O amor venenoso
Sobrecarga de Sistema
O silêncio que se seguiu à saída de Luna era denso, quase palpável, interrompido apenas pelo zumbido rítmico das ventoinhas do computador e pela batida acelerada do coração de Amélia, que ela jurava que Dante conseguia sentir através das camadas de suas roupas. O quarto, banhado em tons de violeta e azul elétrico, parecia ter encolhido. A interrupção de Luna fora como um erro crítico no sistema, mas Dante era um mestre em depuração.
Ele não a soltou. Pelo contrário, apertou o abraço, trazendo-a para mais perto, até que não houvesse um milímetro de ar entre eles. Dante inclinou a cabeça, escondendo o rosto na curva do pescoço de Amélia, inalando o perfume de baunilha que parecia ser a única coisa real naquele mundo de pixels e luzes artificiais.
— Você está bem? — sussurrou ele, a voz vibrando contra a pele dela.
Amélia soltou um suspiro trêmulo, as mãos ainda agarradas aos ombros dele como se ele fosse seu único ponto de ancoragem em um mar revolto.
— Eu... eu acho que sim. Só não sei como ela consegue ter tanta energia e tão pouco senso de tempo.
Dante riu baixo, um som rouco que enviou uma nova onda de calor pelo corpo de Amélia. Ele se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. O sarcasmo habitual estava lá, mas havia uma intensidade nova, algo que ele normalmente reservava para os segundos finais de uma partida de campeonato, quando tudo estava em jogo.
— Luna é um caos constante. Se eu parasse minha vida toda vez que ela decide me apresentar um "Rick" ou um "Enzo", eu ainda estaria no tutorial da vida.
Ele estendeu a mão e, com a ponta dos dedos, traçou o contorno das sardinhas no nariz de Amélia. Ela fechou os olhos, entregando-se ao toque. Dante sempre fora rápido, eficiente, mas naquele momento, ele parecia querer saborear cada segundo de hesitação dela.
— Mas ela tem razão em uma coisa — continuou ele, a voz baixando para um tom perigosamente suave. — Você está com um brilho diferente.
Amélia abriu os olhos e encontrou o olhar dele. A timidez, aquela velha conhecida que a fazia querer se esconder, tentou erguer suas barreiras, mas o calor das mãos de Dante em sua cintura era um argumento muito mais forte. Ela umedeceu os lábios, revelando por um breve instante o pequeno espaço entre os dentes da frente. Dante seguiu o movimento com o olhar, e Amélia sentiu um nó se formar em sua garganta.
— É a luz do monitor — mentiu ela, embora o sorriso tímido entregasse a verdade.
— Não coloque a culpa no meu setup, Amé — provocou ele, aproximando o rosto do dela até que suas respirações se misturassem. — Meus LEDs são bons, mas não fazem milagres. Isso é tudo você.
Ele a beijou novamente. Não era como o beijo de antes, carregado de urgência e surpresa. Este era lento, exploratório, um pedido silencioso para retomar de onde foram interrompidos. A língua de Dante movia-se com a mesma agilidade que ele usava para comandar exércitos virtuais, mas agora o objetivo era puramente sensorial. Amélia sentiu o mundo girar. Ela se sentou mais firmemente no colo dele, suas pernas envolvendo os quadris magros e musculosos de Dante.
Dante soltou um gemido baixo contra os lábios dela, as mãos descendo para a parte de trás de suas coxas, puxando-a para mais perto, se é que isso era possível. O contato do jeans dele contra a pele sensível de Amélia a fazia delirar.
— Dante... — ela ofegou, afastando-se apenas alguns centímetros para recuperar o fôlego. — E se ela voltar?
Dante soltou uma das mãos da cintura dela e, sem desviar os olhos dos de Amélia, esticou o braço longo até a borda da mesa. Com um movimento rápido e preciso, ele alcançou o trinco da porta que Luna não havia fechado completamente e o empurrou. O som do clique da fechadura ecoou pelo quarto como um veredito final.
— Agora — disse ele, voltando sua atenção total para ela —, ela pode trazer o exército da atlética inteiro que não passa dessa porta. Eu disse que não deixo partidas inacabadas, lembra?
