Voltar ao resumo

O amor entre traição e romance

Entre Ondas e Segredos

O silêncio da cozinha foi preenchido apenas pelo som da respiração descompassada de S/n. O beijo de Antônio não era como os beijos dos meninos de sua escola; havia uma urgência contida, uma mistura de confiança carioca com uma curiosidade genuína que a pegou totalmente desprevenida. Quando eles finalmente se afastaram, apenas alguns centímetros, Antônio manteve as mãos firmes na cintura dela, os polegares traçando círculos leves sobre o tecido da sua regata.

— É — sussurrou ele, com um brilho vitorioso nos olhos —, eu estava certo. Você definitivamente não tem um roteiro.

S/n sentiu o rosto arder, mas não desviou o olhar. Ela passou as mãos pelos ombros nus dele, sentindo o calor da pele ainda salgada do mar.

— Não se ache tanto, Antônio. Foi só um beijo.

— Foi só "o" beijo — ele corrigiu, com aquele sorriso de canto que parecia ser sua marca registrada. — E agora eu realmente não tenho a menor vontade de ir para aquela festa no Joá.

Antes que a conversa pudesse se aprofundar, o som de passos rápidos e risadas veio do corredor. João Pedro e Ana Júlia estavam voltando da sala de cinema, provavelmente em busca de pipoca ou refrigerante. S/n e Antônio se afastaram rapidamente, fingindo uma naturalidade que nenhum dos dois sentia. S/n voltou a pegar a faca e o queijo, enquanto Antônio abriu a geladeira e começou a encarar uma jarra de suco como se fosse a coisa mais interessante do mundo.

— Ih, o clima está estranho aqui — disparou Ana Júlia, aparecendo na porta com o cabelo loiro bagunçado e um sorriso malicioso. — O que vocês dois estavam aprontando enquanto a gente via o filme?

— Nada, Ana. Só decidindo o que comer — Antônio respondeu, sem se virar, sua voz recuperando o tom casual de sempre.

— Sei... — João Pedro entrou logo atrás dela, pegando uma maçã na fruteira. — Antônio está muito quieto. Isso geralmente significa que ele está tramando algo ou que finalmente encontrou alguém que não cai no papo dele de primeira.

S/n sentiu o coração bater forte na base do pescoço. Ela não queria ser o centro das atenções, especialmente não por causa de um envolvimento com o "mulherengo" da casa.

— Eu vou levar meu sanduíche lá para cima — disse ela, montando rapidamente um prato. — O sol me deixou exausta, acho que vou desmaiar na cama.

— Ah, não! — protestou Ana Júlia. — A gente ia chamar vocês para jogar cartas! O João perde sempre e eu preciso de alguém para ganhar de mim.

— Deixa ela descansar, Ana — Antônio interveio, finalmente se virando. Ele olhou para S/n, e por um segundo, a máscara de desinteresse caiu, revelando uma cumplicidade silenciosa. — Amanhã o dia vai ser longo. Pensei em levar ela para ver o pôr do sol no Arpoador.

— O Arpoador no domingo? — João Pedro fez uma careta. — Vai estar lotado de gente, Toninho.

— Eu conheço um lugar onde ninguém vai — Antônio respondeu, mantendo o olhar fixo em S/n. — Se ela quiser ir, claro.

S/n engoliu em seco.

— Eu... eu aceito. Boa noite, gente.

Ela subiu as escadas quase correndo, sentindo os olhos de Antônio queimarem em suas costas até que ela virasse o corredor. Ao fechar a porta do quarto, ela se encostou nela e soltou o ar que nem sabia que estava segurando. Três semanas. Ela estava ali há menos de quarenta e oito horas e já sentia que sua vida em São Paulo pertencia a outra pessoa.

A noite passou devagar. S/n rolava de um lado para o outro na cama larga, o som do ar-condicionado era o único ruído no quarto, mas sua mente estava barulhenta. Ela pensava na mãe, na Lúcia, e no fato de que Antônio era exatamente o tipo de problema que sua mãe a avisaria para evitar. Ele era charmoso demais, bonito demais e parecia saber exatamente o que dizer para desarmar qualquer defesa.

Perto das duas da manhã, ela ouviu um barulho abafado vindo da varanda que conectava o quarto de hóspedes ao quarto de Antônio. Curiosa, ela se levantou e abriu a porta de vidro silenciosamente.

Lá estava ele, sentado no parapeito, olhando para as luzes da cidade ao longe. Ele não estava de camisa, apenas com uma calça de moletom cinza, e segurava um violão que S/n ainda não tinha visto. Ele dedilhava algumas notas melancólicas, um contraste absoluto com o funk animado que ele ouvia no carro mais cedo.

— Você não disse que ia dormir? — perguntou ele, sem se virar, como se tivesse sentido a presença dela pelo perfume.

— O sono não veio — S/n se aproximou, abraçando o próprio corpo para se proteger da brisa fresca da madrugada. — Você toca?

