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O dono do morro

Laços de Sangue e Noites de Baile

A manhã na Rocinha começou com o som distante dos radinhos de comunicação e o cheiro de café fresco invadindo os corredores da mansão. Guilherme já estava de pé desde as seis, vestindo apenas um short de tactel preto e sua inseparável corrente de ouro no pescoço. No escritório, ele conferia o carregamento de munição que havia chegado na calada da noite. O sol mal tinha subido, mas o ritmo do morro já estava a mil por cento.

— Bom dia, meu bem — Letícia apareceu na porta, usando um robe de seda preta que deixava suas pernas branquíssimas à mostra. Ela bocejou, caminhando até o marido e sentando-se na beirada da mesa de mogno.

— Bom dia, coração — Guilherme respondeu, puxando-a pela cintura para um beijo rápido e possessivo. — Dormiu bem?

— Dormi, mas aqueles teus filhos e as meninas não dão trégua, né? Ouvi a cama do Bernardo batendo na parede até tarde — ela riu, balançando a cabeça. — Estão com a energia toda.

— Estão na idade, amor. Eu também não te dava descanso com dezoito anos. Se bobear, não dou nem agora — ele deu um tapa estalado na coxa dela, fazendo-a dar um gritinho. — Mas hoje o papo é sério. Tem baile na quadra hoje à noite. Quero a segurança dobrada.

Enquanto o casal conversava, no andar de baixo, o clima na cozinha era de pura descontração. Kael e Bernardo já estavam atacando a mesa do café, ambos sem camisa, exibindo os corpos malhados e as tatuagens. Ragnar, o Cane Corso, estava deitado entre os dois, esperando que algum pedaço de presunto "acidentalmente" caísse no chão.

— Pô, Kael, tu viu o flash que deu lá na entrada da mata ontem? — Bernardo perguntou, passando requeijão no pão. — Acho que os canas tavam tentando subir com drone de novo.

— Eu vi, papo reto — Kael respondeu, a voz rouca de quem tinha acabado de acordar. Ele ajeitou o cabelo platinado. — Se eu pego um brinquedo desse voando aqui, eu derrubo na hora. Hoje no baile a gente tem que ficar esperto. A Serena quer ir, e eu não quero ela dando mole perto da pista.

— A Mell também quer ir — Bernardo deu de ombros. — Mas tu sabe como é, né? Elas ficam juntas, a gente fica de olho. Ninguém é maluco de encostar nas mulheres dos filhos do homem.

Nesse momento, Serena e Merllya entraram na cozinha. Serena parecia um anjo, com um pijama de cetim rosa claro, o rosto levemente inchado de sono e os olhos puxadinhos quase fechados. Ela foi direto para trás da cadeira de Kael, abraçando o pescoço dele e escondendo o rosto em seu ombro.

— Bom dia, meu ursinho... — ela sussurrou, a voz doce e sonolenta.

Kael mudou a expressão instantaneamente. O rosto marrento deu lugar a um sorriso de canto, e ele puxou a mão dela para beijar a palma.

— Bom dia, vida. Dormiu bem ou eu te cansei muito? — ele perguntou, sem um pingo de vergonha na cara, fazendo Merllya rir.

— Cala a boca, Kael! — Merllya exclamou, sentando-se ao lado de Bernardo. — Todo mundo aqui sabe o que aconteceu, não precisa anunciar. Bom dia, lindo.

— Bom dia, loira — Bernardo puxou Merllya para um beijo estalado. — Já tá sabendo do baile hoje, né?

— Óbvio que sim! A gente já tava combinando o look desde ontem — Merllya animou-se. — A Serena vai ficar maravilhosa.

— Ela já é maravilhosa — Kael resmungou, o ciúme começando a dar as caras. — E não quero shortinho muito curto não, Serena. Tu sabe como os caras ficam secando.

Serena se afastou um pouco para olhar nos olhos verdes dele, fazendo um biquinho que o desarmava completamente.

— Amor, é baile na Rocinha, não é culto — ela disse, fazendo carinho na nuca dele. — Eu vou estar contigo o tempo todo. Deixa de ser estressado.

— É, Kael, relaxa o coração — Guilherme disse, entrando na cozinha com Letícia ao seu lado. — Se alguém olhar demais, a gente resolve. Mas hoje é dia de curtir. A firma tá lucrando, o morro tá em paz. Vamos aproveitar.

