O amor pela metade
O Pacto de Sangue e as Sombras do Passado
A sala de jantar da Escola Salvatore nunca estivera tão carregada de uma energia tão densa e primordial. À cabeceira da mesa, Victoria Laurel Morningstar exalava uma autoridade que silenciava até o estalido da lareira. À sua direita, Lúcifer Morningstar saboreava um Merlot safra 1945 como se estivesse assistindo a uma peça de teatro particularmente divertida. À esquerda de Victoria, Klaus Mikaelson parecia um vulcão prestes a entrar em erupção, seus olhos fixos em Hope e Henry, que estavam sentados à sua frente, separados por um oceano de segredos e décadas de ausência.
Elijah e Rebekah mantinham a compostura, embora a loira original não parasse de sorrir para as sobrinhas. Kol, por sua vez, já havia roubado um pedaço de torta do prato de Henry, ganhando um olhar mortal do jovem, o que só fez o tio rir mais. As gêmeas, Lizzie e Josie, observavam tudo com a curiosidade típica de quem sabe que está presenciando a história ser escrita — ou reescrita.
— O silêncio é uma virtude, mas neste momento ele está me dando vontade de arrancar corações — Klaus quebrou o gelo, sua voz rouca e carregada de uma vulnerabilidade que ele tentava mascarar com arrogância. — Victoria, você disse que eu poderia ficar para o jantar. Aqui estou. Agora, eu quero ouvir dos meus filhos.
Hope trocou um olhar com Henry. A conexão entre os dois era quase telepática, um subproduto de serem gêmeos tribidos.
— O que você quer que a gente diga? — perguntou Hope, sua voz calma, mas firme. — "Oi, pai, desculpe por estarmos vivos e você não saber"? A nossa vida inteira foi baseada na ideia de que você era um mito, uma lembrança que fazia a nossa mãe ter pesadelos e sorrisos tristes ao mesmo tempo.
Klaus sentiu o golpe. Ele olhou para Victoria, que permanecia impassível.
— Eu nunca quis ser um mito para vocês — Klaus disse, inclinando-se para frente. — Eu fui caçado, traído e passei séculos construindo um império para que, um dia, minha família pudesse ser segura. Se eu soubesse...
— Se você soubesse, teria transformado a vida deles em uma guerra — Victoria o interrompeu, sua voz fria como o gelo do submundo. — Você teria levado os dois para New Orleans, os teria colocado em um pedestal e os teria usado como armas contra seus inimigos. Eu dei a eles algo que você nunca teve, Klaus: uma infância. Eles tiveram o direito de serem apenas crianças antes de serem monstros.
— Monstros? — Henry repetiu a palavra, um sorriso de lado que era a imagem cuspida do pai. — Mãe, o vovô nos leva para caçar demônios no plano astral desde que tínhamos dez anos. Acho que a parte do "monstro" já está bem estabelecida.
Lúcifer soltou uma risada sonora, batendo levemente na mesa.
— O garoto tem razão, Victoria. O sangue Morningstar não é exatamente feito de açúcar e especiarias. Eles são predadores por natureza. O sangue Mikaelson apenas deu a eles um temperamento um pouco mais... explosivo.
— Não ajude, pai — Victoria sibilou para Lúcifer, que apenas deu de ombros e voltou ao seu vinho.
Alaric, que estava sentado na ponta oposta da mesa, limpou a garganta, sentindo-se o único humano em uma jaula de leões divinos.
— Independentemente da árvore genealógica, esta escola tem regras — disse Alaric. — Klaus, você e sua família são bem-vindos como visitantes, mas não vou permitir que tragam seus dramas de mil anos para dentro das minhas salas de aula. Hope e Henry são meus melhores alunos, e Lizzie e Josie são minhas filhas. Eu não vou deixar que elas sejam arrastadas para o caos dos Mikaelson.
Klaus olhou para Alaric com um desprezo mal disfarçado, mas antes que pudesse responder, Lizzie se manifestou.
— Pai, tecnicamente, nós já fomos arrastadas — disse Lizzie, mexendo no cabelo de forma dramática. — A Hope é minha melhor amiga. O que acontece com ela, acontece comigo. E se esse híbrido bonitão é o pai dela, então ele é, tipo, um tio honorário?
— Não me chame de tio, pequena bruxa — Kol interveio, piscando para Lizzie. — Eu sou jovem demais para ser tio de quatro adolescentes. Prefiro "instrutor de caos".
