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O amor certo?

O Feitiço do Novo Desejo

A luz da manhã de domingo em Barcelona era de um dourado cruel, revelando cada olheira e cada tensão acumulada na mansão. O café da manhã foi um exercício de tortura psicológica. Kauanny mantinha a mão possessivamente sobre o joelho de Marcelle, acreditando que a noite de entrega havia selado o compromisso entre as duas. Samara, por outro lado, apenas bebia seu suco de laranja com um olhar de quem guardava um segredo sujo, lançando piscadelas discretas para Marcelle sempre que Kauanny desviava a atenção.

Marcelle sentia-se um elástico esticado ao limite. O toque de Kauanny lhe dava segurança, mas o olhar de Samara a incendiava. Ela estava exausta de ser o troféu de uma guerra que não tinha vencedores.

Larissa, percebendo que o clima estava a um passo de uma explosão física, decidiu intervir. Ela pegou o celular e digitou rapidamente.

— Meninas, chega desse velório — anunciou Larissa, batendo palmas para dispersar a nuvem negra sobre a mesa. — Eu convidei uma amiga para passar o dia com a gente. Ela está vindo de carro e deve chegar em dez minutos. O nome dela é Raissa.

— Mais uma para essa bagunça? — resmungou Kauanny, sem soltar Marcelle.

— Raissa é leve, Kauanny. Exatamente o que a gente precisa — rebateu Larissa, lançando um olhar de aviso para Samara, que apenas deu de ombros.

Dez minutos depois, o som de uma buzina ecoou pelo pátio. Larissa correu para abrir a porta, e as outras três a seguiram com curiosidade contida. Quando a porta se abriu, o tempo pareceu desacelerar para Marcelle.

Raissa era baixa, com um sorriso que parecia carregar todo o sol da Espanha. Seus olhos eram expressivos e transmitiam uma autoconfiança que não precisava de arrogância para se destacar. Ela usava um short jeans desfiado e uma regata branca simples, mas havia algo em sua aura, uma leveza magnética, que fez o mundo ao redor de Marcelle emudecer.

— Oi, gente! — disse Raissa, a voz clara e melodiosa. — Espero que ainda tenha espaço para mais uma.

Larissa a abraçou, mas os olhos de Raissa encontraram os de Marcelle. Foi um choque elétrico diferente de tudo o que Marcelle sentira com Samara ou Kauanny. Não era a urgência do pecado, nem a carência do apego; era uma curiosidade avassaladora, uma conexão instantânea que fez Marcelle esquecer, em um segundo, o peso das mãos de Kauanny e as provocações de Samara.

— Prazer, eu sou a Raissa — disse ela, aproximando-se de Marcelle com uma naturalidade desconcertante.

— Marcelle — respondeu a mais nova, sentindo o rosto esquentar, mas desta vez, não era de vergonha. Era de puro encantamento.

Durante a tarde na piscina, o jogo mudou drasticamente. Samara tentou suas táticas usuais, desfilando com seu biquíni provocante, mas Marcelle mal a notava. Kauanny tentava puxar assunto sobre o futuro, mas Marcelle respondia com monossílabos, seus olhos sempre voltando para onde Raissa estava.

Raissa era magnética. Ela contava histórias, ria de forma contagiante e, acima de tudo, dava atenção a Marcelle de uma forma que a fazia se sentir a única pessoa no mundo, sem a pressão de ser "possuída" ou "protegida".

— Você é muito silenciosa, Celly — disse Raissa, sentando-se ao lado dela na borda da piscina, enquanto as outras estavam do outro lado. — O que passa nessa cabeça cheia de cachos?

— Muita coisa — confessou Marcelle, sentindo-se estranhamente à vontade. — Esse fim de semana tem sido... complicado.

— Às vezes a gente complica o que deveria ser simples — Raissa tocou suavemente o ombro de Marcelle. — A vida é curta demais para viver no meio de uma guerra que não é sua.

Aquele toque foi o fim para Marcelle. A obsessão por Samara e a dependência de Kauanny evaporaram, substituídas por uma vontade genuína de descobrir quem era aquela garota nova.

Enquanto o sol se punha, a tensão mudou de alvo. Kauanny e Samara, percebendo que haviam sido deixadas de lado pela primeira vez, assistiam de longe, unidas por um sentimento raro: a derrota mútua.

— Ela está ignorando a gente — sibilou Kauanny, observando Marcelle e Raissa rindo perto da churrasqueira. — Depois de tudo o que eu fiz por ela...

— E depois de tudo o que eu ensinei para ela — completou Samara, o ego ferido sangrando mais do que o coração. — Aquela baixinha chegou agora e já roubou a cena.

— É culpa sua, Samara — atacou Kauanny. — Se você não tivesse forçado a barra, ela ainda estaria comigo.

— Ah, poupe-me, Kauanny! — Samara virou-se para ela, os olhos brilhando de raiva. — Ela estava entediada com a sua melação. O problema é que ela descobriu que pode ter algo novo.

