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O amor pela metade

O Trono de Cinzas e a Herança do Diabo

O silêncio na Escola Salvatore após a chegada de Victoria e das crianças era tão denso que poderia ser cortado com uma adaga de carvalho branco. Victoria caminhava pelos corredores de pedra com uma elegância predatória, seus saltos ecoando como batidas de um coração enfurecido. Atrás dela, Hope e Henry trocavam olhares carregados de eletricidade, enquanto Lizzie e Josie, sentindo a tensão mística no ar, mantinham-se próximas, as mãos dadas para canalizar qualquer excesso de magia que pudesse transbordar.

Ao chegarem ao escritório de Alaric, Victoria fechou a porta com um movimento de mão, selando-a com um feitiço de isolamento que faria qualquer bruxa comum desmaiar pelo esforço. Ela se virou para os filhos, a expressão suavizando-se apenas um milímetro.

— Mãe, quem era aquele homem? — Hope foi a primeira a quebrar o silêncio. Seus olhos, tão parecidos com os de Klaus, brilhavam com uma mistura de curiosidade e medo. — O jeito que ele olhou para mim... eu senti algo. Como se o meu sangue estivesse reconhecendo o dele.

Victoria suspirou, encostando-se na mesa de carvalho de Alaric. Ela sabia que este dia chegaria, mas esperava que fosse daqui a mais alguns séculos.

— Aquele homem — começou Victoria, a voz firme apesar da tempestade interna — é Niklaus Mikaelson. O Híbrido Original. E ele é o pai de vocês, Hope e Henry.

O choque foi imediato. Henry, que herdara o temperamento volátil do pai e a arrogância divina do avô, socou a parede, deixando uma rachadura no gesso.

— O pai que você disse que estava morto? Ou que era perigoso demais para conhecer? — Henry rosnou, suas presas de híbrido aparecendo por um breve segundo. — Você nos escondeu dele por quase dezessete anos, mãe!

— Eu protegi vocês! — Victoria rebateu, seus olhos brilhando em um âmbar intenso. — Klaus Mikaelson transforma tudo o que toca em cinzas. Ele passou mil anos fugindo do próprio pai e matando qualquer um que cruzasse seu caminho. Eu não ia deixar que vocês fossem apenas mais peões no jogo de poder dele.

Lizzie, sempre a mais observadora, deu um passo à frente.

— E nós, Victoria? — perguntou ela, referindo-se a si mesma e a Josie. — Nós também somos... dele?

Victoria balançou a cabeça, aproximando-se das gêmeas e tocando seus rostos com carinho.

— Não, minhas pequenas. Vocês são minhas, de corpo e alma, mas o sangue Mikaelson não corre em suas veias. Vocês nasceram de uma anomalia mágica, uma benção que minha linhagem ancestral me deu logo após o nascimento da Hope. Vocês quatro são irmãs, independentemente de quem forneceu o DNA.

Enquanto isso, no centro de Mystic Falls, a mansão que outrora pertencera aos Lockwood agora servia de base temporária para os Originais. Klaus andava de um lado para o outro no salão principal, derrubando garrafas de cristal com movimentos bruscos.

— Dois filhos, Elijah! Dois! — Klaus gritava, a voz embargada de fúria e uma alegria distorcida. — Ela me privou de vê-los crescer. Ela me privou de ensinar o Henry a caçar, de ver a Hope lançar seu primeiro feitiço!

— Niklaus, acalme-se — pediu Elijah, embora ele mesmo estivesse visivelmente afetado. — Victoria teve seus motivos. Você sabe como era a nossa vida em 1957. Estávamos sendo caçados por Mikael, New Orleans estava em chamas...

— Eu não me importo com os motivos! — Klaus virou-se para Kol, que estava jogado em uma poltrona, girando um anel de família. — E você, Kol? Você sabia? Você é o melhor amigo dela!

Kol ergueu as sobrancelhas, um sorriso cínico nos lábios.

— Eu sabia que ela estava grávida, Klaus. Mas eu fiz um juramento de sangue a ela e ao sogrão lá embaixo. Você realmente acha que eu ia arriscar ser mandado para o nono círculo do inferno por uma fofoca? Victoria é a única pessoa que realmente me entende. Eu a protegi, como ela me protegeu.

Rebekah entrou na sala, jogando as chaves de um carro sobre a mesa.

— Katherine está lá fora — anunciou ela, com um brilho de diversão nos olhos. — Ela diz que Victoria quer nos ver. Mas apenas nós, as mulheres e o Kol. Ela disse que se o Klaus pisar na escola agora, ela vai garantir que o pai dela o leve para um tour privado pelo submundo.