— Kol, comporte-se — Elijah repreendeu, embora seus olhos estivessem fixos em Henry. — Henry, eu percebi que você carrega um anel de luz solar. Victoria o fez para você?
— Eu mesma — respondeu Victoria. — Ele é um híbrido, Elijah. Mas a parte bruxa dele é instável por causa da herança do avô. O anel ajuda a ancorar a magia dele enquanto ele está na forma humana.
O jantar prosseguiu de forma tensa, mas civilizada, até que um estrondo ecoou nos portões da escola. O ar esfriou subitamente, e as velas nas mesas começaram a queimar com uma chama azulada. Victoria levantou-se num salto, seus olhos brilhando.
— Eles chegaram — sussurrou ela.
— Quem? — Klaus perguntou, já ficando de pé, suas veias de híbrido saltando sob os olhos.
— Os Ancestrais de New Orleans — disse Katherine Pierce, surgindo nas sombras da porta com uma expressão de tédio misturada com alerta. — Parece que eles não gostaram de saber que a "bruxa traidora" que fugiu com o sangue original está criando herdeiros em Mystic Falls. E eles trouxeram companhia.
— Bruxa traidora? — Hope perguntou, olhando para a mãe.
— Uma história para outra hora, querida — Victoria disse, caminhando em direção à saída. — Klaus, se você quer provar que é pai deles, agora é a hora. Mas siga meu comando. Nesta cidade, eu sou a lei.
Eles saíram para o pátio da escola. A névoa estava tão espessa que mal se via os carvalhos centenários. No centro do gramado, quatro figuras encapuzadas flutuavam a poucos centímetros do chão, emanando um poder antigo e pútrido.
— Victoria Laurel Morningstar! — a voz de uma das bruxas ecoou, parecendo vir de todos os lugares ao mesmo tempo. — Você roubou o poder dos nossos altares para consagrar essas abominações! O sangue Mikaelson não deve se misturar com a linhagem do Caído!
Klaus deu um passo à frente, mas Victoria colocou a mão em seu peito, parando-o.
— Vocês viajam para longe da sua cidade de pântanos apenas para morrer em meu jardim? — Victoria perguntou, sua voz assumindo um tom celestial e terrível. — Eu não roubei nada. Eu tomei o que era meu por direito de nascimento. Eva Laurel foi a bruxa que criou os seus rituais. Eu sou o sangue dela. Eu sou a dona da magia que vocês tentam controlar.
— A criança deve ser entregue! — gritou outra bruxa. — A menina é o vazio que consumirá o mundo!
Hope sentiu um calafrio. Ela deu um passo à frente, suas mãos começando a brilhar com uma luz branca e negra entrelaçada.
— Eu não sou um vazio — disse Hope, sua voz ganhando uma força que surpreendeu até os Originais. — Eu sou Hope Mikaelson Morningstar. E se vocês querem me levar, vão ter que passar por cima da minha família.
Henry se colocou ao lado da irmã, seus olhos amarelos brilhando intensamente.
— E por cima de mim também.
Klaus sentiu um orgulho tão avassalador que quase se esqueceu da ameaça. Ele olhou para os filhos e depois para Victoria.
— Vamos acabar com isso? — perguntou Klaus, um sorriso predatório surgindo em seu rosto.
— Com prazer — respondeu Victoria.
O que se seguiu foi uma demonstração de poder que Mystic Falls nunca esqueceria. As bruxas ancestrais lançaram rajadas de fogo estelar, mas Victoria simplesmente ergueu a mão, absorvendo a energia e devolvendo-a em forma de ondas de choque que lançaram os inimigos contra as árvores.
Klaus e Henry se moveram como vultos, uma dança de morte coordenada. Pai e filho, pela primeira vez, lutando lado a lado. Henry era mais rápido do que Klaus esperava, usando rajadas de magia para desestabilizar as bruxas antes de Klaus finalizar com sua força bruta.
Enquanto isso, Hope, Lizzie e Josie formaram um triângulo. As gêmeas começaram a sugar a magia das bruxas ancestrais, canalizando-a para Hope, que a transformava em uma barreira impenetrável ao redor da escola.
— Elas são incríveis — Rebekah comentou, decapitando uma bruxa que tentara se aproximar por trás.
