O dono do morro
Noite de Baile e Sangue Quente
O grave do funk já ecoava lá embaixo, fazendo o chão da mansão no Leblon vibrar levemente, mas o clima dentro do quarto de Kaelton estava mais pesado que a batida da música. O platinado terminava de ajeitar o cordão de ouro grosso no pescoço, vestindo uma camisa de time importada e um short de tactel de marca, mas seus olhos verdes não saíam do reflexo de Luanara no espelho.
Lua estava terminando de passar o gloss, vestindo um vestido de tricô branco, curtíssimo, que moldava cada curva do seu corpo tipo "pera". O contraste do tecido claro com a pele branquinha e os cabelos negros longos era de tirar o fôlego, mas para Kael, aquilo era um convite para o estresse. Ele travou o maxilar, sentindo o peito arder de um ciúme que ele tentava, sem sucesso, sufocar.
— Tu vai assim mesmo, Luanara? — A voz de Kael saiu rouca, carregada de um descontentamento que ele não conseguia esconder.
Lua parou com o aplicador de gloss na mão, olhando para ele através do espelho. O brilho nos olhos negros dela diminuiu um pouco.
— O que foi, amor? Tá feio? — Ela perguntou, a voz doce carregada de uma insegurança repentina.
— Feio não tá, porra. Tu sabe que tá linda pra caralho — Kael se aproximou, parando atrás dela e apertando a cintura fina com as mãos grandes, os dedos quase se encontrando. — O problema é que tá todo mundo lá. Meus amigos, os caras do asfalto que sobem pro baile... tu tá muito exposta, vida. Esse vestido aí não tampa nada.
— Mas a gente tá com o seu pai, com o Bê... ninguém vai fazer nada, ursinho — ela tentou acalmar o namorado, virando-se nos braços dele e passando as mãos pelos ombros largos e malhados. — Eu me vesti assim pra você.
Kael não respondeu. Ele apenas deu um beijo seco na testa dela e se afastou para pegar o radinho e a carteira. O silêncio dele era pior que uma briga. Ele não proibiu, porque sabia que o pai, Guilherme, não tolerava esse tipo de molequice de "mandar" na mulher, mas o clima já tinha azedado.
No corredor, Bernardo e Merllya já esperavam. Bê estava com o mullet impecável, usando um brinco de argola que brilhava sob a luz do hall. Ele abraçava Mell pela cintura, que usava um conjunto de cropped e saia azul que realçava seus olhos.
— Bora, caralho! O coroa já tá descendo com a tia — Bernardo exclamou, mas logo percebeu a cara de poucos amigos do irmão. — Que foi, Kael? Tá com a cara de quem chupou limão, porra.
— Nada, Bernardo. Vamos logo — Kael resmungou, passando direto e puxando Lua pela mão, sem olhar para trás.
Logo atrás, Guilherme Allegretti descia as escadas com a imponência de um verdadeiro dono do território. O Coronel do BOPE vestia uma camisa pólo preta que marcava os músculos do peito e do braço, o cavanhaque aparado e o olhar verde afiado. Ao seu lado, Letícia estava deslumbrante em um vestido vermelho justo, os cabelos pretos soltos e um sorriso carinhoso no rosto. Ela carregava Stella, a "Estrelinha", no colo, que dormia profundamente enrolada em uma manta fina.
— O comboio já tá pronto lá fora — Guilherme anunciou, a voz grossa impondo respeito imediato. — Stella vai ficar com a babá e os seguranças na casa de apoio. Quero todo mundo atento. Kaelton, Bernardo... sem gracinha hoje. O baile é pra curtir, mas olho aberto.
— Pode deixar, meu bem — Letícia disse, dando um selinho no marido antes de entregar a bebê para a funcionária de confiança. — Vamos aproveitar que hoje o rabugento resolveu levar a gente pra dançar.
O trajeto até o coração da comunidade foi rápido. O comboio de SUVs blindados abria caminho entre a multidão que já se aglomerava. Quando Guilherme desceu do carro, o respeito era palpável. Ele era o cara que mantinha a ordem, o equilíbrio entre a farda e o morro.