A discussão entre as duas subiu de tom, mas Marcelle não ouviu. Ela estava focada demais em Raissa, que agora a puxava pela mão em direção às escadas.

— Vamos subir? — sussurrou Raissa no ouvido de Marcelle. — Acho que o clima aqui embaixo está ficando pesado demais, e eu adoraria conhecer o seu quarto.

Marcelle assentiu, o coração batendo como um tambor. Elas subiram em silêncio, deixando para trás o rastro de fúria de Samara e Kauanny.

Dentro do quarto, a atmosfera mudou. Não havia a agressividade de Samara, nem a hesitação de Kauanny. Raissa aproximou-se de Marcelle e segurou seu rosto com as duas mãos, olhando-a nos olhos com uma sinceridade que desarmou qualquer defesa.

— Eu não quero que você pense em mais nada — disse Raissa. — Só em nós.

O beijo que se seguiu foi uma revelação. Era doce, mas carregado de uma promessa de descoberta. Raissa guiava Marcelle com uma delicadeza que a fazia sentir-se valorizada. Elas se deitaram na cama, e a exploração que se seguiu foi mútua e equilibrada.

Marcelle sentiu que, pela primeira vez, não estava sendo disputada como um objeto, mas amada como uma mulher. O sexo com Raissa foi fluido, cheio de risos baixos, carícias lentas e uma entrega que parecia curar as cicatrizes deixadas pelas brigas constantes do grupo. Naquele quarto, Marcelle encontrou a paz que Barcelona ainda não tinha lhe dado.

Lá embaixo, na sala de estar, a situação era o oposto. A raiva entre Samara e Kauanny havia atingido o ponto de ebulição. Elas estavam sozinhas; Larissa havia saído para buscar comida, tentando dar espaço para os conflitos se resolverem.

— Eu odeio você — disse Kauanny, aproximando-se de Samara com os punhos cerrados. — Você estragou tudo o que eu tinha com a Marcelle.

— Eu não estraguei nada, sua idiota! — gritou Samara, empurrando Kauanny contra o sofá. — Eu só mostrei a ela o que é desejo de verdade. Coisa que você, com essa sua cara de santa, nunca vai conseguir dar.

— Você é uma vadia egoísta! — Kauanny avançou, agarrando Samara pelos ombros.

Elas começaram a se atracar, um misto de empurrões e xingamentos. Mas, no meio da briga física, a proximidade dos corpos e o ódio compartilhado começaram a se transformar em algo mais sombrio e distorcido. A adrenalina da raiva é perigosamente próxima da adrenalina da luxúria.

Samara segurou o rosto de Kauanny com força, as unhas cravando-se na pele lisa da outra.

— Você me odeia tanto porque morre de vontade de ser como eu — provocou Samara, a respiração ofegante. — Você quer saber o que a Marcelle viu em mim, não quer?

— Cala a boca — murmurou Kauanny, mas seus olhos desceram para os lábios de Samara.

— Me cala — desafiou a mais velha.

Foi Kauanny quem quebrou a distância. Foi um beijo violento, um choque de dentes e línguas que carregava todo o ressentimento dos últimos meses. Elas se odiavam, mas naquele momento, o ódio era o único combustível que restava. Elas se pegaram ali mesmo, no tapete da sala, em meio a roupas rasgadas e gemidos de fúria.

O sexo entre Samara e Kauanny era uma batalha. Não havia doçura, apenas a necessidade de extravasar a frustração de terem sido trocadas. Era uma forma de vingança contra Marcelle, contra Raissa e contra elas mesmas. Samara dominava com sua safadeza habitual, enquanto Kauanny se perdia em uma agressividade que nunca soube que possuía.

— Isso... isso não muda nada — ofegou Kauanny, enquanto Samara a possuía com uma intensidade selvagem.

— Eu sei — sussurrou Samara, mordendo o ombro de Kauanny. — Mas é muito melhor do que chorar pelo que a gente perdeu.

Enquanto isso, no andar de cima, Marcelle e Raissa descansavam abraçadas, envoltas em um silêncio confortável. Marcelle olhava para o teto, sentindo-se finalmente livre. Ela sabia que, no dia seguinte, teria que lidar com as consequências daquela troca de lealdades, mas por enquanto, o calor de Raissa era o suficiente.

Larissa chegou pouco depois, encontrando a sala em um estado deplorável. Samara e Kauanny estavam em cantos opostos, vestindo-se em silêncio, sem se olharem, o clima de "ressaca moral" pairando sobre elas. Larissa olhou para as duas, depois para o andar de cima, e soltou um suspiro longo.

— Bom — disse Larissa, colocando as sacolas de comida sobre a mesa —, parece que todo mundo resolveu seus problemas do jeito mais complicado possível.

A noite em Barcelona terminava com uma nova configuração. Marcelle havia encontrado um novo caminho nos braços de Raissa, enquanto Samara e Kauanny haviam cruzado uma linha de ódio e desejo da qual talvez nunca pudessem retornar. A janela dos Hidalgo continuava ali, testemunha silenciosa de que, naquele grupo, o amor era apenas um detalhe em meio ao caos das paixões.