O destino do amor
Notas de Rodapé e Joelhos Ralados
A biblioteca da escola estava estranhamente silenciosa para uma tarde de terça-feira, o que era um milagre, considerando que Mateus parecia incapaz de ficar quieto por mais de cinco minutos. Alice ajustou os óculos no topo do nariz, os cachos caindo sobre o rosto enquanto ela revisava, pela décima vez, as referências bibliográficas do trabalho de história sobre a Revolução Industrial.
Ao seu lado, Mateus girava uma caneta entre os dedos com uma habilidade irritante. Ele parecia perfeitamente relaxado, com as pernas longas esticadas por baixo da mesa, invadindo o espaço de Alice.
— Você vai acabar furando o papel de tanto apertar essa caneta, baixinha — comentou Mateus, com aquele sorriso de canto que Alice ainda não sabia se a irritava ou a encantava.
— E você vai acabar levando um chute se não tirar o seu pé de cima do meu tênis — retrucou ela, embora não houvesse hostilidade real em sua voz. — Precisamos garantir que a conclusão esteja perfeita. O professor Miller não aceita nada menos que o impecável.
Mateus soltou uma risadinha baixa, inclinando-se mais para perto. O cheiro de sabonete e algo que lembrava grama recém-cortada — provavelmente do treino de futebol — invadiu o espaço pessoal de Alice.
— Relaxa. Nós fizemos um trabalho incrível. Suas notas sobre o impacto social e os meus gráficos... bom, os meus gráficos são obras de arte.
— Seus gráficos têm desenhos de engrenagens com rostos tristes, Mateus — Alice disse, tentando esconder o sorriso.
— É uma metáfora visual para a opressão do proletariado, Alice. Arte pura — ele piscou, e por um segundo, os olhos verdes dele brilharam sob a luz fluorescente da biblioteca.
Alice sentiu as bochechas esquentarem, as sardas parecendo queimar. Ela voltou a atenção para o laptop, sentindo o braço de Mateus roçar no seu enquanto ele se aproximava para ler a tela. O contato era leve, mas parecia carregar uma voltagem inesperada. Nas últimas semanas, desde que foram obrigados a formar uma dupla, a dinâmica entre eles havia mudado. O que começou como uma obrigação escolar transformou-se em tardes de risadas, discussões sobre táticas de tênis — que Mateus fingia entender — e uma proximidade que Alice não sabia como rotular.
— Acho que terminamos — suspirou ela, fechando o arquivo. — Só falta imprimir e grampear.
— Deixa que eu faço isso. Sou o mestre da impressora — ele se levantou, a altura dele sempre a impressionando. Ele estendeu a mão para ela. — Vamos, o dever nos chama.
Alice aceitou a mão dele para se levantar, e por um momento, ele não a soltou. A mão de Mateus era grande e quente, contrastando com os dedos pequenos e frios de Alice.
— Você está nervosa? — perguntou ele, a voz subitamente mais suave.
— Um pouco. Eu gosto de tirar notas boas, você sabe.
— Você é a melhor da sala, Alice. Comigo como seu fiel escudeiro, não tem como dar errado.
— Você é mais como o bobo da corte do que o escudeiro — ela brincou, finalmente soltando a mão dele, embora uma parte dela sentisse falta do calor.
Na manhã seguinte, o corredor da escola parecia mais agitado que o normal. Alice segurava a pasta com o trabalho como se fosse um tesouro nacional. Mateus caminhava ao lado dela, cumprimentando metade da escola com acenos e piadinhas, mas sempre voltando sua atenção para ela.
— Hoje é o dia — disse ele, fazendo uma pose dramática na porta da sala de história. — O dia em que a dupla dinâmica conquista o mundo, ou pelo menos o Miller.
— Só entrega o trabalho, Mateus — pediu Alice, embora estivesse rindo.
Eles caminharam até a mesa do professor. O Sr. Miller era um homem de poucas palavras e óculos que pareciam aumentar seus olhos em três vezes. Ele recebeu a pasta, deu uma olhada rápida e fez um som gutural que poderia significar qualquer coisa entre "está horrível" e "estou impressionado".
