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O dono do morro

Refúgio de Seda e Água Quente

O relógio de ouro sobre a mesa de cabeceira marcava pouco mais de cinco da manhã quando o silêncio da mansão foi preenchido pelo som abafado de risadas e passos cansados no corredor. O baile tinha sido intenso, carregado de adrenalina e do grave dos alto-falantes que ainda parecia vibrar nos ossos de Kaelton. Ele abriu a porta do quarto com cuidado, segurando Serena pela cintura, sentindo o corpo dela pesar levemente contra o seu.

A luz da manhã começava a filtrar pelas cortinas de veludo, tingindo o quarto com um tom azulado e frio que contrastava com o calor da pele deles. Serena estava exausta. O esforço de dançar a noite toda, somado ao estresse emocional de ver Kael em modo "dono do morro" lá embaixo, tinha sugado suas energias. Ela parecia um pequeno mochi desmanchando, com a cabeça pendida no ombro largo do namorado e os olhos negros quase fechados.

— Vem, docinho... a gente precisa tirar esse suor e o cheiro de cigarro do baile — Kael sussurrou, a voz mais rouca que o normal, enquanto fechava a porta com o pé.

— Amor, eu não consigo nem levantar os braços — Serena resmungou, a voz manhosa e arrastada, enterrando o rosto no pescoço dele. — Me deixa dormir assim mesmo... tô com muito sono, vida.

Kael soltou uma risada curta, sentindo um aperto de puro afeto no peito. Ele a apertou um pouco mais, sentindo a maciez das curvas de Serena contra seu corpo de atleta.

— Nem pensar. Tu tá toda colando, Serena. E eu também — ele disse, começando a caminhar em direção ao banheiro espaçoso da suíte. — Vou te dar um banho e depois tu dorme o dia inteiro se quiser.

— Promete? — ela perguntou, abrindo um dos olhos e olhando para ele com aquela expressão de criança dengosa que fazia o coração marrento de Kael derreter.

— Prometo, minha vida.

Ele a colocou sentada no mármore da bancada da pia e começou a tirar o top de renda dela com uma delicadeza que ninguém na Rocinha acreditaria que ele possuía. Kaelton era conhecido por ser estressado, ciumento e por ter a mão pesada, mas com Serena, ele era outra pessoa. Suas mãos grandes e tatuadas deslizavam pela pele alva e rosada dela como se estivessem tocando porcelana fina.

Em seguida, ele ligou o chuveiro, regulando a temperatura até que uma fumaça quente e aconchegante começasse a subir, embaçando os espelhos e o box de vidro blindado. Kael se livrou da própria roupa, ficando apenas com sua masculinidade pulsante e o corpo suado, e ajudou Serena a tirar o restante das peças dela.

Quando entraram sob a água, Serena soltou um suspiro longo, quase um gemido de alívio, e se encostou no peito dele, deixando a água quente cair sobre suas costas. Kael a abraçou por trás, protegendo-a sob o jato d'água, enquanto suas mãos começavam a ensaboar o corpo dela com um sabonete de baunilha que ela adorava.

— Tá gostoso, amor? — ele perguntou, distribuindo beijos molhados nos ombros dela.

— Hum-hum... — Serena respondeu, os olhos fechados, totalmente entregue aos cuidados dele. — Tu cuida tão bem de mim, Kael.

— Eu vivo pra isso, Serena. Tu é a minha paz, entendeu? — ele disse seriamente, virando-a de frente para si. — Lá fora o mundo pode estar caindo, mas aqui dentro é só a gente.

Ele começou a lavar o cabelo longo e ondulado dela, massageando o couro cabeludo com as pontas dos dedos. Serena estava tão relaxada que suas pernas começaram a fraquejar de sono. Ela se agarrou à cintura de Kael, escondendo o rosto entre os músculos do peito dele, sentindo as batidas fortes do coração do namorado.

— Kael... — ela chamou baixinho, a voz quase sumindo.

— Fala, docinho.

