O Ego por Trás dos Olhos do Dançarino
O Eco de um Metrônomo Quebrado
A luz azulada do monitor de Ego Jinpachi refletia-se em suas lentes, enquanto ele observava os dados biométricos de Diego Takamura. O gráfico de batimentos cardíacos do brasileiro durante o último lance não era uma linha frenética de estresse, mas uma onda senoidal perfeita. Diego não estava lutando contra o caos; ele estava respirando dentro dele.
— Ele não é um jogador de futebol comum, Anri — murmurou Ego, levando um dedo ao queixo. — Ele é um erro de processamento. O Blue Lock foi construído sobre a ideia de que o egoísmo é uma explosão linear. Mas o Diego... o ego dele é circular. Ele envolve o adversário em uma frequência e depois desliga o rádio.
No dormitório, o silêncio era interrompido apenas pelo som rítmico de Diego batendo uma bola de tênis contra a parede. *Tum. Tá. Tum. Tá.* Ele estava sentado no chão, de olhos fechados, sentindo a vibração do impacto na palma da mão.
— Você não dorme? — A voz veio da porta. Era Kunigami Rensuke, acompanhado por um Isagi Yoichi que parecia ter visto um fantasma. Eles eram do Bloco Z, mas as restrições entre os blocos estavam se tornando mais fluidas à medida que Ego misturava os talentos para acelerar a evolução.
Diego parou a bola de tênis no ar. Abriu um dos olhos, mantendo a expressão serena que tanto irritava os adversários.
— O sono é um ritmo lento demais para o que sinto agora — respondeu Diego, levantando-se com uma agilidade felina. — Vocês são do time que enfrentou o Barou recentemente, não são?
— Sim — disse Isagi, dando um passo à frente. Seus olhos azuis brilhavam com uma fome que Diego reconheceu imediatamente. — Eu vi o que você fez hoje com o Time V. Você parou o Nagi. Ninguém para o Nagi daquele jeito.
— Eu não o parei, Isagi-kun — Diego caminhou até a janela, observando a estrutura metálica do complexo. — Eu apenas sugeri que ele estava correndo na música errada. Ele aceitou a sugestão.
— Isso soa como filosofia barata — interrompeu Kunigami, cruzando os braços musculosos. — No campo, o que importa é a força do chute e a precisão. Se eu te der um tranco, sua "dança" acaba no chão.
Diego sorriu discretamente. Ele caminhou em direção a Kunigami até que estivessem a poucos centímetros de distância. A diferença de físico era notável, mas a aura de Diego parecia ocupar mais espaço na sala.
— Força é apenas uma nota alta, Kunigami-kun. Se você tocar a mesma nota o tempo todo, ela vira ruído. E ruído é fácil de ignorar.
Antes que Kunigami pudesse retrucar, o interfone do corredor ecoou a voz estridente de Ego.
— Todos os sobreviventes dos Blocos 4 e 5, dirijam-se ao Campo Central. O experimento de hoje não é um jogo. É um teste de isolamento acústico.
Ao chegarem ao campo, os jogadores encontraram uma estrutura diferente. Não havia traves. Em vez disso, o campo estava dividido em hexágonos luminosos. No centro, uma máquina de disparar bolas de alta tecnologia, capaz de lançar projéteis a 120 km/h em intervalos irregulares.
— O teste é simples — anunciou a imagem de Ego no telão. — "Sincronia ou Morte". Cada um de vocês entrará no hexágono central. A máquina disparará dez bolas. Vocês devem dominá-las e chutá-las nos painéis que acenderem aleatoriamente ao redor do campo. Mas há um truque: o som ambiente será alterado.
De repente, sons ensurdecedores de torcida, buzinas, gritos e batidas de techno industrial começaram a sair das caixas de som, em um volume que tornava impossível ouvir a própria respiração.
— O caos auditivo destrói a percepção espacial — continuou Ego. — A maioria de vocês depende do som do chute, do grito do companheiro ou do silêncio para se concentrar. Quero ver quem consegue manter o próprio ritmo quando o mundo ao redor está gritando mentiras.
Um a um, os jogadores tentaram. Zantetsu falhou miseravelmente; sua velocidade dependia de um arranque explosivo que ele coordenava com o som do próprio passo, e o barulho o deixou desorientado. Reo Mikage conseguiu sete de dez, mas terminou exausto, com as têmporas latejando. Nagi nem tentou seriamente, sentando-se no chão e cobrindo os ouvidos.
— Sua vez, Dançarino — provocou Barou, que estava encostado na parede, tendo conseguido oito de dez apenas na base da fúria pura. — Vamos ver se seu samba funciona no meio de um terremoto.
Diego entrou no hexágono. Ele não colocou as mãos nos ouvidos. Ele não fechou os olhos. Pelo contrário, ele começou a balançar levemente o corpo, de um lado para o outro, como se estivesse ouvindo uma melodia que ninguém mais percebia.
— O que ele está fazendo? — perguntou Isagi, observando da lateral. — Ele está... acompanhando o barulho?
— Não — sussurrou Bachira, que havia aparecido ao lado de Isagi com um sorriso maníaco. — Ele está transformando o barulho em metrônomo. Olha os pés dele.
A primeira bola disparou como um tiro. O som do canhão foi abafado por uma explosão de som de sintetizador nas caixas. Diego nem olhou para a máquina. Ele sentiu o deslocamento de ar. Com um toque de letra, ele amorteceu a bola e, no mesmo movimento, a disparou contra um painel que acabara de acender à sua direita.
