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O Ego por Trás dos Olhos do Dançarino

Sinfonia de Egos e a Batida do Caos

A noite no Blue Lock não era feita de silêncio, mas de um zumbido constante de eletricidade e ambição. No refeitório do Bloco 5, Diego Takamura observava sua bandeja de comida — arroz, missô e uma porção de carne que Ego Jinpachi considerava "recompensa" pelo gol no treino. O ambiente estava carregado. Os olhares que antes eram de desdém agora eram de uma curiosidade afiada, como lâminas prontas para testar sua resistência.

— Você não fala muito, não é? — A voz veio de cima.

Diego levantou os olhos. Reo Mikage estava parado ali, com sua habitual aura de confiança, mas havia algo diferente em seu olhar. Uma análise. Ao lado dele, Nagi Seishiro parecia quase adormecido em pé, mas seus olhos cinzentos estavam fixos nas mãos de Diego, como se tentasse entender como aquelas mãos — e aqueles pés — haviam quebrado a lógica do Time V horas antes.

— Eu falo o necessário — respondeu Diego, mantendo o tom calmo. — No Brasil, aprendi que quem grita muito no campo geralmente está tentando esconder que não sabe o que fazer com a bola.

Reo soltou uma risada curta e sentou-se à frente dele, sem ser convidado. Nagi desabou na cadeira ao lado, apoiando a cabeça na mesa.

— O que você fez hoje... aquela parada brusca — disse Reo, inclinando-se para frente. — Meu cérebro calculou sua trajetória baseada na sua velocidade de aceleração. Pela física, você deveria ter levado pelo menos dois metros para parar totalmente. Mas você travou no lugar. Como?

Diego mastigou calmamente antes de responder.

— Não é física, Reo-kun. É batida. Vocês, japoneses, são muito bons em seguir o metrônomo. Tic-tac, tic-tac. Vocês treinam para ser perfeitos dentro do tempo. Eu só mudei o compasso. Se eu paro quando o seu cérebro espera que eu acelere, eu crio um silêncio. E o silêncio assusta quem só sabe ouvir barulho.

— Silêncio... — murmurou Nagi, fechando os olhos. — Isso parece trabalhoso. Eu prefiro quando a bola vem até mim e eu só preciso chutá-la. Mas você... você fez a bola parecer que fazia parte do seu corpo.

— Ela faz — disse Diego, e pela primeira vez, um sorriso de canto apareceu em seu rosto. — Se ela for um objeto estranho, você sempre vai estar um milésimo de segundo atrás dela.

Antes que a conversa pudesse prosseguir, as telas espalhadas pelo refeitório piscaram, assumindo a cor azul neon característica do projeto. A face de Ego Jinpachi apareceu, ocupando todo o campo de visão dos jogadores.

— Atenção, seus diamantes brutos — começou Ego, ajeitando os óculos. — O período de adaptação do nosso convidado especial terminou. Diego Takamura, espero que tenha gostado do sushi, porque o cardápio agora vai ficar indigesto.

A tela mudou, mostrando um gráfico de desempenho. O ranking do Blue Lock estava se movendo.

— Amanhã, teremos um jogo de exibição interna. Bloco 5 contra uma seleção mista dos Blocos 1 e 2. Mas há um detalhe: Takamura, você não jogará pelo Time V. Você jogará contra eles. Quero ver como a sua "dança" se comporta quando você não tem o apoio dos melhores talentos técnicos deste bloco. Você será o "Coringa" de um time de renegados que estão por um fio de serem eliminados.

O silêncio no refeitório foi absoluto. Reo olhou para Diego com um brilho predatório.

— Parece que vamos ter nossa revanche mais cedo do que eu esperava, Dançarino.

— Não fiquem animados — interrompeu Ego. — Se o time do Takamura perder, ele será enviado de volta para o Brasil no primeiro voo disponível. E se o Time V perder para um bando de quase-eliminados liderados por um estrangeiro... bem, talvez vocês devam considerar carreiras no pingue-pongue. Isso é tudo. Vão dormir. O caos tem hora marcada.

...

O dia seguinte amanheceu com uma tensão palpável. O campo de treinamento interno estava cercado por câmeras de alta definição. Diego vestia um colete branco sobre o uniforme padrão. Seus companheiros de equipe eram jogadores cujos nomes ele mal conhecia — jovens que pareciam nervosos, com as pernas trêmulas diante da imponência de Nagi, Reo e Zantetsu Tsurugi, o velocista do Time V.

— Escutem — disse Diego para seu time improvisado no círculo central. — Eu sei que vocês estão com medo. Eles são os gênios do Bloco 5. Mas o futebol deles é previsível porque é perfeito.

Um dos jogadores, um rapaz baixo de cabelo espetado, olhou para ele com ceticismo.

— Previsível? O Nagi consegue dominar qualquer bola e o Zantetsu é mais rápido que um raio! Como vamos pará-los?

