O amor venenoso
Velocidade de Reação
O quarto de Dante parecia diferente à luz do dia, embora as cortinas pesadas e blecaute fizessem o possível para manter o santuário de neon em um eterno crepúsculo tecnológico. O ar estava carregado com o cheiro familiar de café e o zumbido constante das ventoinhas do computador, mas havia algo mais: o perfume floral e suave de Amélia, que agora ocupava o lugar mais cobiçado daquele cômodo.
Amélia estava sentada no colo de Dante. Ela se sentia pequena, quase engolida pela estrutura dele, mas a sensação de estar ali era inebriante. Dante estava com os fones de ouvido de última geração em volta do pescoço, o queixo apoiado no ombro dela e os braços passando por baixo das axilas de Amélia para alcançar o teclado mecânico e o mouse.
— Você precisa focar na retícula, Amé — sussurrou ele, a voz vibrando contra o pescoço dela, causando uma onda de arrepios que não tinha nada a ver com o jogo. — Se o inimigo aparecer no pixel da esquerda, você só precisa de um micro-ajuste. Assim.
Os dedos de Dante eram um espetáculo à parte. Amélia observava, hipnotizada, a forma como a mão esquerda dele dançava sobre as teclas WASD, e como a direita movia o mouse com uma precisão cirúrgica, quase inumana. Era a agilidade que o tornava uma lenda nos servidores, a mesma agilidade que, na noite anterior, a fizera perder o fôlego.
— Eu não consigo... — murmurou Amélia, os olhos tentando acompanhar o movimento frenético na tela de 240Hz. — É rápido demais. Como você consegue processar tudo isso?
Dante soltou uma risadinha anasalada, o hálito quente roçando a orelha dela.
— Memória muscular. Meus dedos sabem para onde ir antes mesmo do meu cérebro dar a ordem. É puro instinto.
Ele soltou o mouse por um segundo e usou a mão para afastar o cabelo ondulado de Amélia, revelando as sardinhas que ele tanto gostava de contar. O olhar dele mudou, o brilho competitivo do jogo sendo substituído por uma fome muito mais imediata. Dante sempre fora sarcástico e focado, mas com Amélia, ele desenvolvera uma espécie de impaciência deliciosa.
— Quer ver o que mais meus dedos conseguem fazer com essa velocidade? — perguntou ele, a voz descendo uma oitava, tornando-se perigosamente rouca.
Amélia sentiu o rosto queimar. A timidez dela era uma barreira constante, mas o toque de Dante tinha o poder de derreter suas inibições como se fossem códigos mal escritos. Ela apenas assentiu, incapaz de formular uma frase coerente, enquanto sentia a mão dele descer da sua cintura para a coxa, subindo lentamente por baixo do tecido leve de sua saia.
Dante não parou o jogo totalmente. Com uma mão, ele ainda fazia movimentos automáticos no teclado para manter seu personagem em movimento, mas a outra mão... a outra mão estava explorando territórios muito mais interessantes. Quando ele encontrou a borda da calcinha de renda dela, ele a puxou para o lado com uma eficiência casual que fez Amélia soltar um suspiro agudo, escondendo o rosto no vão do pescoço dele.
— Dante... o jogo... — ela tentou protestar, mas o som saiu como um gemido contido.
— O jogo pode esperar, Amé. Mas eu não — retrucou ele, os olhos agora fixos nela, ignorando completamente os tiros que ecoavam nos fones de ouvido.
Ele começou o movimento. Se os dedos de Dante eram famosos pela velocidade nos campeonatos, ali, no silêncio do quarto, eles eram uma arma de prazer absoluto. O ritmo era frenético, preciso, atingindo exatamente os pontos que faziam Amélia arquear as costas e cravar as unhas nos ombros musculosos dele. Era uma cadência técnica, quase rítmica, como se ele estivesse executando o combo mais complexo de sua carreira, mas o prêmio não era um troféu de metal, e sim o som da respiração descompassada dela.
Amélia estava perdida. O espaço entre seus dentes da frente aparecia enquanto ela mordia o lábio inferior, tentando não gritar. O contraste entre a frieza das luzes LED e o calor avassalador que emanava de onde os dedos dele a tocavam era demais para processar.
— Você é... tão rápida... — ela conseguiu balbuciar, as pernas tremendo contra o colo dele.
— Eu disse que tinha dedos ágeis, não disse? — Dante sorriu, aquele sorriso sarcástico e vitorioso que ele usava após um *clutch* impossível. — Relaxa, Amé. Deixa eu te levar até o fim.
Ele aumentou a intensidade. A velocidade era absurda, uma técnica refinada por anos de coordenação motora fina, agora aplicada para desestruturar completamente a garota tímida em seu colo. Amélia fechou os olhos, o mundo se transformando em borrões de azul e roxo, a sensação de estar prestes a desmoronar crescendo a cada segundo. Ela estava no limite, o ápice a apenas um movimento de distância, quando o som mais odiado do mundo ecoou novamente.
*Toc, toc, toc!*
— DANTE! ABRE ESSA PORTA AGORA! — A voz de Luna explodiu no corredor, destruindo o clímax iminente como uma granada de luz.
Dante congelou. Amélia soltou um som de frustração pura, o corpo ainda vibrando, mas a interrupção era como um balde de água gelada.
— Ignora — rosnou Dante, tentando retomar o ritmo, mas Luna não era do tipo que se deixava ignorar.
— Dante, eu juro que se você não abrir, eu vou usar a chave reserva que a mamãe deixou comigo! Eu tenho uma novidade incrível e você precisa conhecer o Enzo! Ou era Fabio? Não importa, o novo namorado! Ele é o quarto dessa semana e eu acho que esse é "O Cara"!
