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O Assassino das Noivas

O Cortejo das Sombras de Cetim

A névoa que se arrastava pelas ruas de Sleepy Hollow após a tempestade de novembro não trazia o cheiro de terra molhada, mas o odor persistente de flores de cemitério e incenso antigo. Ichabod Crane, debruçado sobre registros paroquiais na biblioteca dos Van Tassel, sentia um calafrio que nenhum fogo de lareira parecia capaz de dissipar. Seus dedos longos e manchados de tinta tremiam enquanto ele comparava os nomes nos livros de óbitos com os relatos perturbadores que assolavam a vila nos últimos três dias.

— É uma impossibilidade biológica — murmurou ele, ajeitando o casaco preto com um movimento nervoso. — Corpos em estados variados de decomposição não possuem a capacidade motora para romper caixões de carvalho e caminhar quilômetros sob a neblina. Estamos diante de um surto de histeria coletiva, ou talvez de um grupo de profanadores de túmulos com um senso de humor macabro e teatral.

Ele se levantou, sua figura alta e magra projetando uma sombra inquieta contra as estantes de livros. Ichabod caminhou até a janela e limpou o embaçado do vidro. Lá fora, o mundo era um borrão cinzento. Entre os troncos retorcidos das árvores nos limites da propriedade, ele jurou ter visto um lampejo de branco — um tecido fino, movendo-se com uma leveza que o vento sozinho não explicaria.

Um toque suave em seu ombro o fez saltar quase um palmo do chão, derrubando sua pena de escrita.

— Ichabod, você está procurando por lógica em um lugar onde ela já se despediu — disse Katrina Van Tassel.

Ela parecia uma visão etérea sob a luz bruxuleante das velas, mas havia uma melancolia profunda em seus olhos castanhos que Ichabod ainda não conseguira decifrar. Ela não parecia assustada com as histórias de mulheres mortas caminhando pela vila; ela parecia... solidária.

— Katrina, o magistrado Philipse relatou ter visto a jovem Sarah Martling — Ichabod baixou a voz, como se o nome pudesse invocar a aparição. — Ela morreu de febre tifoide há dois anos, na véspera de seu casamento. Ele afirma que ela estava parada diante da porta da antiga casa, chorando lágrimas que deixavam marcas de lama no degrau. Ora, isso é... é um absurdo clínico!

— Ela não está chorando por maldade, Ichabod — respondeu Katrina, aproximando-se da janela. — Elas voltaram porque a terra de Sleepy Hollow é ciumenta, mas o amor interrompido é mais forte que o peso do solo. Elas são noivas que perderam o altar, e agora buscam o que lhes foi roubado.

— Você fala como se estivessem apenas atrasadas para o chá — exclamou Ichabod, gesticulando freneticamente. — São cadáveres, Katrina! Se isso for verdade, as leis da natureza foram revogadas! Eu preciso de provas. Preciso examinar os túmulos abertos.

— Você encontrará apenas caixões vazios e o cheiro de arrependimento — Katrina tocou a mão fria dele. — Elas não querem causar dano. Elas estão confusas. Elas sentem o calor da vida que ainda pulsa em nós, e isso as atrai como mariposas para uma lanterna.

Ichabod engoliu em seco. Ele sentia o suor nervoso brotar em sua nuca. Sua mente, treinada nos tribunais e laboratórios de Nova York, lutava para não sucumbir ao pavor supersticioso que definia aquela vila.

— Eu vou para o cemitério — declarou ele, embora suas pernas parecessem feitas de gelatina. — Vou levar meus instrumentos de medição. Se houver pegadas, se houver resíduos orgânicos... eu encontrarei a explicação humana.

— Então eu irei com você — disse Katrina com firmeza. — Porque elas não conhecem você, Ichabod. Mas elas conhecem a mim.

A caminhada até a Velha Igreja Holandesa foi um exercício de tortura para os nervos de Ichabod. A névoa era tão densa que ele mal conseguia ver as próprias botas enlameadas. A cada poucos metros, ele parava, levantando sua lanterna de metal e perscrutando a escuridão.

— Ouviu isso? — sussurrou ele, paralisado. — Um som de... de tecido arrastando na grama úmida.

— É apenas o vento nos véus delas — respondeu Katrina calmamente.

Ao chegarem ao cemitério, a cena era digna de um pesadelo gótico. Vários túmulos estavam de fato abertos, a terra negra revirada como se algo tivesse cavado de dentro para fora. Mas não havia sinais de violência ou ferramentas. Apenas a marca de pés descalços e pequenos pedaços de renda presos nos espinhos das roseiras bravas.

