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O contrato

O Eco do Silêncio e o Gosto do Vinho

A primeira manhã no apartamento de Leona Blair não trouxe a clareza que Christine esperava. Pelo contrário, o sol que filtrava pelas persianas automáticas da suíte de hóspedes parecia apenas iluminar a extensão do erro que ela cometera ao assinar aquele contrato. O lençol de fios egípcios era macio, mas a sensação de ser uma peça de xadrez em um tabuleiro alheio a deixava rígida.

Christine levantou-se e caminhou até a cozinha em conceito aberto. O mármore da bancada estava gelado sob suas palmas. Ela preparou um café forte, sentindo o aroma amargo preencher o espaço estéril. Antes que pudesse dar o primeiro gole, o som de saltos baixos e precisos anunciou a presença da dona da casa.

Leona estava vestida para matar, como sempre. Um terno de corte impecável em tom grafite, o cabelo preso em um coque tão firme que parecia doloroso, e aquela expressão de quem já havia conquistado três mercados antes das oito da manhã.

— O café está aceitável? — perguntou Leona, sua voz cortando o silêncio como uma lâmina de vidro.

— Está forte. Como você gosta — respondeu Christine, sem se virar.

Leona aproximou-se, parando logo atrás de Christine. A proximidade era desnecessária, mas Leona parecia ter um prazer sádico em testar os limites do espaço pessoal da assistente. Christine podia sentir o calor emanando do corpo da outra, o perfume de sândalo misturado ao cheiro metálico do sucesso.

— Bom. Precisamos alinhar a agenda de hoje — disse Leona, estendendo a mão para pegar uma xícara. Seus dedos roçaram propositalmente nos de Christine ao redor da alça de porcelana.

O toque foi breve, um mero roçar de pele, mas a reação de Christine foi imediata. Um choque elétrico percorreu seu braço, fazendo seus pelos se arrepiarem. Ela soltou a xícara abruptamente, e Leona a segurou com uma agilidade predatória, um sorriso de canto surgindo em seus lábios perfeitamente pintados de vinho.

— Você está nervosa, Christine. O que foi? O peso da mentira está começando a afetar sua coordenação motora?

— É a sua falta de limites que me afeta, Leona — rebateu Christine, virando-se para encará-la. — Aqui não tem ninguém nos vendo. Não precisa fingir que quer estar perto de mim.

Leona deu um gole no café, seus olhos gélidos fixos nos de Christine.

— O treinamento começa agora. Se você reage como uma adolescente assustada a um toque acidental na cozinha, como espera convencer os acionistas da Lovelace no jantar de noivado? Você precisa se acostumar com a minha pele. Com o meu cheiro. Com a ideia de que, para o mundo, você é a minha prioridade absoluta.

— Eu não sou um dos seus ativos financeiros para ser treinada — disse Christine, a voz subindo um tom.

Leona colocou a xícara na bancada com um estalo seco e deu um passo à frente, encurralando Christine contra o mármore. A diferença de altura era pequena, mas a presença de Leona era avassaladora. Ela colocou uma mão em cada lado dos quadris de Christine, prendendo-a.

— Neste contrato, você é exatamente o que eu disser que você é — sussurrou Leona, a voz baixa e perigosa. — E agora, eu preciso que você aprenda a não recuar.

Christine sentiu a respiração de Leona em seu rosto. Era quente e cheirava a café e determinação. O ódio que sentia pela arrogância daquela mulher lutava contra uma resposta física involuntária que seu corpo insistia em manifestar: seu coração martelava contra as costelas e suas mãos tremiam levemente.

— Toque em mim — ordenou Leona.

— O quê? — Christine piscou, atordoada.

— Você ouviu. Toque no meu rosto. Acaricie minha mandíbula como se estivesse apaixonada. Ou pelo menos como se não quisesse me estrangular.

