O amor venenoso
Sincronia Fora de Rede
A luz do sol da tarde de sábado era impiedosa, refletindo-se nas vitrines de vidro da sorveteria "Polaris" e fazendo Amélia apertar os olhos por trás de suas mechas pretas e onduladas. Ela segurava um copinho de sorvete de pistache com uma das mãos, enquanto a outra estava firmemente entrelaçada nos dedos longos e ágeis de Dante. Para Amélia, aquele era um cenário de paz quase perfeito, se não fosse pelo elemento caótico que caminhava saltitante à frente deles.
— Eu estou dizendo, Amé, o de chiclete azul é o ápice da gastronomia moderna! — exclamou Luna, virando-se para trás enquanto caminhava de costas, equilibrando uma casquinha tripla que desafiava as leis da gravidade. — Dante, por que você está com essa cara de quem foi forçado a sair da caverna? O sol faz bem para a melanina, sabia?
Dante, que usava óculos escuros e uma camiseta de uma organização de e-sports que Amélia ainda não conseguia pronunciar o nome, soltou um suspiro pesado, mas seu sorriso sarcástico entregava que ele não estava tão infeliz assim.
— Luna, eu só aceitei vir porque a Amélia precisava de ar puro. Eu não assinei um contrato para ser o seu guarda-costas enquanto você tenta decidir se o seu próximo namorado vai ser um skatista ou um DJ de casamento.
— Ele era produtor musical, Dante! — Luna fez um biquinho dramático, as sardinhas em seu nariz franzindo-se. — E ele tinha um senso estético maravilhoso. Mas ele não gostava de sorvete de menta, então foi um *game over* instantâneo.
Amélia riu baixo, o pequeno espaço entre os dentes da frente aparecendo. Ela se sentia mais leve hoje. Estar com Dante em público ainda a deixava um pouco nervosa, mas o jeito possessivo e protetor com que ele a guiava pela multidão fazia com que o mundo parecesse menos assustador.
— Deixa ela, Dante — disse Amélia, dando uma colherada no sorvete. — É bom sair um pouco.
— Viu? A Amé é um anjo, você que é um troll de caverna — Luna provocou, cutucando o braço musculoso de Dante antes de apontar para uma loja de departamentos do outro lado da praça. — Oh! Aquela vitrine! Preciso ver se os biquínis novos chegaram. Esperem aqui!
— Luna, não ous... — Dante começou, mas a loira já atravessava a calçada com a velocidade de um processador de última geração. — E lá se vai a nossa paz.
Eles observaram Luna desaparecer entre os manequins. Dante se virou para Amélia, retirando os óculos escuros para revelar os olhos pretos e intensos que sempre faziam as pernas dela fraquejarem.
— Sabe o que isso significa? — perguntou ele, aproximando-se.
— Que temos cinco minutos de silêncio? — sugeriu Amélia com um sorriso tímido.
— Significa que temos cinco minutos para desaparecer — corrigiu ele, puxando-a pela mão em direção ao corredor de serviços de um pequeno centro comercial anexo à sorveteria.
— Dante, o que você está fazendo? — Amélia sussurrou, rindo enquanto era arrastada. — A Luna vai nos procurar!
— Deixa ela procurar. Ela se distrai com qualquer coisa que brilhe.
Eles entraram em um corredor de mármore polido, longe do burburinho da praça. Dante empurrou uma porta de madeira pesada que indicava "Sanitários Unissex/Acessíveis". Era uma cabine única, espaçosa e surpreendentemente limpa, com um grande espelho e luzes embutidas que criavam um brilho suave.
Assim que a porta se fechou com um clique metálico, Dante a pressionou contra a madeira. O contraste entre o frio da porta e o calor do corpo dele fez Amélia arfar.
— Você é louco — murmurou ela, as mãos espalmadas contra o peito dele, sentindo o batimento cardíaco acelerado.
— Sou viciado em risco, Amé. Você esqueceu que eu ganho a vida tomando decisões de um segundo sob pressão? — Ele inclinou a cabeça, roçando o nariz nas sardinhas dela. — E a pressão aqui dentro está ficando insuportável.