Amélia sentiu uma onda de audácia percorrer seu corpo. Talvez fosse a adrenalina residual da quase descoberta de Luna, ou talvez fosse apenas o jeito que Dante a olhava, como se ela fosse a coisa mais importante que já havia cruzado o seu caminho. Ela levou as mãos ao rosto dele, sentindo a leve aspereza da barba por fazer, e puxou-o para baixo.
— Então prove — desafiou ela em um sussurro, sua voz carregada de uma confiança que ela não sabia que possuía.
Os olhos de Dante se iluminaram. Ele adorava desafios.
— Com prazer.
Ele a levantou do colo com uma facilidade surpreendente e a deitou sobre a cama bagunçada, que ficava logo atrás da cadeira gamer. O contraste entre o lençol escuro e a pele clara de Amélia, pontilhada de sardas, era uma imagem que Dante queria gravar na memória. Ele se posicionou sobre ela, apoiando o peso nos antebraços para não esmagá-la.
— Você é tão linda que chega a ser injusto — murmurou ele, beijando o espaço entre os dentes dela, depois descendo para o queixo e para a curva suave do pescoço.
Amélia arqueou as costas quando sentiu a mão dele subir novamente por baixo de sua saia. Desta vez, não havia o jogo para distraí-lo. Não havia fones de ouvido, não havia inimigos virtuais na tela. Era apenas Dante, e ele estava operando em sua capacidade máxima.
Seus dedos começaram um trabalho meticuloso. Ele conhecia o corpo dela da mesma forma que conhecia os mapas de seus jogos favoritos: cada ponto estratégico, cada reação, cada som que ela emitia quando ele tocava o lugar certo. Amélia estava em chamas. O ritmo dele era impecável — uma cadência que alternava entre toques suaves, quase imperceptíveis, e uma pressão firme que a fazia implorar por mais.
— Dante, por favor... — ela murmurou, a cabeça jogada para trás, os cabelos pretos espalhados pelo travesseiro como fios de seda.
— Calma, Amé. Eu estou apenas começando o *early game* — brincou ele, embora sua própria respiração estivesse pesada e o suor começasse a brilhar em sua testa.
Ele desceu os beijos para o colo dela, contornando a renda do sutiã com a língua, enquanto seus dedos mantinham um ritmo frenético e certeiro lá embaixo. Amélia sentia que estava prestes a sofrer uma sobrecarga de sistema. Cada nervo de seu corpo parecia estar disparando sinais de alerta em cores neon. Ela agarrou os lençóis com força, os nós dos dedos ficando brancos.
— Você... você faz isso de propósito — acusou ela, a voz falhando.
— Faço o quê? — perguntou ele, parando por um segundo apenas para torturá-la.
— Me deixa... assim. Sem saber onde eu estou.
Dante sorriu, aquele sorriso ladino que sempre a desarmava.
— É o meu trabalho, não é? Garantir que você esqueça de tudo, menos de mim.
Ele retomou o movimento, e desta vez não houve hesitação. A velocidade de Dante era lendária, e ele a usava agora para levar Amélia a um lugar onde a timidez não existia, onde o mundo lá fora, com as festas da atlética e as loucuras de Luna, era apenas um ruído de fundo sem importância.
Amélia sentiu a tensão se acumular em seu abdômen, uma pressão insuportável e maravilhosa que pedia para ser liberada. Ela começou a tremer, as pernas se contraindo contra os flancos de Dante.
— Dante, agora! — ela gritou, sua voz abafada pelo travesseiro.
Ele não a decepcionou. Com um último movimento preciso, um ajuste técnico que só alguém com sua coordenação motora poderia executar, ele a levou ao ápice. Amélia sentiu como se tivesse sido atingida por um pulso eletromagnético. O prazer explodiu em cores atrás de suas pálpebras fechadas, um clarão que fez seu corpo inteiro entrar em espasmo antes de finalmente relaxar nos braços dele.
Dante a segurou com força, deixando que ela voltasse à terra aos poucos. Ele beijou sua testa, sussurrando palavras de conforto que Amélia mal conseguia processar. Quando ela finalmente abriu os olhos, ele estava olhando para ela com uma ternura que a fez querer chorar e sorrir ao mesmo tempo.
— Uau — foi tudo o que ela conseguiu dizer.
Dante riu, encostando o nariz no dela.
— Eu diria que foi um *GG WP* (Good Game, Well Played).
