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O amor pela metade

O Despertar da Herança e a Sombra do Pacto

A manhã em Mystic Falls nasceu sob um céu de chumbo, como se a própria natureza estivesse de ressaca após a exibição de poder da noite anterior. Na Escola Salvatore, o clima era de uma calmaria enganosa. Victoria Laurel Morningstar estava em sua varanda privada, observando a névoa se dissipar sobre o lago. Suas asas, invisíveis para os olhos mortais, mas pesadas com a energia do plano celestial e infernal, pulsavam levemente.

Ela sentiu a presença antes mesmo de ouvir os passos. Não era o andar pesado de um híbrido ou a elegância calculada de um vampiro original. Era algo mais antigo, mais... paternal.

— Você está preocupada, minha pequena estrela da manhã — disse Lúcifer, encostando-se no batente da porta com uma xícara de porcelana fina que continha algo muito mais forte que chá. — E com razão. O híbrido tem uma energia que atrai o caos como mel atrai moscas.

— Não é o Klaus que me preocupa agora, pai — Victoria respondeu, sem se virar. — É o que ele trouxe consigo. Não me refiro aos irmãos, mas ao rastro de sangue que o segue há mil anos. Hope e Henry sentiram o poder ontem. Eles gostaram, pai. Eu vi nos olhos deles. O brilho do lobo misturado com o seu fogo.

Lúcifer soltou um riso curto e seco.

— Eles são meus netos, Victoria. O que você esperava? Que eles quisessem tricotar suéteres e cantar hinos? Eles são destinados a governar, não a se esconder em um colégio interno para adolescentes incompreendidos.

Victoria finalmente se virou, seus olhos âmbar faiscando.

— Eu quero que eles tenham escolha. Algo que você nunca me deu, e algo que o pai do Klaus nunca deu a ele.

— Escolha é uma ilusão que os humanos inventaram para não enlouquecerem com o determinismo — Lúcifer deu um gole em sua bebida. — Mas, se serve de consolo, eu gosto do garoto. Henry tem um gancho de direita que me lembra muito o meu quando expulsei Miguel do meu jardim.

Enquanto isso, no ginásio da escola, o treino matinal estava longe de ser normal. Klaus Mikaelson, vestindo uma camisa preta simples que realçava sua postura de guerreiro, observava Hope e Henry praticarem combate. Ele estava em silêncio, mas sua mente trabalhava a mil por hora. Cada movimento de Hope, cada feitiço rápido que ela lançava para desviar dos ataques físicos de Henry, era uma prova da maestria de Victoria.

— Você está fazendo errado — Klaus disse subitamente, interrompendo um golpe de Henry.

Henry parou, o suor escorrendo pelo rosto, os olhos amarelos brilhando em desafio.

— Ah, é? E como o grande Híbrido Original faria? — perguntou o jovem, a voz carregada de um sarcasmo que Victoria certamente cultivara.

Klaus caminhou até o centro do ginásio. Ele não usou sua velocidade de vampiro; ele apenas caminhou, mas a pressão no ar mudou.

— Você ataca com a raiva de um lobo, mas esquece que tem o sangue de um anjo e a mente de uma bruxa — Klaus parou diante do filho. — Você tenta esmagar sua oponente. Hope é menor que você, mas ela é mais fluida. Se você quer vencê-la, precisa antecipar onde a magia dela vai atingir, não onde o punho dela está.

— Eu não preciso de lições de moral sobre como lutar — Henry rosnou, avançando contra o pai.

O movimento foi rápido, mas Klaus apenas girou o corpo, prendendo o braço de Henry e usando o próprio ímpeto do garoto para imobilizá-lo contra o chão, de forma firme, mas sem machucar.

— Não é moral, Henry. É sobrevivência — Klaus sussurrou perto do ouvido do filho. — Seus inimigos não terão piedade de você porque você é jovem. Eles vão te matar porque você é um Morningstar e um Mikaelson. Você é o troféu mais valioso do mundo sobrenatural.

Hope aproximou-se, abaixando as mãos que brilhavam com resquícios de magia.

— Ele tem razão, Henry — disse ela, olhando para Klaus com uma curiosidade cautelosa. — A mãe sempre diz que o nosso maior inimigo é a nossa própria arrogância.

Klaus soltou Henry e se levantou, limpando as mãos. Ele olhou para Hope e viu nela tudo o que ele sempre quis ser: poder, beleza e uma pureza que ele próprio perdera há séculos.

