que faremos? — perguntou Caria, ajustando suas manoplas.

— Vamos caçar — respondeu Arthur. — Vou observar como vocês trabalham em equipe contra alvos reais. Não se preocupem com a retaguarda. Eu cuido de tudo o que vocês não conseguirem lidar.

— E o que você não conseguir lidar? — brincou Darvus, embora houvesse um fundo de verdade na pergunta.

Arthur olhou para Tessia, que já estava com sua lâmina desembainhada, a aura de uma verdadeira princesa guerreira emanando dela.

— Se houver algo que eu não consiga lidar — disse Arthur, seus olhos brilhando com o início do Realmheart, runas douradas começando a serpentear levemente sob sua pele —, então o mundo já terá acabado. Mas enquanto eu respirar, isso não vai acontecer.

Eles partiram para a floresta densa. A dinâmica do grupo havia mudado. Antes, eles eram quatro aventureiros tentando provar seu valor. Agora, eles eram uma unidade liderada por uma lenda viva.

Durante a caçada, o trio viu a verdadeira face de Arthur Leywin. Ele não apenas matava as bestas; ele as desmantelava. Um movimento de mão e um pico de gelo surgia do solo; um estalar de dedos e um relâmpago reduzia um predador de classe A a cinzas. Mas o que mais os impressionou não foi o poder bruto, mas a forma como ele protegia Tessia.

Ele não a impedia de lutar — ele sabia que ela era capaz —, mas ele se posicionava de tal forma que ela sempre tinha o ângulo perfeito para o ataque, cobrindo cada brecha dela com uma precisão milimétrica. Era uma dança de morte e confiança.

Em um momento, uma Besta de Mana de classe S, um Urso-Sombra, surgiu das trevas, saltando em direção a Stannard. Antes que o pesquisador pudesse reagir, Arthur apareceu à sua frente. Não houve explosão, apenas um som surdo. Arthur parou o ataque da besta com a palma da mão, a mana azul brilhando intensamente.

— Lento — murmurou Arthur.

Com um movimento fluido, ele girou e desferiu um chute imbuído de mana que lançou a criatura de várias toneladas contra uma parede de pedra, matando-a instantaneamente.

— Santo Dicathen... — sussurrou Stannard, caindo de joelhos. — Ele nem usou uma arma.

— Ele é a arma — corrigiu Caria, observando Arthur ajudar Stannard a se levantar com um sorriso calmo.

Ao final da patrulha, enquanto retornavam ao acampamento sob a luz da lua, Darvus se aproximou de Arthur.

— Ei, Leywin.

— Sim?

— Aquelas histórias... sobre você ser frio e solitário. Eu não vejo isso.

Arthur olhou para Tessia, que caminhava um pouco à frente, conversando com Caria.

— Eu era — admitiu ele. — Mas a Tess... ela me trouxe de volta. O Vovô Virion me deu um propósito. E agora, estar aqui com vocês... me lembra que a guerra não é apenas sobre matar inimigos. É sobre ter alguém para quem voltar e contar histórias idiotas ao redor de uma fogueira.

Darvus assentiu, finalmente entendendo. Arthur Leywin não era forte porque era um rei ou um prodígio. Ele era forte porque tinha raízes profundas no coração de Dicathen, e essas raízes eram protegidas por um amor que nem mesmo os deuses poderiam abalar.

Ao chegarem ao acampamento, Tessia se aproximou de Arthur e o abraçou pela cintura, exausta mas feliz.

— Você foi bem hoje, Art.

— Você também, Tess. Mas acho que o Vovô Virion ainda diria que sua guarda alta estava três centímetros abaixo do ideal.

Tessia riu, dando um tapa leve no peito dele.

— Não dê ideias a ele! Da próxima vez que o virmos, vou pedir para a vovó Myre te dar um sermão sobre paciência.

Arthur estremeceu levemente com a menção de Myre, o que fez o grupo rir novamente. Ali, na escuridão da Clareira das Bestas, cercados por perigos iminentes e uma guerra que ameaçava o horizonte, eles encontraram um momento de humanidade pura.

Arthur olhou para as estrelas, sentindo a presença de Sylvie em sua mente, um calor reconfortante. Ele sabia que os dias sombrios viriam, mas por agora, ele estava exatamente onde precisava estar: nos braços da mulher que amava, cercado por novos amigos que finalmente entendiam que as lendas não eram sobre poder, mas sobre a vontade de proteger o que é precioso.

E se o Vovô Virion aparecesse de repente para criticar a forma como ele a abraçava sob o luar... bem, Arthur apenas sorriria e aceitaria o conselho. Afinal, até mesmo um rei tem muito a aprender sobre o amor.

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