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O dono do morro

Luzes, Sombras e o Futuro Allegretti

A manhã de segunda-feira no Leblon começou com uma calmaria enganosa. O sol ainda não tinha atingido seu ápice, mas o calor já se fazia presente, entrando pelas janelas panorâmicas da mansão. No andar de cima, o silêncio era interrompido apenas pelo som rítmico da respiração de Stella, que havia acabado de acordar em seu berço de laca branca.

Luanara foi a primeira a entrar no quarto. Ela ainda vestia um pijama de seda curta, com os cabelos pretos ondulados caindo bagunçados pelos ombros. Kaelton ainda dormia profundamente no quarto ao lado, exausto após uma noite de "atividades" intensas, mas Lua tinha um despertador biológico ligado à pequena Estrelinha.

— Bom dia, minha princesa — sussurrou Lua, aproximando-se do berço com um sorriso que iluminava seu rosto de porcelana.

Stella, ao ver a cunhada, abriu um sorriso banguela e começou a agitar as perninhas gorduchas. Os olhos verdes da bebê, idênticos aos de Guilherme e dos gêmeos, brilharam com o reconhecimento. Lua a pegou no colo com uma agilidade que mostrava o quanto ela já estava acostumada com aquela rotina. O cheiro de bebê e talco era o melhor calmante do mundo.

— Vamos trocar essa fralda e ficar bem linda pro seu pai não reclamar da nossa demora, né? — Lua brincou, colocando a bebê no trocador.

Enquanto Lua cuidava de Stella, Letícia apareceu na porta. A matriarca dos Allegretti observava a cena com um brilho de orgulho nos olhos. Ela via em Luanara não apenas a namorada do filho, mas a filha que a vida lhe deu por afinidade.

— Você leva um jeito natural com ela, Lua — comentou Letícia, encostando-se no batente da porta, segurando uma xícara de café fumegante. — Parece que já nasceu treinada.

— Eu amo ficar com ela, tia — respondeu Lua, sem desviar os olhos da bebê. — A Stella é tão calma, tão doce... é o meu grudinho favorito.

— É o grudinho da casa toda — Letícia riu, aproximando-se e dando um beijo na testa da filha. — Mas cuidado, se o Kaelton acorda e não te vê do lado dele, ele vira um bicho. Aquele ali herdou a possessividade do Guilherme em dobro.

— Ele reclama, mas no fundo ele ama ver a gente juntas — Lua disse, terminando de vestir um macacãozinho de renda em Stella. — Ele diz que ela é a única mulher que pode roubar a atenção dele além de mim.

— Falando no diabo... — Letícia apontou para o corredor.

Kaelton apareceu na porta, vestindo apenas um short de tactel preto, exibindo o abdômen trincado e o cabelo platinado em pé. Ele coçava os olhos, com aquela cara de marrento que só o sono conseguia suavizar um pouco.

— Sabia que tu tava aqui — resmungou Kael, entrando no quarto e abraçando Lua por trás, enterrando o rosto no pescoço dela. — Acordei e o lado da cama tava frio, docinho. Isso não se faz.

— Para de ser carente, ursinho — Lua riu, inclinando a cabeça para dar espaço aos beijos dele. — A Estrelinha precisava de mim.

Kael olhou para a irmãzinha no colo de Lua e soltou um suspiro, esticando o dedo para que a bebê o segurasse. Stella imediatamente apertou o dedo do irmão com força.

— E aí, pequena? Tá roubando minha mulher logo cedo? — Kael deu um sorriso raro e genuíno. — Tu tem sorte que é minha irmã, se fosse qualquer outro eu já tava bolado.

— Deixa de ser rabugento, Kaelton Matheus! — Letícia repreendeu, embora estivesse sorrindo. — Vai tomar banho e desce. Seu pai quer falar com você e com o Bernardo antes de vocês irem resolver as coisas no asfalto.

Kael deu um último beijo no ombro de Lua e saiu, mas não antes de dar um tapa possessivo na bunda dela, o que lhe rendeu um olhar de reprovação de Letícia e um risinho de Lua.

— Ele não tem jeito, tia — disse Lua, ajeitando Stella no colo.

— É sangue Allegretti, querida. A gente se acostuma.

Lá embaixo, na mesa do café, o clima era de planejamento. Guilherme estava sentado na cabeceira, analisando alguns mapas no tablet enquanto tomava seu café preto sem açúcar. Bernardo já estava lá, devorando um misto-quente, com Merllya ao seu lado, concentrada em passar geleia em uma torrada.

— Bom dia, coroa — disse Kael, sentando-se à mesa após o banho.

— Bom dia. Cadê a Luanara e a Stella? — Guilherme perguntou, sem tirar os olhos da tela.

— Estão descendo. A Lua tá em dia de babá oficial — respondeu Kael.

Logo, Lua entrou na sala de jantar carregando Stella. A cena fez Guilherme largar o tablet imediatamente. O olhar duro do coronel do BOPE derretia instantaneamente quando se tratava da filha caçula.

