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O contrato

Território Minado

O som das duas malas modestas de Christine ecoando sobre o piso de mármore travertino pareceu quase um sacrilégio.

A cobertura de Leona Blair no Upper East Side não era um lar; era um monumento ao poder e ao isolamento. Paredes em tons de ardósia, pé-direito duplo, obras de arte abstratas que pareciam custar o PIB de uma pequena nação e janelas colossais que ofereciam uma vista panorâmica e impiedosa de Manhattan. Havia um cheiro permanente de lírios brancos, cera cara e o perfume amadeirado da própria Leona impregnado nas cortinas pesadas. Tudo ali era austero, imaculado e terrivelmente frio.

Leona jogou as chaves em uma bandeja de prata polida perto da entrada. Ela já havia retirado o blazer estruturado, restando apenas na camisa de seda grafite com os dois botões superiores abertos, revelando a curva tensa da clavícula e o início de uma pele alva e firme.

— O seu quarto é a segunda porta à direita no mezanino — disse Leona, sem se virar enquanto caminhava até o bar de nogueira para servir duas doses generosas de bourbon. — O closet é maior do que o seu apartamento inteiro, então não precisa economizar espaço com esses trapos que você chama de roupas. Aliás, mandei uma equipe de estilistas entregar cinco opções de vestidos para o almoço beneficente de amanhã com os Sterling. Escolha um que não pareça ter saído de uma liquidação de fim de estação.

Christine sentiu a mandíbula travar com tamanha força que seus dentes doeram. Seus dedos envolveram a alça de couro desgastado da mala com ferocidade.

— Meus trapos foram comprados com dinheiro honesto, senhorita Blair — rebateu Christine, a voz vibrando com uma calma perigosa. — Algo que a senhora provavelmente não saberia reconhecer nem se caísse sobre a sua cabeça.

Leona deu um giro lento, segurando o copo de cristal lapidado entre os dedos longos e impecavelmente cuidados. Seus olhos castanhos esverdeados brilharam sob a luz âmbar e indireta dos spots embutidos no teto. Ela deu um gole lento na bebida, a garganta engolindo o líquido dourado com uma elegância quase felina, os olhos fixos na assistente o tempo inteiro.

— Deixe a hipocrisia na porta de entrada, Christine. Você está aqui vendendo a sua presença pelo mesmo dinheiro sujo que diz desprezar — provocou a executiva, caminhando com passos macios até parar a menos de um metro dela. O calor sutil que emanava do corpo de Leona atingiu Christine como uma onda invisível, desestabilizando o equilíbrio que ela tentava a todo custo manter. — Não tente posar de santa. A partir do momento em que aceitou o anel, você se tornou minha cúmplice.

Christine olhou para a própria mão esquerda. O diamante parecia arder contra a sua pele, um peso frio, alienígena e sufocante.

— Eu vendi o meu tempo e a minha tolerância, não a minha dignidade — disparou Christine, dando um passo à frente, recusando-se a recuar diante da estatura imponente de Leona. — E a transferência para o hospital?

— Caiu às quatro e meia da tarde — respondeu Leona, o tom de voz baixando uma oitava, tornando-se mais denso, quase aveludado. — O chefe do departamento de cirurgia cardíaca já está com o protocolo de tratamento nas mãos. Sua irmãzinha terá o melhor que a medicina moderna pode comprar. Eu cumpro minha palavra.

Um alívio violento desarmou Christine por um segundo, tão intenso que seus ombros caíram e uma expiração trêmula escapou de seus lábios. Ela odiava com todas as forças depender daquela mulher, mas saber que a vida de Clara estava segura arrancou um peso de toneladas de seu peito.

Leona notou a mudança. Seus olhos desceram para os lábios entreabertos de Christine, captando a vulnerabilidade crua da garota antes que ela conseguisse erguer novamente as defesas. Havia algo perturbadoramente fascinante na intensidade de Christine: ela não dobrava a espinha com facilidade, mesmo quando encurralada.

— Obrigada — sussurrou a assistente, a contragosto, a palavra saindo amarga como cinzas.

— Guarde a sua gratidão para o palco, querida — desdenhou Leona, embora houvesse uma centelha incomum no fundo do seu olhar. Ela depositou o copo de uísque sobre o aparador com um estalo seco. — Largue as malas aí. Nós temos trabalho a fazer antes de você se recolher.

— Trabalho? São quase dez da noite.

— Amanhã você não será minha funcionária, Christine. Será a mulher por quem eu perdi a razão. A mulher que me fez deixar para trás a reputação de predadora solitária — disse Leona, a ironia escorrendo em cada sílaba. — E, pelo jeito que você se encolhe toda vez que eu respiro perto de você, Arthur Sterling vai descobrir a farsa em trinta segundos.

Christine cruzou os braços sobre o peito, uma postura puramente defensiva.

— Eu sou uma boa atriz.