Klaus rosnou, mas a menção a Lúcifer Morningstar sempre o fazia hesitar. Ele já havia enfrentado deuses e monstros, mas o pai de Victoria era algo além da compreensão. Lúcifer não era apenas um anjo caído; ele era o dono do tabuleiro onde todos os outros eram apenas peças.

— Eu vou com vocês — declarou Klaus.

— Não, Nik — Elijah interveio, colocando-se em seu caminho. — Deixe que Rebekah e Kol façam o primeiro contato amigável. Victoria está armada com milênios de ressentimento e o poder de uma deusa. Se você forçar a entrada, ela vai esconder as crianças de novo, e desta vez, nem o diabo as encontrará.

Relutantemente, Klaus cedeu. Ele observou seus irmãos saírem, sentindo um vazio que nenhum bourbon poderia preencher.

Na Escola Salvatore, a atmosfera mudou quando Rebekah, Kol e Katherine cruzaram os portões. Os alunos sussurravam, sentindo a aura de antiguidade que emanava dos recém-chegados. Victoria os esperava no jardim, sentada sob o carvalho onde costumava meditar. Ao seu lado, Lúcifer Morningstar apareceu do nada, vestindo um terno de três peças impecável e segurando uma taça de vinho que parecia nunca esvaziar.

— Ah, os Mikaelson — comentou Lúcifer, sua voz suave como seda e perigosa como uma lâmina. — Sempre fazendo uma entrada dramática. Olá, Kol. Como vai a alma? Ainda um pouco chamuscada?

— Olá, Lou — Kol sorriu, fazendo uma reverência exagerada. — Senti saudades das suas piadas de mau gosto.

Rebekah ignorou o Diabo e correu para Victoria, abraçando-a com força.

— Por que você não me contou, Vic? Eu teria ajudado. Eu teria protegido eles do Nik.

Victoria retribuiu o abraço, fechando os olhos por um momento.

— Eu sei, Beks. Mas Klaus é persistente. Se você soubesse, ele acabaria descobrindo através de você. Eu precisava que eles crescessem sem o peso do nome Mikaelson.

Nesse momento, Hope e Henry saíram do prédio principal. Eles caminharam lentamente até o grupo. Henry olhava para Kol com uma curiosidade feroz, sentindo a conexão de magia selvagem que ambos compartilhavam.

— Então você é o tio Kol? — perguntou Henry, cruzando os braços. — Minha mãe disse que você era o único Mikaelson com quem eu poderia aprender algo útil sem acabar morto.

Kol soltou uma gargalhada genuína.

— Gostei dele! Ele tem o seu sarcasmo, Victoria, e o queixo teimoso do Nik.

Hope, por outro lado, aproximou-se de Rebekah.

— Você é a tia que queria ser humana? — perguntou a jovem tribida. — A mãe me contou sobre o seu desejo de ter uma família.

Rebekah sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. Ela tocou o rosto de Hope, maravilhada com a beleza e a força que a sobrinha emanava.

— Eu sempre quis uma família, querida. E parece que eu já tinha uma, só não sabia onde procurar.

Lúcifer se levantou, limpando uma poeira invisível de seu terno.

— Bem, agora que os reencontros emocionantes terminaram, temos um problema — disse o Diabo, olhando para Victoria. — O híbrido está no Mystic Grill tentando não explodir a cabeça do Alaric. E eu sinto o cheiro de outras coisas vindo para esta cidade. Velhos inimigos, Victoria. A notícia de que a linhagem Morningstar e Mikaelson se fundiram vai atrair todo tipo de lixo sobrenatural.

Katherine, que estava encostada em uma árvore lixando as unhas, concordou.

— Ele tem razão. Os ancestrais de New Orleans, os inimigos de Klaus e até algumas bruxas de Mystic Falls que não gostam de concorrência... todos vão querer um pedaço deles.

— Deixe que venham — Victoria disse, e sua voz mudou, assumindo um tom sobrenatural que fez as folhas das árvores tremerem. — Eu sou Victoria Laurel Morningstar. Eu sobrevivi ao Dilúvio, à queda de impérios e ao próprio Klaus Mikaelson. Se alguém tocar nos meus filhos, eu não vou apenas matá-los. Eu vou garantir que suas almas implorem pelo esquecimento nas profundezas do domínio do meu pai.

Hope deu um passo à frente, seus olhos brilhando em um azul prateado, uma mistura de sua magia bruxa e sua herança celestial.

