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O contrato

Linhas de Contato

A estrada sinuosa que cortava Long Island em direção aos Hamptons parecia interminável sob o céu plúmbeo do final de tarde de sexta-feira.

Dentro do sedã executivo preto, o ar-condicionado sussurrava uma temperatura milimetricamente controlada, mas o clima no banco traseiro beirava o ponto de combustão. Christine passara os últimos dois dias cumprindo rigorosamente as novas regras impostas na cobertura: café da manhã compartilhado em silêncio quase litúrgico às sete e meia, portas destrancadas e o desconforto constante de tropeçar na presença imponente de Leona a cada esquina daquele mármore impessoal. Chamar a mulher pelo primeiro nome ainda parecia uma heresia que arranhava a sua garganta, uma intimidade forçada que minava as fronteiras que ela erguera com tanto cuidado.

Leona estava sentada ao seu lado, imersa em uma pasta com o logotipo prateado da Vance & Sterling. Ela vestia uma calça de linho cru e um suéter de cashmere azul-petróleo de gola alta que emoldurava sua mandíbula angulosa. Os cabelos escuros estavam presos em um rabo de cavalo baixo e despretensioso, conferindo-lhe um ar incomumente relaxado para quem passava a maior parte do tempo fuzilando pessoas com os olhos.

— Se você continuar suspirando desse jeito — disse Leona, sem erguer os olhos dos relatórios financeiros —, o motorista vai achar que estou levando você para um pelotão de fuzilamento, não para uma mansão à beira-mar.

— A diferença entre as duas coisas é puramente estética — rebateu Christine, ajeitando a gola do cardigã de lã clara. — E pelo menos diante de um pelotão eu saberia exatamente quando a tortura iria terminar.

Leona fechou a pasta de couro com um estalo seco e virou a cabeça devagar. Seus olhos castanhos esverdeados desceram pelo perfil de Christine, pousando na linha delicada de seus lábios e na ligeira tensão que endurecia a linha de seus ombros.

— A tortura, Christine, renderá a você um milhão de dólares e a melhor equipe médica deste país para a sua irmã. Sugiro que encontre uma forma de parecer um pouco menos martyrizada antes de cruzarmos os portões de ferro dos Sterling. Eleanor tem um radar infalível para desconfortos conjugais.

— Sei perfeitamente o que está em jogo, Leona — retrucou Christine, cravando os olhos azuis nos dela, enfatizando o nome da outra com aquele veneno refinado que aprendera a dosar nos últimos dias. — Apenas não espere que eu aplauda o fato de ter sido arrastada para um retiro campestre para ser exibida como a sua licença de redenção moral.

— Eu não exibo o que não tem valor — disparou Leona, com uma cadência tão baixa e aveludada que fez os pelos dos braços de Christine se eriçarem instantaneamente. — E você provou na terça-feira que sabe desempenhar esse papel com mais brilho do que qualquer profissional de relações públicas em Manhattan.

Christine sentiu o calor subir pelas maçãs do rosto e desviou o olhar para o vidro da janela, irritada com a facilidade com que Leona conseguia desestabilizar suas defesas. Toda vez que a mulher mais velha mencionava o que ocorrera no Metropolitan Club, Christine sentia como se um holofote estivesse apontado diretamente para a parte mais desprotegida de seus pensamentos.

Minutos depois, o carro reduziu a velocidade, adentrando uma aléia ladeada por carvalhos centenários que conduzia à imponente propriedade dos Sterling.

A mansão em estilo shingle-style erguia-se majestosa diante do Atlântico. Paredes de cedro acinzentado pelas brisas marítimas, telhados amplos e janelas panorâmicas que refletiam a espuma branca das ondas quebrando a poucas centenas de metros dali. O cheiro de maresia e pinho invadiu a cabine assim que o motorista abriu as portas.

Arthur e Eleanor Sterling já as aguardavam na ampla varanda de madeira clara, ladeados por um golden retriever idoso que abanava o rabo com preguiça aristocrática.

— Chegou a hora do espetáculo — murmurou Leona.

Antes que Christine pudesse colocar os pés na calçada de cascalho, a mão de Leona envolveu a sua. Não foi um toque hesitante ou mecânico. Os dedos longos e firmes de Leona entrelaçaram-se aos de Christine com uma naturalidade avassaladora, a palma quente da executiva pressionando-se contra a dela com uma força tranquilizadora e absurdamente íntima.

