O contrato
O Labirinto de Seda e a Emboscada do Desejo
O sol da manhã seguinte entrou pelas janelas do apartamento de Leona como uma invasão indesejada. Christine já estava de pé, a terceira xícara de café preto servindo como sua única âncora à realidade. O coquetel beneficente da Fundação Lovelace seria naquela noite, e a pressão de atuar no "palco principal" fazia seu estômago dar nós.
Leona apareceu no corredor usando um roupão de seda preta que parecia custar mais do que o carro de Christine. Ela não parecia alguém que tinha dormido mal; parecia uma predadora que acabara de afiar as garras.
— Você está pálida, Christine — disse Leona, caminhando até a cafeteira com uma elegância que deveria ser ilegal àquela hora. — Se você desmaiar no meio do salão hoje à noite, certifique-se de cair nos braços de Arthur Lovelace. Pelo menos isso renderia uma boa manchete sobre "excesso de emoção".
— Bom dia para você também, Leona — respondeu Christine, ignorando o sarcasmo. — Eu estava revisando a lista de convidados. Marcus estará lá.
O nome do homem que traíra Leona pairou no ar como fumaça tóxica. O movimento de Leona ao servir o café estacou por um milésimo de segundo — o único sinal de que o golpe ainda doía.
— Deixe o Marcus comigo — disse Leona, a voz subitamente gélida. — Sua única função é ser o meu porto seguro. Quando ele tentar me atacar com alfinetadas sobre a minha "falta de humanidade", você entra com o olhar de adoração e o toque gentil. Entendido?
— Entendido. Só espero que o "olhar de adoração" não seja confundido com uma convulsão — rebateu Christine, levantando-se para sair da cozinha.
— Christine.
A voz de Leona a deteve na porta. Christine virou-se e encontrou a executiva observando-a por cima da borda da xícara. Havia uma intensidade diferente no olhar de Leona hoje, algo menos predatório e mais... analítico.
— O vestido para esta noite foi entregue. Está no seu quarto. Experimente agora. Quero ver se precisa de ajustes.
Christine entrou no quarto de hóspedes e encontrou uma caixa de veludo sobre a cama. Dentro, um vestido de seda esmeralda profunda, com um corte que desafiava a gravidade e uma fenda que começava na metade da coxa. Era sofisticado, caro e absolutamente nada parecido com o que Christine usaria por vontade própria.
Dez minutos depois, ela saiu para a sala, lutando com o zíper invisível nas costas.
— Eu não consigo fechar isso — reclamou ela, tentando alcançar o fecho com contorcionismos inúteis.
Leona, que agora lia alguns relatórios no tablet, levantou os olhos. O silêncio que se seguiu foi denso. A executiva deixou o tablet de lado e caminhou lentamente em direção a Christine.
— Vire-se — ordenou Leona, a voz subitamente rouca.
Christine obedeceu. Ela sentiu o ar frio do apartamento em suas costas nuas, e logo em seguida, o calor das mãos de Leona. Mas Leona não puxou o zíper imediatamente. Seus dedos longos e frios traçaram o caminho da espinha de Christine, desde a nuca até a base da lombar.
O toque enviou uma descarga elétrica pelo corpo de Christine, fazendo-a prender a respiração.
— Você está tremendo — murmurou Leona, sua respiração batendo na pele exposta de Christine.
— Está frio aqui dentro — mentiu Christine, embora sentisse o sangue ferver em suas veias.
— Não é o frio, Christine. É a antecipação. Você sabe que estamos jogando, mas seu corpo não sabe a diferença entre o jogo e a realidade.
Leona finalmente puxou o zíper. O som do metal deslizando na seda foi o único ruído no ambiente. Quando o vestido foi selado, Leona não se afastou. Ela colocou as mãos nos ombros de Christine e a virou para o grande espelho da sala.
— Olhe para nós — disse Leona, posicionando-se atrás dela, as mãos agora descansando na cintura de Christine.