— Você é péssima — rebateu Leona, implacável. — Você me olha como se quisesse enfiar um abridor de cartas no meu pescoço. Noivas apaixonadas não olham assim. Elas procuram o toque da outra. Elas sentem atração, desejo, ternura. Venha aqui.

O comando ecoou no silêncio da sala. Christine hesitou, cada fibra de seu corpo gritando para virar as costas e se trancar no quarto designado. Em vez disso, respirou fundo, ergueu o queixo e deu dois passos curtos.

— Mais perto — exigiu Leona.

Christine avançou até que a ponta de seus sapatos quase tocasse os scarpins pretos de Leona. A proximidade era avassaladora. De perto, Christine pôde ver os minúsculos pontos dourados espalhados pela íris castanho-esverdeada de Leona, a textura macia de seus lábios desenhados e o pulso batendo ritmado na base de sua garganta clara. O perfume da executiva — uma mistura inebriante de cedro, couro e pimenta-preta — preencheu os sentidos de Christine, nublando seus pensamentos.

— O que você quer que eu faça? — perguntou Christine, a voz saindo ligeiramente mais rouca do que pretendia.

— Relaxe esses ombros — murmurou Leona. Sem aviso, as mãos da mulher mais velha subiram até os ombros de Christine.

O toque fez Christine sobressaltar-se. As palmas de Leona eram quentes, firmes, os dedos longos aplicando uma pressão controlada sobre os nós musculares tensos da assistente. Christine soltou um arquejo baixo, não de dor, mas pelo choque térmico do contato que desceu como um arrepio elétrico direto por sua espinha dorsal.

— Você está dura como uma tábua de passar — sussurrou Leona, descendo lentamente as mãos pelos braços de Christine, os polegares roçando a pele exposta abaixo das mangas curtas de sua blusa de algodão.

O atrito simples fez os pelos dos braços de Christine se eriçarem instantaneamente. Seu coração disparou no peito com um ritmo ensurdecedor, traindo a calma que ela tentava desesperadamente projetar.

— Isso é ridículo — protestou Christine, embora não tivesse se afastado. A garganta estava seca. — Ninguém se toca assim no meio de um restaurante beneficente.

— Se tocam, sim — corrigiu Leona, dando um passo adiante, diminuindo o espaço restante entre elas até que o tecido áspero da seda de sua camisa roçasse contra o peito de Christine a cada respiração. — Um casal apaixonado não pede licença para existir no mesmo espaço. Eles gravitam um em direção ao outro. O toque é involuntário.

Leona levou a mão direita até a cintura de Christine. Seus dedos espalharam-se sobre o quadril da garota, apertando de leve através do tecido da calça jeans, puxando-a milímetros para a frente. O encaixe de seus corpos foi tão súbito quanto natural, um choque silencioso que fez o ar desaparecer dos pulmões de ambas.

Christine prendeu a respiração. A proximidade permitia-lhe sentir o calor abrasador irradiando do abdômen de Leona. Os olhos azuis de Christine dilataram-se, travando-se no olhar sombrio e calculista da mulher à sua frente. Havia uma hostilidade palpável no ar, mas, por baixo dela, uma corrente subterrânea perigosa começava a se mover, pesada e inegável.

— Seus olhos — disse Leona, com a voz caindo para um sussurro confidencial, os lábios a poucos centímetros dos de Christine. — Eles ainda estão cheios de ódio.

— Porque eu ainda odeio você — rebateu Christine, desafiadora, embora seu peito estivesse arfando contra o de Leona, o calor entre elas crescendo a um nível quase insuportável. — Isso não vai mudar só porque você está me segurando.

— Não precisa mudar por dentro, Lovel — murmurou Leona, e havia um brilho predador em seu sorriso enviesado. A mão dela na cintura de Christine subiu lentamente pela lateral de suas costelas, o toque queimando através da blusa, fazendo os batimentos da assistente trovejarem. — Mas o seu corpo mente com muito mais facilidade do que a sua boca.

— O que você quer dizer com isso?

— Quero dizer que você pode me odiar o quanto quiser — disse Leona, a mão agora repousando na lateral do pescoço de Christine, o polegar deslizando suavemente pela linha da mandíbula delicada da garota até encontrar a pulsação frenética em sua carótida. — Mas o seu pulso está descontrolado. Sua pele está arrepiada. E você não deu um único passo para trás.

A constatação caiu sobre Christine como uma bofetada quente. Era verdade. A repulsa moral que sentia por Leona deveria tê-la feito se desvencilhar imediatamente, mas uma tensão puramente física, densa e inexplicável, mantinha seus pés cravados no chão. Era uma atração nascida da pura fricção de duas forças que colidiam sem cessar.

— É aversão, Blair — sibilou Christine, tentando recuperar o controle, embora seus olhos baixassem involuntariamente para a boca entreaberta de Leona antes de subirem de novo com culpa. — Meu corpo está reagindo ao nojo.