— Nós não vamos pará-los — Diego respondeu, ajustando suas chuteiras. — Nós vamos fazer com que eles corram demais. Quando o ritmo é muito alto, o erro é inevitável. Só me deem a bola. Não importa onde, não importa como. Se a bola chegar em mim, o tempo é meu.

O apito soou.

O Time V começou com uma agressividade absurda. Reo Mikage ditava o ritmo, distribuindo passes precisos. Em menos de dois minutos, Zantetsu rasgou a lateral como um rastro de luz e cruzou para a área. Nagi, com um toque de calcanhar que desafiava a gravidade, dominou a bola no ar e, sem deixá-la cair, disparou um voleio violento.

Gol. 1 a 0 para o Time V.

— Viu só? — gritou Reo para Diego enquanto voltavam para o meio-campo. — No Blue Lock, a velocidade da evolução é maior do que qualquer ritmo brasileiro!

Diego não respondeu. Ele apenas caminhou até a marca central. Seus olhos castanhos estavam mudando. A tranquilidade estava sendo substituída por aquela frieza cortante, o olhar de quem parou de ver pessoas e começou a ver vetores e frequências.

Reinício de jogo. Diego recebeu a bola.

Imediatamente, Zantetsu avançou como um predador. A velocidade dele era sua arma absoluta. Em um piscar de olhos, ele estava a centímetros de Diego.

— Tarde demais, estrangeiro! — exclamou Zantetsu, esticando a perna para um bote seco.

Mas Diego não tentou driblar para os lados. Ele simplesmente pisou na bola e a puxou para trás, exatamente no momento em que Zantetsu iniciava a estocada. O velocista passou direto, seu próprio ímpeto o levando para longe da jogada.

Diego então começou a avançar. Ele não corria. Ele deslizava.

Dois meio-campistas do Time V fecharam o cerco. Diego deu um toque curto e suave, diminuindo a velocidade ao mínimo. Os defensores pararam, tentando ler o movimento. No instante em que eles estabilizaram os pés, Diego explodiu em uma aceleração diagonal.

— Ele está mudando a frequência de novo! — gritou Reo, vindo na cobertura.

Reo tentou usar seu ombro para tirar Diego do equilíbrio, mas o brasileiro parecia fluido. Ele absorveu o impacto, girou sobre o próprio eixo usando a força de Reo contra ele mesmo e saiu do outro lado com a bola colada ao pé direito.

— Um... dois... três... — Diego contava mentalmente as batidas dos passos dos adversários.

Ele estava na intermediária. O time adversário recuou em massa, formando uma parede. Diego parou. Ele simplesmente parou a bola e ficou parado, olhando para o gol.

Aquela imobilidade no meio do caos era enervante. Os defensores, acostumados com a pressão constante do Blue Lock, hesitaram. Deveriam avançar? Deveriam manter a posição?

Nesse segundo de dúvida, o ritmo do Time V quebrou.

— Agora — sussurrou Diego.

Ele disparou um passe em profundidade, não para onde seus companheiros estavam, mas para onde um deles *teria* que estar se quisesse sobreviver. O jogador de cabelo espetado entendeu o sinal e correu. Diego não esperou o retorno. Ele se lançou para dentro da área, movendo-se entre as sombras dos defensores.

A bola foi cruzada de volta. Era um passe ruim, alto demais e com muito efeito.

— Essa você não pega! — disse um zagueiro, saltando para cabecear.

Diego não saltou antes. Ele esperou o ponto máximo do pulo do adversário. Quando o zagueiro começou a descer, Diego subiu. No ar, ele parecia ter um tempo de suspensão maior. Ele não cabeceou. Ele dominou a bola no peito, amortecendo-a como se fosse uma pluma, e enquanto caía, antes mesmo de seus pés tocarem o chão, ele desferiu um chute de trivela.

A bola descreveu uma curva impossível, contornando as mãos do goleiro e batendo na bochecha interna da rede.

1 a 1.

Diego aterrissou suavemente, sem fazer barulho. Ele olhou para Reo e Nagi.

— O ritmo de vocês é bom — disse Diego, sua voz ecoando no campo silencioso. — Mas é uma música que eu já ouvi antes. Vocês jogam para ganhar. Eu jogo para reger.

Na sala de monitoramento, Ego Jinpachi estava quase colado à tela.

— Veja isso, Anri. Ele não está apenas superando-os fisicamente. Ele está desincronizando o sistema nervoso deles. Quando você joga contra o Diego, você para de confiar nos seus próprios reflexos, porque ele os usa como gatilho para os dribles dele.

— Mas Ego-san — disse Anri, preocupada —, o Time V vai apelar para a força bruta agora. O Nagi parece... acordado.

No campo, Nagi Seishiro estava realmente diferente. O tédio havia sumido. Ele caminhou até Diego enquanto a bola voltava para o centro.