— Victoria fez um trabalho impecável com vocês — admitiu Klaus, a voz suavizando. — Eu passei a noite pensando em como eu poderia compensar o tempo perdido. Mas percebi que não posso. O que posso fazer é garantir que vocês tenham um futuro onde não precisem se esconder.

— E como você pretende fazer isso? — A voz de Victoria ecoou pelo ginásio. Ela entrava acompanhada de Alaric e Katherine. — New Orleans é um ninho de cobras, Klaus. E Mystic Falls está se tornando um alvo.

— Eu vou transformar esta cidade em uma fortaleza — declarou Klaus, voltando-se para Victoria. — Vou trazer meus guerreiros mais leais. Vou criar um perímetro que nem o próprio inferno poderá cruzar.

— O meu pai ficaria ofendido com essa afirmação — Victoria comentou, cruzando os braços. — Mas o ponto é: as gêmeas. Lizzie e Josie não são Mikaelsons, mas são irmãs deles em todos os sentidos que importam. Elas estão ligadas a esse caos agora.

Alaric deu um passo à frente, sua expressão era de um pai exausto e protetor.

— Klaus, eu não quero um exército de vampiros na minha escola. Isso aqui é um refúgio para crianças, não um quartel-general para suas guerras dinásticas.

— Ric, por favor — interveio Katherine, revirando os olhos. — Sejamos realistas. O segredo saiu da garrafa. No momento em que os Ancestrais atacaram ontem, a notícia se espalhou. Você prefere ter o exército do Klaus protegendo o muro ou os inimigos dele escalando-o?

O silêncio que se seguiu foi interrompido por um grito vindo do pátio. Todos correram para fora e encontraram Lizzie e Josie paralisadas no centro da fonte, a água ao redor delas congelada em formas grotescas de agonia. Elas estavam em transe, seus olhos totalmente negros.

— Lizzie! Josie! — Alaric gritou, tentando se aproximar, mas uma barreira de energia invisível o lançou para trás.

Victoria sentiu o cheiro imediatamente. Enxofre e magia negra ancestral.

— Não é New Orleans — Victoria disse, seus olhos escurecendo. — É uma convocação. Alguém está tentando usar a conexão delas com a Hope para abrir um portal.

— Quem teria poder para isso? — perguntou Rebekah, que acabara de chegar com Kol e Elijah.

— Alguém que conhece a linhagem Laurel melhor do que eu — Victoria respondeu, caminhando em direção à barreira. — Pai!

Lúcifer apareceu ao lado dela, sua expressão divertida desaparecendo, substituída por algo frio e mortal.

— Ah... — disse o Diabo, estreitando os olhos. — Parece que uma das suas tias avós decidiu que a morte era muito entediante. Dahlia? Não, muito fraca. Isso tem o cheiro de algo... primordial.

Victoria estendeu as mãos, e suas asas finalmente se materializaram em toda a sua glória negra e radiante. O vento soprou forte, derrubando árvores ao redor.

— Saia das minhas filhas! — Victoria rugiu, sua voz carregada com o poder da Criação e da Destruição.

Ela socou a barreira invisível, e o som foi como o de vidro se quebrando em escala cósmica. O impacto jogou todos no chão, exceto Klaus, que se fincou no solo com sua força de híbrido, mantendo os olhos em Victoria.

Lizzie e Josie caíram desmaiadas na água gelada. Alaric correu para pegá-las, enquanto Victoria permanecia ofegante, sua aura pulsando em vermelho e roxo.

— O que foi isso? — perguntou Kol, ajudando Rebekah a se levantar.

— Um aviso — Victoria disse, recolhendo suas asas, mas mantendo o olhar fixo no nada. — Eles não querem apenas a Hope e o Henry. Eles querem o nexo. As quatro meninas juntas formam um poder que pode reescrever as leis da magia. E alguém acaba de descobrir como usá-las.

Klaus caminhou até Victoria e, pela primeira vez em décadas, ele não tentou ser o alfa ou o sedutor. Ele apenas colocou a mão no ombro dela, oferecendo suporte.

— Nós vamos encontrá-los, Victoria. E vamos destruí-los.

Victoria olhou para a mão de Klaus em seu ombro e depois para os olhos dele. Havia uma promessa ali, uma que ela reconhecia desde os tempos em que se amaram pela primeira vez.