Ele a beijou com uma urgência que não tiveram na sorveteria. O gosto de pistache e café gelado se misturava em uma dança familiar. As mãos de Dante, sempre tão precisas, subiram pelas costas de Amélia, puxando-a para cima, forçando-a a entrelaçar as pernas em sua cintura. Amélia soltou um gemido contido, as unhas cravando-se nos ombros dele.
— Dante... aqui não... — ela tentou dizer, mas sua voz era um sussurro sem convicção.
— Ninguém vai entrar, Amé. Eu tranquei.
Ele a colocou sobre a bancada de granito ao lado da pia. O mármore estava gelado contra suas coxas, mas o fogo que emanava de Dante anulava qualquer frio. Ele começou a beijar seu pescoço, descendo para o colo, enquanto seus dedos ágeis desabotoavam o primeiro botão do short jeans de Amélia com uma destreza irritante.
— Meus dedos... — ele sussurrou contra a pele dela — ...lembra o que eu disse sobre eles?
Amélia fechou os olhos, a cabeça pendendo para trás. Ela se lembrava. Lembrava de cada toque, de cada ritmo que ele impunha. Ali, naquele espaço confinado, o perigo de serem descobertos agia como um catalisador, transformando a timidez de Amélia em uma fome que ela mal reconhecia.
— Prova — desafiou ela, repetindo as palavras da noite no quarto, mas desta vez com uma voz carregada de desejo absoluto.
Dante não precisou de um segundo convite. Ele se livrou da própria camiseta em um movimento fluido, revelando o tronco magro e definido. Seus movimentos eram rápidos, mas carregados de uma intenção profunda. Quando ele a penetrou, o som que escapou da boca de Amélia foi abafado pelo beijo dele, uma explosão de sensações que fez o pequeno banheiro parecer o centro do universo.
O ritmo era frenético, uma partida de alta intensidade onde cada movimento era calculado para o prazer máximo. Dante a segurava com força, seus olhos fixos nos dela, observando cada reação, cada tremor. Amélia sentia que estava perdendo o controle, sua mente se tornando uma tela em branco onde apenas o toque de Dante era desenhado.
— Você é... incrível... — ele ofegou, o suor brilhando em sua pele sob as luzes do banheiro.
Amélia não conseguia responder. Ela estava no limite, o ápice chegando como uma onda gigante. Ela apertou os ombros dele, escondendo o rosto em seu pescoço enquanto o mundo desmoronava em uma sequência de espasmos deliciosos. Dante a seguiu logo depois, um gemido rouco escapando de seus lábios enquanto ele se entregava completamente.
Por alguns minutos, o único som no banheiro era a respiração pesada de ambos. Dante encostou a testa na dela, um sorriso genuíno e sem sarcasmo nos lábios.
— Acho que batemos um novo recorde de velocidade — brincou ele, limpando uma mecha de cabelo suado do rosto de Amélia.
Amélia riu, ainda um pouco atordoada, ajeitando as roupas com as mãos trêmulas. A timidez começou a rastejar de volta, mas o olhar de Dante a mantinha segura.
— Precisamos sair daqui antes que chamem a segurança — disse ela, pulando da bancada e tentando ajeitar o cabelo no espelho.
Dante vestiu a camiseta, recuperando sua máscara de pro player descolado, embora o brilho nos olhos o entregasse. Ele conferiu o trinco, olhou para Amélia uma última vez e deu um beijo rápido na ponta do nariz dela.
— Pronta para encarar o furacão loiro?
— Nunca estou pronta, mas vamos lá.
Dante abriu a porta com a confiança de quem acabava de vencer um torneio mundial. Ele saiu primeiro, com Amélia logo atrás, ainda tentando discretamente alisar as dobras da saia.
O corredor estava vazio, exceto por uma figura encostada na parede oposta, de braços cruzados e uma expressão que misturava choque, diversão e puro triunfo.
Luna.
Ela segurava três sacolas de compras e uma nova casquinha de sorvete, que já começava a derreter sobre sua mão.
