o ctg e voce
Entre o Couro e a Madrugada
A despedida no galpão do CTG havia demorado mais do que o previsto, cercada por risadas maliciosas e piadas nada sutis de Lando, que não perdera a chance de assobiar quando viu Oscar pegar a jaqueta de Lily para ajudá-la a vestir. Carmen e Alexandra trocaram olhares cheios de cumplicidade com ela, enquanto Manuela, a um canto do salão, mantinha os braços cruzados com uma carranca amarga.
Lily fingira costume, mas suas bochechas ainda queimavam. Ter passado quase meia hora acomodada no colo firme de Oscar diante de todos ainda reverberava por cada terminação nervosa de seu corpo.
O vento frio da serra gaúcha cortou o ar assim que pisaram no estacionamento de cascalho. Lily encolheu os ombros contra a brisa noturna, mas antes que pudesse sequer pensar em tremer, o braço pesado e quente de Oscar envolveu sua cintura, puxando-a contra a lateral do corpo dele.
— Tá com frio? — perguntou ele, a voz baixa e rouca ressoando bem ao pé do ouvido dela, provocando um arrepio que nada tinha a ver com a temperatura externa.
— Um pouco — confessou ela, olhando para cima para encontrar aqueles olhos calmos e escuros fitando-a com uma intensidade desarmante. — Mas você é um aquecedor ambulante, então ajuda.
Oscar soltou uma risada nasalada, um som abafado e satisfeito que vibrou contra as costelas dela. Ele a conduziu pelo cascalho até onde seu carro estava estacionado sob a copa de uma araucária.
Ali jazia uma das poucas concessões que Oscar fazia em relação ao seu estilo de vida lá fora: um Porsche Panamera preto metálico, baixo, imponente e com um acabamento que gritava poder aquisitivo sem precisar de esforço algum. No CTG ele era apenas o peão habilidoso de bombacha e olhar atento; fora dali, era um homem absurdamente bem-sucedido, dono de uma fortuna que ele nunca ostentava, mas que transparecia em cada detalhe impecável daquele veículo.
Com um bip suave, as luzes dianteiras se acenderam em um traço moderno. Oscar abriu a porta do passageiro para Lily, mantendo uma mão na borda superior para protegê-la enquanto ela entrava no interior que cheirava a couro legítimo, tecnologia e o perfume amadeirado dele.
— Cavalheiro até o fim, Piastri? — provocou Lily, acomodando-se no banco ergonômico que parecia abraçar perfeitamente seu corpo.
Oscar se inclinou para perto, apoiando uma mão no encosto do banco dela e a outra na porta aberta, fechando-a em uma jaula feita do seu próprio corpo largo e imponente. O cheiro de lenha e cedro que emanava dele preencheu os sentidos dela em um instante.
— Com você? Sempre — sussurrou ele, os lábios roçando quase imperceptivelmente no lóbulo da orelha de Lily antes de ele se afastar com um meio sorriso presunçoso e bater a porta.
Lily soltou o ar que nem percebera estar prendendo, assistindo-o contornar a frente do carro com passos firmes e seguros. Oscar tirou o casaco pesado antes de entrar, jogando-o no banco de trás. Sobrava apenas a camisa escura, ligeiramente justa nos ombros largos e no peitoral definido, com as mangas dobradas até os antebraços fortes, revelando veias sob a pele clara que Lily conhecia bem demais.
Ele fechou a porta, isolando completamente o mundo exterior. O silêncio da cabine luxuosa era absoluto, quebrado apenas pela respiração dos dois.
Oscar apertou o botão de ignição. O motor rugiu com um ronco grave, profundo e compassado, antes de se estabilizar em um murmúrio suave. As luzes ambientes em tom âmbar banharam o painel e os dois ocupantes.
Sem pressa, ele ajustou o ar-condicionado na temperatura perfeita, olhou pelo retrovisor e colocou o carro em movimento. O carro deslizou pela estrada com uma suavidade impressionante.
Eles mal haviam deixado o portão de madeira rústica do CTG para trás quando a mão direita de Oscar deixou o câmbio.
Com a mais absoluta naturalidade, a palma larga, quente e pesada dele pousou sobre a coxa de Lily.
Lily engoliu em seco. Ela usava uma saia macia que subira um pouco ao se sentar, e a mão de Oscar cobriu a carne exposta de sua perna acima do joelho com uma posse deliberada. Ele não apenas pousou a mão ali; ele apertou levemente, os dedos compridos se moldando à maciez de sua pele em um aperto firme, quase possessivo.
— Oscar… — ela chamou, a voz saindo uma oitava mais fraca do que pretendia.
Ele continuava olhando para a estrada vazia à frente, o perfil esculpido e sereno iluminado pela luz suave do painel, uma mão dominando o volante com facilidade desdenhosa.
