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O amor entre traição e romance

O Despertar Sob o Sol Carioca

A luz forte do sol do Rio de Janeiro atravessava as frestas da cortina de linho, iluminando a poeira que dançava no ar do quarto de hóspedes. S/n acordou com o som de uma batida abafada de música eletrônica vindo de algum lugar da casa e o grito de uma arara que parecia morar no jardim. Ela se espreguiçou, sentindo o corpo ainda pesado pelo sono, mas a mente disparou assim que as lembranças da noite anterior voltaram.

Antônio. O jeito que ele a olhou na varanda. O "prefiro a versão atual".

Ela se levantou e foi até o espelho. Seus cabelos ondulados castanhos escuros estavam volumosos e levemente bagunçados, o que lhe dava um ar selvagem que ela secretamente gostava. Vestiu um short jeans curto e uma regata branca leve, afinal, o calor daquela manhã de janeiro não estava para brincadeira.

Ao descer as escadas, o barulho de vozes na cozinha indicava que ela não era a única acordada.

— Eu estou falando, João! Se ela não responder em dez minutos, eu vou lá na casa dela — a voz de Ana Júlia ecoava, rápida e aguda como sempre.

S/n entrou na cozinha e deu de cara com a cena: João Pedro estava sentado na bancada comendo um sanduíche, enquanto Ana Júlia gesticulava freneticamente com o celular na mão. Antônio estava encostado na pia, bebendo café preto, usando apenas um short de tactel e sem camisa. A visão fez S/n travar por um milésimo de segundo. Ele tinha o físico de quem passava muito tempo na praia ou praticando esportes, mas o que mais chamava a atenção era a postura desleixada e confiante.

— Bom dia, flor do dia! — exclamou Ana Júlia, correndo para abraçar S/n como se fossem amigas de infância. — Dormiu bem? A cama é boa? O Antônio roncou muito no quarto do lado?

— Bom dia, Ana — S/n riu, tentando se desvencilhar suavemente. — Dormi super bem, obrigada. E não ouvi barulho nenhum.

— Milagre — comentou João Pedro, limpando a boca. — Geralmente o Antônio chega de madrugada fazendo um barulhão, mas ontem ele resolveu dar uma de santo.

Antônio deu um gole no café e lançou um olhar de soslaio para S/n, um sorriso de canto quase imperceptível surgindo em seus lábios.

— Estava cansado — disse ele, com a voz rouca de quem acabou de acordar. — E o Rio não perdoa quem não dorme.

— Sei bem o seu "cansado" — João Pedro provocou. — S/n, não se deixe enganar por essa cara de intelectual de varanda. Esse aí conhece cada centímetro do calçadão e metade das meninas de 15 anos da Barra da Tijuca.

S/n sentiu uma pontada estranha no estômago. Mulherengo. Ela já deveria imaginar. Um garoto com aquela aparência e aquele charme morando no Rio de Janeiro não passaria os fins de semana lendo poesia.

— O João adora exagerar — Antônio rebateu, colocando a xícara na pia e caminhando em direção a S/n. Ele parou a poucos centímetros dela, o suficiente para que ela sentisse o calor de sua pele. — Mas hoje o plano é diferente. A gente vai levar a S/n para conhecer a praia de verdade. Nada de lugar de turista.

— Isso! — Ana Júlia deu um pulinho. — Vamos para o Posto 9 ou para a Reserva?

— Reserva — decidiu Antônio, sem tirar os olhos de S/n. — É mais tranquilo. Menos gente incomodando.

— Por "gente incomodando", ele quer dizer as ex-ficantes dele que brotam do chão — cochichou Ana Júlia no ouvido de S/n, mas alto o suficiente para todos ouvirem.

O clima era leve, mas S/n percebia a dinâmica. João Pedro e Ana Júlia eram o casal perfeito, grudados e sintonizados. Já Antônio era o elemento imprevisível. Durante o café da manhã, o celular dele não parava de vibrar sobre a mesa. Notificações do Instagram, mensagens de WhatsApp com nomes de meninas que S/n não conhecia. Ele ignorava a maioria, mas de vez em quando digitava algo rápido com uma expressão de tédio.

— Vamos logo, gente! O sol não vai esperar a boa vontade do Antônio — apressou João Pedro.

Cerca de quarenta minutos depois, eles estavam no carro de João Pedro, que já tinha habilitação especial para menores ou simplesmente dirigia com a confiança de quem conhecia todos os atalhos. S/n foi no banco de trás com Antônio. O espaço era reduzido, e cada curva do carro fazia com que o ombro dele roçasse no dela.

