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O Assassino das Noivas

O Altar das Noivas Pálidas

A névoa de Sleepy Hollow, naquela noite que antecedia o enlace matrimonial de Ichabod Crane e Katrina Van Tassel, não era cinzenta ou branca; ela possuía um tom perolado e doentio, como a pele de um cadáver submerso. Ichabod, em seu quarto, lutava contra a própria natureza. Seus dedos longos e finos tentavam, sem sucesso, abotoar o colete de seda escura. O suor frio brotava em sua testa aristocrática, e seus olhos grandes e escuros buscavam na geometria dos móveis uma âncora para sua ansiedade.

— É apenas uma reação psicossomática à mudança iminente de estado civil — murmurou ele para o espelho, sua voz falhando. — O casamento é uma instituição social, não um evento metafísico. A biologia do medo é apenas adrenalina e... e...

Um som interrompeu seu monólogo científico. Não era o vento, nem o ranger da velha mansão. Era um canto. Uma melodia etérea, desprovida de palavras, que parecia vibrar diretamente dentro de seus ossos. Ichabod sentiu seus pés se moverem por vontade própria. Como um autômato, ele pegou seu casaco longo e sua maleta de instrumentos — sua única armadura contra o inexplicável — e saiu para a noite.

A floresta parecia ter se transformado. As árvores retorcidas estendiam galhos como braços suplicantes, e o caminho que ele conhecia tão bem parecia levá-lo para um lugar que não constava em nenhum mapa. Após o que pareceram horas de uma caminhada em transe, Ichabod deparou-se com a estrutura de uma igreja abandonada, cujas paredes de pedra estavam devoradas pela hera e pelo tempo.

— Esta construção não estava aqui durante minhas triangulações topográficas da semana passada — arquejou ele, o pavor começando a nublar sua lógica. — É uma impossibilidade arquitetônica. Uma miragem induzida por... por vapores de fungos alucinógenos!

Mas seus pés não pararam. As portas de carvalho podre abriram-se com um estrondo silencioso. Dentro, a visão desafiava qualquer tratado de física que Ichabod já tivesse lido. Centenas de velas brancas, cujas chamas queimavam com uma luz azulada e fria, acenderam-se simultaneamente ao longo da nave. O sino da torre, há muito caído e enferrujado, começou a tanger uma nota profunda e fúnebre que fazia o chão vibrar.

No altar, não havia um padre. Havia figuras.

Mulheres. Ou o que restara delas. Elas vestiam trajes de noiva de épocas distintas, agora reduzidos a farrapos cinzentos e teias de aranha. Suas peles eram transparentes, revelando o brilho azulado de veias inexistentes. Eram as *Willis*, as noivas traídas, aquelas que morreram antes de consumar seus votos, condenadas a buscar noivos entre os vivos para preencher o vazio de suas sepulturas.

— Senhoras — Ichabod começou, sua voz subindo uma oitava pelo pânico, enquanto ele tentava recuar, apenas para descobrir que as portas haviam desaparecido em uma parede de névoa sólida. — Eu sou um oficial da lei de Nova York. Se este é um baile de máscaras não autorizado ou uma seita de... de entusiastas do oculto, eu exijo que cessem esta teatralidade imediatamente!

Uma das figuras, cujo véu estava rasgado para revelar um rosto de beleza cadavérica e olhos que eram apenas buracos negros, flutuou em sua direção.

— O noivo chegou — sussurrou a entidade, e o som era como o farfalhar de folhas secas sobre um túmulo. — O sangue quente para o altar de gelo. A vida para a promessa que nunca fenece.

As noivas fantasmas cercaram Ichabod, movendo-se em uma dança lenta e macabra. Elas começaram a retirar o casaco dele, seus toques sendo tão frios que deixavam marcas de geada no tecido. Ichabod desmaiou por um segundo, seus joelhos cedendo, mas foi mantido de pé por mãos invisíveis e gélidas.

— Eu não consinto! — gritou ele, recuperando a consciência e tentando alcançar um frasco de reagente em sua maleta caída. — O matrimônio exige livre arbítrio e... e registro civil! Vocês não possuem jurisdição sobre minha alma!

— Aqui, Ichabod Crane — disse a noiva principal, estendendo uma mão ossuda —, a única lei é a da saudade eterna. Você será o nosso senhor. O noivo de todas as que foram esquecidas.

Enquanto isso, na mansão Van Tassel, Katrina acordou sobressaltada. O talismã de prata que ela usava ao pescoço estava quente, queimando sua pele clara. Ela olhou para o lado e viu o rastro de névoa que entrava pela janela aberta.

— Ichabod... — murmurou ela, o medo apertando seu coração.

Sem hesitar, sem sequer procurar por botas ou uma capa pesada, Katrina saltou da cama. Vestida apenas com sua camisola de seda branca, com os cabelos loiros caindo desgrenhados pelas costas, ela correu para a floresta. Seus pés descalços não sentiam as pedras ou os espinhos; ela era guiada por uma conexão que a ciência de Ichabod jamais admitiria existir.

Dentro da igreja fantasma, o ritual atingia seu clímax. As damas de honra mortas entoavam um cântico dissonante que parecia rasgar o ar. A noiva espectral segurava uma aliança feita de osso humano polido, aproximando-a do dedo trêmulo de Ichabod.

— Com este anel — entoou a criatura —, eu prendo sua respiração à minha ausência.