Amélia deu um tapa leve no ombro dele, rindo também.
— Você não consegue deixar as gírias de lado nem por um segundo?
— É o meu charme, Amé. Aceite ou mude de servidor.
Eles ficaram ali por um tempo, envoltos no silêncio que agora era confortável. Dante se deitou ao lado dela, puxando-a para o seu peito. Amélia ouvia o som constante do coração dele, um ritmo muito mais calmo do que o de minutos atrás.
— Sabe — disse Amélia, traçando círculos imaginários no peito de Dante —, eu achei que nunca me sentiria assim com ninguém. Especialmente com alguém tão... barulhento quanto você.
Dante fingiu ofensa.
— Barulhento? Eu sou o epítome da discrição. A Luna é que é o problema acústico desta família.
— Você sabe o que eu quero dizer. Você vive nesse mundo de competições, de gritos, de adrenalina. E eu... eu gosto de bibliotecas e de ficar no meu canto.
Dante suspirou, passando a mão pelos cabelos dela.
— É por isso que funciona, Amé. Você é o meu modo de descanso. Quando eu estou com você, eu não preciso ser o "Dante Pro Player". Eu posso ser apenas o Dante. E, honestamente? Esse Dante gosta muito mais de você do que de qualquer troféu.
Amélia levantou a cabeça para olhar para ele, o espaço entre os dentes aparecendo em um sorriso radiante.
— Isso foi quase romântico, Dante. Cuidado, ou vai estragar sua reputação de sarcástico insensível.
Ele revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o brilho de afeto.
— Não conta para ninguém. Se isso vazar no Twitter, meu valor de mercado cai pela metade.
Eles riram juntos, um som leve que parecia limpar o ar de qualquer tensão restante. Mas, como se o universo tivesse um senso de humor peculiar, o som de música alta começou a vibrar através das paredes. Luna devia ter ligado o som da sala no volume máximo.
— Ela não desiste, não é? — perguntou Amélia, suspirando.
— Nunca. É uma das falhas de design dela — respondeu Dante, levantando-se e oferecendo a mão para Amélia. — O que você acha? Queremos continuar aqui e fingir que não há ninguém em casa, ou vamos lá fora mostrar para aquele tal de Ricardinho que o meu setup não é a única coisa impressionante neste apartamento?
Amélia olhou para a mão dele e depois para a porta fechada. A timidez ainda estava lá, um pequeno sussurro em sua mente, mas a sensação de poder que Dante lhe dava era muito mais alta.
— Acho que podemos dar uma chance ao mundo real — disse ela, aceitando a mão dele e se levantando. — Mas sob uma condição.
Dante arqueou uma sobrancelha.
— Qual?
— Você ainda me deve aquela partida. E desta vez, eu quero ganhar.
Dante soltou uma gargalhada alta, puxando-a para um último beijo rápido e estalado.
— Ambição. Eu gosto disso. Mas prepare-se, Amé. No meu servidor, eu não dou vantagem nem para a garota que eu amo.
Amélia parou por um segundo, o coração dando um salto.
— O que você disse?
Dante já estava caminhando em direção à porta, mas parou e olhou para trás com seu sorriso mais sarcástico e charmoso.
— Eu disse que não dou vantagem. Preste atenção, Amé. Sua velocidade de reação está caindo.
Ele abriu a porta e saiu para o corredor, deixando Amélia parada ali com um sorriso bobo no rosto. Ela sabia exatamente o que ele tinha dito, e sabia que, apesar de todas as interrupções de Luna e de todas as partidas de videogame, ela já tinha ganhado o prêmio principal.
Ao sair do quarto e entrar na sala inundada pela luz do sol e pelo caos de Luna, Amélia sentiu que, pela primeira vez, não precisava se esconder. Dante estava ao seu lado, seus dedos ágeis agora entrelaçados nos dela, prontos para enfrentar qualquer nível que a vida lhes apresentasse.
— Luna! — gritou Dante, por cima da música. — Se esse Ricardinho tocar no meu mouse, eu expulso os dois daqui!
A risada de Luna ecoou pela sala, e Amélia, pela primeira vez, não se importou com o barulho. Afinal, em um mundo de pixels e batimentos cardíacos, o que importava era que o sistema deles estava, finalmente, em perfeita sincronia.