— O que foi, Lily? — perguntou ele, o tom tão calmo que beirava a inocência. Mas os dedos dele se moveram, subindo dois centímetros pela coxa dela, cravando-se sutilmente ali.
— Você precisa das duas mãos no volante para dirigir essa nave.
— Essa "nave" se pilota praticamente sozinha — Oscar respondeu, finalmente virando o rosto de lado para lançar um olhar lânguido em sua direção, os olhos escuros brilhando de diversão e algo muito mais primitivo. — E, sinceramente, minha mão está exatamente onde deveria estar.
O coração de Lily deu um salto descompassado. Ela cruzou as pernas sutilmente, o que apenas fez a mão dele se ajustar com mais firmeza na parte interna de sua coxa, arrancando um suspiro involuntário de seus lábios.
— Você tá muito abusado hoje — retrucou ela, tentando manter um tom de reprovação que falhou miseravelmente. — Primeiro aquela palhaçada de me puxar pro seu colo na frente de todo mundo…
— Você não pareceu achar ruim — rebateu ele imediatamente, e o polegar começou a fazer círculos lentos e torturantes sobre a pele macia dela. — Aliás, parecia bem confortável. Ficou bem quietinha.
— Porque o Lando não parava de olhar! Se eu me mexesse, ele ia fazer um escândalo.
— Deixa ele olhar — Oscar deu de ombros, indiferente, enquanto fazia uma curva aberta na rodovia deserta. — Deixa qualquer um olhar. Eu já cansei de agir como se você fosse só uma amiga que divide a dança comigo.
As palavras caíram no ar como um fósforo aceso em palha seca. Lily sentiu a respiração travar na garganta.
— Você… cansou?
Oscar desacelerou um pouco, não por necessidade do trânsito, mas porque o ritmo da conversa exigia espaço. Seus olhos abandonaram a pista por alguns segundos para pousar nos dela, pesados, famintos e cheios de uma certeza inabalável.
— Cansei de ver você se afastando com ciúme idiota de gente que não me importa, Lily. Cansei de esperar você entender por conta própria o que tá na sua cara há meses.
Lily sentiu o sangue subir para as bochechas, o calor irradiando pelo peito.
— Eu não tinha ciúme… — tentou mentir, mas a voz falhou.
A mão dele apertou sua coxa com mais força, subindo perigosamente mais alto, fazendo a barra da saia ceder ainda mais espaço para o toque ardente.
— Não minta pra mim — sussurrou ele, a voz descendo para um tom perigosamente aveludado que fez o baixo ventre dela se contrair. — Quando você cortou aquele dedo, tava pensando na Manuela. Quando ficou emburrada cortando tomate, tava queimando por dentro. E a única coisa que eu queria era te prender contra a parede daquela cozinha e te fazer esquecer até o próprio nome, só pra você parar de duvidar de mim.
A franqueza de Oscar a deixou atordoada. Ele nunca fora de discursos longos, sempre o homem das ações contidas, da presença silenciosa. Ouvir aquilo saindo de sua boca, naquele tom autoritário e profundamente apaixonado, era mais do que seus sentidos podiam suportar.
— E por que não fez? — ela desafiou, o olhar queimando em direção a ele, a ousadia escapando antes que pudesse conter. — Tava com medo do pessoal entrar?
Oscar soltou um riso baixo, rouco, quase gutural.
— Eu não tenho medo de ninguém daquele lugar, Lily. Só estava tendo consideração por você. Mas se você quer brincar de testar meu autocontrole…
Ele não completou a frase. Em vez disso, puxou o carro suavemente para o acostamento largo de uma reta isolada, cercada por campos escuros e o murmúrio distante dos grilos. Colocou o câmbio no ponto morto, puxou o freio eletrônico e, antes que ela pudesse formular uma pergunta, desatou o próprio cinto de segurança.
O silêncio do carro se tornou elétrico.
— Oscar, o que você tá…
Ele não respondeu com palavras. Inclinou-se sobre o console central, os ombros largos bloqueando a pouca luz que entrava pelas janelas, e segurou o queixo de Lily com a mão esquerda, os dedos firmes erguendo o rosto dela com uma autoridade que a fez estremecer por inteiro.
— O que foi que você perguntou lá no galpão? — perguntou ele, a boca a milímetros da dela, o hálito quente de menta e churrasco roçando os lábios dela. — Se eu não me preocupava com o que iam pensar?
Lily mal conseguia puxar o ar, hipnotizada pela tempestade no olhar dele.
— Foi…
— Eu respondi que não, porque eu sei o que quero. E você me perguntou o que eu queria.
A outra mão dele, livre, subiu com voracidade decidida pela parte interna de sua coxa, empurrando o tecido fino da saia até repousar na lateral de seu quadril, puxando-a para a ponta do banco do passageiro.