— Vem cá com o papai, princesa — Guilherme disse, estendendo os braços.

Stella foi para o colo do pai, puxando o bigode aparado dele, o que fez Bernardo soltar uma risada.

— Só ela pra fazer isso e sair ilesa, né pai? — provocou Bernardo, ajustando o brinco de argola. — Se eu encosto no seu bigode, eu acordo com um fuzil na cara.

— Tu já é homem feito, Bernardo. Aprende a diferença — Guilherme rebateu, mas com um tom de brincadeira. — Lua, senta aí e come. Tu tá muito magrinha, menina. Kaelton não tá te alimentando não?

— Tô sim, pai. Ela que é ruim de garfo — Kael brincou, puxando a cadeira para a namorada.

— Eu como bem, tio! É que a Stella gasta toda a minha energia — Lua respondeu, sentando-se e aceitando uma fatia de mamão que Mell lhe ofereceu.

— Tia Letícia — começou Mell, olhando para a sogra —, a gente tava pensando em levar a Stella pra praia hoje à tarde. O sol vai estar mais baixo, e a gente fica ali no nosso posto reservado. O que a senhora acha?

Letícia olhou para Guilherme, buscando a aprovação silenciosa dele.

— Se os meninos forem junto e ficarem de olho, por mim tudo bem — disse Guilherme. — Mas quero o Ragnar junto. E nada de fotos da bebê em rede aberta, entenderam? Segurança em primeiro lugar.

— Pode deixar, coroa. A gente vai estar armado até os dentes, ninguém chega perto — garantiu Kael, com aquele tom sério que mostrava que ele não estava brincando.

Após o café, os homens se retiraram para o escritório. Guilherme fechou a porta pesada, e o ambiente mudou. O cheiro de pólvora e estratégia tomou conta.

— Escutem aqui — Guilherme começou, a voz baixa e imponente. — O movimento lá na Rocinha tá estranho. Tem uns moleques de fora tentando entrar com mercadoria que não passou por mim. Eu vou subir com a equipe hoje à tarde. Vocês dois vão ficar aqui no Leblon cuidando das meninas.

— Mas pai, a gente queria ajudar na contenção — Bernardo protestou, o sangue fervendo pela ação.

— A maior ajuda que vocês me dão é garantir que a mãe de vocês, a Stella e as meninas estejam seguras — Guilherme encarou os filhos, os olhos verdes brilhando com uma intensidade perigosa. — Se acontecer qualquer coisa aqui embaixo enquanto eu estiver lá em cima, a responsabilidade é de vocês. Entendido?

— Entendido, senhor — os gêmeos responderam em coro, respeitando a hierarquia que Guilherme impunha.

Enquanto os homens planejavam a segurança da família, Lua e Mell estavam no quarto de Stella, preparando a bolsa de praia da bebê. O clima era de descontração, mas Lua sentia uma pontada de ansiedade.

— Mell, você viu como o Kael tava tenso agora no café? — perguntou Lua, dobrando uma toalha com o nome da bebê bordado.

— Vi, amiga. Mas é o jeito deles, né? Eles vivem nesse mundo de alerta o tempo todo. O Bê também tá com aquela cara de "quero brigar com alguém" — Mell suspirou, sentando-se na cama. — Mas a gente tem que focar na Estrelinha. Ela merece uma tarde tranquila.

— Você tem razão — Lua sorriu, olhando para Stella que brincava com um chocalho no tapete. — Eu faria qualquer coisa por essa pequena. Ela é como se fosse minha irmãzinha de verdade.

À tarde, conforme o planejado, o grupo se preparou para ir à praia. O comboio era discreto, mas eficiente. Dois seguranças seguiam em um carro atrás, enquanto Kael dirigia o SUV blindado com Lua ao lado e Mell, Bernardo e Stella no banco de trás. Ragnar, o imponente Cane Corso, ia no porta-malas adaptado, observando o movimento com olhos atentos.

Eles chegaram a um trecho mais reservado da praia do Leblon, onde a estrutura da família já estava montada. Guarda-sóis grandes, cadeiras confortáveis e uma área cercada para a bebê brincar na areia sem perigo.

Lua estava deslumbrante em um biquíni preto que realçava sua pele branquíssima. Ela passava protetor solar em Stella com todo o cuidado do mundo, enquanto Kael a observava de longe, encostado em um dos pilares da tenda, com os óculos escuros escondendo seu olhar vigilante.

— Tu tá querendo me matar, né, Luanara? — Kael disse, aproximando-se e sentando-se na areia ao lado dela.

— O que foi agora, ursinho? — Ela riu, sem parar o que estava fazendo.

— Esse biquíni. Tu sabe muito bem que esse biquíni tá me deixando maluco. E ainda por cima cuidando da minha irmã desse jeito... tu quer que eu tenha um treco aqui mesmo?