Ichabod ajoelhou-se perto de uma cova aberta, sua lanterna iluminando o fundo vazio.

— O caixão foi forçado por dentro — ele constatou, sua voz falhando. — As dobradiças estão rompidas para fora. Isso exigiria uma força física que um corpo em decomposição...

Ele parou de falar. Ao levantar a lanterna, o feixe de luz atingiu uma figura parada a poucos metros, sob a sombra de um salgueiro chorão.

Era uma mulher. O vestido de noiva, outrora de um cetim brilhante, estava manchado de terra e mofado, pendendo em farrapos sobre uma silhueta magra. O véu cobria parcialmente o rosto, mas Ichabod pôde ver a pele pálida, quase azulada, e os olhos grandes que brilhavam com uma tristeza infinita.

— Sarah? — chamou Katrina, dando um passo à frente.

Ichabod tentou segurá-la, o terror travando seus músculos.

— Katrina, não! Pode ser perigoso... a decomposição... os gases...

— Shh — Katrina o silenciou. — Veja. Ela não está nos atacando.

A noiva morta inclinou a cabeça. Ela estendeu uma mão pálida, cujas unhas estavam sujas de terra. Em seus dedos, não havia anéis, apenas a marca de uma promessa que a morte não permitira cumprir. Ela abriu a boca, mas nenhum som saiu, apenas um suspiro frio que fez a névoa girar ao seu redor.

— Ela busca o noivo — sussurrou Katrina. — Mas o noivo dela casou-se com outra e partiu para o sul há muito tempo. Ela está presa no momento do "sim" que nunca foi dito.

De repente, outras figuras começaram a emergir da névoa. Uma, duas, dezenas de noivas pálidas. Elas cercaram o cemitério, formando um cortejo silencioso de vestidos brancos encardidos e véus esfiapados. Algumas carregavam buquês de flores murchas que pareciam ter acabado de ser colhidas de suas próprias coroas funerárias.

Ichabod sentiu seu coração martelar contra as costelas. Ele se aproximou de Katrina, sua mão buscando a dela por puro instinto de sobrevivência.

— Katrina, precisamos sair daqui — arquejou ele. — Elas estão... elas estão nos cercando.

As noivas não olhavam para Ichabod com ódio. Elas olhavam para Katrina. Havia uma inveja melancólica em seus semblantes — inveja do sangue que corria em suas veias, do calor de sua pele e da promessa de futuro que ela carregava ao lado do homem de preto.

Uma das noivas, uma mulher alta que Ichabod reconheceu pelos registros como sendo Elizabeth Van Ripper, morta em um naufrágio dias antes de seu casamento, aproximou-se de Ichabod. Ela tocou o braço do casaco dele com dedos gélidos.

Ichabod estremeceu violentamente, mas não fugiu. Ele olhou para a figura e, por um breve momento, sua curiosidade científica foi substituída por uma compaixão profunda e dolorosa. Ele viu o desespero nos olhos dela, a confusão de uma alma que despertara em um mundo que não a pertencia mais.

— O que elas querem, Katrina? — perguntou ele, sua voz tremendo menos agora. — Se a ciência não pode explicar o porquê de estarem aqui, talvez a razão possa explicar o que desejam.

— Elas querem ser vistas, Ichabod — respondeu Katrina, lágrimas brilhando em seus olhos. — Elas querem que alguém reconheça que o amor delas existiu, mesmo que não tenha florescido. Elas querem um funeral para seus sonhos, não apenas para seus corpos.

Katrina soltou a mão de Ichabod e caminhou para o centro do círculo de noivas. Ela começou a falar com elas em uma língua que Ichabod não reconhecia — talvez um dialeto holandês antigo, ou talvez algo mais profundo, uma linguagem de alma para alma.

As noivas começaram a segui-la. O cortejo moveu-se para fora do cemitério, em direção à floresta. Ichabod, movido por uma mistura de dever e fascínio, seguiu-as, carregando sua lanterna como se fosse um farol em um mar de fantasmas.

Eles chegaram a uma clareira onde o solo era coberto por lírios brancos silvestres, que pareciam brilhar sob a luz da lua. Katrina parou e gesticulou para que as noivas se aproximassem.

— Vocês não estão mais sozinhas no escuro — disse Katrina, sua voz ecoando pela clareira. — Nós lembramos de seus nomes. Nós lembramos de suas promessas.

Ichabod observava, hipnotizado. Ele viu Katrina pegar pequenas flores e entregá-las a cada uma das mulheres. Ao toque de Katrina, as noivas pareciam ganhar uma luminosidade momentânea. A tristeza em seus rostos suavizava-se.