— Vamos testar a sua teoria, então — murmurou Leona.

A executiva não deu tempo para Christine formular uma resposta. Puxou a cintura da garota com firmeza repentina, colando seus quadris sem deixar espaço para a dúvida. A outra mão de Leona embrenhou-se nos cabelos castanho-claros de Christine, segurando a nuca da assistente com uma possessividade que não admitia recusa, inclinando a cabeça dela suavemente para trás.

O contato visual sustentado a essa distância milimétrica era sufocante. O ar compartilhado entre elas cheirava a bourbon e a desafio.

Por um instante que pareceu suspenso no tempo, Leona pareceu esquecer a farsa, o contrato e Arthur Sterling. Havia uma chama genuína, crua e faminta nos olhos castanho-esverdeados da executiva enquanto seu olhar devorava as feições delicadas, mas ferozes, da assistente. Christine viu o momento exato em que a armadura de frieza corporativa de Leona se desfez, substituída por uma necessidade puramente carnal e perturbadora.

Leona aproximou o rosto devagar, torturantemente lenta, até que a respiração quente roçasse os lábios de Christine.

O corpo de Christine respondeu antes de sua mente: seus lábios se entreabriram em uma expectativa silenciosa, o estômago revirando em nós apertados de pura ansiedade. As mãos de Christine, até então imóveis, subiram involuntariamente e pousaram espalmadas contra o peito de Leona, sentindo através da seda o coração da tirana bater em um ritmo tão rápido e descompassado quanto o seu.

Elas estavam prestes a quebrar a primeira regra do contrato. A linha invisível estava a um milímetro de ser cruzada.

Foi o som agudo e insistente do celular de Leona vibrando contra a madeira do balcão que estilhaçou a redoma de vidro.

O feitiço quebrou-se como porcelana caindo no concreto.

Christine empurrou o peito de Leona com força, dando três passos desajeitados para trás. O ar entrou em seus pulmões como se ela tivesse emergido de um afogamento. As bochechas da assistente queimavam em um rubor violento, os olhos azuis arregalados com uma mistura de pânico e autoaversão.

Leona cambaleou ligeiramente com o empurrão, recompondo-se quase no mesmo instante. Seus olhos ainda ardiam com um brilho escuro e perigoso, o peito subindo e descendo com força, mas sua máscara de cinismo voltou a se assentar sobre o rosto com uma rapidez impressionante.

Ela pigarreou, ajeitando a gola da camisa de seda com dedos que tremiam imperceptivelmente.

— Nada mal, Christine — disse Leona, a voz um pouco mais áspera do que o normal, mascarando a própria turbulência interna enquanto caminhava até o balcão para pegar o telefone. — Pelo menos agora sei que você consegue fingir submissão convincente quando é encurralada.

Christine cerrou os punhos com tanta intensidade que as unhas se cravaram nas palmas das mãos, a dor servindo para ancorá-la de volta à realidade. Ela limpou os lábios com as costas da mão trêmula, como se pudesse apagar a sensação fantasma da respiração de Leona contra a sua pele.

— Eu não estava fingindo submissão — disse Christine, com a voz trêmula de fúria, os olhos faiscando de desprezo por Leona e, pior ainda, por si mesma. — Eu estava esperando você tentar me beijar para quebrar o seu nariz.

Leona olhou a tela do celular, que piscava com o nome de um de seus advogados, antes de voltar o olhar para Christine. Havia um divertimento sombrio nos lábios da executiva, mas seus olhos revelavam que ela sabia exatamente o quão perto estiveram da borda daquele precipício.

— É uma pena que tenha perdido a oportunidade, querida — rebateu Leona com frieza calculada. — Porque amanhã, diante de trinta fotógrafos e do casal Sterling, você não terá a opção de hesitar. E se não me beijar como se sua vida dependesse disso, o contrato é cancelado antes da sobremesa.

Christine sustentou o olhar dela por mais três segundos, recusando-se a dar o braço a torcer. Então, sem pronunciar mais nenhuma palavra que pudesse trair o turbilhão ardente que consumia suas entranhas, ela deu meia-volta, pegou as duas malas do chão com brutalidade e marchou em direção às escadas do mezanino.

O som ritmado de seus passos firmes foi sumindo pelo corredor superior até que a porta pesada do quarto bateu com um estrondo definitivo.

No térreo da cobertura silenciosa, Leona Blair permaneceu imóvel. Ela baixou o telefone, esquecendo a ligação que tocava, e levou dois dedos aos próprios lábios ainda quentes.

Seu pulso ainda acelerado desmentia cada palavra de controle que acabara de proferir. Ela havia contratado Christine Lovel para ser uma marionete em seu plano meticuloso de vingança. Mas, enquanto encarava a penumbra das escadas vazias, Leona percebeu com uma pontada de pavor e fascínio que havia acabado de acender o pavio de uma bomba que ela não tinha a menor ideia de como desarmar.

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