Ichabod lutava, seu rosto pálido retorcido em uma máscara de horror puro. Ele via sua própria vida se esvaindo, sua mente lógica sendo devorada pela loucura daquele cenário gótico.

— Pare! — O grito ecoou pela igreja, cortando a melodia fúnebre.

Katrina Van Tassel estava no portal, sua figura pequena e luminosa contrastando com a escuridão pútrida do lugar. Ela respirava com dificuldade, o peito subindo e descendo rapidamente sob a seda fina da camisola. Seus olhos castanhos brilhavam com uma autoridade antiga.

— Soltem-no! — ordenou ela, dando um passo à frente. — Ele não pertence ao seu mundo de sombras. Ele tem uma promessa feita à luz!

As Willis viraram suas cabeças em um movimento sincronizado e antinatural. A noiva principal sibilou, o som ecoando como uma serpente.

— Ele foi atraído pelo nosso chamado, filha da terra. Ele é o preço para que possamos descansar.

— O preço já foi pago pela dor que vocês sofreram em vida — rebateu Katrina, retirando do pescoço o talismã de prata e elevando-o no ar. — Mas vocês não podem roubar o que é dado de livre vontade. Ichabod Crane me pertence, assim como eu pertenço a ele. Pela lei do sangue e do espírito, eu interrompo este contrato!

Ichabod, vendo Katrina ali, sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo, quebrando o paralisante frio espectral.

— Katrina! — ele arquejou, tentando se soltar. — Use... use o sal! A composição de cloreto de sódio deve... deve interferir na manifestação ectoplasmática!

Katrina não usou sal. Ela usou algo que Ichabod temia mais do que fantasmas: pura emoção. Ela caminhou até o altar, atravessando as noivas fantasmas como se elas fossem nada mais do que fumaça. Ao chegar diante de Ichabod, ela segurou o rosto dele entre as mãos quentes.

— Olhe para mim, Ichabod. Esqueça as velas. Esqueça o sino. Sinta apenas o meu toque.

A noiva fantasma tentou intervir, estendendo a aliança de osso, mas quando o objeto tocou a pele de Katrina, ele se transformou em pó instantaneamente. A luz das velas azuis começou a vacilar e a ficar alaranjada, a cor do fogo vivo.

— Este homem é meu — declarou Katrina, encarando a entidade morta. — E se vocês desejam um noivo, busquem-no na verdade de suas próprias histórias, não no presente de quem ainda tem muito a viver.

Com um gesto brusco, Katrina jogou o talismã de prata no chão do altar. Uma explosão de luz branca, pura e cegante, preencheu a igreja. Ichabod fechou os olhos, sentindo o mundo girar. O som dos gritos das Willis desapareceu, substituído pelo som suave do vento nas árvores e pelo piar de uma coruja distante.

Quando ele abriu os olhos, a igreja abandonada era apenas uma ruína silenciosa sob o luar. Não havia velas, não havia damas de honra mortas, e o altar era apenas uma pedra coberta de musgo.

Ichabod estava caído no chão, apoiado nos braços de Katrina. Ela ainda estava de camisola, tremendo agora que a adrenalina passara, mas mantendo-o firme contra si.

— Elas... elas se foram? — perguntou Ichabod, sua voz um sussurro rouco.

— Sim, meu querido — respondeu Katrina, limpando uma mancha de geada da testa dele. — O sol começará a nascer em breve. É o dia do nosso casamento.

Ichabod sentou-se com dificuldade, ajeitando o que restara de suas roupas com mãos ainda instáveis. Ele olhou para a igreja em ruínas e depois para a mulher à sua frente.

— Katrina — começou ele, tentando recuperar sua postura intelectual —, eu devo admitir que a experiência de hoje apresenta um desafio considerável para meus métodos de investigação. A indução de visões coletivas e a flutuação térmica...

— Ichabod — interrompeu ela, com um sorriso suave.

— Sim?

— Cale-se e me ajude a voltar para casa. Meus pés estão congelando.

Ichabod olhou para os pés descalços dela e, em um gesto de cavalheirismo que superava qualquer medo, retirou seus próprios sapatos e os entregou a ela, permanecendo apenas de meias na terra úmida.

— Eu... eu peço desculpas pela inconveniência metafísica — disse ele, oferecendo o braço a ela enquanto caminhavam de volta para a civilização. — Mas devo notar que, para uma interrupção de ritual sobrenatural, você estava... excepcionalmente elegante.

Katrina riu, encostando a cabeça no ombro dele.

— E você, Ichabod Crane, para um noivo que quase se casou com um exército de fantasmas, ainda é o homem mais racional que eu já conheci.

— Racionalidade — ponderou ele, enquanto a primeira luz do dia começava a banhar Sleepy Hollow em tons de ouro e rosa — é apenas a maneira como tentamos explicar o fato de que, sem você, eu estaria perdido em qualquer mundo, seja ele de carne ou de sombras.

Eles caminharam juntos para fora da floresta, deixando para trás os ecos das Willis. O casamento verdadeiro aconteceria em poucas horas, e Ichabod Crane, pela primeira vez em sua vida, não buscou uma explicação científica para a felicidade que sentia. Ele apenas aceitou que, em Sleepy Hollow, a lógica podia falhar, mas o amor de Katrina Van Tassel era a única verdade absoluta que ele precisava para enfrentar qualquer mistério.