— Podem se sentar — disse o professor, sem desviar os olhos das páginas.
A aula pareceu durar uma eternidade. Alice não conseguia se concentrar na explicação sobre a Unificação Italiana. Ela sentia o olhar de Mateus nela de vez em quando, e toda vez que ela retribuía, ele fazia uma careta engraçada ou sussurrava algo sem sentido.
— Ele está sorrindo — sussurrou Mateus, inclinando-se para o lado de Alice.
— Quem? O Miller? Ele não sorri desde 1994 — Alice respondeu em um sussurro ainda mais baixo.
— Juro por Deus. Ele acabou de olhar para a página do seu ensaio sobre as ferrovias e os lábios dele se mexeram para cima. É um sinal.
Alice revirou os olhos, mas sentiu um frio na barriga. Quando o sinal finalmente tocou, o Sr. Miller se levantou e pigarreou.
— Antes de saírem, gostaria de entregar as notas dos trabalhos de campo. No geral, estou satisfeito, mas uma dupla em particular se destacou pela profundidade da pesquisa e... — ele fez uma pausa, olhando para Mateus — pela criatividade visual inusitada.
A sala ficou em silêncio.
— Alice e Mateus, excelente trabalho. Nota A.
Alice sentiu como se um peso tivesse saído de seus ombros. Antes que pudesse processar, Mateus a envolveu em um abraço de urso, tirando-a do chão por um segundo.
— Eu não disse? Eu não disse? — ele comemorava, a risada vibrando contra o ombro dela.
— Mateus! Me coloca no chão! — Alice ria, o rosto enterrado no pescoço dele por um breve momento antes de ele a soltar.
— A gente precisa comemorar — disse ele, ainda com as mãos nos ombros dela, os olhos verdes brilhando de excitação. — Milkshake? Por minha conta.
— Você só quer uma desculpa para tomar aquele milkshake de chocolate gigante — provocou ela, ajeitando a mochila nas costas.
— Talvez. Mas eu quero comemorar com a minha parceira de crime. O que me diz?
Alice olhou para ele, vendo além do garoto "sonso" e engraçado que todos conheciam. Havia algo genuíno ali, algo que a fazia se sentir vista de uma forma que ninguém mais conseguia.
— Tudo bem, Mateus. Mas eu escolho a música no carro.
— Justo. Mas nada de trilhas sonoras de musicais o tempo todo, combinado?
— Não prometo nada.
Eles saíram da sala de aula lado a lado. O contato entre eles agora parecia mais natural, menos carregado de hesitação. Enquanto caminhavam pelo estacionamento, Mateus esbarrou o ombro no dela de propósito, fazendo-a cambalear um pouco.
— Ei! — reclamou ela, rindo.
— Foi sem querer, juro! — mentiu ele, descaradamente. — É que eu sou muito alto, perco o equilíbrio.
— Você é um idiota, Mateus.
— Mas sou o seu idiota nota A.
Alice sentiu o coração dar um salto estranho. Ela nunca fora boa em lidar com sentimentos que não pudessem ser organizados em listas ou explicados em livros de história, mas ali, sob o sol da tarde, com Mateus abrindo a porta do carro para ela com uma reverência exagerada, ela sentiu que talvez não precisasse de todas as respostas agora.
— Para onde vamos, mestre da impressora? — perguntou ela, entrando no carro.
— Para o melhor lugar da cidade. E depois... quem sabe? O mundo é pequeno para quem acabou de conquistar a Revolução Industrial.
Enquanto Mateus dava partida no motor e Alice começava a procurar uma música no celular, ela percebeu que o trabalho de história tinha terminado, mas o que quer que estivesse acontecendo entre eles estava apenas começando o seu capítulo mais interessante. O contato, que antes era apenas um esbarrão acidental de joelhos sob a mesa da biblioteca, agora parecia uma promessa silenciosa de que as tardes de terça-feira nunca mais seriam as mesmas.