O dia passou rápido entre treinos na academia particular da casa e algumas idas de Guilherme e os filhos até os pontos estratégicos da comunidade. Quando a noite caiu, o som do funk começou a ecoar pelas vielas. O "Baile da Gaiola" na quadra principal prometia ser o maior do mês.

Na mansão, as meninas se produziam no quarto de Serena. Ela usava um conjunto de saia e top de renda preta que acentuava sua silhueta "pera", deixando as curvas bem marcadas. Merllya optou por um vestido justo azul elétrico que destacava seus olhos e os cachos loiros.

— Amiga, o Kael vai surtar quando te vir — Merllya disse, retocando o batom. — Tu tá muito gata. Parece uma boneca de luxo.

— Ele é muito ciumento, Mell, às vezes cansa — Serena suspirou, mas sorriu logo em seguida. — Mas eu amo o jeito que ele me protege. Me sinto a pessoa mais segura do mundo com ele.

— O Bernardo é igual — Merllya concordou. — Eles são a cópia do tio Guilherme. Marrentos, mas por dentro são uns fofos com a gente.

Quando elas desceram, os três homens Allegretti já esperavam na sala. Guilherme usava uma camisa de grife aberta até o meio do peito e um relógio que custava o preço de um carro popular. Bernardo e Kael estavam de bermuda de marca, camisas de time europeu e muitos cordões de prata.

Kael travou a mandíbula assim que viu Serena. Ele caminhou até ela, circulando sua cintura com os braços fortes e colando os corpos.

— Tu quer me matar, Serena? — ele sussurrou perto do ouvido dela. — Esse top tá muito baixo, porra.

— Tá perfeito, amor — ela respondeu, subindo nas pontas dos pés para dar um selinho nele. — É só pra você olhar.

— É bom mesmo — ele rosnou baixinho, mas a beijou com vontade antes de seguirem para os carros.

A chegada da família Allegretti na quadra foi digna de realeza. O som parou por um segundo para o DJ anunciar a presença do "Brabo". Guilherme caminhava na frente, com Letícia orgulhosa ao seu lado. Logo atrás, os gêmeos com suas respectivas namoradas. O camarote VIP estava reservado, com garrafas de whisky, vodka e energético sobre as mesas de metal.

— Olha lá, o pessoal do setor 3 já tá na atividade — Bernardo comentou com o pai, apontando discretamente para os seguranças armados com fuzis decorados com fitas de LED nas extremidades da quadra.

— É isso aí. Ordem e progresso — Guilherme riu, servindo um copo para a esposa. — Bebe aí, coração. Hoje a noite é nossa.

Enquanto Guilherme e Letícia dançavam um funk antigo, lembrando dos tempos em que começaram, a nova geração estava no limite do camarote. Kael não tirava a mão da cintura de Serena. Ele observava cada movimento ao redor com olhos de falcão.

— Dança comigo, vida? — Serena pediu, rebolando suavemente ao som do batidão.

— Aqui não, Serena. Muita gente olhando — Kael disse, mas seus olhos traíam seu desejo. Ele a puxou para mais perto, sentindo o perfume doce dela misturado ao cheiro do ambiente.

— Deixa de ser chato, Kaelton! — ela usou o nome completo dele para provocá-lo.

— Não me chama assim, caralho! — ele riu, finalmente cedendo e começando a se movimentar com ela.

Perto dali, Bernardo e Merllya estavam em seu próprio mundo. Ele a segurava por trás, as mãos grandes apertando as coxas dela enquanto acompanhavam o ritmo da música.

— Tu tá querendo que eu te leve embora agora, né, loira? — Bernardo sussurrou, mordendo o ombro dela.

— Só se você aguentar o tranco, lindo — ela desafiou, girando para encará-lo com um olhar safado.

— Tu sabe que eu aguento — ele respondeu, puxando-a para um beijo profundo que ignorava completamente a multidão ao redor.

A festa estava no auge quando um dos vapores se aproximou de Guilherme no camarote. O semblante do dono do morro mudou instantaneamente. Ele entregou o copo para Letícia e fez um sinal para os filhos.

— O que foi, pai? — Kael perguntou, já ficando em alerta máximo, a mão indo instintivamente para a cintura, onde carregava sua peça.

— Um engraçadinho do asfalto tá causando lá embaixo. Parece que tentou gracinha com uma das meninas da comunidade — Guilherme disse, a voz gélida. — Bernardo, fica aqui com sua mãe e as meninas. Kael, vem comigo. Vamos ensinar como se trata mulher na Rocinha.