Christine hesitou. A pele de Leona parecia mármore polido à luz da manhã. Lentamente, ela levantou a mão direita. Seus dedos tocaram a linha do maxilar de Leona. A pele era surpreendentemente macia, quente e vibrante. Christine deslizou o polegar sobre a maçã do rosto da executiva, sentindo a estrutura óssea perfeita sob seus dedos.

Leona fechou os olhos por um breve segundo, uma reação que Christine não esperava. Por um instante, a máscara de tirana fraquejou, revelando algo que parecia... vulnerabilidade? Não, Leona Blair não era vulnerável. Era apenas técnica.

— Mais suave — murmurou Leona, os olhos ainda fechados. — Como se você conhecesse cada curva do meu rosto e as amasse.

Christine sentiu um nó na garganta. O toque, que deveria ser um ensaio clínico, estava se tornando algo denso. A eletricidade entre elas não era mais apenas irritação; era uma tensão estática que ameaçava explodir. Ela deslizou os dedos para o pescoço de Leona, sentindo o pulsar acelerado da carótida da outra.

— Seu coração está rápido, Leona — observou Christine, a voz falhando. — A mentira também te afeta?

Leona abriu os olhos. O azul gélido estava escurecido, as pupilas dilatadas. Ela não se afastou. Pelo contrário, inclinou-se mais, seus lábios a milímetros dos de Christine.

— É a adrenalina do risco, Christine. Nada me dá mais prazer do que um jogo perigoso.

Ela se afastou bruscamente, quebrando o feitiço. O ar pareceu voltar aos pulmões de Christine de uma só vez. Leona ajeitou o blazer, recuperando a postura profissional como se nada tivesse acontecido.

— Esteja pronta às sete. Temos uma sessão de fotos para a revista *Society*. Eles querem o "exclusivo" sobre o casal do momento. Use algo que não pareça que você comprou em uma liquidação de shopping.

— Sim, senhora — respondeu Christine, o sarcasmo voltando para esconder o abalo emocional.

***

O estúdio fotográfico era um caos de luzes, assistentes correndo e o som constante do obturador da câmera. O fotógrafo, um homem excêntrico chamado Jean-Paul, gesticulava freneticamente.

— Não, não! Quero paixão! Quero o fogo que derrete o gelo de Wall Street! — gritava ele. — Leona, abrace-a por trás. Christine, incline a cabeça. Deixe que ela sinta o seu pescoço.

Leona obedeceu sem hesitar. Ela se posicionou atrás de Christine, envolvendo sua cintura com os braços. A pressão do corpo de Leona contra as suas costas era firme e possessiva. Christine sentiu os lábios de Leona roçarem em sua orelha, e um calafrio violento percorreu seu corpo.

— Relaxe, Christine — sussurrou Leona, a voz abafada pelo cabelo da assistente. — Pense no dinheiro para o hospital. Pense na Suíça.

— É a única coisa que me mantém aqui — murmurou Christine entre dentes, embora seu corpo estivesse traindo suas palavras, amolecendo contra o de Leona.

— Ótimo! — exclamou Jean-Paul. — Agora, olhem-se nos olhos. Quero que o mundo veja o desejo.

Leona virou Christine em seus braços. Elas estavam tão próximas que as pontas de seus narizes se tocavam. A mão de Leona subiu pela nuca de Christine, os dedos se enroscando nos fios castanhos com uma força controlada.

— Você é uma ótima atriz, Leona — disse Christine, os olhos fixos nos lábios da outra, que pareciam irresistivelmente convidativos sob as luzes do estúdio.

— Eu não estou atuando, Christine — respondeu Leona, sua voz soando estranhamente rouca. — Eu estou apenas focada no meu objetivo. E meu objetivo agora é fazer com que cada pessoa que veja essa foto acredite que eu te possuo.

A intensidade do olhar de Leona fez Christine perder o fôlego. Não era apenas sobre o contrato. Havia uma fome ali, uma competitividade que beirava o carnal. Leona a puxou para mais perto, eliminando qualquer espaço restante. A mão que estava em sua cintura desceu levemente, pressionando a curva de seu quadril.