— Para de ser bobo, Kael. Eu tô cuidando da bebê — ela deu um tapinha no braço musculoso dele. — Por que você não vai dar um mergulho com o Bê?

— Porque eu prefiro ficar aqui vigiando o que é meu — ele respondeu, passando a mão possessivamente pela cintura dela. — E não é só a Stella que eu tô vigiando.

Bernardo e Mell já estavam na água, rindo e brincando. Bernardo levantava Mell no ar, fazendo-a dar gargalhadas que atraíam alguns olhares dos banhistas próximos. Imediatamente, Kael e Bernardo trocavam olhares de alerta, e os curiosos logo tratavam de desviar o rosto, intimidados pela aura de perigo que os gêmeos exalavam.

Stella sentou na areia pela primeira vez, sentindo a textura com as mãos gordinhas. Ela soltou um gritinho de alegria, tentando levar um punhado de areia à boca, mas Lua foi mais rápida.

— Não, princesa! Areia não é papinha — Lua limpou a mãozinha da bebê, rindo.

— Ela é igualzinha ao pai — comentou Kael, observando a irmã. — Teimosa pra caramba. Quer fazer tudo do jeito dela.

— E você é igual a quem, Kaelton? — provocou Lua, olhando-o por cima dos óculos de sol.

— Eu sou o melhor dos dois mundos, docinho — ele deu um sorriso convencido e a puxou para um beijo rápido e salgado. — Tenho a marra do coroa e a sorte de ter encontrado uma mulher tão foda quanto a minha mãe.

O entardecer começou a pintar o céu de tons pastéis. O vento soprava mais fresco, e Stella começou a demonstrar sinais de cansaço, esfregando os olhinhos verdes. Lua a pegou no colo, ninando-a enquanto caminhava à beira-mar, deixando a água molhar apenas seus pés.

Kael as seguia de perto, a poucos passos de distância. Ele observava a silhueta de Lua contra o sol poente, com o bebê no colo, e por um momento, seu coração de marrento amoleceu. Ele imaginou o futuro. Imaginou Lua carregando um filho deles, com aquele mesmo olhar carinhoso e protetor.

— No que você tá pensando, amor? — perguntou Lua, virando-se para ele.

— No quanto eu sou um cara de sorte — ele confessou, algo raro de se ouvir de sua boca. — E no quanto eu quero que a gente tenha a nossa própria Estrelinha daqui a uns anos.

Lua sentiu o rosto esquentar, mas sorriu, encostando a cabeça no ombro dele enquanto caminhavam de volta para a tenda.

— Tudo no seu tempo, ursinho. Por enquanto, a gente tem a Stella pra mimar.

Eles voltaram para a mansão quando as luzes da orla começaram a acender. Guilherme já tinha retornado da Rocinha e estava na varanda, bebendo um uísque e observando a chegada do comboio. Ao ver que todos estavam bem, ele relaxou visivelmente os ombros.

— E aí, como foi a praia? — perguntou Guilherme, quando eles entraram na sala.

— Foi ótimo, tio! A Stella amou a areia — contou Lua, entregando a bebê, que já dormia profundamente, para o pai.

Guilherme pegou a filha com uma delicadeza extrema, sentindo o cheiro de mar e protetor solar na pele dela.

— Obrigado por cuidarem dela, meninas — disse o coronel, olhando para Lua e Mell. — Vocês fazem parte dessa família tanto quanto esses dois marrentos aqui.

Letícia apareceu na escada, sorrindo ao ver a cena.

— Agora, todo mundo pro banho. O jantar vai ser servido em meia hora e eu não quero ninguém com areia na minha mesa.

A noite terminou com a família reunida. Entre risadas, algumas discussões leves sobre futebol e o planejamento para o dia seguinte, os Allegretti reafirmavam seus laços. Lua olhou para Kael, que estava concentrado em explicar algo para Bernardo, e sentiu uma paz imensa.

Ela sabia que a vida deles era complexa, cercada de perigos e responsabilidades que a maioria das pessoas nunca entenderia. Mas ali, dentro daquelas paredes, protegida pelo amor feroz de Kael e pela lealdade daquela família, ela se sentia em casa.

Antes de dormir, Kael a prensou contra a parede do quarto, o desejo voltando a queimar com força total.

— Tu foi a babá perfeita hoje, docinho — ele sussurrou, as mãos descendo para a fenda do pijama dela. — Mas agora eu quero a minha namorada de volta. Só pra mim.

— Eu sou toda sua, Kael... você sabe disso — ela respondeu, puxando-o para um beijo que prometia uma noite longa e intensa.

No berço ao lado, no quarto de Stella, a pequena dormia em paz, alheia ao mundo turbulento que a rodeava, mas profundamente amada por cada um daqueles que carregavam o nome Allegretti. O império estava seguro, o sangue estava quente e o futuro, embora incerto, parecia mais brilhante do que nunca sob o céu do Rio de Janeiro.