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O amor no meio das sombras

O Crepúsculo das Escolhas

A partida de Gellert deixou o apartamento mergulhado em um silêncio ensurdecedor, quebrado apenas pelo tique-taque rítmico do relógio de parede. Clara permanecia imóvel entre os lençóis de cetim, a pele ainda formigando com o calor do toque dele. O cheiro de sândalo e ozônio parecia ter se impregnado nas paredes, na mobília, em seus próprios poros. Ela se sentia como se tivesse sido atravessada por um raio: destruída e, ao mesmo tempo, estranhamente iluminada.

Lentamente, ela se levantou. Cada músculo de seu corpo protestava com uma lembrança doce da intensidade de Grindelwald. Ela caminhou até a janela e observou a luz pálida da manhã londrina. As pessoas lá embaixo, trouxas e bruxos disfarçados, seguiam suas vidas sem ter a menor ideia de que o homem que pretendia virar o mundo do avesso estivera ali, vulnerável e voraz, em seu quarto.

— O que eu fiz? — sussurrou ela para o vidro embaçado.

Mas não havia arrependimento em sua voz, apenas uma constatação assustada. Ela olhou para a mesa lateral onde sua varinha repousava ao lado de uma pequena fotografia mágica. Na imagem, Newt Scamander sorria timidamente enquanto tentava impedir que um Pelúcio escapasse de seu casaco. O contraste era doloroso. Newt era a luz suave, a bondade pura, o cuidado com o que era frágil. Gellert era o incêndio, o poder bruto, a ambição que não conhecia limites.

Um som metálico vindo da cozinha a despertou de seus pensamentos. Clara pegou a varinha e caminhou cautelosamente. Não era um invasor, mas sim uma coruja-das-torres, cinzenta e majestosa, que bicava impacientemente o vidro da janela da cozinha. Presa à sua pata, havia uma carta com o selo oficial do Ministério da Magia Britânico.

Com o coração na garganta, ela abriu a janela e pegou o envelope.

"Clara, Preciso que me encontre no pub Cabeça de Javali, em Hogsmeade, ao cair da tarde. As coisas em Paris saíram do controle. Newt está lá, e temo que ele esteja em perigo maior do que imagina. Grindelwald escapou e está reunindo seguidores. Não confie em ninguém. Alvo Dumbledore."

Clara apertou o pergaminho contra o peito. Dumbledore. O único homem que Gellert parecia respeitar e, talvez, o único que ele realmente temia. Se Dumbledore a estava chamando, era porque sabia de sua proximidade com Newt... ou talvez soubesse mais do que deveria sobre sua ligação com "Percival Graves".

Ela passou o dia em um estado de transe funcional. Lavou-se, vestiu um conjunto de viagem resistente e preparou uma pequena bolsa com feitiço de extensão indetectável. Em seu íntimo, uma batalha travava-se entre a lealdade ao amigo de infância e a paixão avassaladora pelo homem que o mundo chamava de monstro.

Ao entardecer, ela aparatou nos limites de Hogsmeade. O vilarejo estava envolto em uma névoa fria, e o Cabeça de Javali parecia ainda mais sombrio do que o habitual. Ao entrar, o cheiro de serragem e cabras a atingiu. No fundo do pub, em uma mesa mal iluminada, Alvo Dumbledore a esperava, observando o fundo de uma caneca de cerveja amanteigada com uma expressão melancólica.

— Você veio — disse Dumbledore, fazendo um gesto para que ela se sentasse. — Fico feliz que a lealdade a Newt ainda fale alto em seu coração, Clara.

— Eu faria qualquer coisa pelo Newt, Alvo. Você sabe disso — respondeu ela, sentando-se à frente dele. — Mas por que me chamar? Eu não sou uma Aurora. Sou apenas uma pesquisadora de história mágica.

Dumbledore ergueu os olhos azuis, penetrantes e carregados de uma sabedoria que parecia ver através de todas as suas defesas.

— Gellert Grindelwald não busca soldados, ele busca símbolos — começou ele, a voz baixa e calma. — Ele busca pessoas que possam validar sua visão de um mundo melhor. Ele é mestre em encontrar a solidão nos outros e preenchê-la com propósito... ou com algo que pareça amor.

Clara sentiu o sangue fugir de seu rosto. Ela desviou o olhar, incapaz de sustentar o escrutínio do professor.

— Ele esteve com você, não esteve? — perguntou Dumbledore, sem tom de julgamento, apenas com uma profunda tristeza.