— Sorria — ordenou Leona.

Christine sorriu, mas o brilho em seus olhos não era de felicidade. Era o brilho de um desafio aceito. Se Leona queria jogar, ela jogaria. Ela passou os braços pelo pescoço de Leona, puxando-a para baixo, forçando a executiva a se curvar ligeiramente.

— Magnífico! — berrou o fotógrafo. — O contraste! A pureza e o pecado!

Quando a sessão terminou, o silêncio no camarim era pesado. Christine estava sentada diante do espelho, removendo a maquiagem pesada, quando Leona entrou. Ela já havia tirado o paletó, ficando apenas com a camisa de seda branca, cujos primeiros botões estavam abertos.

— Você me surpreendeu hoje — disse Leona, encostando-se na porta. — Achei que ia travar diante das câmeras.

— Eu aprendo rápido — respondeu Christine, observando o reflexo de Leona pelo espelho. — Mas não pense que isso muda o que eu sinto por você.

Leona caminhou até ela, parando atrás de sua cadeira. Ela colocou as mãos nos ombros de Christine, começando a massagear o trapézio tenso. O toque era firme, profissional, mas carregado de uma intenção que Christine não conseguia decifrar.

— O que você sente por mim, Christine? Ódio? Desprezo?

— Tudo isso. E um pouco de pena — disse Christine, embora sua cabeça tenha pendido para o lado, entregando-se à massagem.

— Pena? — Leona riu, um som baixo e sombrio. — Ninguém sente pena de Leona Blair. Eles me temem, me invejam ou me desejam. Mas pena é uma emoção para os fracos.

— Você é sozinha, Leona. Vive em um castelo de vidro, esperando que alguém atire a primeira pedra só para ter o prazer de processar a pessoa. Isso é triste.

As mãos de Leona pararam. Seus dedos apertaram os ombros de Christine com um pouco mais de força do que o necessário.

— Eu tenho o que eu quero. Sempre.

— Menos a sociedade na Blair & Co. — alfinetou Christine.

O silêncio que se seguiu foi gélido. Leona inclinou-se, seu rosto ao lado do de Christine no espelho.

— É por isso que você está aqui. Para garantir que eu recupere o que é meu. E se para isso eu tiver que passar seis meses fingindo que suporto sua moralidade barata e seu cheiro de lavanda, eu farei com um sorriso no rosto.

Ela soltou Christine e caminhou em direção à saída, mas parou antes de abrir a porta.

— Amanhã temos o coquetel beneficente da fundação Lovelace. É o evento principal. Esteja pronta para ser a noiva perfeita. E Christine?

— O quê?

— Tente não se apaixonar pela personagem. Seria um desperdício de tempo para ambas.

A porta se fechou com um clique metálico. Christine ficou sozinha com seu reflexo. Suas bochechas estavam coradas e seus lábios ainda formigavam pela proximidade de Leona. Ela tocou o próprio pescoço, onde a mão de Leona estivera momentos antes.

— Apaixonar-me? — sussurrou ela para o espelho. — Eu preferiria pular de um prédio.

Mas, no fundo de sua mente, uma voz traiçoeira lembrava a sensação do corpo de Leona contra o seu, da firmeza de suas mãos e da intensidade de seu olhar. A farsa estava apenas começando, e as linhas entre o que era contrato e o que era desejo já estavam começando a se apagar, borradas pelo calor de uma faísca que nenhuma das duas estava pronta para admitir.

O jogo estava armado. E, pela primeira vez na vida, Leona Blair talvez não tivesse o controle total das peças. Porque Christine Lovel não era apenas uma assistente ou uma noiva de fachada; ela era a única variável que Leona não conseguia calcular. E variáveis, como Leona bem sabia, eram o que causavam as explosões mais espetaculares.

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