— Te amo tanto que dói. Às vezes eu fico com medo de ser um sonho — ela confessou, a voz embargada pelo cansaço e pela emoção. — Meus pais nem lembram que eu existo, mas você... você me trata como se eu fosse a coisa mais importante do mundo.

Kael parou o movimento das mãos e segurou o rosto dela, forçando-a a olhar para ele. A água escorria pelos cabelos platinados dele, caindo nos olhos verdes que agora brilhavam com uma intensidade protetora.

— Escuta aqui, Luanara Serena — ele usou o nome dela com uma autoridade carinhosa. — Tu não é a coisa mais importante do mundo. Tu é o MEU mundo. Aqueles dois lá que se dizem teus pais não sabem a joia que perderam, mas eu sei. E eu nunca, ouviu bem? Nunca vou deixar tu se sentir sozinha.

Serena sorriu, uma lágrima solitária se misturando à água do banho. Ela o puxou para um beijo lento, com gosto de água e promessas silenciosas. Kael aprofundou o beijo, sentindo a doçura da boca dela, mas conteve seu desejo carnal. Ele via que ela estava no limite da exaustão.

Ele terminou de enxaguá-la, desligou o chuveiro e a envolveu em uma toalha felpuda e gigante, carregando-a no colo para fora do banheiro. O quarto estava fresco por causa do ar-condicionado, um contraste perfeito com o calor do banho.

Com movimentos ágeis, Kael secou o corpo dela e o seu, vestindo apenas uma cueca de algodão e colocando em Serena uma de suas camisetas pretas de marca, que ficava enorme nela, batendo no meio das coxas. Ele a deitou na cama de lençóis de fios egípcios e se aninhou ao lado dela.

Serena não esperou um segundo. Assim que ele se deitou, ela se arrastou para perto, jogando uma perna por cima das dele e encaixando a cabeça no vão do seu pescoço. Ela o abraçou como se ele fosse um urso de pelúcia gigante, respirando o cheiro de sabonete e pele limpa que emanava dele.

— Meu ursinho... — ela murmurou, já quase pegando no sono.

— Dorme, vida. Eu tô aqui — Kael respondeu, passando o braço por baixo do pescoço dela e puxando o edredom para cobri-los.

No andar de cima, ele sabia que seu pai, Guilherme, provavelmente já estava acordando para mais um dia de comando. No quarto ao lado, Bernardo e Merllya deviam estar em algum estágio de sono profundo ou de sacanagem matinal. Mas ali, naquele pedaço de paraíso blindado, o tempo parecia ter parado.

Kael ficou observando Serena dormir. A respiração dela foi ficando pesada e rítmica, os cílios grandes e negros descansando sobre a pele branquinha. Ela era tão delicada, tão diferente da realidade bruta da Rocinha, que Kael sentia uma necessidade quase primitiva de cercá-la com fuzis e muros para que nada a atingisse. Mas ele sabia que o maior escudo que ele podia oferecer era aquele: o seu amor e o seu cuidado.

Ele sentiu o sono chegar também, embalado pelo calor do corpo de Serena agarrado ao seu. Antes de fechar os olhos, ele depositou um último beijo no topo da cabeça dela.

— Ninguém encosta no meu mochi — ele sussurrou para o vazio do quarto, um aviso para o mundo e uma promessa para si mesmo.

Lá fora, a Rocinha despertava. O som das motos subindo as ladeiras, o rádio de algum vizinho tocando samba e os gritos dos vendedores de pão começavam a compor a sinfonia matinal da comunidade. Mas dentro da mansão Allegretti, a paz era absoluta. Os herdeiros do morro descansavam, recarregando as energias para as batalhas que o poder sempre trazia, seguros no único lugar onde podiam baixar a guarda: nos braços de quem amavam.

Kael finalmente adormeceu, com Serena grudada nele como se fizessem parte um do outro, dois corações batendo no mesmo ritmo em meio ao caos do Rio de Janeiro.