— E nós não somos crianças indefesas, mãe. Henry e eu podemos lutar. E Lizzie e Josie também.

Lizzie e Josie apareceram atrás de Hope, os olhos brilhando conforme começavam a sugar a magia ambiente, prontas para o que quer que viesse.

— É uma família adorável — comentou Lúcifer para Katherine. — Tanta disfunção, tanto poder. Eu quase me sinto orgulhoso.

— Quase? — Katherine riu. — Você adora isso, Lou.

Enquanto isso, Klaus não aguentou mais. Ignorando os avisos de Elijah, ele caminhou em direção à escola. Ele não ia esperar por um convite. Ele precisava ver seus filhos, precisava sentir o cheiro deles, precisava provar a si mesmo que não era um sonho.

Quando ele atravessou o limite da propriedade, o chão tremeu. Victoria sentiu sua presença imediatamente. Ela se virou, as asas negras se manifestando por um breve segundo antes de desaparecerem.

Klaus parou a dez metros de distância. Ele ignorou Kol, Rebekah e até Lúcifer. Seus olhos estavam fixos em Hope e Henry.

— Niklaus — disse Victoria, sua voz um aviso mortal. — Eu disse para você ficar longe.

— Eles são meu sangue, Victoria! — Klaus gritou, a voz falhando. — Você pode me odiar, pode tentar me apagar da história, mas eu sou o pai deles. E eu não vou embora.

Henry deu um passo à frente, ficando entre sua mãe e Klaus.

— Você quer ser nosso pai? — perguntou o rapaz, sua aura de poder Morningstar colidindo com a aura de Híbrido Original de Klaus. — Prove. Mostre que você é mais do que as histórias de terror que ouvimos.

Klaus olhou para o filho, e pela primeira vez em mil anos, o grande lobo mau sentiu medo. Medo de não ser bom o suficiente. Medo de que o ódio de Victoria tivesse passado para as crianças de forma irremediável.

— Eu farei qualquer coisa — prometeu Klaus, olhando de Henry para Hope. — Eu destruirei o mundo ou o salvarei por vocês.

— Comece não destruindo a minha escola — disse Alaric, aparecendo atrás de Victoria com uma besta carregada, embora soubesse que era inútil.

Lúcifer caminhou até Klaus e colocou a mão em seu ombro. O toque queimou, uma dor fria que fez Klaus se encolher.

— Ouça bem, híbrido — sussurrou o Diabo no ouvido de Klaus. — Eu deixei você viver porque Victoria viu algo em você. Mas se você trouxer sua nuvem de destruição para perto dos meus netos, eu pessoalmente vou costurar sua boca e pendurá-lo nos portões do inferno como decoração. Estamos entendidos?

Klaus engoliu em seco e assentiu. Ele nunca se sentira tão pequeno perante outro ser.

Victoria cruzou os braços, observando a cena. Ela sabia que a paz em Mystic Falls tinha acabado. Com os Mikaelson lá, com Katherine circulando e seu pai agindo como um avô superprotetor, a escola Salvatore estava prestes a se tornar o epicentro de uma guerra sobrenatural como o mundo nunca vira.

— Hope, Henry, entrem — ordenou Victoria. — Klaus, você pode ficar para o jantar. Mas se você tentar levar qualquer um deles, ou se agir como o monstro que costuma ser, eu mesma vou enterrá-lo sob esta escola.

Klaus deu um sorriso triste, mas cheio de esperança.

— É um começo.

Katherine se aproximou de Victoria enquanto os outros entravam.

— Você sabe que isso vai acabar em sangue, não sabe? — perguntou a Petrova.

— Sempre acaba em sangue, Katherine — Victoria respondeu, olhando para o céu que começava a escurecer. — Mas desta vez, será o sangue dos nossos inimigos. Porque ninguém mexe com uma Morningstar. Nem mesmo um Mikaelson.

A noite caiu sobre Mystic Falls, mas o fogo que queimava nos olhos de Victoria prometia que a escuridão seria apenas o começo de uma nova e perigosa era para todos eles. O trono de cinzas que Klaus construíra estava prestes a encontrar a luz eterna — ou o fogo eterno — da linhagem de Lúcifer. E no meio de tudo, quatro irmãs e um segredo que ainda estava por ser totalmente revelado: o verdadeiro potencial de Hope e Henry, e o porquê de Lizzie e Josie terem nascido tão próximas a eles. O destino estava apenas começando a embaralhar as cartas.