— Um pouco. É o meu jeito de desligar o mundo. No Rio, tudo é muito alto, muito rápido. Aqui — ele tocou um acorde suave —, eu consigo ouvir o que eu realmente estou pensando.

S/n sentou-se na cadeira de vime ao lado dele.

— E o que você está pensando agora?

Antônio parou de tocar e olhou para ela. A luz da lua refletia em seus olhos claros, tornando-os quase prateados.

— Estou pensando que minha mãe vai me matar se eu estragar as coisas com você — ele confessou, com uma honestidade que a pegou de surpresa. — Ela gosta muito da sua família. E eu tenho essa... fama.

— Você se importa com a sua fama? — perguntou S/n, observando os dedos longos dele sobre as cordas do violão.

— Eu nunca me importei. Até ontem. — Ele deixou o violão de lado e se inclinou na direção dela. — Geralmente, as meninas que eu conheço querem o "Antônio do Rio". O cara que conhece todo mundo, que vai em todas as festas, que não se apega. Mas com você, S/n... eu sinto que tenho que mostrar o Antônio que ninguém vê.

S/n sentiu um frio na barriga.

— E por que eu sou diferente?

— Porque você me olha como se pudesse ver através de mim. E isso me assusta um pouco. Mas também é a coisa mais excitante que me aconteceu em muito tempo.

Eles ficaram ali, no silêncio da madrugada carioca, compartilhando segredos que não caberiam sob a luz do sol. Antônio contou sobre a pressão de ser o "gênio" que a mãe esperava, sobre como ele se escondia atrás da imagem de mulherengo para não ter que lidar com sentimentos reais. S/n, por sua vez, falou sobre como se sentia deslocada às vezes, como se estivesse sempre observando a vida através de uma lente de câmera em vez de vivê-la.

— Amanhã — disse Antônio, pegando a mão de S/n e beijando a ponta de seus dedos —, eu vou te mostrar o meu Rio. Sem filtros. Sem João, sem Ana, sem Marcelas. Só a gente.

O dia seguinte amanheceu com um céu azul sem nuvens. O calor já era intenso às nove da manhã. João Pedro e Ana Júlia tinham planos de ir a um churrasco na casa de uns amigos da escola, mas Antônio recusou o convite antes mesmo que João terminasse de falar.

— A gente vai sair — anunciou Antônio, enquanto ajudava S/n a colocar algumas coisas em uma mochila.

— O casalzinho vai para onde? — João Pedro provocou, enquanto passava protetor solar no nariz de Ana Júlia.

— Para onde o vento levar, João. Não enche — Antônio respondeu, pegando as chaves do carro.

Eles saíram da mansão em silêncio, mas era um silêncio carregado de expectativa. Antônio dirigiu com habilidade pelas ruas da Barra, entrando em direção ao Jardim Botânico e depois subindo as ladeiras de Santa Teresa. S/n olhava tudo maravilhada. O Rio que Antônio estava mostrando era histórico, boêmio, cheio de cores e texturas.

— Achei que íamos para a praia — comentou ela, enquanto caminhavam pelas ruas de paralelepípedo.

— Praia é para iniciantes — brincou ele. — Eu queria que você visse isso aqui primeiro.

Eles almoçaram em um restaurante pequeno, escondido atrás de uma cortina de trepadeiras, onde a comida tinha gosto de tempero caseiro e o som ambiente era apenas o canto dos pássaros. Antônio agia de forma diferente longe dos amigos. Ele não estava tentando impressionar ninguém, não estava fazendo pose. Ele apenas era ele mesmo: um garoto de 15 anos inteligente, um pouco sarcástico e visivelmente encantado pela menina ao seu lado.

— Sabe, S/n — começou ele, enquanto dividiam uma sobremesa —, eu passei o ano inteiro achando que essas três semanas seriam um tédio total. Achei que teria que ser a babá da "filha da amiga da minha mãe".

— E agora? — S/n perguntou, sorrindo.

— Agora eu estou contando os minutos para o sol se pôr, porque eu sei que cada segundo que passa é um segundo a menos que eu tenho com você.

O pôr do sol no Arpoador foi exatamente como Antônio prometera. No entanto, em vez de ficarem na pedra principal com a multidão que batia palmas para o sol, ele a levou por uma trilha lateral, entre as rochas, até um ponto onde o mar batia com força e a vista era desobstruída.

Eles se sentaram na pedra quente, observando o céu se transformar em uma paleta de laranjas, rosas e roxos.

— É a coisa mais linda que eu já vi — sussurrou S/n.

Antônio não estava olhando para o horizonte. Ele estava olhando para ela, para o modo como o vento bagunçava seus cabelos ondulados e como a luz dourada refletia em seus olhos castanhos.

— Eu concordo — disse ele, a voz baixa e rouca.

Ele se aproximou e a beijou novamente, mas desta vez foi diferente. Não havia a urgência da noite anterior; era um beijo lento, carregado com a promessa de algo que estava apenas começando. S/n sentiu que poderia ficar ali para sempre, protegida pelo som das ondas e pelo abraço de Antônio.

