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O amor certo?

Labirintos de Vidro e Pele

O amanhecer de segunda-feira não trouxe a clareza que Marcelle esperava. Pelo contrário, a luz que atravessava as cortinas de seda do quarto de hóspedes parecia denunciar cada segredo escondido sob os lençóis. Ela sentiu o braço de Raissa passado por sua cintura, um peso leve e reconfortante, mas seus olhos estavam fixos na porta. Ela sabia que, do outro lado daquela madeira, o mundo que ela conhecia havia colapsado.

Marcelle desvencilhou-se devagar, tentando não acordar a garota que lhe dera a noite mais pacífica de sua vida. Ela precisava de água, ou talvez apenas de ar. Ao caminhar pelo corredor, o silêncio da mansão era quase ensurdecedor, interrompido apenas pelo estalo da madeira sob seus pés descalços.

Ao chegar à galeria que dava para a sala de estar, ela parou abruptamente. O cenário lá embaixo era o rastro de um furacão. Almofadas jogadas, uma garrafa de vinho tombada no tapete e, no centro de tudo, a imagem que Marcelle jamais imaginou ver: Samara e Kauanny.

As duas estavam adormecidas no sofá largo, mas não havia ternura ali. Elas pareciam ter caído de exaustão após uma guerra. Kauanny estava com o rosto escondido no vão do pescoço de Samara, e as mãos de Samara ainda seguravam possessivamente os cabelos lisos de Kauanny. Era uma cena de destruição mútua.

— Chocante, não é? — A voz de Larissa veio da varanda, fazendo Marcelle dar um pulo.

Larissa estava sentada em uma cadeira de vime, observando o nascer do sol com uma caneca de café fumegante nas mãos. Seus cabelos loiros estavam presos em um coque desleixado, e ela parecia dez anos mais velha do que realmente era.

— Eu... eu não entendo — sussurrou Marcelle, descendo os degraus e aproximando-se da amiga. — Elas se odeiam. Kauanny queria matar a Samara ontem à noite.

— O ódio e o desejo bebem da mesma fonte, Celly — disse Larissa, dando um gole longo no café. — Elas perderam você. Samara perdeu o controle que tinha sobre seus sentimentos, e Kauanny perdeu a pureza do que sentia. No desespero, elas se agarraram à única coisa que restava: a dor uma da outra.

Marcelle olhou novamente para as duas no sofá. Sentiu uma pontada de culpa, seguida por um alívio egoísta.

— Isso me torna livre? — perguntou Marcelle, a voz trêmula.

— Isso torna tudo mais perigoso — respondeu Larissa, olhando-a nos olhos. — Porque agora não há mais regras. E você, minha querida, está no meio de um campo minado com a Raissa.

O movimento no sofá interrompeu a conversa. Samara foi a primeira a abrir os olhos. Por um segundo, a vulnerabilidade tomou conta de seu rosto, mas assim que percebeu Marcelle e Larissa observando-as, a máscara de sarcasmo voltou com força total. Ela empurrou Kauanny com cuidado, levantando-se e ajeitando o roupão de seda que mal cobria seu corpo.

Kauanny acordou logo em seguida, o olhar confuso transformando-se rapidamente em puro horror ao perceber onde estava e com quem. Ela se levantou num salto, as bochechas corando violentamente.

— Marcelle! Eu... eu posso explicar — começou Kauanny, a voz embargada de vergonha.

— Não precisa explicar nada, Kauanny — interrompeu Samara, caminhando em direção à cozinha com a elegância de quem não se arrependia de nada. — Foi apenas uma troca de fluidos e ressentimentos. Nada que uma boa ducha não apague.

— Como você pode ser tão fria? — gritou Kauanny, as lágrimas começando a cair. — A gente... a gente cruzou uma linha, Samara!

Samara parou e virou-se, lançando um olhar gélido para a garota de 17 anos.

— Nós cruzamos a linha porque você quis saber o que a Marcelle sentia quando eu a tocava. E agora você sabe. Você sentiu, não sentiu? A diferença entre o seu amor morno e o meu fogo?

— Cala a boca! — Kauanny avançou, mas parou ao ver Marcelle. — Celly, por favor, me perdoa. Eu estava fora de mim. Ela me provocou, ela disse coisas...

Marcelle sentiu uma calma estranha percorrer seu corpo. Ela olhou para Kauanny, a garota que representava sua segurança, e depois para Samara, o seu pecado favorito. Nenhuma das duas parecia mais ter poder sobre ela.

— Está tudo bem, Kauanny — disse Marcelle, sua voz soando mais madura do que seus 15 anos permitiam. — Você não me deve mais nada. E eu também não devo nada a vocês.

— O que isso significa? — perguntou Samara, estreitando os olhos.

— Significa que eu cansei de ser o motivo das brigas de vocês enquanto vocês duas, no fundo, são farinha do mesmo saco — respondeu Marcelle. — Eu vou ficar com a Raissa. Ela me vê de verdade.

O silêncio que se seguiu foi cortado pelo som de passos descendo as escadas. Raissa apareceu, radiante e tranquila, alheia à tensão que quase cortava o ar. Ela caminhou até Marcelle e depositou um beijo suave em sua bochecha.

— Bom dia, linda — disse Raissa, sorrindo para as outras. — O clima parece... intenso por aqui.

— Você não faz ideia — murmurou Larissa, servindo-se de mais café.