— Você está muito quieta — comentou Antônio em voz baixa, enquanto João e Ana cantavam um hit de funk que tocava no rádio.

— Só estou observando — respondeu S/n, olhando pela janela para as palmeiras que passavam voando. — O Rio é lindo.

— É sim — ele concordou, mas ele não estava olhando para a paisagem. — Mas pode ser perigoso se você não souber onde pisa. Ou com quem anda.

— Você está me avisando de você mesmo? — S/n perguntou, virando o rosto para encará-lo, desafiadora.

Antônio soltou aquela risada baixa que já estava começando a se tornar o som favorito de S/n.

— Talvez. Eu tenho uma fama a zelar, não tenho? O João faz questão de espalhar meu currículo para todo mundo.

— Eu não julgo as pessoas pelo que os outros dizem — S/n disse com firmeza. — Prefiro tirar minhas próprias conclusões.

— Gostei disso — ele murmurou, aproximando-se um pouco mais. — Então, qual é a sua conclusão até agora?

S/n sentiu o coração bater na garganta. A audácia dele aos 15 anos era algo que ela nunca tinha visto em nenhum menino da sua escola.

— Minha conclusão é que você gosta muito de ser o centro das atenções — ela respondeu, tentando manter a calma. — Mas que, no fundo, está morrendo de curiosidade para saber o que eu penso, porque eu sou a única que não está caindo no seu papo de imediato.

Antônio ficou em silêncio por um momento, surpreso. João Pedro olhou pelo retrovisor e riu.

— Toma essa, Toninho! Essa menina é esperta, meu irmão. Melhor você baixar a bola.

A chegada à praia da Reserva foi um alívio para a tensão que se formava no carro. A areia era clara, o mar de um azul profundo e o vento trazia o cheiro de sal. Eles montaram o guarda-sol e estenderam as cangas. S/n tirou o short e a regata, revelando um biquíni verde-escuro que contrastava perfeitamente com sua pele e realçava suas curvas naturais.

Antônio, que estava distraído passando protetor solar, parou o movimento das mãos por um segundo ao vê-la. Ele rapidamente disfarçou, mas João Pedro percebeu e deu uma cotovelada no irmão.

— Cuidado para não babar, galã — brincou João.

— Cala a boca, João — resmungou Antônio, embora não parecesse realmente irritado.

Ana Júlia puxou S/n para a água.

— Amiga, você tem que tomar cuidado com o mar do Rio, ele puxa! — avisou Ana, enquanto mergulhava em uma onda pequena.

As duas ficaram conversando na beira d'água por um longo tempo. Ana Júlia contou sobre como conheceu João Pedro e como a família deles era unida, apesar da fama de "pegador" de Antônio.

— Ele não é má pessoa, sabe? — explicou Ana, ajeitando o biquíni. — Só que desde que ele fez 14 anos, parece que todas as meninas da zona oeste decidiram que ele é o troféu da vez. E ele, bom, ele aproveita. Mas nunca vi ele olhar para ninguém do jeito que ele olhou para você quando você desceu as escadas ontem.

— Você está imaginando coisas, Ana — S/n tentou desconversar, sentindo as bochechas queimarem.

— Eu sou mulher, S/n. Eu sinto o cheiro de interesse de longe. Só toma cuidado, porque o Antônio é como esse mar: parece calmo e bonito, mas se você não souber nadar, ele te leva para o fundo.

S/n guardou aquele conselho na mente enquanto voltavam para a areia. Ao longe, viu que um grupo de garotas se aproximara de onde os meninos estavam. Eram três meninas bronzeadas, usando biquínis minúsculos e rindo alto. Uma delas estava sentada na ponta da canga de Antônio, falando algo no ouvido dele enquanto passava a mão pelo ombro do rapaz.

S/n sentiu uma pontada de irritação que não deveria sentir. Ela mal o conhecia. Por que se importava?

— Ih, lá vem as "seguidoras" — bufou Ana Júlia. — Aquela de rosa é a Marcela. Ela corre atrás do Antônio desde o sexto ano.

Ao chegarem perto, a conversa parou por um momento. As meninas mediram S/n de cima a baixo com olhares críticos.

— Oi, Toninho, não vai apresentar sua amiga? — perguntou a tal Marcela, com um tom de voz meloso que fez S/n ter vontade de revirar os olhos.

Antônio, que parecia perfeitamente à vontade com a atenção, olhou para S/n e depois para Marcela.

— Essa é a S/n. Ela está passando uns dias lá em casa — disse ele, de forma casual.

— Ah, entendi. Hospedagem solidária? — Marcela riu, de um jeito que soou ofensivo. — Que fofo.