— Ichabod — chamou Katrina. — Venha aqui.

Ele aproximou-se cautelosamente.

— Elas sentem sua mente inquieta — explicou ela. — Elas sabem que você busca a verdade. Diga a elas que a verdade delas será registrada. Que elas não serão apenas nomes em túmulos esquecidos.

Ichabod olhou para as dezenas de mulheres mortas. Ele pensou em sua própria mãe, na tragédia que a envolvera e na maneira como a religião e a morte haviam moldado sua própria vida. Ele retirou seu bloco de notas e sua pena.

— Eu... eu farei um registro — disse ele, sua voz ganhando uma firmeza profissional que escondia sua vulnerabilidade. — Cada nome, cada história. Eu documentarei a existência de cada uma de vocês nos anais da justiça e da história de Sleepy Hollow. Vocês não serão esquecidas pelo tempo.

Um suspiro coletivo, como o som de mil harpas de vento, percorreu a clareira. As noivas começaram a se dissipar. Não desapareceram instantaneamente, mas tornaram-se parte da névoa, suas formas brancas misturando-se gradualmente com o vapor da noite.

A última a permanecer foi Sarah Martling. Ela olhou para Katrina e depois para Ichabod. Com um movimento lento, ela retirou seu véu — um pedaço de renda que, milagrosamente, parecia limpo e novo agora. Ela o entregou a Katrina.

Ao tocar o véu, Katrina sentiu um calor reconfortante. Sarah sorriu — um sorriso humano e sereno — e desvaneceu-se no ar frio.

O silêncio retornou à floresta, mas não era mais um silêncio opressor. Era a paz que se segue a um longo lamento.

Ichabod permaneceu parado, olhando para o espaço vazio onde as figuras estiveram. Ele guardou seu bloco de notas, percebendo que as páginas estavam levemente úmidas, não de chuva, mas de uma geada estranha.

— Você acha que elas finalmente descansarão? — perguntou ele, aproximando-se de Katrina.

— Por enquanto, sim — respondeu ela, guardando o véu de Sarah em sua capa. — Elas precisavam de uma testemunha, Ichabod. Alguém que não fugisse, alguém que usasse a razão para validar a dor delas.

Ichabod olhou para suas mãos. Ele ainda era um homem da ciência, um investigador que acreditava em fatos e evidências. Mas ali, naquela clareira, ele aceitou que alguns fatos não podiam ser medidos com réguas ou pesados em balanças.

— Amanhã — disse ele, oferecendo o braço a Katrina para o caminho de volta —, eu passarei o dia no cartório da igreja. Vou transcrever cada detalhe que você me contou sobre elas. Se o mundo não acredita em fantasmas, ele ao menos terá que acreditar nos meus registros oficiais.

Katrina sorriu e encostou a cabeça no ombro dele.

— Você é um homem estranho, Ichabod Crane. Tenta domesticar o sobrenatural com burocracia.

— É o meu método — respondeu ele, um pequeno e raro sorriso aparecendo em seus lábios. — E, confesso, é muito menos aterrorizante do que o contrário.

Enquanto caminhavam de volta para a mansão Van Tassel, a névoa começou a baixar, revelando um céu estrelado e limpo. Ichabod não olhou para trás. Ele não precisava. Sabia que as noivas pálidas haviam retornado para a terra, mas agora, levavam consigo a certeza de que sua passagem pelo mundo deixara um rastro — não apenas de lama e mistério, mas de uma memória que um homem de Nova York, com seu casaco preto e sua mente inquieta, guardaria para sempre.

Ao chegarem à porta da mansão, Katrina parou e olhou para o véu em suas mãos.

— Elas nos deram uma benção, Ichabod. No meio da morte, elas nos lembraram de que estamos vivos. E que o nosso "sim" ainda está por vir.

Ichabod sentiu um calor incomum em seu peito. Ele pegou a mão de Katrina e a beijou com uma doçura que desafiava toda a sua rigidez habitual.

— Então que o nosso enlace seja uma celebração da vida, Katrina. Para que nenhuma sombra tenha razão para invejar o que construirmos juntos.

E assim, sob o olhar silencioso das estrelas de Sleepy Hollow, o investigador e a jovem bruxa entraram na casa, deixando para trás o cortejo das sombras de cetim, cientes de que, naquela vila de lendas, às vezes a maior coragem não era enfrentar o monstro, mas ouvir o lamento de quem o mundo preferia esquecer.