— Elas são Morningstars — disse Lúcifer, que assistia a tudo de cima de uma varanda, batendo palmas levemente. — E Mikaelsons. Uma combinação irritantemente eficaz.
Em questão de minutos, as bruxas ancestrais foram reduzidas a cinzas. O silêncio retornou ao pátio, mas a atmosfera mudara permanentemente. Klaus parou ao lado de Henry, ambos cobertos de fuligem e sangue inimigo. Ele colocou a mão no ombro do filho, e desta vez, Henry não se afastou.
Victoria caminhou até eles, sua respiração nem sequer alterada. Ela olhou para Klaus e depois para os filhos.
— Isso foi apenas um aviso — disse Victoria. — Eles sabem onde estamos agora. New Orleans virá atrás de vocês, e os inimigos de Klaus também.
— Que venham — disse Klaus, olhando nos olhos de Victoria. — Eu passei mil anos fugindo, Victoria. Eu não vou fugir mais. Eu vou ficar aqui. Vou proteger meus filhos. E vou reconquistar você, nem que eu tenha que queimar o mundo inteiro para fazer isso.
Victoria riu, um som melódico e perigoso.
— Você sempre foi dramático, Niklaus. Mas você esquece de uma coisa. Eu não sou uma donzela para ser reconquistada. Eu sou a Rainha do que resta deste mundo e do próximo. Se você quiser ficar, terá que ser sob as minhas condições.
Klaus curvou-se levemente, um gesto de respeito que ele raramente concedia a alguém.
— Suas condições, love. Sempre.
Hope e Henry se aproximaram, e por um momento, a família parecia completa, apesar das décadas de dor. Mas, nas sombras, Katherine Pierce observava com um sorriso enigmático. Ela sabia que a chegada dos Mikaelson era apenas o primeiro dominó a cair.
— Bem — disse Katherine, caminhando em direção ao interior da escola —, agora que a limpeza terminou, quem quer sobremesa? Ouvi dizer que o Alaric escondeu um pouco de bourbon de qualidade no escritório dele.
Lúcifer desceu da varanda com um movimento fluido.
— Eu gosto de como você pensa, Katherine. Vamos. Deixem os pombinhos e as crianças discutirem o destino do mundo. Eu preciso de uma bebida forte.
Enquanto o grupo entrava, Victoria sentiu um puxão em sua magia. Ela olhou para o horizonte, onde a lua cheia começava a subir. Ela sabia que a paz era uma ilusão. Seus filhos eram poderosos demais, e o sangue deles era um farol para a escuridão. Mas, ao olhar para Klaus e ver o brilho de determinação em seus olhos, ela sentiu uma pontada de algo que não sentia desde 1957.
Esperança.
— Mãe? — Hope chamou da porta. — Você vem?
Victoria sorriu, um sorriso real que iluminou seu rosto milenar.
— Já estou indo, querida.
Naquela noite, a Escola Salvatore não era apenas um refúgio para jovens sobrenaturais. Era o centro de um novo império. Um império construído sobre o amor proibido, o sangue de deuses e a teimosia de um híbrido que se recusava a desistir. E, enquanto Victoria fechava as portas da escola, ela sabia que o inferno poderia até tentar subir à terra, mas ele teria que enfrentar a filha do Diabo primeiro.
Klaus se aproximou dela no corredor agora vazio, os outros já distantes.
— Victoria — ele chamou suavemente.
— Sim, Klaus?
Ele parou diante dela, a centímetros de distância. O cheiro de sangue e magia ainda os envolvia.
— Obrigado — ele sussurrou. — Por cuidar deles. Por torná-los... melhores do que eu.
Victoria tocou o rosto dele, seus dedos traçando a linha de sua mandíbula.
— Eles têm o seu coração, Klaus. Apenas certifique-se de não quebrá-lo desta vez.
Ela se afastou, deixando-o sozinho no corredor. Klaus respirou fundo, sentindo o peso da responsabilidade pela primeira vez em séculos. Ele tinha uma família. E ele faria qualquer coisa para mantê-la. Mesmo que isso significasse enfrentar o próprio Lúcifer.
Mas, ao olhar para o final do corredor, onde Henry e Hope riam com as gêmeas, Klaus soube que a guerra que estava por vir valeria cada gota de sangue. A dinastia Morningstar-Mikaelson havia começado, e o mundo nunca mais seria o mesmo.