O amor entre traição e romance
O Brilho das Estrelas e o Gosto do Adeus
A metade da segunda semana chegou com um calor que parecia derreter o asfalto da Barra da Tijuca, mas dentro da mansão, o clima era uma mistura estranha de euforia e melancolia antecipada. S/n estava sentada na beira da piscina, com as pernas mergulhadas na água gelada, observando o reflexo dos seus cabelos ondulados castanhos escuros na superfície azul. Ela segurava uma câmera analógica que Antônio lhe emprestara naquela manhã.
— Você tem um olho bom para os detalhes — a voz de Antônio surgiu atrás dela, acompanhada pelo som característico de seus passos descalços no piso de pedra.
S/n se virou e o viu segurando dois copos de suco de maracujá bem gelados. Ele estava apenas de bermuda, e o sol do meio-dia destacava cada traço de seu rosto, que parecia ter sido esculpido com cuidado.
— Eu gosto de capturar o que as pessoas normalmente ignoram — respondeu ela, aceitando o copo. — Tipo o jeito que a luz bate naquela palmeira ou a expressão do João Pedro quando a Ana Júlia ganha dele no videogame.
Antônio sentou-se ao lado dela, os ombros quase se tocando.
— E o que você capturou de mim hoje? — perguntou ele, com aquele sorriso de canto que sempre fazia o estômago de S/n dar piruetas.
— De você? — S/n riu, ajustando o foco da lente apenas para provocá-lo. — Capturei o momento em que você achou que ninguém estava olhando e tentou tirar uma selfie com o gato da vizinha.
Antônio soltou uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás.
— Aquele gato é um mal-humorado, eu só queria fazer amizade! — Ele recuperou o fôlego e seu olhar se tornou mais sério, mais profundo. — S/n, minha mãe ligou de novo. Elas anteciparam o voo. Voltam em quatro dias.
O coração de S/n deu um solavanco. Quatro dias. O tempo, que antes parecia uma eternidade de três semanas, agora escorria entre seus dedos como areia fina.
— Quatro dias — repetiu ela, baixando a câmera. — Parece que foi ontem que eu cheguei aqui e achei que você era um playboy arrogante e insuportável.
— E agora? O que eu sou? — Antônio se inclinou para mais perto, o cheiro de protetor solar e mar tomando conta dos sentidos dela.
— Agora você é o cara que toca violão de madrugada e que me faz querer ficar no Rio para sempre — confessou ela, a voz quase um sussurro.
— Ei, pombinhos! — O grito de João Pedro veio da varanda, quebrando o momento. — A Ana está trazendo as amigas dela para um churrasco de "despedida antecipada". Antônio, trata de colocar uma camisa, ninguém quer ver esse seu abdômen de academia hoje.
Antônio revirou os olhos, mas não se afastou de S/n.
— O João não perde uma oportunidade de estragar o clima. Mas ele tem razão sobre uma coisa: a Ana vai trazer metade do Rio de Janeiro para cá hoje. Você está pronta para lidar com as "outras meninas" de novo?
S/n respirou fundo, lembrando-se do encontro com Marcela no Arpoador.
— Desde que você não solte a minha mão, eu lido com qualquer uma.
— Eu não pretendo soltar nunca mais — disse ele, dando um beijo rápido e casto na testa dela antes de se levantar.
O churrasco começou por volta das quatro da tarde. A casa, que costumava ser um refúgio silencioso para os dois, transformou-se em um formigueiro de adolescentes de quinze e dezesseis anos. Música alta, o cheiro de carne na brasa e o som de mergulhos constantes na piscina preenchiam o ar.
Ana Júlia estava em seu elemento, saltitando de um lado para o outro, apresentando S/n para todos.
— Gente, essa é a S/n! Ela é de São Paulo, mas a gente já batizou ela como carioca honorária — exclamava Ana, puxando S/n pelo braço. — S/n, essa é a Bia, a Carol e a Duda. Elas estudam com a gente.
As meninas eram simpáticas, muito diferentes do grupo de Marcela. Elas faziam perguntas sobre a vida em São Paulo e elogiavam o cabelo de S/n, mas os olhos de todas elas, invariavelmente, desviavam para onde Antônio estava. Ele estava encostado na churrasqueira, conversando com João Pedro e alguns amigos, mas seu olhar cruzava o espaço da piscina a cada cinco minutos para encontrar o de S/n.