Samara soltou uma risada amarga e caminhou até Raissa, parando a poucos centímetros dela. A diferença de altura era notável, mas a presença de Samara era esmagadora.

— Aproveite o banquete, novata — sibilou Samara. — Mas lembre-se: Marcelle gosta de ser consumida, não apenas admirada. Você tem estômago para o que ela realmente deseja?

Raissa não recuou. Ela manteve o sorriso, embora seus olhos tenham ficado sérios.

— Eu não pretendo consumir ninguém, Samara. Eu pretendo caminhar ao lado dela. Talvez seja por isso que você falhou.

O rosto de Samara se contorceu em fúria, mas antes que ela pudesse reagir, o som de um carro buzinando do lado de fora interrompeu o confronto. Era o motorista dos Hidalgo, vindo buscar as chaves da mansão. O fim de semana havia acabado oficialmente.

A arrumação das malas foi feita em um silêncio hostil. Kauanny não conseguia olhar para ninguém, escondida atrás de seus cabelos longos e lisos. Samara batia as portas dos armários com força desnecessária. Larissa tentava manter a diplomacia, enquanto Marcelle e Raissa permaneciam juntas, um oásis de calma no meio do caos.

Na hora da partida, junto ao portão monumental da mansão, Samara puxou Marcelle pelo braço, longe dos ouvidos das outras.

— Você acha que se livrou de mim, não é, Celly? — sussurrou Samara, sua mão pequena apertando o pulso de Marcelle com uma força safada.

— Eu não quero me livrar de você, Samara — respondeu Marcelle, desprendendo-se com calma. — Eu só não quero mais ser o seu brinquedo.

— Brinquedos são descartáveis — retrucou Samara, os olhos brilhando com uma promessa perigosa. — Você é uma obsessão. E obsessões não morrem, elas apenas esperam a próxima janela aberta.

Marcelle sentiu um calafrio, mas não permitiu que Samara visse. Ela caminhou até o carro onde Raissa já a esperava.

— Pronta? — perguntou Raissa, estendendo a mão.

— Pronta — afirmou Marcelle, entrando no veículo.

Enquanto o carro se afastava pela estrada sinuosa que levava de volta ao centro de Barcelona, Marcelle olhou pelo vidro traseiro. Samara estava parada no meio da estrada, pequena e indomável, observando-as partir. Ao lado dela, Kauanny parecia uma sombra perdida, as mãos abraçadas ao próprio corpo.

— Você está bem? — perguntou Raissa, entrelaçando seus dedos aos de Marcelle.

— Estou — disse Marcelle, embora soubesse que a paz era temporária. — Só estou percebendo que algumas janelas nunca se fecham de verdade.

— O que você quer dizer com isso?

Marcelle olhou para a paisagem urbana que começava a surgir no horizonte.

— Que em Barcelona, o desejo nunca dorme. Ele apenas muda de forma.

No banco de trás do outro carro, Larissa observava Samara e Kauanny. O silêncio entre as duas era elétrico. A briga e o sexo da noite anterior haviam criado um vínculo doentio, uma cumplicidade nascida do fracasso.

— Então... — começou Larissa, tentando quebrar o gelo. — O que acontece agora?

Samara virou o rosto para a janela, um sorriso de canto surgindo em seus lábios.

— Agora? Agora o jogo começa de verdade, Larissa. A Marcelle acha que encontrou a luz com a Raissa. Mas ela esquece que eu sou a escuridão que faz a luz brilhar.

Kauanny, pela primeira vez, não discordou. Ela apenas apertou a alça da bolsa, sentindo o peso do segredo que agora compartilhava com sua maior inimiga. Ela odiava Samara, mas agora, de uma forma distorcida, ela também a pertencia.

A viagem de volta foi o prelúdio de uma nova tempestade. Marcelle e Raissa viviam o início de um romance que parecia puro, mas as sombras de Samara e Kauanny pairavam sobre elas como predadores pacientes.

Ao chegarem em casa, Marcelle despediu-se de Raissa com um beijo longo, cheio de promessas. Mas, ao entrar em seu próprio quarto e fechar a porta, a primeira coisa que viu foi o seu celular vibrando sobre a mesa.

Era uma mensagem de um número desconhecido, mas ela sabia exatamente de quem era.

"A primeira noite com ela vai ser doce. A segunda vai ser monótona. Na terceira, você vai estar olhando pela janela, procurando pelo fogo que só eu sei acender. Vejo você em breve, Celly."

Marcelle desligou o aparelho, o coração batendo forte contra as costelas. Ela olhou para a sua janela, a mesma janela que dava para a casa vizinha, a mesma janela que iniciara tudo. Ela pensou em Raissa, no seu sorriso e na sua paz. Mas, ao fechar os olhos para tentar dormir, a última imagem que viu não foi o sol de Raissa, mas o brilho safado e perigoso dos olhos de Samara.

A guerra por Marcelle havia mudado de cenário, mas as feridas ainda estavam abertas, sangrando desejo e rivalidade sob o céu estrelado de uma Barcelona que nunca perdoa quem ousa brincar com o coração alheio. O amor podia ser o objetivo, mas naquela teia de paixões, a sobrevivência emocional era o verdadeiro prêmio. E, como Samara bem sabia, em um jogo onde todos trapaceiam, ganha quem tem menos medo de se queimar.