S/n deu um sorriso forçado, mas antes que pudesse responder, Antônio se levantou e parou ao lado dela.

— Na verdade, ela é convidada especial da minha mãe. E minha também — ele disse, com uma ênfase que calou a menina de rosa. — A gente estava indo dar um mergulho agora, né, S/n?

S/n ficou surpresa com a atitude dele.

— Estávamos? — ela perguntou.

— Estávamos — ele confirmou, pegando na mão dela. A pele dele estava quente e o toque enviou uma descarga elétrica pelo braço de S/n.

Ele a puxou em direção ao mar, deixando Marcela e suas amigas com caras de poucos amigos para trás. Quando estavam longe o suficiente para não serem ouvidos, S/n soltou a mão dele.

— Você me usou de escudo? — ela perguntou, cruzando os braços.

— Eu te salvei de uma conversa insuportável — ele corrigiu, parando onde a água batia nas canelas. — A Marcela não sabe a hora de parar.

— E você pareceu gostar da atenção até eu chegar — S/n provocou.

Antônio deu um passo para mais perto, o mar subindo e descendo ao redor deles.

— Eu gosto de atenção, S/n. Nunca escondi isso. Mas tem uma diferença enorme entre atenção e interesse. Aquelas meninas... eu já sei tudo o que elas vão dizer antes mesmo de abrirem a boca. É sempre o mesmo roteiro.

— E eu? — S/n perguntou, a voz quase sumindo com a proximidade dele. — Qual é o meu roteiro?

Antônio estendeu a mão e afastou uma mecha de cabelo ondulado que o vento jogara no rosto dela. Seus dedos roçaram na bochecha de S/n, e o olhar dele desceu por um segundo para os lábios dela antes de voltar para os olhos castanhos.

— Você não tem roteiro. Você é o imprevisto. E eu sempre fui péssimo em lidar com o que eu não consigo controlar.

O momento foi interrompido por um grito de João Pedro, chamando-os para comer um açaí em um quiosque próximo. Antônio suspirou, parecendo frustrado com a interrupção, mas sorriu.

— Vamos. Se a gente demorar, o João come a sua parte.

O resto do dia passou como um borrão de risadas, sol e a sensação constante de que algo estava mudando. S/n percebeu que, por trás da fachada de mulherengo e do estilo "garoto do Rio", Antônio tinha camadas que ele não mostrava para qualquer uma. Ele era inteligente, observador e tinha um senso de humor ácido que combinava com o dela.

Ao entardecer, eles voltaram para casa com a pele queimada de sol e a alma leve. João Pedro e Ana Júlia foram para a sala de cinema assistir a um filme, deixando S/n e Antônio sozinhos na cozinha enquanto preparavam um lanche rápido.

— Você vai sair hoje à noite? — S/n perguntou, tentando soar desinteressada enquanto cortava um pedaço de queijo.

Antônio estava encostado na geladeira, observando-a.

— Tinha uma festa no Joá. Alguns amigos me chamaram.

— Ah — S/n sentiu uma decepçãozinha. — Entendi. Divirta-se.

— Eu disse que tinha uma festa. Não disse que ia — ele falou, dando um passo em direção a ela.

— E você vai perder a chance de ver suas "seguidoras"? — ela brincou, mas havia um fundo de verdade na pergunta.

Antônio parou bem na frente dela, tirando a faca da mão dela e colocando-a sobre a tábua. Ele segurou a cintura de S/n com as duas mãos, puxando-a para perto. O coração de S/n disparou.

— Eu acho que já tive sol e barulho o suficiente por hoje — ele sussurrou, a voz vibrando perto do ouvido dela. — E, para ser sincero, prefiro mil vezes ficar aqui e descobrir qual vai ser o próximo capítulo da "menina dos cabelos de onda".

S/n olhou para cima, encontrando aqueles olhos intensos. Aos 15 anos, ela sabia que deveria ter cautela, que ele era o garoto que todas queriam e que ela era apenas a hóspede passageira. Mas, naquele momento, sob a luz suave da cozinha e com o cheiro de mar ainda impregnado neles, a cautela parecia a coisa mais chata do mundo.

— Você é um perigo, Antônio — ela murmurou.

— Eu sei — ele sorriu, aproximando o rosto do dela. — Mas você não parece ser do tipo que tem medo de perigo.

E, antes que ela pudesse responder, ele selou a distância entre os dois em um beijo que tinha gosto de sal, sol e de um Rio de Janeiro que S/n estava apenas começando a descobrir. Era o início de três semanas que, ela agora tinha certeza, mudariam tudo.