— Diz agora — murmurou Lily, as mãos trêmulas subindo para encontrar os ombros sólidos dele, sentindo os músculos tensos sob a camisa. — Diz o que você quer, Oscar.
— Você — ele declarou, sem um segundo de hesitação, com uma firmeza que quebrou qualquer barreira que ainda existisse entre eles. — Eu quero você. Não só pra me beijar escondido atrás do galpão, não só pra sentar no meu colo quando as luzes tão fracas. Quero você no meu carro, na minha cama, na minha vida. Quero que todo mundo naquele CTG, do capataz até a Manuela, saiba que você é minha prenda e que eu sou seu. Ficou claro agora?
As palavras atingiram Lily como uma onda inebriante. Antes que ela pudesse responder, a boca de Oscar colidiu contra a dela.
Foi um beijo faminto, urgente, sem nada do comedimento habitual dele. Ele invadiu os lábios de Lily com a língua quente e determinada, aprofundando o contato enquanto gemia baixo contra a boca dela. Lily retribuiu com o mesmo desespero, os dedos cravando-se nos cabelos curtos e macios da nuca dele, puxando-o para mais perto.
Oscar moveu o corpo grande com agilidade surpreendente, puxando Lily para cima do console central até que ela estivesse praticamente montada em seu colo, os joelhos acomodados em cada lado de seus quadris estreitos.
— Oscar… — ela ofegou quando ele desceu os lábios para a linha sensível de seu pescoço, mordiscando a pele delicada logo abaixo da mandíbula. — Você tá louco… a gente tá no acostamento…
— Os vidros têm insulfilm escuro, ninguém vê nada — murmurou ele contra a pele dela, as mãos grandes apertando sua cintura e descendo para a curva de seu quadril com uma possessividade deliciosa. — E mesmo se vissem, eu não dou a mínima.
Ele ergueu a cabeça para fitá-la. Lily estava corada, os lábios vermelhos e inchados, os cabelos levemente desgrenhados e os olhos brilhando como duas estrelas na penumbra da cabine. Ele a olhou com tanta adoração, com um carinho tão desmedido misturado ao desejo cru, que o peito dela doeu de alívio e plenitude.
— Você é linda demais — disse ele, a voz falhando ligeiramente pela intensidade do sentimento. — Passo a semana inteira esperando o ensaio de sexta só pra te ver dançar. Só pra poder segurar sua mão na roda e fingir que faz parte da coreografia.
Lily sorriu, com o coração derretendo, e levou os dedos até o rosto dele, acariciando a linha definida de sua bochecha.
— Você é um idiota, sabia? — sussurrou ela com carinho. — Devia ter me dito isso antes de me deixar enlouquecer de ciúmes.
— Eu achei que minhas mãos em você dissessem o suficiente. — Ele deslizou uma das palmas pelas costas dela, pressionando-a contra seu peito firme. — Mas já vi que com você eu preciso ser direto.
— Precisa. Muito direto.
Oscar deu um daqueles raros sorrisos abertos, iluminando a expressão geralmente séria, e deu uma mordidinha carinhosa no lábio inferior dela.
— Então vamos fazer o seguinte — propôs ele, as mãos firmes segurando as coxas dela para acomodá-la ainda melhor sobre seu corpo. — A gente vai pra minha casa agora. Você não volta pro seu apartamento hoje. E amanhã cedo, quando o Lando mandar mensagem no grupo cobrando satisfação, eu mesmo respondo confirmando cada uma das teorias idiotas dele. O que acha?
Lily soltou uma risada entrecortada, os braços firmemente enlaçados no pescoço do homem que, afinal de contas, sempre fora dela — e de quem ela sempre fora, mesmo sem ter coragem de admitir.
— Eu acho uma excelente ideia, peão — provocou ela, roçando a ponta do nariz na dele.
— Ótimo — respondeu Oscar, depositando mais um beijo estalado em seus lábios antes de puxá-la com todo o cuidado de volta para o banco do carona.
Ele a ajeitou, arrumou a barra da saia dela com uma ternura quase reverente e prendeu o cinto de segurança de Lily com um clique satisfatório.
Quando Oscar voltou ao banco do motorista e engatou a marcha, acelerando suavemente de volta para a pista, o silêncio que se instalou já não tinha qualquer vestígio de dúvida ou insegurança. O Panamera devorava o asfalto com imponência, cortando a noite escura em direção à casa dele.
E, exatamente como antes, a mão de Oscar encontrou o caminho de volta para a coxa de Lily — agora mais alta, mais firme, descansando ali não mais como uma dúvida ou um flerte disfarçado, mas como a reivindicação indiscutível de quem finalmente havia chegado onde sempre pertenceu.