O destino do amor
Batidos de Morango e Táticas de Defesa
O carro de Mateus era exatamente como Alice imaginava que seria: um caos organizado que cheirava a pinho e protetor solar. Havia uma raquete de tênis esquecida no banco de trás — o que fez Alice sorrir, lembrando-se das tentativas dele de entender o que era um *backhand* — e alguns papéis amassados no console central. Assim que ela se sentou, o espaço pareceu diminuir. Mateus era grande demais para aquele carro, ou talvez a energia dele fosse simplesmente vasta demais para ser contida por quatro portas e um teto solar.
— Certo, Alice. As regras são claras — disse ele, batucando no volante enquanto esperava o sinal abrir. — Nada de música que me faça querer chorar pela revolução francesa ou que envolva animais cantando.
— Você não tem cultura, Mateus — Alice respondeu, deslizando o dedo pela tela do celular com um sorriso travesso. — Musicais são a base da narrativa moderna. Mas, como hoje é um dia especial, vou poupar seus ouvidos.
Ela selecionou uma playlist de indie pop que costumava ouvir antes das suas partidas de tênis. As batidas leves preencheram o carro, e Mateus começou a balançar a cabeça no ritmo, parecendo genuinamente satisfeito.
— Viu? Eu sabia que você tinha um lado descolado escondido sob essas camadas de referências bibliográficas — provocou ele, lançando-lhe um olhar rápido de soslaio. Os olhos verdes dele estavam particularmente brilhantes sob a luz do fim de tarde, o que fez Alice desviar o olhar para a janela, sentindo o estômago dar um nó que não tinha nada a ver com fome.
— Eu sou muito descolada, obrigada. Só que eu prefiro investir meu tempo em coisas que agreguem, tipo saber a diferença entre o socialismo utópico e o científico.
— E eu prefiro investir o meu em saber qual sabor de milkshake combina com uma nota A — ele retrucou, entrando no estacionamento da "Lanchonete do Benny", um lugar clássico com bancos de couro vermelho e luzes de neon que Alice adorava, embora raramente frequentasse.
Eles desceram do carro e, por um instante, o vento soprou os cachos de Alice sobre o rosto. Antes que ela pudesse reagir, Mateus esticou a mão e afastou uma mecha rebelde, prendendo-a atrás da orelha dela. O toque dos dedos dele foi breve, mas a pele de Alice formigou onde ele encostou.
— Suas sardas estão aparecendo mais hoje — comentou ele, com uma voz estranhamente suave, perdendo por um segundo aquele tom de brincadeira constante. — Deve ser o sol. Ou o orgulho da nota dez.
— É o sol — Alice disse rápido demais, sentindo o rosto esquentar. — Vamos entrar logo, estou com fome.
Eles escolheram uma mesa nos fundos, longe do barulho da máquina de café. Mateus pediu um milkshake gigante de chocolate com calda extra, e Alice optou por um de morango, o seu favorito. Enquanto esperavam, Alice começou a organizar os guardanapos na mesa em uma linha perfeita, um hábito nervoso que ela não conseguia controlar.
— Para com isso, Alice — pediu Mateus, rindo e bagunçando a linha de guardanapos com um movimento rápido da mão. — O trabalho acabou. Férias mentais por trinta minutos, lembra?
— É difícil desligar — confessou ela, recostando-se no banco de couro. — Eu sempre sinto que preciso estar fazendo algo. Se eu não estiver estudando, estou treinando saque. Se não estou treinando, estou revisando o cronograma da semana que vem.
— E quando é que você só... respira? — Mateus perguntou, apoiando os cotovelos na mesa e inclinando-se para frente. Ele parecia subitamente sério, uma faceta que Alice raramente via. — Tipo, sem metas. Sem prazos. Só ser a Alice que gosta de milkshake de morango.
Alice hesitou. Ninguém nunca tinha feito essa pergunta para ela. Para a maioria das pessoas, ela era a "Alice estudiosa" ou a "Alice do tênis".
— Acho que agora? — ela arriscou, olhando nos olhos dele.
— Boa resposta — ele sorriu, e a tensão se dissipou no momento em que a garçonete colocou os copos enormes na frente deles.
Mateus deu uma golada tão grande no seu milkshake que, segundos depois, apertou as têmporas com uma careta de dor.
— Cérebro congelado! Cérebro congelado! — ele exclamou, fazendo Alice cair na gargalhada.
— Bem feito, Mateus! Quem manda ser tão guloso?
— É o preço da vitória, Alice — ele disse, recuperando-se e limpando um pouco de chantilly do canto da boca. — Mas sério, o Miller estava quase chorando de emoção com aquele seu parágrafo sobre as locomotivas. Você escreve muito bem.
— E você desenha muito bem — ela retribuiu, sentindo-se generosa. — Mesmo que sejam engrenagens tristes. Elas deram um toque... humano ao trabalho.