No reflexo, elas pareciam o casal mais poderoso de Nova York. A frieza escultural de Leona em seu roupão escuro contrastava com a vivacidade de Christine no verde esmeralda. Mas eram os olhos de Leona no espelho que assustavam Christine: eles não brilhavam com triunfo corporativo, mas com algo muito mais primitivo.
— Você é linda, Christine — disse Leona. Foi a primeira vez que ela disse algo sem um pingo de sarcasmo ou ironia. Parecia uma constatação técnica, mas o peso das palavras era devastador.
— O contrato não exige elogios sinceros, Leona — sussurrou Christine, tentando manter a voz firme enquanto sentia o polegar de Leona acariciar a curva do seu quadril.
— Considere um bônus de desempenho — respondeu Leona, afastando-se bruscamente e recuperando sua máscara de indiferença. — Esteja pronta às 19h. O motorista não espera.
***
O Museu Metropolitan estava transformado. Flores brancas, luzes âmbar e o tilintar constante de taças de cristal criavam a atmosfera perfeita para a elite financeira. Quando Leona e Christine entraram, o burburinho das conversas diminuiu por um instante. Leona estava deslumbrante em um smoking feminino preto de corte masculino, e Christine, ao seu lado, parecia o complemento perfeito.
— Sorria — sussurrou Leona, entrelaçando seus dedos com os de Christine. — O show começou.
Arthur Lovelace as recebeu com um abraço caloroso, visivelmente satisfeito em ver sua "nova diretora" tão bem acompanhada. Mas o momento de paz durou pouco. Marcus, o homem que roubara a sociedade de Leona, aproximou-se com um sorriso de escárnio.
— Leona, querida. Fiquei sabendo da sua... promoção — disse ele, enfatizando a palavra com desdém. — E vejo que trouxe a sua assistente. Achei que o convite era para parceiros, não para funcionários.
Leona sentiu o músculo de sua mandíbula travar, mas antes que pudesse disparar uma resposta ácida, Christine agiu. Ela deu um passo à frente, encostando o ombro no peito de Leona e olhando para Marcus com uma mistura perfeita de pena e superioridade.
— Marcus, não é? — disse Christine, sua voz doce como mel envenenado. — Leona me contou sobre você. É fascinante como algumas pessoas precisam roubar o sucesso alheio porque não têm talento para construir o próprio. E sobre eu ser a "assistente"... bem, algumas parcerias são tão profundas que começam no escritório e terminam na alma. Não é, meu amor?
Christine virou-se para Leona e, diante de Marcus e de metade da elite de Manhattan, colocou a mão no rosto da executiva e a beijou suavemente no canto da boca.
Foi um toque de borboleta, mas para Leona, foi como se um vulcão tivesse entrado em erupção. O cheiro de lavanda de Christine a envolveu, e por um segundo, o museu, o Marcus e a vingança desapareceram. Só existia a suavidade dos lábios de Christine contra os seus.
Marcus ficou sem palavras, a face vermelha de indignação.
— Com licença — disse Leona, a voz mais baixa do que o normal. — Temos anfitriões a cumprimentar.
Ela praticamente arrastou Christine para uma varanda isolada, longe dos olhos curiosos. O ar da noite estava fresco, mas a tensão entre as duas era sufocante.
— O que foi aquilo? — perguntou Leona, soltando a mão de Christine como se tivesse levado um choque.
— Eu estava te defendendo! — rebateu Christine, a adrenalina ainda correndo. — Você disse para eu agir como se te amasse. Eu agi!
— Você me beijou em público! Isso não estava no script!
— Ah, por favor, Leona! Você vive dizendo que eu sou uma péssima atriz. Eu apenas elevei o nível da performance. Você deveria estar me agradecendo por deixar o Marcus com cara de idiota.
Leona deu um passo à frente, prensando Christine contra a balaustrada de pedra. A luz da lua refletia nos olhos azuis da executiva, que agora pareciam tempestuosos.
— Você não tem ideia do que está fazendo, tem? — rosnou Leona. — Você acha que isso é um joguinho de ciúmes, mas você está brincando com fogo em um depósito de pólvora.
