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O dono do morro

Segredos no Arsenal e a Calmaria Antes da Tempestade

O sol já estava alto no céu do Rio de Janeiro, mas dentro da mansão Allegretti, o tempo parecia ditar suas próprias regras. O ar-condicionado trabalhava silenciosamente, mantendo a temperatura perfeita enquanto o cheiro de café fresco e pão na chapa começava a subir as escadas. Guilherme já estava em pé, vestindo apenas um short de tactel preto e seus chinelos, com o peito tatuado à mostra e o suor de um treino matinal rápido ainda brilhando na pele bronzeada.

Ele entrou no quarto e viu Letícia se espreguiçando na cama imensa. A luz que passava pelas frestas da cortina iluminava a pele alva dela, criando um contraste que Guilherme nunca cansava de admirar.

— Bom dia, coração — disse ele, sentando-se na beirada da cama e depositando um beijo demorado na testa da esposa.

— Bom dia, meu bem — Letícia respondeu com a voz rouca, puxando o lençol para cobrir os seios, embora não houvesse segredos entre eles. — Os meninos ainda estão mortos?

— Kael e Serena chegaram quase de manhã. O Bernardo e a loira também não devem ter acordado faz muito tempo. Deixa os moleques descansarem, o baile ontem foi pesado.

Guilherme levantou-se e caminhou até a janela, abrindo um pouco mais a cortina para observar o movimento lá embaixo. A Rocinha pulsava. Ele via seus soldados em pontos estratégicos, o movimento das motos e a vida seguindo seu curso sob seu comando.

— Vou descer para o escritório — avisou Guilherme. — Tenho que conferir umas peças novas que chegaram. O arsenal precisa de uma geral.

— Não demora, amor — disse Letícia, levantando-se com a elegância de quem mandava naquela casa tanto quanto ele. — Vou preparar um café reforçado. Aqueles quatro vão acordar com uma fome de leão.

No andar de baixo, o subsolo da mansão era um mundo à parte. Atrás de uma porta de aço reforçada com biometria, ficava o arsenal de Guilherme. O lugar era impecável: paredes de concreto, iluminação de LED branca e bancadas de aço inox. Nas paredes, fuzis HK, G36 e pistolas Glock estavam organizados por calibre.

Guilherme estava limpando um fuzil quando ouviu o som da porta se abrindo. Bernardo e Kael entraram, ambos com caras de quem tinham acabado de sair do chuveiro, mas já prontos para o trabalho.

— E aí, coroa? — Bernardo cumprimentou, pegando uma das pistolas sobre a mesa para verificar o carregador. — O movimento na quadra rendeu, hein? O pessoal tá comentando que o esculacho no playboy ontem serviu de exemplo.

— Tem que ser assim, Bernardo — disse Guilherme, sem desviar os olhos da arma que limpava. — Se a gente der mole, os cara de fora acham que aqui é terra de ninguém. O respeito é a base de tudo.

Kael, com seu cabelo platinado ainda meio úmido, encostou-se na bancada. Ele parecia mais calmo do que na noite anterior, mas o olhar verde continuava afiado.

— O pai, o Dente mandou avisar que tem uns papos estranhos vindo lá de baixo — Kael comentou, a voz grave. — Parece que tem gente querendo atravessar o fornecimento de munição.

Guilherme parou o que estava fazendo e olhou fixamente para o filho.

— Atravessar? No meu morro? — Guilherme deu um sorriso de canto, aquele que fazia qualquer inimigo tremer. — Eles que tentem. Kael, tu e o Bernardo vão fazer a ronda pesada hoje à tarde. Quero vocês de olho em cada entrada. Nada passa sem eu saber.

— Pode deixar, pai — respondeu Bernardo, trocando um olhar cúmplice com o irmão. — A gente resolve. Ninguém mexe com a família Allegretti.

Enquanto os homens discutiam os negócios da família no subsolo, a cozinha da mansão tornava-se o centro das atenções femininas. Letícia terminava de colocar as frutas na mesa quando Serena e Merllya apareceram, ambas vestindo roupas leves de ficar em casa, mas ainda assim chamando atenção pela beleza natural.

— Bom dia, tias! — disseram as duas quase em coro.

— Bom dia, minhas lindas — Letícia sorriu, abraçando cada uma. — Dormiram bem? Ou os meus filhos deram muito trabalho?

Serena corou instantaneamente, lembrando-se do banho e do carinho de Kael na madrugada. Ela se sentou à mesa, parecendo um mochi de tão delicada com seu shortinho de pijama e uma regata branca.

— O Kael é um ursinho quando quer, tia — Serena comentou, pegando um pedaço de mamão. — Ele cuidou de mim ontem como se eu fosse de vidro.

— O Bernardo já é mais bruto, mas eu gosto assim — Merllya riu, jogando os cachos loiros para trás. — Ele é marrento, mas quando a gente fica sozinho, ele se derrete todo.

Letícia sentou-se com elas, servindo-se de café.

— Eles são iguais ao pai, meninas. O Guilherme tem essa casca grossa, esse jeito de dono do morro que assusta todo mundo, mas por dentro... por dentro ele é o homem mais carinhoso que eu já conheci. O segredo é saber lidar com essa marra toda.

— Eu só queria que o Kael não fosse tão ciumento — Serena suspirou, olhando para a aliança de compromisso no dedo. — Ontem no baile, se eu respirasse perto de alguém, ele já fechava a cara.

— É proteção, Serena — explicou Letícia, segurando a mão da menina. — No mundo que a gente vive, o ciúme deles é uma forma de manter a gente viva e segura. Eles sabem o que tem em mãos. Vocês são as joias deles.