O camarote VIP era espaçoso, com bebidas de luxo e uma vista privilegiada do palco e da multidão. Mas, para Lua, a noite que deveria ser perfeita começou a desmoronar. Kael não saía do lado dela, mas não era um "lado" carinhoso. Ele estava tenso, o corpo rígido. Cada vez que um homem passava e olhava um segundo a mais para as pernas de Lua, o braço de Kael apertava a cintura dela com mais força, quase machucando.
— Kael, tá apertado... — ela sussurrou, tentando se soltar um pouco.
— Fica perto de mim, Luanara. Não quero ninguém de gracinha pro teu lado — ele respondeu sem olhar para ela, os olhos verdes varrendo o ambiente como se procurasse um motivo para explodir.
Bernardo e Mell, por outro lado, estavam em outro ritmo. Bê beijava a namorada entre um gole e outro de uísque, rindo com os amigos Pedro e Ryan que tinham acabado de chegar.
— Qual foi, Bê? O Kael tá em transe? — Pedro perguntou, rindo da seriedade do gêmeo platinado.
— Deixa ele. Tá em dia de ciúme possessivo por causa do vestido da Lua — Bernardo deu de ombros, puxando Mell para mais perto. — Eu prefiro curtir minha gatinha. Né, amor?
— Com certeza, lindo — Mell respondeu, mas olhou com preocupação para a prima. Lua estava com um semblante triste, "morgada" num canto do sofá, apenas observando as pessoas dançarem enquanto Kael fumava um baseado com os amigos, mantendo-a presa sob seu braço como se ela fosse um troféu em perigo.
Guilherme, que observava tudo de longe enquanto conversava com alguns contatos, percebeu a tensão. Ele se aproximou do filho, deixando Letícia conversando com as meninas.
— Kaelton, chega aqui — Guilherme chamou, o tom não admitindo recusas.
Kael se afastou de Lua e foi até o pai, perto da grade do camarote.
— Fala, pai.
— Tu tá estragando a noite da garota, porra — Guilherme foi direto, a voz baixa e perigosa. — Eu te criei pra ser homem, não pra ser moleque inseguro. A Luanara tá ali com cara de quem quer chorar enquanto tu tá parecendo um bicho acuado por causa de um vestido.
— O senhor viu como os caras olham, pai? — Kael tentou se justificar, o estresse transbordando. — É desrespeito.
— Desrespeito é tu não confiar na mulher que tem. Se alguém faltar com o respeito real, tu resolve como homem. Mas fechar a cara e tratar ela mal por ser bonita? Isso é coisa de otário — Guilherme deu um tapinha pesado no ombro do filho. — Melhora essa postura ou leva ela pra casa. Não quero clima ruim no meu camarote.
Kael engoliu em seco. Ele olhou para Lua, que agora conversava baixinho com Letícia. Sua mãe passava a mão no cabelo da menina, claramente tentando confortá-la. O coração de Kael apertou. Ele amava aquela garota mais que tudo, mas o sangue quente e o instinto protetor às vezes cegavam sua razão.
Ele voltou para perto dela. Lua nem levantou os olhos, mexendo nervosamente na pulseira de ouro que ele mesmo tinha dado a ela.
— Vida... — Kael chamou baixo.
— Oi, Kael — ela respondeu de forma monossilábica, a tristeza evidente na voz.
— Vem cá — ele a puxou para um canto mais reservado do camarote, atrás de umas pilhas de caixas de som que abafavam um pouco o barulho.
— O que foi? Vai dizer que o vestido subiu dois centímetros e quer ir embora? — Lua desabafou, os olhos negros brilhando com lágrimas represadas. — Eu me arrumei toda pra você, Kael. Pra você me achar linda, pra gente dançar... e você tá me tratando como se eu tivesse cometido um crime.
Kael sentiu o peso das palavras dela. Ele a prensou contra a parede, mas dessa vez o toque não foi bruto. Ele colou o corpo dele ao dela, sentindo o calor da pele de Lua sob o tricô branco.