No entanto, o mundo real sempre encontrava um jeito de interferir. O celular de Antônio começou a vibrar incessantemente no bolso. Ele tentou ignorar, mas a insistência era tanta que ele acabou pegando o aparelho.

— Que merda... — resmungou ele, olhando para a tela.

— O que foi? — S/n perguntou, preocupada.

— É a Ana Júlia. Ela disse que a Marcela e o grupo dela apareceram no churrasco e estão vindo para cá. Alguém postou um story nosso em Santa Teresa e elas deduziram que viríamos para o Arpoador.

S/n sentiu uma onda de desconforto.

— Elas são persistentes, hein?

— Elas são um pesadelo — Antônio se levantou, estendendo a mão para ajudá-la. — Vem, vamos sair daqui antes que elas nos encontrem. Eu não quero estragar o meu dia perfeito com dramas de adolescentes mimadas.

Eles desceram as pedras rapidamente, mas ao chegarem perto do calçadão, deram de cara com o que Antônio queria evitar. Marcela e mais duas meninas estavam paradas perto do carro dele, como se estivessem de guarda.

— Ora, ora, se não é o fugitivo — disse Marcela, cruzando os braços. Ela usava um vestido curto que parecia deslocado para uma caminhada nas pedras. — Você sumiu o dia todo, Antônio. Seus amigos sentiram sua falta no churrasco.

Antônio nem diminuiu o passo. Ele segurou a mão de S/n com firmeza e continuou andando.

— Eu estava ocupado, Marcela. Com alguém que realmente vale o meu tempo.

O rosto de Marcela ficou vermelho de raiva. Ela olhou para S/n com um veneno puro nos olhos.

— Você acha que é especial, garota? Ele faz isso com todas. Ele te leva para os lugares "secretos", toca violão, faz o tipo misterioso... e na semana que vem, você vai ser só mais uma história que o João Pedro vai contar rindo.

S/n sentiu um aperto no coração. Ela sabia que Antônio tinha fama, mas ouvir aquilo de forma tão crua doeu mais do que ela esperava. Ela olhou para Antônio, esperando uma reação, mas ele parecia focado apenas em abrir a porta do carro para ela.

— Entra, S/n — disse ele, com o maxilar travado.

Assim que deram partida, o silêncio no carro era pesado. S/n olhava para fora, sentindo a insegurança começar a rastejar por sua mente.

— Você não vai dizer nada? — perguntou ela, finalmente.

— O que você quer que eu diga? Que a Marcela é uma louca ressentida? Isso você já sabe.

— Quero saber se o que ela disse é verdade. Eu sou só o "projeto" dessas três semanas?

Antônio freou o carro bruscamente no acostamento de uma rua mais calma e se virou para ela, os olhos brilhando de frustração.

— S/n, olha para mim. Eu já saí com muita gente, não vou mentir. Mas eu nunca, em toda a minha vida, levei ninguém para aquele lugar na varanda. Eu nunca toquei violão para ninguém depois de meia-noite. E eu nunca me senti tão idiota e vulnerável quanto me sinto quando você me olha.

Ele passou a mão pelo rosto, parecendo exausto.

— A Marcela quer te machucar porque ela sabe que você conseguiu em dois dias o que ela não conseguiu em três anos: você me fez querer ser alguém melhor.

S/n sentiu as lágrimas ameaçarem cair, mas elas não eram de tristeza. Eram de alívio. Ela se inclinou e tocou o rosto dele, forçando-o a olhá-la.

— Eu não quero que você seja outra pessoa, Antônio. Eu só quero que você seja o Antônio que estava comigo naquelas pedras agora pouco.

— Esse Antônio é só seu — prometeu ele.

Eles voltaram para casa de mãos dadas, mas o clima na mansão estava agitado. Lúcia tinha ligado avisando que as reuniões estavam indo bem e que talvez voltassem alguns dias antes. O tempo, que já parecia curto, agora parecia voar.

Ao entrarem na sala, encontraram João Pedro e Ana Júlia jogados no sofá, cercados por embalagens de pizza.

— Finalmente! — exclamou João. — A Marcela ligou para a Ana furiosa. O que você fez com a menina, Toninho?

— Eu só disse a verdade — Antônio respondeu, passando direto por eles e puxando S/n para a escada. — E a partir de agora, a verdade é a única coisa que importa aqui.

Naquela noite, S/n não dormiu sozinha no quarto de hóspedes. Eles ficaram na varanda até o sol começar a dar os primeiros sinais de vida, conversando sobre tudo e sobre nada. S/n percebeu que, no Rio de Janeiro, as ondas levam muita coisa embora, mas também trazem tesouros inesperados para a areia. E Antônio, com todo o seu jeito complicado e sua fama de mulherengo, era o tesouro que ela nunca soube que estava procurando.

As três semanas ainda estavam na metade, mas para S/n, o tempo já não era medido em dias, mas em batidas de coração. E cada uma delas agora tinha um nome: Antônio.