— Ah, não — sussurrou Amélia, sentindo o rosto atingir uma temperatura que poderia derreter o sorvete de Luna à distância.
— Ora, ora, ora — começou Luna, sua voz ecoando pelo corredor com uma clareza aterrorizante. — Eu procurei por vocês na sorveteria. Procurei na praça. Procurei até dentro daquela loja de biquínis, achando que o Dante tinha finalmente decidido mudar de estilo.
Dante nem piscou. Ele apenas colocou as mãos nos bolsos e arqueou uma sobrancelha.
— E você decidiu que o melhor lugar para nos procurar era na porta do banheiro unissex?
— Eu vim lavar as mãos, Dante! — Luna deu um passo à frente, os olhos brilhando como se tivesse acabado de encontrar um *easter egg* raríssimo em um jogo. — Mas aí eu ouvi uns sons... interessantes. Sons que, definitivamente, não eram de alguém lavando as mãos.
Amélia cobriu o rosto com as mãos, querendo que o chão de mármore se abrisse e a engolisse. O espaço entre seus dentes estava visível em uma careta de puro embaraço.
— Luna, por favor... — murmurou Amélia.
— Por favor o quê, Amé? — Luna soltou uma gargalhada vitoriosa. — Dante, eu sempre soube que seus dedos eram rápidos, mas eu não sabia que você era adepto do modo "speedrun" em locais públicos!
— Luna, cala a boca — disse Dante, embora houvesse um traço de diversão em sua voz. — Nós só... estávamos conversando.
— Conversando? — Luna apontou para o pescoço de Dante. — Você tem uma marca de batom no colarinho que diz que a "conversa" foi bem profunda. E Amélia, querida, seu cabelo está parecendo que você sobreviveu a um tornado de categoria cinco.
Amélia tentou freneticamente ajeitar os fios ondulados, seu rosto agora de um tom carmesim profundo.
— Eu vou matar você, Luna — ameaçou Dante, embora sem nenhuma agressividade real.
— Você pode tentar, mas eu tenho provas! — Luna balançou o celular. — Brincadeira, eu não gravei nada. Sou uma irmã irritante, não uma criminosa. Mas eu exijo uma compensação por esse trauma psicológico de ouvir meu irmão mais velho em ação.
— O que você quer, Barbie da Shopee? — perguntou Dante, suspirando.
— O jantar. No restaurante japonês novo. Aquele que é caro o suficiente para fazer o seu cartão de crédito chorar — Luna sorriu, vitoriosa. — E a Amélia vai comigo, porque ela precisa me contar os detalhes técnicos dessa "conversa".
— Nem pensar — disse Dante e Amélia ao mesmo tempo.
— Ah, qual é! — Luna começou a caminhar em direção à saída, balançando as sacolas. — Vamos logo, antes que eu decida postar no grupo da família que o Dante finalmente encontrou um esporte que exige mais do que apenas ficar sentado em uma cadeira gamer!
Dante olhou para Amélia. Ela ainda estava vermelha, mas agora estava rindo baixinho, contagiada pela energia absurda de Luna.
— Eu disse que ela era um erro no sistema — murmurou Dante, passando o braço pelo ombro de Amélia e puxando-a para perto.
— Um erro que não podemos deletar — concordou Amélia, encostando a cabeça no ombro dele.
— É — Dante sorriu, olhando para a irmã que já estava quase na calçada, gritando sobre o tipo de sushi que queria pedir. — Mas admito que o "speedrun" valeu a pena.
Amélia olhou para ele, o brilho nos olhos pretos de Dante prometendo que, embora Luna tivesse interrompido o momento, a noite ainda tinha muitos níveis para serem jogados. E, pela primeira vez, Amélia não estava nem um pouco preocupada com o placar final.
— Vamos — disse ela, segurando a mão de Dante com força. — Eu estou com fome. E acho que o Dante Pro Player tem uma conta bem alta para pagar.
Dante riu, o som vibrando no peito de Amélia enquanto eles caminhavam em direção à luz do sol, deixando para trás o segredo do corredor, prontos para enfrentar o caos, o sushi e, principalmente, um ao outro.