— Eu não sei do que você está falando — mentiu ela, a voz falhando.

— Não precisa mentir para mim, Clara. Eu conheço o perfume dele. Ele deixa um rastro de eletricidade e ambição por onde passa. E você... você brilha com essa mesma energia agora.

— Ele me tratou bem em Nova York — explodiu ela em um sussurro fervoroso. — Enquanto todos me viam apenas como a sombra de Newt, ele me ouvia. Ele via meu potencial. Ele não é apenas o que os jornais dizem, Alvo.

— Ele é exatamente o que os jornais dizem — rebateu Dumbledore com firmeza. — E ele é também o homem charmoso que você conheceu. É isso que o torna tão perigoso. Ele não precisa de Maldições Imperdoáveis para controlar alguém. Ele usa a verdade distorcida.

— O que você quer de mim? — perguntou ela, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos.

— Newt está indo para Paris para encontrar Credence Barebone. Gellert também está indo para lá. Ele vai realizar um comício no cemitério Père Lachaise. Ele vai tentar atrair todos os que estão desiludidos com o nosso mundo.

— E você quer que eu o impeça? — Clara soltou uma risada amarga. — Eu não tenho esse poder. Ninguém tem.

— Eu quero que você proteja o Newt — disse Dumbledore, inclinando-se para frente. — Gellert sabe que Newt é seu ponto fraco, mas Newt também é a única coisa que mantém você ligada à sua humanidade. Se você se entregar totalmente a Grindelwald, a Clara que eu conheço, a mulher que cuidava de filhotes de Occamy feridos, morrerá.

Clara levantou-se bruscamente, a cadeira arrastando-se no chão de pedra.

— Eu vou para Paris. Mas não vou por você, Alvo. Vou pelo Newt.

Ela saiu do pub sem olhar para trás, sentindo o peso da responsabilidade esmagar seus ombros. A noite em Paris estava vibrante, mas havia uma tensão elétrica no ar, como se a cidade estivesse prendendo a respiração. Clara seguiu os rumores, os sussurros entre os bruxos locais, até encontrar o rastro de Newt perto do Ministério da Magia Francês.

Ela o encontrou em um café escondido, parecendo exausto e coberto de poeira de algum encontro com uma criatura mágica. Ao vê-la, os olhos de Newt se iluminaram com um alívio genuíno.

— Clara! O que você está fazendo aqui? — Ele se levantou, abraçando-a com força. — Dumbledore te mandou? É perigoso demais, você não deveria ter vindo.

— Eu não podia deixar você enfrentar isso sozinho, Newt — disse ela, sentindo uma pontada de culpa ao sentir o cheiro de terra e animais que emanava dele. Era um cheiro seguro, tão diferente do sândalo de Gellert. — O que está acontecendo?

— Ele vai fazer algo grande esta noite — explicou Newt, baixando a voz. — Ele está reunindo centenas de pessoas. Ele quer mostrar a elas o futuro, Clara. Um futuro de guerra. Temos que detê-lo.

— Newt... e se ele estiver certo sobre algumas coisas? — perguntou ela, a voz trêmula. — E se as leis que nos escondem forem realmente correntes?

Newt a olhou com uma expressão de horror e compreensão. Ele segurou as mãos dela, as palmas calejadas e quentes.

— Clara, olhe para mim. Ele faz as pessoas sentirem que são especiais para que elas façam o trabalho sujo dele. Ele não quer liberdade, ele quer domínio. Não deixe que ele entre na sua cabeça.

— Ele já entrou, Newt — confessou ela em um sussurro quase inaudível.

Antes que Newt pudesse responder, um estrondo ecoou pela rua. Luzes azuis começaram a brilhar no horizonte, em direção ao cemitério. O chamado havia começado.

— Temos que ir — disse Newt, pegando sua maleta.

Eles correram pelas ruas de Paris, seguindo a multidão de bruxos que caminhava em silêncio, como se estivessem em transe. Ao chegarem ao Père Lachaise, Clara sentiu uma pressão no peito. O lugar estava saturado de magia negra e carisma. No centro do anfiteatro de pedra, rodeado por chamas azuis que dançavam como seres vivos, estava ele.

Gellert Grindelwald parecia um deus antigo sob a luz do fogo. Ele falava sobre a paz, sobre o amor, sobre o direito dos bruxos de não mais viverem nas sombras. Clara ouvia as palavras dele e sentia a verdade nelas, uma verdade que doía. Mas então, ela olhou para o lado e viu Newt, com o rosto pálido de medo, mas com a varinha firme na mão, pronto para proteger o que era certo.