— O Antônio está muito mudado — comentou Bia, uma menina loira de olhos puxados, enquanto observava a cena. — Geralmente, em festas assim, ele estaria no meio de cinco meninas, contando piadas e sendo o centro das atenções. Hoje ele parece... em outro planeta.
— O planeta se chama S/n — brincou Ana Júlia, dando uma cotovelada amigável em S/n.
— Ele é sempre assim? — perguntou S/n, tentando disfarçar a curiosidade. — Digo, tão disputado?
— Você não tem ideia — respondeu Carol, rindo. — O Antônio é o tipo de garoto que não precisa fazer esforço. Mas ele também nunca foi de levar ninguém a sério. Por isso que todo mundo está chocado. Ele olha para você como se você fosse a única pessoa na festa.
S/n sentiu um misto de orgulho e medo. Era bom ser a "única", mas a pressão de ser a garota que mudou o mulherengo do Rio era pesada.
Conforme a noite caía e as luzes da piscina eram acesas, o clima da festa mudou para algo mais relaxado. Antônio finalmente conseguiu se livrar dos amigos e caminhou até S/n, que estava sentada em uma das espreguiçadeiras afastadas.
— Cansada da agitação? — perguntou ele, sentando-se no chão, entre as pernas dela.
— Um pouco. É muita informação para uma paulista acostumada com o silêncio do quarto — ela brincou, passando os dedos pelos cabelos loiros dele, que estavam úmidos.
— Eu tenho uma ideia — disse ele, levantando-se e estendendo a mão. — Vamos sair daqui.
— Antônio, a festa é na sua casa! O João vai nos matar.
— O João está ocupado demais tentando convencer a Ana Júlia de que ele sabe dançar passinho. Ninguém vai notar.
Eles saíram sorrateiramente pelos fundos, pegando as bicicletas que ficavam na garagem. Pedalaram pelas ruas arborizadas do condomínio até chegarem a uma pequena praça que dava vista para a lagoa. O reflexo das luzes dos prédios na água criava um cenário mágico.
Eles pararam e sentaram no banco de madeira, o som da festa agora apenas um eco distante.
— Por que me trouxe aqui? — perguntou S/n.
— Porque eu queria te dar algo antes que nossas mães cheguem e a realidade nos atropele — ele enfiou a mão no bolso da bermuda e tirou uma pequena caixinha de veludo preto.
S/n arregalou os olhos.
— Antônio, o que é isso?
— Calma, não é um pedido de casamento — ele riu, mas suas mãos tremiam levemente. — É só uma lembrança. Abra.
Dentro da caixa, havia um colar de prata com um pequeno pingente em formato de onda.
— Para a menina dos cabelos de onda — disse ele, a voz carregada de emoção. — Para você nunca esquecer que, não importa o quão longe você esteja, o Rio e eu sempre vamos estar esperando por você.
S/n sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. Ela se inclinou e o abraçou com força, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Eu não vou esquecer, Antônio. Eu nunca poderia esquecer essas semanas.
Eles ficaram ali por muito tempo, trocando promessas que adolescentes fazem quando sentem que o mundo é pequeno demais para o amor que carregam. Antônio falou sobre visitá-la em São Paulo, sobre passarem o Carnaval juntos, sobre como ele mudaria seu status de "mulherengo" para "completamente apaixonado" em todas as redes sociais se ela quisesse.
— Eu não preciso que você prove nada para os outros — disse S/n, afastando-se para olhá-lo nos olhos. — Só preciso que você seja verdadeiro comigo.
— Eu sou — ele afirmou, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Você me desarmou, S/n. Eu não sei mais como ser aquele cara de antes. E, sinceramente? Eu nem quero mais ser ele.
Quando voltaram para a mansão, a festa já estava terminando. João Pedro os encontrou na entrada, com uma expressão de "eu sei o que vocês fizeram".
— Onde vocês se meteram? A Ana quase chamou a polícia achando que a Marcela tinha sequestrado vocês — brincou João.
— Estávamos apenas respirando, João — respondeu Antônio, sem soltar a mão de S/n.
