O amor certo?
Sombras e Cicatrizes de um Desejo Dividido
O quarto de hóspedes estava mergulhado em uma penumbra densa, quebrada apenas pelo filete de luz que vinha debaixo da porta. Kauanny segurava os ombros de Marcelle com uma força que beirava o desespero, os dedos cravando-se levemente na pele jovem da outra. O silêncio entre as duas era pesado, preenchido apenas pelo som da respiração descompassada de Kauanny, que parecia lutar contra um soluço entalado na garganta.
— Eu não aguento mais ver você escapando por entre os meus dedos, Celly — sussurrou Kauanny, a voz falhando. — Eu vejo o que ela faz. Eu sinto o cheiro dela em você. Isso está me matando por dentro.
Marcelle tentou desviar o olhar, sentindo o peso da culpa esmagar seu peito, mas Kauanny não permitiu. Com uma das mãos, ela segurou o queixo de Marcelle, forçando-a a encarar seus olhos vermelhos e úmidos.
— Me diz que você ainda é minha — implorou Kauanny. — Me diz que o que a gente tem é real, e que ela é só um erro.
— Kau... eu... — Marcelle começou, mas as palavras morreram em sua boca.
Kauanny não esperou por uma resposta que talvez não fosse a que ela queria ouvir. Ela avançou, selando seus lábios nos de Marcelle com uma urgência que a garota de 15 anos nunca tinha sentido vindo dela. Não era o beijo doce e cuidadoso de costume; era um beijo possessivo, carregado de uma dor que buscava alento. As mãos de Kauanny desceram para a cintura de Marcelle, puxando-a para mais perto, como se quisesse fundir seus corpos e apagar qualquer rastro que Samara tivesse deixado ali.
Marcelle, pega de surpresa pela intensidade, sentiu seus joelhos fraquejarem. Havia algo de inebriante na forma como Kauanny, sempre tão contida e racional, estava perdendo o controle por causa dela. O beijo se aprofundou, as línguas se encontrando em uma dança desesperada. Kauanny empurrou Marcelle em direção à cama de casal, derrubando-a sobre o edredom macio sem quebrar o contato dos lábios.
— Eu vou te mostrar que ninguém te ama como eu — murmurou Kauanny entre beijos que agora desciam pelo pescoço de Marcelle, deixando marcas avermelhadas na pele clara. — Ninguém.
As roupas, que antes pareciam uma proteção, tornaram-se fardos. Kauanny despiu Marcelle com uma pressa febril, seus olhos percorrendo o corpo da mais nova com uma adoração que beirava o sagrado. Quando suas peles finalmente se tocaram, sem barreiras, um choque elétrico percorreu ambas. Kauanny explorava cada centímetro de Marcelle, seus dedos longos e delicados mapeando curvas que ela conhecia tão bem, mas que agora pareciam novas sob a luz daquela urgência.
O ato que se seguiu foi uma mistura de amor e posse. Kauanny entregava-se a Marcelle com uma entrega total, buscando provar que sua conexão ia muito além da pele. Cada gemido de Marcelle era um bálsamo para as feridas de Kauanny, e cada toque de Marcelle era uma confirmação de que, pelo menos naquele momento, ela era a única dona daquele coração confuso. O sexo era intenso, cru, uma conversa sem palavras onde Kauanny gritava seu amor e Marcelle tentava encontrar redenção.
Enquanto isso, do lado de fora, no corredor silencioso, uma figura observava a porta fechada. Samara estava encostada na parede oposta, os braços cruzados sobre o peito, uma expressão de fúria contida em seu rosto bonito. Ela tinha ouvido o clique da tranca. Ela tinha ouvido os primeiros sussurros. E agora, o silêncio que emanava do quarto era interrompido por sons que ela conhecia muito bem.
Samara sentiu um gosto amargo na boca. Ela não estava acostumada a perder. Para ela, Marcelle era um desafio, um fruto proibido que ela já tinha começado a saborear e que não pretendia dividir. Ver Kauanny — a "certinha", a "chata" — levar a melhor naquela noite acendeu um fogo de ódio em suas veias que ela mal conseguia controlar. Ela queria chutar a porta, queria arrancar Marcelle dali, mas algo a manteve imóvel. O prazer da vingança seria maior se ela esperasse o momento certo.
— Aproveite enquanto pode, Kauanny — murmurou Samara para si mesma, as unhas cravando-se nas palmas das mãos. — Porque o que eu dou para ela, você nunca vai conseguir sequer imaginar.
Horas depois, quando a mansão estava mergulhada no breu da madrugada, Marcelle saiu do quarto de hóspedes. Seus passos eram lentos, o corpo sentindo o cansaço prazeroso do que acabara de viver com Kauanny. Ela se sentia mais leve, como se tivesse finalmente escolhido um lado. Kauanny adormecera com um sorriso sereno, e Marcelle sentia que devia a ela aquela lealdade.