— Ei, brasileiro — disse Nagi, inclinando a cabeça. — Aquilo foi interessante. Você parou no ar por um segundo, não foi?

— Foi o tempo necessário, Nagi-kun.

— Entendi. Então eu vou ter que ser mais rápido do que o seu tempo.

O jogo recomeçou e a intensidade subiu para níveis alarmantes. O Time V parou de tentar táticas complexas e começou a jogar no "Ego Absoluto". Nagi recebia bolas impossíveis e as transformava em chances de gol. Reo copiava os movimentos de Diego, tentando antecipar as quebras de ritmo.

O placar subiu rapidamente. 2 a 1, 2 a 2, 3 a 2 para o Time V.

Diego estava ofegante. Seus companheiros de equipe estavam exaustos, incapazes de acompanhar o nível técnico dos adversários. Ele percebeu que, no Blue Lock, o talento individual pode ser esmagador se você não tiver peças que falem a mesma língua que você.

— Acabou a música, Dançarino? — provocou Zantetsu, passando por ele como um vento.

Diego fechou os olhos por um breve momento. Ele sentiu o suor escorrer, ouviu o som das chuteiras batendo no sintético, o ritmo cardíaco acelerado de todos ao seu redor. Ele estava tentando fazer o time dele jogar no ritmo dele, mas eles não conseguiam.

"Se eles não podem seguir a partitura", pensou Diego, "então eu serei o único instrumento."

A bola sobrou para ele no grande círculo. Era a última chance antes do apito final. Diego sentiu uma pressão vindo de trás — Barou Shoei, que havia entrado como substituto técnico para testar Diego, avançava como um trem desgovernado.

— Saia da frente, vira-lata! — rugiu Barou, tentando atropelar Diego com sua força física.

Diego não fugiu do contato. No exato momento do impacto, ele relaxou todos os músculos do corpo. Foi como se Barou estivesse tentando empurrar a água. Diego fluiu ao redor do corpo gigante de Barou, usando a própria força do "Rei" para impulsionar seu giro.

— O quê?! — Barou rosnou, perdendo o equilíbrio.

Diego partiu para o ataque total. Ele não estava mais apenas driblando; ele estava criando um vácuo. Cada passo seu era uma finta. Ele não olhava para a bola, ele olhava para os espaços entre os átomos da defesa.

Reo tentou o bote. Diego passou a bola por entre suas pernas sem sequer olhar. Zantetsu tentou a velocidade. Diego mudou de direção três vezes em um segundo, fazendo o velocista tropeçar nos próprios pés.

Ele chegou à entrada da área. Nagi estava lá, esperando, os olhos brilhando com uma intensidade sobrenatural.

— Eu vi seu ritmo, Diego — disse Nagi, preparando-se para o bote perfeito. — Você vai parar agora.

— Você viu o meu ritmo passado, Nagi — respondeu Diego, seus olhos agora brilhando em um castanho dourado, quase em transe. — Mas este... este é o improviso.

Diego não parou. Ele jogou a bola para cima. Um balão curto. Nagi saltou para interceptar, mas Diego já previa isso. Ele usou o corpo de Nagi como apoio — um toque leve, quase imperceptível — para ganhar impulso e girar no ar.

Era uma bicicleta. Mas não uma bicicleta comum. No meio do movimento, Diego mudou a trajetória do corpo, chutando a bola com o calcanhar enquanto girava.

*CRACK.*

A bola atingiu a trave interna e entrou com tanta força que o som pareceu um tiro.

3 a 3. O jogo terminou no empate, mas a sensação era de uma derrota esmagadora para os gênios do Bloco 5.

Diego caiu de pé, respirando pesadamente. Ele olhou para as próprias mãos, que tremiam levemente. Aquilo era o Blue Lock. No Brasil, ele decidia jogos com talento. Aqui, ele precisava devorar a própria lógica para sobreviver.

Nagi se aproximou, estendendo a mão para Diego. Não era um gesto de amizade, mas de reconhecimento entre predadores.

— Você é estranho — disse Nagi. — Você me fez correr. Eu odeio correr. Mas... eu quero ver você dançar de novo.

Diego apertou a mão de Nagi.

— Na próxima vez, Nagi-kun, eu vou fazer você esquecer como se caminha.

Naquela noite, o nome de Diego Takamura não era mais apenas o de um "convidado". Ele era o vírus que havia infectado o sistema perfeito de Ego Jinpachi. O "Dançarino" havia provado que o ritmo brasileiro não era apenas ginga; era uma arma de destruição em massa.

E longe dali, no Bloco Z, Isagi Yoichi assistia ao vídeo do último gol repetidamente, tentando entender a "batida" que Diego havia criado.

— Ele controla o tempo... — sussurrou Isagi, sentindo um calafrio de excitação. — Se eu não conseguir devorar o ritmo dele, eu nunca vou ser o melhor do mundo.

O palco estava montado. O Blue Lock tinha seu mestre de cerimônias. E a música estava apenas começando.