O estômago de Christine deu uma cambalhota súbita. O contraste entre a temperatura fria da brisa costeira e o calor da mão de Leona enviou uma descarga elétrica direto para a sua espinha. Ela tentou conter o arquejo, engolindo em seco enquanto forçava um sorriso sereno a desenhar-se em seus lábios.

— Meninas! Que alegria que conseguiram chegar antes do anoitecer — comemorou Eleanor, descendo os degraus da varanda com os braços abertos. Ela abraçou Leona com uma afeição calorosa e, em seguida, envolveu Christine em um abraço maternal que cheirava a lavanda e elegância antiga. — Você deve estar exausta da viagem, Christine querida. Arthur me disse que vocês duas quase não têm tido tempo para respirar com essa transição corporativa.

— Um pouco cansada, senhora Sterling, mas a vista deste lugar compensa qualquer trânsito — respondeu Christine, a voz suave e impecavelmente modulada.

— Eleanor, por favor. Nada de títulos formais neste fim de semana — corrigiu a anfitriã, lançando um olhar carinhoso para as mãos ainda unidas das duas recém-chegadas. — Arthur está no escritório terminando uma ligação com Londres, mas nos juntaremos para o jantar em uma hora. Deixem que James leve a bagagem para o quarto de vocês.

A frase caiu como uma âncora de ferro sobre o peito de Christine.

*O quarto de vocês.*

No singular.

Christine congelou por uma fração de segundo, sentindo os dedos apertarem instintivamente a mão de Leona. A executiva, no entanto, não demonstrou o menor sobressalto. Manteve a postura régia e o sorriso polido, embora Christine pudesse sentir a rigidez repentina nos músculos do braço da noiva de fachada.

— Agradecemos a hospitalidade, Eleanor — disse Leona, com uma fluidez desconcertante. — Nós adoraríamos nos refrescar um pouco antes do jantar.

— O quarto principal de hóspedes no piso superior tem a melhor vista para as dunas — explicou Eleanor com uma piscadela cúmplice. — Achei que vocês duas gostariam de um pouco de privacidade depois do rebuliço que causaram nos jornais esta semana. Subam, fiquem à vontade.

Guiadas pelo mordomo discreto, as duas subiram a ampla escadaria de carvalho em silêncio absoluto. Christine mantinha os dentes cravados no lábio inferior, sua mente girando em espirais de puro pânico controlado. Ela sabia que os Sterling supunham que eram um casal apaixonado, mas a materialização prática daquela mentira em um espaço fechado de quatro paredes era um abismo totalmente diferente.

Quando James depositou as malas no suporte perto da cômoda e fechou a pesada porta de madeira maciça atrás de si, o clique do trinco ecoou como uma sentença de morte.

Christine soltou a mão de Leona com a velocidade de quem acabara de encostar em uma chapa em brasa. Ela deu quatro passos rápidos para longe, parando no meio do quarto amplo, os olhos azuis arregalados enquanto examinava o ambiente.

O quarto era impecável, decorado em tons de areia, linho branco e madeira patinada. Havia uma lareira de pedra apagada em um canto, duas poltronas de leitura e, dominando o centro do espaço sob um dossel discreto, uma monumental cama king-size coberta por edredons de pluma e lençóis de linho egípcio imaculadamente esticados.

Uma única cama.

— Isso não pode estar acontecendo — murmurou Christine, levando as mãos às têmporas enquanto girava nos calcanhares para encarar Leona. — Diga-me que você sabia disso. Diga-me que você já esperava por isso e tem um plano de contingência!

Leona estava encostada contra a porta fechada, os braços cruzados sobre o peito, observando a agitação de Christine com uma calma que beirava o cinismo, embora houvesse uma tensão nítida na linha de seus lábios.

— Por que eu saberia? Eu nunca me hospedei na casa de campo de Arthur antes, Christine. E, caso você tenha esquecido o papel que aceitou desempenhar, casais recém-noivados não costumam solicitar camas de solteiro separadas quando viajam juntos. Pareceria bizarro e levantaria suspeitas imediatas.