Grindelwald parou de falar por um momento. Seus olhos percorreram a multidão até encontrarem Clara. Por um segundo, o tempo pareceu parar. Ele sorriu, não o sorriso predatório de um líder, mas o sorriso íntimo do homem que a possuíra na noite anterior. Ele estendeu a mão na direção dela, ignorando todos os outros.

— Venha, Clara — chamou ele, a voz amplificada magicamente, ecoando pelas criptas. — Venha ocupar o lugar que é seu por direito. Não tema a tempestade, seja a tempestade comigo.

Newt segurou o braço dela com força.

— Não vá, Clara. Por favor.

Clara olhou para Newt, o amigo que sempre a amou sem pedir nada em troca. Depois, olhou para Gellert, o homem que prometia o mundo, mas exigia sua alma. O conflito interno era como ser rasgada ao meio.

— Eu preciso saber, Newt — sussurrou ela, soltando-se do aperto dele.

Ela caminhou em direção às chamas azuis. A multidão se abriu para ela como o Mar Vermelho. Os seguidores de Grindelwald a observavam com inveja e reverência. Quando ela chegou à beira do fogo, Gellert desceu do palanque. As chamas não o queimavam; elas pareciam curvar-se à sua vontade.

Ele envolveu a cintura dela com um braço e a puxou para o centro do círculo de fogo. O calor era imenso, mas a magia dele a protegia.

— Você veio — murmurou ele contra o seu ouvido, enquanto a multidão rugia em aprovação. — Eu sabia que você não conseguiria resistir ao chamado do destino.

— O que você vai fazer com eles, Gellert? — perguntou ela, indicando Newt e os outros Aurores que cercavam o local. — Com o meu amigo?

Grindelwald olhou para Newt com um desdém gelado.

— Aqueles que não caminham conosco, caminham contra nós. Mas por você, eu darei a ele uma chance de fugir. Uma única chance.

Ele se virou para a multidão, erguendo a Varinha das Varinhas.

— Vejam! — gritou ele. — O futuro não é feito de segredos, mas de glória! E aqui está a prova de que mesmo os corações mais puros reconhecem a necessidade de mudança!

Clara sentiu o peso dos olhares sobre ela. Ela era agora o troféu dele, a prova viva de seu poder de sedução. Ela olhou para trás e viu Newt ser arrastado por Tina e Jacob enquanto as chamas azuis se transformavam em monstros de fogo, atacando qualquer um que não jurasse lealdade.

— Você está me usando — disse ela, a voz embargada.

Gellert a virou para ele, segurando seu rosto com as duas mãos. O olhar heterocromático estava em chamas.

— Estou te elevando, Clara. O amor é uma ferramenta, sim, mas o que sinto por você é a única coisa que me mantém ancorado a este mundo que pretendo salvar. Agora, escolha. O fogo ou a cinza?

Clara olhou para as chamas que consumiam Paris, para o caos que se instalava e para o homem à sua frente, que era ao mesmo tempo seu amante e seu destruidor. Ela se inclinou e o beijou, um beijo que tinha gosto de traição e de uma paixão desesperada.

— O fogo — respondeu ela, enquanto as lágrimas finalmente caíam. — Eu escolho o fogo.

Grindelwald soltou uma risada triunfante que ecoou por todo o cemitério. Com um movimento de sua varinha, eles aparataram, deixando para trás apenas o rastro de destruição e o coração partido de um magizoologista que, do outro lado das chamas, sabia que tinha perdido sua melhor amiga para as trevas mais sedutoras que o mundo já conhecera.

No castelo de Nurmengard, horas depois, o silêncio era absoluto. Clara estava sentada em uma varanda de pedra, observando as montanhas geladas da Áustria. Gellert aproximou-se por trás, cobrindo os ombros dela com um manto de pele pesada.

— Este é apenas o começo, minha rainha — disse ele, beijando seu pescoço.

Clara fechou os olhos. Ela tinha o mundo a seus pés e o homem mais poderoso da história em sua cama. Mas, no fundo de sua mente, a imagem do sorriso de Newt Scamander começava a desaparecer, substituída pela visão de um mundo em chamas, onde ela era a única coisa que Grindelwald ainda não tinha destruído completamente. Por enquanto.

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