— Me perdoa, docinho — ele sussurrou contra o pescoço dela, inalando o perfume de baunilha que o deixava louco. — Eu sou um idiota. É que eu olho pra ti e vejo a coisa mais perfeita do mundo, e me sobe um ódio de pensar que qualquer outro maluco pode estar pensando merda de ti.
— Mas eu sou sua, Kael. Só sua — ela disse, segurando o rosto dele com as mãos pequenas. — Você não precisa ter medo.
— Eu sei, amor. Eu sei — ele suspirou, fechando os olhos por um segundo. — É que tu tá linda pra caralho. Esse teu corpo... essa boceta que eu sei que tá molhada só de eu encostar em ti... me deixa maluco.
Ele desceu as mãos para a bunda dela, apertando com vontade sob o vestido curto. O clima mudou instantaneamente de tensão para desejo puro. Kael começou a beijar o pescoço dela com mordidas leves, fazendo Lua arfar e esquecer a tristeza de minutos atrás.
— Kael... aqui não... o pessoal tá logo ali — ela gemeu baixo, sentindo o membro dele já rígido contra sua coxa.
— Ninguém tá vendo aqui atrás, vida. Só um pouquinho — ele levantou o vestido dela com rapidez, revelando a calcinha de renda mínima.
Os dedos de Kael encontraram a intimidade dela, que já estava ensopada. Ele soltou um rosnado de satisfação.
— Viu só? Tá prontinha pro teu ursinho, não tá?
Enquanto os dois se perdiam naquele momento de urgência nos fundos do camarote, Bernardo e Mell dominavam a pista VIP. Bernardo dançava atrás dela, as mãos grandes espalmadas na barriga de Mell, acompanhando o movimento dos quadris da loira.
— Tu quer ir pra um lugar mais calmo, gatinha? — Bernardo sussurrou no ouvido dela, a voz rouca de desejo.
— Onde, Bê? A casa tá cheia — Mell respondeu, virando o rosto para ganhar um beijo molhado no canto da boca.
— O carro tá logo ali embaixo. O vidro é escuro, ninguém vê nada — ele sugeriu, com aquele sorriso safado que Mell não conseguia recusar.
— Você não presta, Bernardo Henrique.
— Presto pra ti, princesa. Só pra ti.
Eles saíram de fininho, passando por Guilherme e Letícia. O Coronel apenas arqueou uma sobrancelha, vendo o filho sair com a namorada, mas não disse nada. Ele sabia exatamente o que ia acontecer. Letícia se encostou no peito do marido, sentindo a segurança que ele sempre passava.
— Nossos meninos cresceram rápido demais, né, meu bem? — Letícia comentou, observando o movimento.
— Cresceram. E puxaram o pai. Não podem ver uma mulher bonita que já querem levar pro ninho — Guilherme riu, abraçando-a por trás e apertando os seios dela por cima do vestido vermelho. — E por falar nisso, coração... o baile tá bom, mas eu tô com uma saudade dessa tua boceta que tu não tem noção.
— Guilherme! Alguém pode ouvir — ela riu, mas se inclinou para trás, entregando o pescoço aos beijos dele.
— Deixa ouvir. Todo mundo sabe quem manda aqui. E quem manda em mim é tu — ele sussurrou, a mão descendo perigosamente para a fenda do vestido dela.
A noite na Rocinha estava longe de acabar. Entre batidas de funk, copos de uísque e o cheiro de fumaça no ar, os Allegretti viviam sua própria lei: a lei da paixão e do domínio. Kael e Lua voltaram para o grupo pouco depois, os lábios dela inchados e o cabelo levemente bagunçado, mas o sorriso tinha voltado ao rosto da menina. O estresse de Kael tinha sido canalizado para outro lugar, e agora ele a segurava com uma possessividade mais calma, mais segura.
O Rio de Janeiro podia ser perigoso, mas para aqueles casais, o verdadeiro perigo estava na intensidade do que sentiam um pelo outro. E naquela noite, o morro era apenas o cenário para mais um capítulo de desejo e poder.