— E você é a pólvora, Leona? — desafiou Christine, o peito arfando. — Porque se for, você está prestes a explodir. Eu vejo como você me olha quando as câmeras não estão ligadas. Eu sinto como sua mão treme quando você me toca. Você me odeia porque eu sou a única coisa na sua vida que você não pode comprar ou controlar.
Leona soltou uma risada amarga, inclinando-se até que seus lábios estivessem a milímetros dos de Christine.
— Eu poderia te demitir agora mesmo. Poderia cancelar o tratamento da sua mãe com um telefonema. Eu controlo tudo, Christine.
— Então por que não faz isso? — provocou Christine, a voz caindo para um sussurro desafiador. — Por que você continua me puxando para perto? Por que me comprou o vestido mais bonito da festa? Por que me olhou daquele jeito no espelho?
O silêncio que se seguiu foi carregado de meses de ressentimento, ética conflitante e um desejo que ambas tentaram enterrar sob camadas de sarcasmo. Leona não respondeu com palavras. Ela simplesmente fechou o espaço entre elas.
O beijo não teve nada de falso. Foi um choque de vontades, agressivo e desesperado. Leona segurou o rosto de Christine com as duas mãos, os dedos se perdendo no cabelo perfeitamente arrumado, enquanto Christine puxava Leona pela gola do smoking, trazendo-a para mais perto, querendo fundir suas peles.
Não havia lavanda ou sândalo; havia apenas o gosto de vinho caro e uma fome que nenhuma delas sabia que possuía. Leona soltou um gemido baixo contra os lábios de Christine, uma rendição que parecia um pecado para a executiva tirana.
Quando se separaram, ambas estavam ofegantes, os lábios inchados e os olhos arregalados com a percepção do que acabara de acontecer.
— Isso... — começou Leona, tentando recuperar sua máscara de gelo, mas sua voz falhou.
— Isso não faz parte do contrato — completou Christine, a voz trêmula, limpando um borrão de batom no canto da boca de Leona com o polegar.
— Não. Não faz — disse Leona, afastando-se um passo, a postura voltando a ficar rígida, embora seus olhos ainda estivessem fixos nos de Christine. — Voltaremos para a festa. Agiremos como se nada tivesse acontecido. Amanhã, voltamos aos nossos papéis originais.
— Você consegue fazer isso? — perguntou Christine, ajeitando o vestido esmeralda. — Consegue voltar a ser a patroa sem alma depois de ter me beijado assim?
Leona parou na porta da varanda, a silhueta recortada contra a luz do salão. Ela não olhou para trás.
— Eu sou Leona Blair, Christine. Eu consigo fazer qualquer coisa.
Mas, enquanto entrava novamente no salão, Leona sentia o calor do beijo de Christine queimando em seus lábios como uma marca permanente. Ela havia conseguido o cargo, havia humilhado Marcus e consolidado sua farsa diante de Arthur Lovelace. Ela tinha tudo o que queria.
Então por que, pela primeira vez em sua vida, ela sentia que tinha acabado de perder o jogo mais importante de todos?
O coquetel continuou, um borrão de sorrisos falsos e apertos de mão, mas a dinâmica havia mudado. Cada vez que as mãos de Leona e Christine se tocavam para as fotos, não era mais apenas uma performance. Era uma lembrança. E na escuridão do carro, no caminho de volta para casa, nenhuma das duas disse uma palavra.
O silêncio não era mais de ódio. Era o silêncio de quem sabe que cruzou uma linha sem volta, e que o labirinto de seda que construíram para enganar o mundo tinha acabado de se tornar a sua própria armadilha.
Ao chegarem ao apartamento, Leona caminhou direto para seu quarto sem se despedir. Christine ficou na sala, olhando para as luzes da cidade. Ela sabia que o contrato ainda tinha meses pela frente. Mas ela também sabia que, a partir daquela noite, o perigo não era mais ser descoberta por Arthur Lovelace.
O perigo era sobreviver ao coração de Leona Blair — e ao seu próprio.