— Eu não vou dormir na mesma cama que você! — sibilou Christine, baixando o tom para que a voz não atravessasse a madeira da porta, mas carregando as palavras de pura indignação. — Não estava no contrato! O contrato falava em aparições públicas e convivência civilizada, não em dividir o mesmo colchão!

— Então você prefere o chão? — indagou Leona com uma sobrancelha arqueada, descolando-se da porta e caminhando lentamente em direção à mala de couro que o mordomo deixara sobre o suporte. — Fique à vontade para puxar um cobertor e deitar sobre o tapete. A decisão é inteiramente sua. Mas não espere que eu vá acordar amanhã de manhã com dores na lombar porque a minha assistente pessoal é incapaz de tolerar cem centímetros de distância física em uma cama de dois metros de largura.

— A sua arrogância é nauseante — rebateu Christine, os punhos cerrados ao lado do corpo, a respiração curta e descompassada. — Você age como se tudo isso fosse um detalhe insignificante! Nós nos odiamos, Leona! Eu não suporto a forma como você respira achando que tem direito de posse sobre tudo e todos ao seu redor!

Leona parou no meio do quarto. A expressão zombeteira desfez-se em uma fração de segundo, substituída por aquela intensidade sombria e cortante que fazia salas de diretoria inteiras silenciarem em terror reverente. Ela deu três passos largos, invadindo o espaço de Christine até que as pontas de seus sapatos quase se tocassem.

— Se eu achasse que tenho posse sobre você, Christine, você saberia — sussurrou Leona, a voz tão baixa e áspera que parecia vibrar diretamente contra a pele do pescoço de Christine. A mulher mais velha inclinou o rosto para a frente, seus olhos castanhos esverdeados brilhando como vidro lapidado sob a luz morna dos abajures. — Você acha que eu estou confortável com essa situação? Acha que eu planejei ter você ocupando a droga da minha cobertura, a droga dos meus pensamentos e agora o quarto onde preciso descansar a cabeça para fechar o negócio mais importante da minha carreira?

A proximidade era sufocante. O perfume de cedro e pimenta-preta de Leona misturava-se ao salitre do ar que entrava pelas frestas da janela, inundando os sentidos de Christine com uma agressividade inebriante.

— Então peça outro quarto — desafiou Christine, o queixo erguido, embora seu coração estivesse socando as costelas com tamanha violência que ela temia que Leona pudesse ouvir o ritmo frenético. — Diga que você tem insônia. Diga que trabalha até tarde e não quer me incomodar. Invente qualquer uma das suas mentiras perfeitas!

— Arthur passou quarenta anos dormindo na mesma cama que a esposa, independentemente de crises, fusões ou guerras de mercado — retrucou Leona, os olhos cravados nos lábios entreabertos de Christine, traçando a curva tensa da boca da garota antes de subir novamente para prender seu olhar azul. — Ele me disse uma vez que um executivo que não consegue sustentar a paz no próprio leito não tem estabilidade emocional para liderar uma corporação. Se eu pedir outro quarto na primeira noite sob o teto dele, o contrato da vice-presidência vira cinzas antes da sobremesa de domingo.

Christine cerrou a mandíbula com tanta força que os dentes doeram. Ela detestava a lógica impecável e impiedosa de Leona, detestava ainda mais o fato de que, por trás de toda aquela frieza pragmática, havia uma verdade incontornável: não havia saída.

— Uma linha no meio — exigiu Christine, a voz trêmula de tensão, apontando um dedo acusador para o edredom imaculado. — Você fica do seu lado, eu fico do meu. Se você ultrapassar um milímetro enquanto estiver dormindo, eu juro por Deus que jogo uma jarra de água fria na sua cabeça.

Os cantos dos lábios de Leona curvaram-se em um sorriso perigoso, um brilho de puro divertimento desafiador iluminando suas feições esculpidas.

— Temos um acordo, Lovel. Mas trate de controlar essa sua agressividade antes de descermos para a sala de jantar. Eleanor preparou um assado de cordeiro e não gostaria de ver a futura nora esfaqueando o prato com tanta ferocidade.

***

O jantar no casarão dos Hamptons provou ser uma prova de resistência psicológica ainda mais extenuante do que o almoço no Metropolitan Club.

À mesa redonda de mogno polido, iluminada pela chama trêmula de candelabros de prata, não havia fotógrafos ou a agitação de uma centena de estranhos para dissipar o foco das conversas. Havia apenas quatro pessoas, o som suave das ondas quebrando lá fora e o escrutínio constante e afetuoso dos anfitriões.