Nesse momento, os três homens subiram do arsenal. O som das risadas e da conversa alta preencheu a casa. Ragnar, o Cane Corso, veio correndo atrás, latindo de felicidade ao ver a família reunida.

— Que cheiro bom é esse, coração? — Guilherme perguntou, indo direto até Letícia e dando um beijo no pescoço dela, ignorando a presença dos filhos e das noras.

— Café da manhã, meu rabugento. Senta aí e come — ela respondeu, batendo de leve na mão dele que tentava roubar um pedaço de queijo.

Kael foi direto para trás de Serena, prendendo-a em um abraço por trás e enterrando o rosto no pescoço dela, aspirando o cheiro de baunilha.

— Bom dia, vida — sussurrou ele.

— Bom dia, meu ursinho — Serena respondeu, virando o rosto para receber um selinho demorado.

Bernardo fez o mesmo com Merllya, puxando uma cadeira e sentando-se ao lado dela, já começando a montar um sanduíche gigante.

— Hoje o dia vai ser longo — Bernardo comentou entre uma mordida e outra. — O pai quer que a gente desça para a ronda.

Merllya fez um biquinho de insatisfação.

— Já? Pensei que a gente ia ficar na piscina hoje.

— O dever chama, loira — Bernardo deu uma piscadinha. — Mas prometo que quando eu voltar, a gente recupera o tempo perdido.

O café da manhã seguiu com conversas sobre o morro, piadas internas e o clima de união que Guilherme fazia questão de manter. Para ele, a família era o seu verdadeiro império; a Rocinha era apenas o cenário onde ele protegia o que mais amava.

Após a refeição, os gêmeos se prepararam. Vestiram shorts de tactel, camisas de marca e colocaram os radinhos de comunicação na cintura, escondidos sob a roupa. Guilherme os acompanhou até a porta.

— Juízo, entenderam? — Guilherme disse, a voz séria. — Não é para arrumar confusão à toa, mas se precisarem se impor, não hesitem. O nome Allegretti tem que ecoar em cada beco.

— Pode deixar, pai — disse Kael, ajeitando o brinco de argola. — A gente volta logo, docinho — acrescentou ele, olhando para Serena que observava da sala.

Os dois saíram, seguidos por Ragnar, que sempre fazia a primeira parte da ronda com eles. Guilherme voltou para a sala e viu Letícia organizando algumas coisas. Ele a puxou pela cintura, colando o corpo dela ao seu.

— As meninas foram para o quarto da Serena? — ele perguntou, a voz baixinha.

— Foram, vão fazer as unhas ou algo assim — Letícia respondeu, passando os braços pelo pescoço do marido. — Por que, amor?

— Porque eu tô com saudade da minha esposa — Guilherme disse, os olhos verdes brilhando com aquele desejo que nunca esfriava. — O escritório está vazio, o arsenal está trancado... e eu acho que a gente merece um tempo só nosso.

Letícia sorriu, aquele sorriso que Guilherme sabia que significava que ele tinha vencido a discussão.

— Você não tem jeito, Guilherme. É um safado.

— Sou o TEU safado, coração — ele corrigiu, antes de tomá-la em um beijo que carregava toda a paixão de quase vinte anos de história.

Enquanto isso, no quarto de Serena, ela e Merllya estavam sentadas na cama, rodeadas de esmaltes e revistas.

— Amiga, tu viu a cara do Kael quando o tio Guilherme falou da ronda? — Merllya perguntou, lixando uma unha. — Ele fica todo sério, dá até medo.

— Eu sei — Serena concordou, olhando para o teto. — Mas eu gosto dessa seriedade dele. Me faz sentir que nada de ruim pode acontecer comigo enquanto ele estiver por perto.

— É, mas às vezes eu queria que eles não tivessem tanta responsabilidade — Merllya suspirou. — Queria que a gente pudesse só viajar, sair daqui um pouco, sem se preocupar com quem está entrando ou saindo do morro.

— Eles nasceram para isso, Mell. É o sangue deles. E honestamente? Eu não trocaria o cuidado do meu ursinho por nenhum playboy do asfalto.

As duas riram, mergulhando em conversas sobre roupas e biquínis para o próximo final de semana.

Lá fora, o sol continuava a castigar o Rio, e o som dos radinhos de comunicação mantinha a sinfonia da comunidade. Kael e Bernardo caminhavam pelas vielas, recebendo cumprimentos e olhares de respeito. Eles eram os príncipes daquele lugar, a extensão do poder de Guilherme Allegretti.

— Olha lá, Kael — Bernardo apontou para um grupo de homens estranhos perto da entrada da localidade conhecida como "Roupa Suja". — Aqueles caras não são daqui.

Kael estreitou os olhos, a mão indo instintivamente para a base das costas, onde a pistola estava escondida.

— Vamos lá ver qual é a deles, Bernardo. Ninguém pisa na nossa casa sem pedir licença.

Os gêmeos aceleraram o passo, a marra exalando em cada movimento. A paz na mansão podia ser doce, mas nas ruas da Rocinha, a realidade era escrita com pólvora e autoridade. E os Allegretti estavam prontos para assinar mais um capítulo.

No topo do morro, na mansão blindada, Guilherme e Letícia aproveitavam o silêncio e a conexão que os mantinha unidos contra tudo e contra todos. O império estava seguro, a linhagem estava forte, e o amor, como sempre, era a lei suprema naquela fortaleza de concreto e sentimentos intensos. A tarde caía lentamente, trazendo consigo a promessa de mais uma noite de paixão e a vigilância constante de quem sabia que, no Rio de Janeiro, o poder é um trono que se conquista todos os dias.