O amor certo?
Entre o Porto Seguro e o Naufrágio
O silêncio da manhã seguinte na mansão dos Hidalgo era enganoso. O sol entrava pelas janelas de vidro, iluminando a poeira que dançava no ar, mas a atmosfera ainda carregava o peso da eletricidade da noite anterior. Marcelle acordou com o corpo pesado, sentindo o perfume de Samara ainda impregnado nos lençóis e em sua pele. Ela se sentou na cama, os cachos bagunçados, tentando processar o turbilhão de emoções que a consumia.
Ela amava a intensidade de Samara. A forma como a garota de 18 anos a fazia se sentir viva, adulta e desejada. Mas, ao fechar os olhos, a imagem do rosto ferido de Kauanny no corredor não saía de sua mente. Kauanny era a doçura, o cuidado, a promessa de um amor que não machucava.
— Você pensa demais, Celly — a voz de Samara veio do canto do quarto. Ela estava encostada na penteadeira, já vestida com um biquíni minúsculo, observando a mais nova com um olhar predatório.
— Eu não queria ter magoado ela, Samara — murmurou Marcelle, puxando o cobertor para cobrir os ombros. — O que aconteceu ontem... foi demais.
— Foi exatamente o que você queria — Samara caminhou até a cama, subindo nela com a agilidade de um gato. — Não se sinta culpada por ter desejos. A Kauanny é limitada, ela não entende que você precisa de mais do que promessas de mãos dadas.
Samara inclinou-se e deu um selinho demorado em Marcelle, um beijo que cheirava a menta e perigo.
— Eu vou descer. A Larissa está preparando o café e eu adoraria ver a cara de derrota da sua "protetora" — Samara piscou e saiu do quarto, deixando Marcelle sozinha com o próprio caos.
Marcelle levou algum tempo para se arrumar. Quando finalmente desceu, encontrou a cozinha em um silêncio sepulcral. Larissa estava no balcão, focada em cortar frutas, enquanto Kauanny estava sentada à mesa, mexendo em uma caneca de café com o olhar perdido no horizonte. Samara, propositalmente, estava sentada de frente para ela, comendo um pedaço de melancia de forma provocativa.
— Bom dia... — disse Marcelle, a voz quase sumindo.
— Bom dia, pequena — Larissa foi a única a responder com entusiasmo, embora seus olhos loiros carregassem uma sombra de preocupação. — Dormiu bem?
Marcelle sentiu o rosto queimar. Ela não ousou olhar para Kauanny.
— Dormi — mentiu ela, sentando-se ao lado da amiga de cabelos lisos.
Kauanny finalmente desviou o olhar da caneca. Seus olhos estavam levemente inchados, denunciando uma noite mal dormida. Ela estendeu a mão por baixo da mesa, encontrando a de Marcelle e apertando-a com força.
— Podemos conversar depois? — sussurrou Kauanny, a voz embargada. — Por favor.
Marcelle assentiu, sentindo o coração apertar. Ela olhou para o outro lado da mesa e viu Samara observando a cena. Em vez de raiva, Samara apenas sorriu de canto, um sorriso que dizia: "vá em frente, mas você sabe quem você quer de verdade".
O dia passou em uma tensão insuportável. Larissa, tentando salvar o final de semana, sugeriu que todas fossem para a sala de cinema da mansão. Durante o filme, a escuridão proporcionou o cenário perfeito para o jogo perigoso de Marcelle.
Sentada entre as duas, Marcelle sentia o peso de suas escolhas. Do seu lado esquerdo, Kauanny encostou a cabeça em seu ombro, entrelaçando seus dedos e depositando beijos suaves em sua clavícula. Era um carinho puro, um pedido silencioso de desculpas e de permanência.
— Eu te amo, Celly — sussurrou Kauanny tão baixo que apenas Marcelle ouviu. — Não deixa ela estragar a gente.
Marcelle sentiu uma lágrima solitária escorrer. Ela apertou a mão de Kauanny, sentindo-se a pior pessoa do mundo. Mas então, do seu lado direito, a mão de Samara subiu por sua coxa, por baixo do short curto que Marcelle usava. Os dedos de Samara eram ágeis, provocantes, subindo cada vez mais, ignorando completamente a presença de Kauanny a poucos centímetros de distância.
A respiração de Marcelle falhou. O contraste era alucinante. O amor tranquilo de Kauanny em seu ombro e o fogo devasso de Samara em sua perna. Ela deveria afastar Samara, deveria escolher Kauanny e colocar um fim naquela loucura. Mas ela não queria.
Ela queria o conforto de uma e a luxúria da outra. Aos 15 anos, Marcelle descobria que o coração humano é um abismo egoísta.
— Eu vou ao banheiro — disse Marcelle, levantando-se bruscamente quando a mão de Samara chegou perigosamente perto de sua intimidade.
Ela caminhou pelo corredor escuro, tentando respirar. Antes que pudesse chegar à porta, foi puxada para dentro de um dos quartos de hóspedes. A porta foi fechada e trancada.
Era Kauanny.
— Eu não aguento mais isso, Marcelle — disse Kauanny, as lágrimas finalmente caindo. — Eu vi como ela te olha. Eu