Arthur Sterling, com seu paletó de veludo cotelê e os óculos repousando sobre a ponta do nariz, parecia outro homem fora do ambiente corporativo. Servia o vinho tinto encorpado com generosidade e ria com facilidade das histórias que a esposa compartilhava sobre os verões passados na costa. No entanto, Christine conseguia perceber o olhar analítico do magnata recaindo sobre elas a cada troca de frases.

— Então, Christine — disse Arthur, repousando os talheres sobre o prato de porcelana após terminarem o prato principal —, Eleanor e eu estávamos curiosos. Como duas pessoas com rotinas tão avassaladoras conseguem encontrar tempo para a intimidade do cotidiano? Leona sempre foi conhecida por ser a primeira a chegar e a última a sair da Nexus. Imagino que conciliar isso com um relacionamento amoroso exija concessões consideráveis.

Christine engoliu o bocado de vinho com cuidado, sentindo o líquido queimar sua garganta. Antes que o silêncio se prolongasse perigosamente, a mão de Leona pousou com delicadeza sobre a sua coxa, oculta pela toalha de linho que caía sobre o colo de ambas.

O toque fez Christine sobressaltar-se quase imperceptivelmente. Os dedos de Leona apertaram o tecido fino de seu vestido verde-oliva com uma firmeza controlada, transmitindo um aviso silencioso e, ao mesmo tempo, um calor perturbadoramente desestabilizador que subiu direto pela pele da assistente.

— Nós aprendemos a encontrar a nossa própria rotina, senhor Sterling — respondeu Christine, virando-se ligeiramente para Leona com um sorriso suave, seus olhos encontrando os castanho-esverdeados da chefe. A mão livre de Christine subiu para a mesa e cobriu a mão de Leona que segurava a taça de cristal, acariciando os nós dos dedos da executiva com o polegar. — Às vezes, as concessões mais difíceis são as mais necessárias. Leona tem uma mente brilhante, mas tende a esquecer que o mundo não acaba se ela desligar o telefone por algumas horas. O meu papel tem sido lembrá-la de que há vida fora das planilhas.

Leona sustentou o olhar de Christine. Por baixo da mesa, a mão da executiva relaxou ligeiramente a pressão, mas não se moveu da coxa de Christine; em vez disso, seus dedos deslizaram suavemente alguns centímetros em direção ao joelho da assistente, em um carinho involuntário e lento que fez o ar faltar nos pulmões da mais jovem.

— Ela é a única pessoa que tem permissão para confiscar o meu telefone — admitiu Leona, e havia uma nota surpreendentemente desarmada em sua voz que não pareceu ensaiada. — Antes de Christine, eu achava que o silêncio era um desperdício de tempo. Hoje eu entendo que o silêncio compartilhado com a pessoa certa é o único luxo que o dinheiro não compra.

Eleanor suspirou, apoiando o queixo nas mãos unidas, os olhos brilhando com pura admiração romântica.

— Isso é tão verdadeiro, querida. Arthur costumava ser exatamente igual nos nossos primeiros anos de casamento. Sempre achando que o mundo desabaria se ele não estivesse no comando de cada engrenagem. É preciso uma mulher de fibra e muita doçura para desarmar um titã.

— Parece que a senhorita Lovel cumpriu essa missão com louvor — concordou Arthur, levantando a taça em um brinde silencioso, o olhar satisfeito dissipando qualquer resquício de dúvida restante. — À nova fase da Vance & Sterling. E aos laços que sustentam o sucesso verdadeiro.

— Aos laços — ecoou Leona, tocando a taça contra a de Arthur.

Por baixo da toalha, no entanto, o calor entre a mão de Leona e a perna de Christine parecia prestes a incendiar o tecido. Christine manteve a postura impecável até o fim da sobremesa, mas, quando Eleanor finalmente sugeriu que todos se recolhessem devido à hora avançada, a sensação de alívio durou apenas até o momento em que ambas cruzaram o umbral do quarto no piso superior.

***

A porta de madeira bateu com um clique seco.

Christine deu dois passos para dentro do quarto e encostou as costas contra a cômoda de madeira clara, soltando a respiração com tanta força que seu peito subiu e desceu em um solavanco. Ela levou a mão ao peito, sentindo as batidas violentas do coração contra as costelas.