Kael assentiu, os olhos verdes brilhando com uma fúria contida.

— Amor, fica aqui com a tia Lê e a Mell. Não sai do camarote — Kael ordenou para Serena, dando um beijo rápido em sua testa.

— Toma cuidado, meu ursinho... — Serena pediu, preocupada.

Guilherme e Kael desceram as escadas do camarote com uma imponência que fazia a multidão abrir caminho como se fosse o Mar Vermelho. No meio da pista, um sujeito bem vestido, claramente um playboy que subiu para o baile achando que o dinheiro comprava tudo, estava sendo segurado pelos seguranças.

— Algum problema aqui, rapaziada? — Guilherme perguntou, a voz calma, o que era muito mais assustador do que se estivesse gritando.

— Esse otário aqui passou a mão na irmã do "Dente", patrão — explicou um dos soldados.

Guilherme olhou para o rapaz, que agora tremia visivelmente.

— Tu acha que aqui é a tua casa, moleque? — Kael deu um passo à frente, peitando o sujeito. — Aqui a gente respeita mulher. Se tu faz isso lá embaixo e ninguém faz nada, o problema é teu. Aqui o sistema é outro.

— Eu... eu não fiz por mal, eu bebi demais — o rapaz gaguejou.

Guilherme deu um passo à frente, ficando a poucos centímetros do rosto do invasor. Com 1,92m, ele parecia um gigante.

— Bebeu demais? Pois agora vai beber água pra baixar a bola — Guilherme sentenciou. — Kael, dá um corretivo e joga esse lixo pra fora do morro. Se ele botar os pés aqui de novo, já sabe, né? É vala.

Kael não precisou ouvir duas vezes. Com um soco seco e preciso no estômago, ele dobrou o playboy. Depois, segurou-o pelo colarinho e o arrastou para fora da quadra sob os olhares de aprovação da comunidade.

Minutos depois, Kael voltou para o camarote, limpando as mãos e com a expressão mais relaxada.

— Resolvido, pai? — Bernardo perguntou.

— Resolvido — Guilherme respondeu, voltando para os braços de Letícia. — Onde estávamos, coração?

— Você estava prestes a me levar pra casa — Letícia sorriu, sabendo que o marido já tinha cumprido sua cota de autoridade por aquela noite. — O clima já ficou pesado, vamos?

— Vamos. Meninos, vocês vêm? — Guilherme olhou para os gêmeos.

— Vou ficar mais um pouco com a Serena, pai — Kael disse, abraçando a namorada por trás. — Quero ver o sol nascer aqui de cima.

— Eu também vou ficar — Bernardo concordou. — A Mell quer ouvir o set do próximo DJ.

Guilherme assentiu e saiu com Letícia, escoltados por seus seguranças de confiança.

No camarote, agora com um pouco mais de espaço, Kael puxou Serena para um canto mais reservado, onde a luz era mais fraca.

— Tu ficou com medo, docinho? — ele perguntou, a voz suave agora que estavam a sós.

— Um pouco — ela confessou, encostando a cabeça no peito dele. — Eu não gosto quando você fica nervoso assim.

— É pra te proteger, vida. Pra proteger todo mundo — ele explicou, levantando o queixo dela para olhá-la. — Eu mato e morro por você, Serena. Tu sabe disso.

— Eu sei, meu ursinho — ela sorriu, os olhos brilhando. — Mas agora, esquece o morro. Esquece os problemas. Só fica aqui comigo.

Kael sorriu, um sorriso raro e verdadeiro que só ela conseguia arrancar. Ele a beijou com uma ternura que contrastava com a violência de poucos minutos atrás.

Enquanto isso, Bernardo e Merllya já estavam na pista, misturados ao povo, dançando como se o mundo fosse acabar amanhã. A energia da Rocinha era contagiante, e para os Allegretti, aquele caos era o lar perfeito.

A noite terminou com os dois casais jovens voltando para a mansão a pé, subindo as ladeiras de mãos dadas, rindo e trocando carícias sob o céu que começava a ganhar tons de laranja. Ao chegarem em casa, Ragnar os recebeu com lambidas e pulos, e o silêncio da mansão foi novamente preenchido pelos sussurros de amor e desejo que ecoavam pelos quartos, selando mais um dia de poder, lealdade e paixão no topo do Rio de Janeiro.