Ela caminhou em direção à cozinha para buscar um copo de água, mas ao entrar no cômodo, congelou.
Samara estava sentada na bancada, bebendo vinho direto da garrafa. Ela não acendeu as luzes; a claridade da lua que entrava pela janela era o suficiente para destacar seus olhos escuros, que brilhavam com uma intensidade perigosa.
— Foi bom, Celly? — a voz de Samara cortou o silêncio como uma navalha.
Marcelle recuou um passo, o coração disparando.
— Samara... o que você está fazendo acordada?
— Eu não consegui dormir com o barulho da sua hipocrisia — Samara desceu da bancada com um movimento fluido, caminhando até Marcelle. — Você acha que umas horas de cama com a Kauanny vão apagar o que a gente sentiu ontem? Você acha que ela consegue te fazer perder o fôlego do jeito que eu faço?
— Para com isso, Samara — disse Marcelle, tentando manter a voz firme, embora estivesse tremendo. — A Kauanny me ama de verdade. O que aconteceu entre a gente... foi um erro. Eu escolhi ela.
Samara soltou uma risada curta e sem humor, parando a poucos centímetros de Marcelle. O cheiro de vinho e de pecado emanava dela, envolvendo Marcelle como uma névoa.
— Você não escolhe o fogo, Celly. Você apenas se queima nele — Samara estendeu a mão, tocando o pescoço de Marcelle, exatamente onde Kauanny tinha deixado uma marca. — Ela marcou o seu corpo, mas eu... eu marquei a sua alma. E você sabe disso.
— Não sabe de nada — rebateu Marcelle, mas sua voz saiu fraca.
— Ah, eu sei — sussurrou Samara, aproximando o rosto do ouvido de Marcelle. — Eu sei que enquanto ela estava em cima de você, você fechou os olhos e, por um segundo, desejou que fosse a minha mão. Desejou que fosse a minha boca.
— Mentira! — Marcelle tentou empurrá-la, mas Samara era rápida.
Em um movimento brusco, Samara segurou os pulsos de Marcelle e a prensou contra a geladeira fria. O contraste entre o metal gelado em suas costas e o calor do corpo de Samara à sua frente fez Marcelle arfar.
— Me prova que é mentira — desafiou Samara, os olhos fixos nos lábios de Marcelle. — Me olha nos olhos e diz que não me quer agora.
Marcelle tentou falar, mas a proximidade de Samara era um ímã poderoso. A raiva que Samara sentia parecia ter se transformado em uma luxúria agressiva, algo que Marcelle nunca tinha experimentado. Antes que Marcelle pudesse formular qualquer defesa, Samara a beijou.
Não foi um pedido. Foi uma invasão.
O beijo de Samara era selvagem, carregado de uma fúria que exigia submissão. Ela mordeu o lábio inferior de Marcelle, arrancando um gemido que era metade dor e metade puro prazer. As mãos de Samara soltaram os pulsos de Marcelle para se enroscarem em seus cachos, puxando sua cabeça para trás para aprofundar o contato.
Marcelle sentiu toda a sua resolução desmoronar. A lealdade que jurara a Kauanny minutos antes evaporou sob o toque safado e experiente de Samara. Ela odiava o poder que aquela garota tinha sobre ela, mas ao mesmo tempo, ansiava por ele. Suas mãos, que deveriam estar empurrando Samara, acabaram encontrando o caminho para a cintura da mais velha, puxando-a para mais perto.
— Você é minha, Celly — murmurou Samara contra seus lábios, entre beijos ávidos. — Não importa quantas vezes você se deite com ela. No final da noite, é o meu nome que você sussurra no escuro.
Samara a beijou novamente, um beijo longo, molhado e possessivo, que parecia selar um pacto sombrio. Ela se afastou devagar, limpando o canto da boca com o polegar, um brilho de triunfo nos olhos.
— Agora pode ir dormir — disse Samara, com um sorriso cruel e vitorioso. — Sonhe com quem você quiser... se conseguir.
Samara saiu da cozinha, deixando Marcelle sozinha na escuridão, com o gosto de vinho e traição na boca. No andar de cima, Larissa, que tinha descido silenciosamente para buscar um copo de água e presenciara a cena das sombras do corredor, apenas balançou a cabeça.
— Eu avisei — sussurrou Larissa para si mesma, sentindo uma pontada de pena de todas elas. — A obsessão não deixa sobreviventes.
A manhã seguinte prometia ser o início de um desastre que nenhuma delas seria capaz de evitar. Entre o amor desesperado de Kauanny e a luxúria vingativa de Samara, Marcelle estava se perdendo em um labirinto onde todas as saídas levavam à dor. E a janela da mansão dos Hidalgo, que antes refletia a beleza de Barcelona, agora só mostrava o reflexo de quatro vidas prestes a colidir de forma irreversível.