— Você não tinha o direito de fazer aquilo na mesa — disparou Christine, a voz entrecortada, os olhos faiscando de fúria e de uma vergonha quente que queimava suas bochechas.

Leona parou no centro do quarto, retirando o relógio de pulso de platina e depositando-o sobre a mesa de cabeceira. Ela virou-se devagar, as feições ilegíveis sob a penumbra criada pelas chamas baixas da lareira que James havia acendido enquanto estavam no jantar.

— Fazer o quê, exatamente?

— Aquilo com a sua mão na minha perna! — Christine avançou um passo, a fúria dominando seu tom contido. — Nós combinamos que os toques seriam estritamente necessários para a encenação pública! Não havia necessidade de passar os dedos pela minha coxa daquele jeito! Você fez de propósito para me desestabilizar!

Leona não recuou. Ela deu dois passos calmos em direção a Christine, as sombras da lareira dançando em seus olhos castanhos esverdeados, conferindo-lhe uma aura quase predatória.

— Arthur estava prestes a questionar a nossa dinâmica diária, Christine — rebateu Leona, a voz incrivelmente calma, embora houvesse uma tensão palpável na forma como seus ombros estavam alinhados. — Um toque furtivo por baixo da mesa, carregado de intimidade casual, convence mais do que mil palavras elaboradas. Eu estava apenas sendo eficiente.

— Não parecia eficiência! — Christine cerrou os punhos, sentindo o estômago revirar com a memória do calor da mão de Leona através do tecido do vestido. — Parecia... invasão. Você não sabe respeitar limite nenhum, não é? Acha que, porque está pagando o tratamento da minha irmã, pode ditar até onde a sua pele pode encostar na minha!

O golpe atingiu o alvo com uma crueldade inesperada.

Leona estacou no lugar. Os olhos da executiva estreitaram-se, e uma sombra densa cruzou suas feições esculpidas. A máscara de arrogância pareceu rachar por um segundo, revelando uma ferida viva que Christine não esperava encontrar.

— Nunca mais — disse Leona, com uma frieza tão cortante que o ar pareceu congelar ao redor de ambas — use a vida da sua irmã como um insulto contra mim. Eu cumpro cada linha dos meus acordos, Christine. Mas não confunda a minha estratégia com abuso de poder. Se você achou que aquele toque foi uma violação, deveria ter me afastado na mesma hora e deixado Arthur Sterling rasgar o meu futuro corporativo na frente da esposa dele.

Christine engoliu em seco. A firmeza da resposta de Leona e a mágoa oculta sob a casca de gelo a desarmaram por um instante. Ela abriu a boca para rebater, mas as palavras morreram em sua garganta diante da intensidade do olhar da mulher mais velha.

Leona deu as costas a ela com movimentos bruscos. Tirou o suéter de cashmere pela cabeça com um gesto irritado, revelando uma camiseta branca de alças finas que delineava a curvatura forte de seus ombros e a linha pálida de suas costas musculosas. Em seguida, pegou sua bolsa de higiene e marchou em direção ao banheiro privativo.

— O lado esquerdo da cama é seu — disse Leona antes de fechar a porta com uma batida seca. — Apague as luzes quando for deitar.

O som da água do chuveiro ecoou abafado pela porta de mármore momentos depois.

Christine permaneceu imóvel diante da cômoda, o peito ainda arfando. Ela passou a mão pelo rosto quente, sentindo-se exausta, fragmentada e assustadoramente confusa. O ódio que sentia por Leona era real, alimentado por meses de humilhações corporativas e arrogância desenfreada. Mas a eletricidade que saltava entre elas toda vez que os corpos colidiam não tinha nada a ver com negócios ou contratos. Era uma força cega, destrutiva e incontrolável que começava a consumir todas as suas certezas.

Vinte minutos depois, vestindo uma calça de flanela confortável e uma blusa cinza de mangas longas, Christine rastejou para o lado esquerdo da imensa cama. Ela puxou os lençóis de linho até o queixo, virando o corpo de costas para o lado vazio do colchão, encarando a penumbra da janela que dava para o mar.

A porta do banheiro abriu-se com um rangido suave.