— Você não entende, Klaus — ela sussurrou. — Para eles chegarem até as gêmeas através da Hope, eles precisaram de um sacrifício de sangue. Alguém próximo a nós abriu a porta.

Todos os olhares se voltaram para Katherine, que levantou as mãos em sinal de rendição.

— Não olhem para mim! Eu posso ser uma vadia manipuladora, mas eu prezo pela minha pele, e Victoria é a única que garante que eu continue respirando.

— Não foi a Katherine — disse Elijah, saindo das sombras da biblioteca com um grimório antigo nas mãos. — Foi algo mais sutil. Um objeto deixado aqui há anos.

Ele mostrou um medalhão de prata que Victoria reconheceu instantaneamente. Era o medalhão que ela dera a Eva Laurel antes de sua morte simulada.

— Ele estava no quarto das meninas — continuou Elijah. — Alguém o plantou lá para agir como um farol.

Victoria sentiu uma náusea súbita. Seus inimigos estavam dentro de sua casa, tocando suas filhas.

— Chega de esconder — Victoria declarou, voltando-se para o grupo. — Klaus, traga seus irmãos. Alaric, reúna os professores. Katherine, use seus contatos no submundo. Eu quero todos os nomes de bruxas ancestrais e feiticeiros que já ouviram falar do nome Morningstar nos últimos mil anos.

— E o que você vai fazer? — perguntou Klaus.

Victoria olhou para o pai, que sorriu de forma sinistra.

— Eu vou fazer uma visita ao andar de baixo — disse ela. — Existem registros no inferno que nem mesmo o tempo pode apagar. E se eu tiver que torturar cada alma condenada para descobrir quem tocou nas minhas filhas, eu o farei.

— Eu vou com você — disse Klaus.

Victoria parou e olhou para ele, uma sobrancelha arqueada.

— Você quer ir ao Inferno, Klaus? Literalmente?

— Eu já vivo nele há mil anos, love — Klaus respondeu com um sorriso desafiador. — O que é mais um passeio guiado pelo sogro?

Lúcifer soltou uma gargalhada que fez as janelas da escola vibrarem.

— Eu começo a gostar desse híbrido! Vamos, então. O tour começa agora. Mas aviso: o código de vestimenta lá embaixo é um pouco mais... inflamável.

Enquanto Victoria, Klaus e Lúcifer desapareciam em uma coluna de fumaça negra e brasas, Hope e Henry ficaram no pátio com o restante da família Mikaelson.

— Então... — começou Kol, quebrando o silêncio pesado. — Enquanto os adultos estão fora brincando com fogo, quem quer aprender como transformar um inimigo em um sapo e depois explodi-lo?

Hope sorriu para o tio, mas seus olhos permaneciam no lugar onde os pais desapareceram. Pela primeira vez em sua vida, ela sentiu que o peso do mundo não estava apenas sobre seus ombros. Ela tinha um pai. Um pai terrível, magnífico e perigoso. E ela tinha uma mãe que era o próprio equilíbrio entre o céu e o inferno.

— Eu quero — disse Hope. — Mas primeiro, vamos garantir que a Lizzie e a Josie fiquem seguras. Se alguém tentar entrar aqui de novo, eles não vão encontrar apenas bruxas estudantes. Eles vão encontrar Mikaelsons.

Rebekah abraçou a sobrinha de lado.

— É assim que se fala, querida. Vamos mostrar a eles por que o mundo inteiro tem medo do nosso sobrenome.

Nas profundezas do submundo, Victoria caminhava pelos corredores de obsidiana com Klaus ao seu lado. O calor era insuportável para qualquer ser comum, mas para ela era o lar, e para Klaus, era apenas mais uma prova de resistência.

— Por que você o trouxe? — perguntou Victoria ao pai, que caminhava à frente deles.

— Porque ele precisa ver o que está em jogo — Lúcifer respondeu, parando diante de um enorme portão de ferro fundido. — E porque, se as coisas ficarem feias, eu preciso de alguém que não tenha medo de sujar as mãos com sangue impuro.

Klaus olhou para Victoria, buscando alguma confirmação.

— Você confia em mim para isso? — ele perguntou em voz baixa.

Victoria parou e segurou o rosto de Klaus com as duas mãos. O calor do ambiente fazia a pele dela brilhar com um suor dourado.

— Eu confio em você para ser o monstro que eles temem, Klaus. Mas eu preciso que você mude. Pelos nossos filhos. Se você se perder aqui, eu não poderei te trazer de volta.