— Eu sabia! Eu sabia que você ia acabar apreciando meu gênio artístico.
Eles continuaram conversando, e o tempo pareceu correr de um jeito diferente. Alice percebeu que Mateus não era apenas o garoto "sonso" e engraçado que fazia piadas no fundo da sala. Ele tinha uma percepção aguçada sobre as pessoas, uma leveza que ela invejava e uma forma de fazê-la se sentir relaxada que era quase assustadora.
— Sabe — disse Mateus, mexendo o canudo no copo agora quase vazio —, eu fiquei meio tenso quando o Miller anunciou as duplas.
— É? Por quê? Achei que você estivesse feliz por não ter caído com o Guto, que dorme em todas as aulas.
— Não é isso. É que... você sempre pareceu tão séria. Tão inalcançável, sabe? Tipo uma rainha do gelo cercada por livros de história e raquetes de tênis. Eu achei que você ia me odiar em dois dias.
Alice sentiu uma pontada no peito. Ela nunca quis parecer inalcançável. Era apenas uma armadura.
— Eu não te odeio, Mateus — ela disse, a voz baixa. — Na verdade, eu... eu gostei de trabalhar com você. Você me faz rir, e isso é difícil de fazer quando eu estou em "modo acadêmico".
— Eu percebi — ele piscou. — Mas eu gosto do seu modo acadêmico também. Especialmente quando você franze a testa desse jeito quando não concorda com uma data histórica.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi preenchido pelo som ambiente da lanchonete e pelo entendimento mútuo de que algo havia mudado. O trabalho de história fora o catalisador, mas a reação química agora era independente de notas ou professores.
— Ei, Alice — chamou ele, depois de pagar a conta (apesar dos protestos dela de que deveriam dividir). — Tem uma coisa que eu queria te perguntar.
Eles já estavam do lado de fora, caminhando lentamente em direção ao carro. O céu estava tingido de laranja e violeta.
— Pode perguntar.
— Vai ter um torneio regional de tênis no sábado, não vai?
Alice parou de caminhar, surpresa.
— Vai. Como você sabe?
— Eu presto atenção — ele deu de ombros, parecendo subitamente tímido. — Eu estava pensando se... se você se importaria se eu fosse assistir. Prometo não gritar nada constrangedor, a menos que você esteja ganhando de muito.
Alice sentiu o coração acelerar. Ter Mateus na arquibancada era uma ideia que a deixava nervosa e animada ao mesmo tempo.
— É um esporte bem silencioso, Mateus. Você teria que se comportar.
— Eu posso tentar. Mas não prometo nada se você fizer um ponto incrível.
— Tudo bem — ela sorriu, sentindo uma felicidade genuína borbulhar dentro de si. — Eu adoraria que você fosse.
Eles chegaram ao carro, mas nenhum dos dois fez menção de entrar imediatamente. Mateus se encostou na porta do motorista, e Alice ficou à frente dele, a diferença de altura fazendo com que ela tivesse que olhar para cima.
— Então, é um encontro? — ele perguntou, com aquele sorriso de canto que agora Alice tinha certeza absoluta: a encantava.
Alice sentiu as sardas queimarem novamente, mas desta vez ela não desviou o olhar.
— Se você não levar nenhum cartaz com engrenagens tristes, pode ser que sim.
Mateus soltou uma risada alta e, em um impulso, inclinou-se e beijou a bochecha dela, perto do canto da boca. O beijo foi rápido, mas deixou um rastro de calor que se espalhou por todo o corpo de Alice.
— Sem cartazes. Prometido — ele sussurrou.
A viagem de volta para a casa de Alice foi mais silenciosa, mas era um silêncio confortável, cheio de possibilidades. Quando ele a deixou na frente do portão, Alice ficou observando o carro se afastar até que as luzes traseiras sumissem na esquina.
Ela entrou em casa, subiu as escadas e jogou a mochila na cama. O livro de história estava ali, espiando para fora da bolsa. Ela o pegou e abriu na página da Revolução Industrial. Entre as folhas, encontrou um pequeno pedaço de papel que não estava lá antes.
Era um desenho rápido, feito à caneta esferográfica. Uma pequena tenista cacheada, desenhada no estilo "palitinho", mas com detalhes inconfundíveis: as sardas e uma pequena coroa na cabeça. Embaixo, a letra garranchosa de Mateus dizia: *"Para a Rainha do Gelo, que tem o melhor backhand e o melhor sorriso do mundo. Vejo você no sábado."*
Alice abraçou o papel contra o peito e se permitiu, pela primeira vez em muito tempo, não pensar no cronograma do dia seguinte, nem na Unificação Italiana, nem na tática de defesa para o torneio. Ela apenas fechou os olhos e respirou, sentindo o gosto de morango ainda nos lábios e a certeza de que aquele era, sem dúvida, o melhor capítulo da sua história até agora.