O aroma de sabonete de sândalo e o vapor quente invadiram o quarto. Christine manteve os olhos fechados, forçando a respiração a soar compassada e lenta, fingindo estar adormecida.

Ouviu os passos descalços de Leona sobre o piso encerado, o som do interruptor do abajur sendo desligado com um clique definitivo e, em seguida, o peso do colchão cedendo do lado direito.

O silêncio que se instalou foi avassalador.

Apesar da imensidão da cama king-size, a presença de Leona ocupava o espaço como uma tempestade silenciosa. Christine podia sentir o calor que emanava do corpo da outra mulher através dos lençóis, a poucos palmos de distância. O ritmo da respiração de Leona era contido, quase tenso, traindo a mesma insônia que corroía Christine por dentro.

Passaram-se minutos que pareceram horas.

Lá fora, a maré subia contra as dunas com um rugido ritmado e hipnótico. O vento assobiava contra o vidro duplo da janela, preenchendo o quarto com uma melancolia litorânea e densa.

— Eu sei que você está acordada — quebrou Leona o silêncio, a voz rouca e baixa, quase um sussurro que se perdeu na penumbra.

Christine não se moveu. Manteve os olhos fixos na escuridão à sua frente.

— O que você quer, Leona?

Houve uma pausa longa, preenchida apenas pelo estalar suave da última brasa morrendo na lareira de pedra.

— No almoço de terça-feira... quando você disse aquelas coisas para Arthur sobre eu ter medo de ser vulnerável — começou Leona, e havia uma fragilidade inédita no tom de sua voz que fez o estômago de Christine se contrair em um nó apertado —, você realmente pensava aquilo? Ou foi apenas a melhor mentira que conseguiu formular?

Christine virou-se lentamente sobre o travesseiro, girando o corpo até que seus olhos encontrassem a silhueta de Leona na penumbra. A executiva estava deitada de lado, encarando-a através da extensão do colchão, os cabelos escuros espalhados sobre o linho branco, o rosto iluminado apenas pelo brilho prateado do luar que atravessava as cortinas entreabertas.

A frieza habitually impecável de Leona não estava lá. Havia apenas uma mulher cansada, cujas defesas haviam sido desmanteladas por alguém que ela nunca esperou que chegasse tão perto.

Christine sustentou o olhar na escuridão, sentindo a garganta apertada pela verdade que não conseguia mais conter.

— Eu vejo você há dois anos, Leona — sussurrou Christine, a voz macia, despida de qualquer veneno ou sarcasmo pela primeira vez desde que o contrato fora assinado. — Eu vi você trabalhar dezesseis horas por dia sem comer uma maçã sequer. Eu vi você engolir as ofensas daqueles diretores velhos e podres com um sorriso congelado antes de voltar para a sua sala e socar a própria mesa em silêncio. Eu sei que você é tirana, implacável e que passa por cima de qualquer um para vencer. Mas eu também sei que você faz isso porque tem pavor absoluto de que alguém descubra que, se tirarem o poder das suas mãos... você não sabe quem você é.

O silêncio desabou sobre a cama como uma avalanche de neve.

Leona não piscou. Uma respiração trêmula escapou de seus lábios entreabertos, e sua mão direita moveu-se sobre o lençol branco, avançando devagar até parar no meio do espaço que as separava.

Os dedos longos de Leona tocaram a ponta dos dedos de Christine sobre o linho.

Foi um contato mínimo, uma linha de contato sutil que não tinha fotógrafos, não tinha Arthur Sterling e não tinha nenhum público para aplaudir. Apenas a pele quente de duas mulheres que deveriam se repelir, mas cujas mãos se fecharam em um aperto hesitante e desesperado na escuridão do retiro costeiro.

Christine não recuou. Seus dedos entrelaçaram-se aos de Leona, correspondendo à pressão com a mesma intensidade muda e aterradora.

— Você me assusta, Christine Lovel — murmurou Leona, a voz falhando ligeiramente no final da frase.

— Você também me assusta, Leona Blair — respondeu a assistente, apertando a mão da noiva de fachada com uma firmeza que desafiava todas as cláusulas do contrato que haviam assinado.

Elas adormeceram daquela forma, com as mãos unidas no meio do leito compartilhado, enquanto lá fora a tempestade no oceano começava a ganhar força — sem que nenhuma das duas soubesse como conter as ondas que já haviam inundado suas defesas.

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