— Eu não vou me perder — Klaus prometeu, cobrindo as mãos dela com as suas. — Eu encontrei o meu caminho de volta para você depois de sessenta anos. O inferno é apenas um desvio.

Eles atravessaram o portão e entraram na Sala dos Registros Esquecidos. Lá, as paredes não eram feitas de pedra, mas de rostos que sussurravam segredos de eras passadas. Victoria caminhou até o centro, onde um livro feito de pele de dragão flutuava.

Ao tocá-lo, uma visão a atingiu como um raio. Ela viu um rosto que não via há séculos. Uma mulher de cabelos brancos e olhos que continham o vazio do espaço.

— Esther? — Klaus perguntou, sentindo a mudança na energia de Victoria.

— Não — Victoria disse, a voz trêmula de fúria. — Pior. É a sua linhagem, Klaus. Mas não do lado Mikaelson. É algo que veio antes. A mãe de Ansel... a primeira loba.

— Minha avó? — Klaus ficou estático. — Mas ela morreu há séculos.

— No mundo dos vivos, talvez — Lúcifer interveio, examinando as páginas do livro que mudavam sozinhas. — Mas aqui, ela tem feito pactos. Ela quer o sangue da Hope para restaurar a linhagem original dos lobos. Ela quer apagar a maldição do vampirismo da própria família, mesmo que isso signifique sacrificar a neta.

Klaus soltou um rugido de fúria que ecoou por todo o submundo, fazendo as almas próximas gritarem de terror.

— Ela não vai tocar na minha filha.

— Ela já tocou — Victoria disse, fechando o livro com força. — O medalhão era dela. Ela usou a conexão de sangue com você, Klaus, para chegar até a Hope. E usou a minha magia para esconder o rastro.

— Onde ela está? — Klaus perguntou, suas presas descendo, os olhos brilhando em um híbrido perfeito entre o lobo e o vampiro.

— Ela está em um lugar onde nem o céu nem o inferno podem alcançar facilmente — disse Lúcifer. — O Limbo das Bruxas. Mas sorte a sua, híbrido... você está casado com a única criatura que tem a chave para aquele lugar.

Victoria olhou para Klaus, e a determinação em seus olhos era absoluta.

— Vamos voltar para Mystic Falls. Precisamos das gêmeas e da Hope. O nexo que elas formam é a única coisa que pode abrir o caminho.

— E Henry? — perguntou Klaus.

— Henry será a nossa âncora — Victoria explicou. — Ele carrega o sangue do meu pai de forma mais pura. Ele vai nos manter ligados à realidade enquanto estivermos lá.

Eles retornaram à escola tão rápido quanto partiram. O pátio agora estava cheio de atividade. Elijah e Alaric estavam montando defesas, enquanto Katherine e Rebekah organizavam os alunos.

Victoria reuniu todos no salão principal.

— O inimigo tem um rosto — começou ela. — E é um rosto de família. Klaus, Hope, Henry... Lizzie e Josie. O que vamos fazer agora vai exigir tudo de vocês. Não somos apenas uma escola hoje. Somos um clã. E vamos caçar uma loba ancestral.

Hope deu um passo à frente, segurando a mão de Henry.

— Estamos prontos, mãe.

Klaus colocou-se ao lado de Victoria, olhando para seus filhos e para a mulher que ele nunca deixou de amar.

— Então, vamos mostrar a essa "avó" o que acontece quando se mexe com a família Mikaelson-Morningstar.

A batalha final estava sendo armada, e em Mystic Falls, a cidade que já vira tantas mortes, um novo capítulo de sangue e glória estava prestes a ser escrito. Victoria sabia que o custo seria alto, mas ao olhar para Klaus, ela percebeu que, pela primeira vez em quase três mil anos, ela não estava lutando sozinha. E isso, por si só, era o maior poder que ela já possuíra.

— Katherine — Victoria chamou, enquanto se preparavam.

— Sim, Vic?

— Fique de olho no meu pai. Ele gosta de apostar em quem vai ganhar, e eu quero garantir que ele aposte em nós.

Katherine sorriu, aquele sorriso clássico da Petrova.

— Ele já apostou, querida. Ninguém em sã consciência apostaria contra você. Especialmente agora que você tem o híbrido na coleira.

Victoria olhou para Klaus, que estava afiando uma adaga de prata, e sorriu.

— Ele não está na coleira, Katherine. Ele é o lobo que eu soltei. E o mundo vai tremer quando ele começar a morder.