Dante soltou um palavrão baixo, a testa encostada nas costas de Amélia.
— Ela não tem uma chave reserva, tem? — sussurrou Amélia, a voz trêmula de desejo interrompido e puro pânico.
— Infelizmente, ela tem — respondeu Dante, suspirando e retirando a mão, embora tenha deixado um último toque demorado que fez Amélia arfar. — Luna, vai para o inferno! Eu estou ocupado!
— Ocupado jogando? Deixa de ser nerd, Dante! — Luna continuou esmurrando a porta. — Anda logo, o... como é seu nome mesmo, lindo? Ah, o Rafael quer ver seu setup de pro player! Ele disse que joga de suporte, vocês vão se amar!
Amélia saltou do colo de Dante, tentando desesperadamente ajeitar a saia e a calcinha com as mãos trêmulas. O rosto dela estava tão vermelho que parecia que ia entrar em combustão espontânea a qualquer momento.
— Eu vou morrer — murmurou ela, procurando seus sapatos pelo chão. — Ela vai entrar e eu vou estar aqui descabelada. De novo.
Dante se levantou, passando a mão pelos cabelos pretos já bagunçados, a expressão de irritação sendo substituída pelo seu habitual sarcasmo defensivo. Ele olhou para Amélia, que tentava freneticamente se recompor, e não pôde evitar um sorriso de lado.
— Você está linda mesmo toda bagunçada, Amé.
— Dante, não é hora! — Ela sibilou, apontando para a porta que parecia prestes a ceder sob o entusiasmo de Luna.
Dante caminhou até a porta com uma preguiça deliberada. Ele a abriu apenas alguns centímetros, o suficiente para barrar a entrada, mas não o suficiente para impedir que Luna enfiasse a cabeça loira para dentro, seguida por um rapaz alto e com cara de confuso que claramente não sabia onde estava se metendo.
— Finalmente! — exclamou Luna, empurrando a porta com o ombro e entrando triunfante. — Dante, esse é o Ricardinho. Ele é... o que você faz mesmo, Rick?
— Eu sou estudante de administração... — o rapaz começou, mas foi cortado por Luna.
— Isso! Administração de empresas, olha que chique! E olha, a Amélia está aqui de novo! — Luna abriu um sorriso enorme, os olhos brilhando ao notar o estado levemente desalinhado da amiga. — Amé, você está com um brilho diferente hoje. É o novo hidratante ou o Dante finalmente aprendeu a usar as mãos para algo além de clicar em cabeças virtuais?
Amélia sentiu que ia desmaiar. Ela se encolheu atrás da cadeira de Dante, desejando ter o poder de invisibilidade de algum personagem de jogo.
— Luna, saia. Agora — disse Dante, a voz calma, mas com aquele tom que indicava que ele estava perdendo a paciência. — Eu não quero conhecer o Ricardinho, nem o Fabio, nem ninguém que você tenha conhecido em uma fila de balada há duas horas.
— Que mau humor, maninho! — Luna fez um biquinho, mas logo se distraiu com o monitor de Dante. — Nossa, você deixou o jogo aberto? E morreu? Você nunca morre no tutorial, Dante. O que aconteceu? Perdeu a velocidade de reação?
Dante olhou para a tela, onde seu personagem jazia no chão virtual, cercado por mensagens de erro. Ele deu um passo à frente, colocando-se entre Luna e Amélia, protegendo a privacidade da garota tímida com seu corpo musculoso.
— Eu estava distraído com algo muito mais importante que um ranking — respondeu ele, olhando por cima do ombro para Amélia.
Luna soltou uma gargalhada alta, batendo no braço do namorado da vez, que parecia cada vez mais desconfortável.
— Entendi! Bom, o recado está dado. Rick, vamos, o Dante está em uma missão secreta e a Amélia parece que viu um fantasma. Vamos deixar os pombinhos em paz antes que o Dante use o teclado para me expulsar.
Com a mesma energia caótica com que entrou, Luna arrastou o pobre Ricardinho para fora, fechando a porta com um estrondo vitorioso. O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor, quebrado apenas pelo som da respiração pesada de ambos.
Amélia saiu de trás da cadeira, as mãos cobrindo o rosto.
— Eu nunca mais vou conseguir olhar para ela sem querer me enfiar em um buraco.
Dante caminhou até ela, envolvendo-a em um abraço firme. Ele encostou a testa na dela, o sorriso sarcástico finalmente suavizando para algo real e terno.
— Ela é um desastre natural, Amé. Você se acostuma.
— Eu estava quase... — ela começou, mas a timidez a impediu de terminar a frase.
— Eu sei — disse Dante, as mãos descendo novamente para a cintura dela, os dedos ágeis traçando padrões invisíveis sobre o tecido da saia. — E eu não sou do tipo que deixa uma partida inacabada.
Ele a puxou de volta para o seu colo, sentando-se na cadeira gamer que ainda estava quente.
— Onde estávamos antes da Barbie da Shopee e do administrador de empresas aparecerem? — perguntou ele, os olhos fixos nos lábios dela.
Amélia sorriu, o espaço entre os dentes da frente aparecendo de um jeito que fazia o coração de Dante errar uma batida. Ela se inclinou, selando seus lábios com os dele, sentindo que, apesar das interrupções, ela estava exatamente onde queria estar.
— Você estava me mostrando sua velocidade de reação — sussurrou ela contra a boca dele.
— Então se prepara — respondeu Dante, os dedos já encontrando o caminho de volta. — Porque eu acabei de entrar no modo competitivo. E eu nunca perco em casa.