— Sei... o "ar" de vocês é bem específico, né? — João riu e depois ficou sério. — Escutem, a mamãe mandou mensagem. Elas chegam amanhã à noite, não mais em quatro dias. O voo foi antecipado de novo.
O silêncio caiu sobre os três. A notícia foi como um balde de água fria. O tempo não estava apenas acabando; ele tinha acabado de ser cortado pela metade.
S/n olhou para Antônio, e viu nele a mesma dor que sentia. O paraíso sob o mesmo teto estava chegando ao fim.
— Amanhã? — perguntou S/n, a voz falhando.
— É, amanhã — confirmou João, parecendo genuinamente triste pelo irmão. — É melhor vocês aproveitarem as últimas horas.
Aquela última noite foi passada em claro. Eles não dormiram. Ficaram no quarto de S/n, cercados pelas malas meio prontas, conversando sobre tudo o que ainda queriam fazer. Antônio mostrou a ela músicas novas, e S/n tirou as últimas fotos do rolo de filme, capturando a expressão de sono e adoração no rosto dele.
Quando o sol começou a nascer no horizonte, pintando o céu do Rio com tons de fogo, eles estavam na varanda, assistindo ao espetáculo pela última vez naquela rotina.
— Eu não quero ir embora — admitiu S/n, encostando a cabeça no ombro de Antônio.
— Você não vai embora de verdade — disse ele, apertando-a mais contra si. — Você está levando uma parte de mim com você. E está deixando uma parte sua aqui.
O dia passou como um borrão. A chegada das mães foi barulhenta e cheia de abraços. Lúcia e a mãe de S/n estavam radiantes com o sucesso da viagem, sem notar imediatamente a tensão melancólica entre os jovens.
— E então, como foi? — perguntou a mãe de S/n, enquanto terminava de fechar a última mala da filha. — Os meninos se comportaram? O Antônio não deu muito trabalho com as festas dele?
S/n olhou para Antônio, que estava parado na porta do quarto, observando a cena com uma tristeza contida.
— Ele foi o melhor anfitrião que eu poderia ter, mãe — respondeu S/n, com um sorriso triste. — Ele me mostrou um lado do Rio que eu nunca imaginei conhecer.
Lúcia abraçou o filho, orgulhosa.
— Eu sabia que vocês se dariam bem! O Antônio tem um coração de ouro, apesar da fama de malandro.
A despedida no portão da mansão foi a parte mais difícil. João Pedro deu um abraço apertado em S/n, prometendo que a visitaria com a Ana Júlia em breve. Ana Júlia chorou, fazendo S/n prometer que ligaria todos os dias.
Por fim, sobraram apenas S/n e Antônio, enquanto as mães já se acomodavam no carro.
— Isso não é um adeus — disse Antônio, a voz firme, embora seus olhos estivessem úmidos.
— É um "até logo" — completou S/n, tocando o colar de onda em seu pescoço.
— Eu vou te ligar assim que você pousar. E vou te mandar uma música nova toda manhã.
— Eu vou cobrar, Antônio.
Ele a puxou para um último beijo, ignorando o olhar curioso das mães no carro e dos vizinhos que passavam. Foi um beijo que carregava toda a intensidade das últimas três semanas, toda a descoberta e a promessa de um futuro que eles teriam que construir à distância.
— Eu te amo, garota de São Paulo — sussurrou ele contra os lábios dela.
— Eu te amo, garoto do Rio — respondeu ela.
S/n entrou no carro e, enquanto o veículo se afastava pelos portões automáticos, ela olhou pelo vidro traseiro. Antônio continuou parado ali, no meio da calçada, diminuindo conforme a distância aumentava, até se tornar apenas um ponto no horizonte carioca.
Ela abriu a câmera analógica, retirou o filme e o guardou com cuidado na bolsa. Aquelas fotos eram o seu tesouro. Mas, mais do que as imagens, ela levava consigo a certeza de que aquelas três semanas sob o mesmo teto tinham sido apenas o prólogo de uma história muito maior.
O Rio de Janeiro continuaria lá, com suas ondas e seu sol, mas S/n sabia que nunca mais olharia para o mar da mesma forma. Porque agora, em cada onda, ela ouviria a voz de Antônio e sentiria o gosto doce e salgado do amor de verão que se recusava a terminar.