*Pau.*
A segunda e a terceira bolas vieram quase simultâneas. Diego girou. Seus movimentos eram tão fluidos que pareciam ignorar a inércia. Ele não estava lutando contra o som ensurdecedor; ele estava usando os picos de volume para cronometrar seus toques.
— Quatro... cinco... seis... — contava Ego, seus olhos brilhando de excitação.
Na oitava bola, a máquina falhou propositalmente o tempo, lançando-a meio segundo antes do esperado. Era o "quebra-ritmo" de Ego.
Diego, no ar para um voleio, percebeu a mudança. No meio do salto, ele contraiu o abdômen, alterando o centro de gravidade. Ele não chutou a bola com o peito do pé como planejado; ele a deixou bater em sua coxa, esperou que ela subisse e, enquanto o som ambiente atingia um clímax de ruído branco, ele a golpeou com o calcanhar.
A bola atingiu o centro exato do painel.
Dez de dez.
Quando a última bola atingiu o alvo, o barulho cessou instantaneamente. O silêncio que se seguiu foi tão pesado que alguns jogadores sentiram tontura. Diego pousou no gramado, sem uma gota de suor a mais do que o necessário.
— Como? — perguntou Reo, aproximando-se, visivelmente frustrado. — O som estava mudando a cada três segundos. Era impossível prever o próximo compasso.
Diego olhou para Reo, e seus olhos pareciam estar em um lugar muito distante.
— Vocês tentam ignorar o barulho para encontrar o silêncio — disse Diego. — Eu aceito o barulho e o transformo na minha música. Se o mundo está gritando, eu danço conforme o grito. O erro de vocês é achar que o ritmo tem que ser bonito. O ritmo só precisa ser constante dentro de você.
— Constante dentro de você... — repetiu Isagi, sentindo as peças do quebra-cabeça se encaixarem em sua mente. — Você não reage ao ambiente. Você traduz o ambiente para a sua linguagem.
— Exatamente, Isagi-kun.
Ego reapareceu no telão, batendo palmas lentas e sarcásticas.
— Impressionante, Diego Takamura. Você acaba de provar que sua arma não é o drible, mas a adaptação rítmica. Mas o Blue Lock não é um conservatório de música. É um campo de batalha. E no campo de batalha, sempre há alguém que quer quebrar seu instrumento.
A tela mudou, mostrando a programação do dia seguinte.
— Amanhã, teremos o primeiro "Teste de Devoração". Diego Takamura contra o Time Z e o Time V, em um cenário de três vias. Mas com uma condição especial: Diego, você jogará sozinho.
Um murmúrio de choque percorreu o campo.
— Sozinho? — gritou Kunigami. — Contra onze de nós? Isso é impossível!
— Para um jogador comum, sim — disse Ego, com um sorriso macabro. — Mas Diego diz que controla o ritmo. Se ele controla o ritmo, ele não precisa de companheiros. Ele só precisa que os adversários joguem no tempo dele. Se ele marcar três gols antes que qualquer um de vocês marque cinco, ele vence. Se ele perder... ele está fora.
Diego permaneceu imóvel. Ele sentiu os olhares de Barou, Nagi, Isagi e Kunigami queimando sobre ele. Eram todos predadores, e agora tinham uma presa comum que os havia humilhado de uma forma ou de outra.
— Sozinho... — murmurou Diego para si mesmo. Ele fechou os punhos, sentindo o pulsar do próprio sangue nas pontas dos dedos. — Um solo de violino contra uma orquestra desgovernada.
Ele olhou para o telão, onde Ego o observava com expectativa.
— Ego-san — disse Diego, sua voz subindo de tom pela primeira vez, carregada de um egoísmo frio e afiado. — Você cometeu um erro.
— Ah, é? E qual seria? — questionou Ego.
— Você disse que eu estarei sozinho. Mas em um campo de futebol, eu nunca estou sozinho.
Diego apontou para a bola no centro do campo.
— A bola é o meu par. E enquanto ela estiver comigo, são vocês que estarão em desvantagem. Eu vou transformar este complexo no meu salão de baile, e todos vocês vão tropeçar nos próprios pés tentando me acompanhar.
Isagi Yoichi sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele viu, por um breve segundo, não o Diego tranquilo e educado, mas um monstro que via o futebol como uma geometria de vibrações e frequências, onde cada jogador era apenas uma corda a ser dedilhada.
— Amanhã — disse Barou, caminhando em direção à saída e esbarrando propositalmente no ombro de Diego —, eu vou quebrar suas pernas e o seu ritmo, bailarino.
Diego não se moveu com o impacto. Ele apenas observou Barou sair.
— O Rei quer destruir a música — comentou Bachira, aproximando-se de Diego com curiosidade. — Mas você sabe o que acontece quando se tenta parar uma música com força bruta, Diego-chan?
Diego olhou para o garoto prodígio do Bloco Z.
— O que acontece, Bachira-kun?
— A música apenas muda de tom — respondeu Bachira, rindo.
Diego assentiu. Ele voltou para o centro do hexágono e pegou a bola. Ele a colocou sob o pé e sentiu a textura do couro. Amanhã, ele não seria apenas um estrangeiro tentando se provar. Ele seria o Maestro do Caos.
Naquela noite, Diego não voltou para o dormitório imediatamente. Ele ficou no campo escuro, sob a luz dos refletores de emergência. Ele começou a correr sem bola, mudando de direção, acelerando e parando, ouvindo o som do seu próprio coração.
*Tum-tum. Tum-tum.*
Ele estava ajustando o metrônomo. Ele estava se preparando para o momento em que o Blue Lock tentaria devorá-lo, apenas para descobrir que ele era indigesto.
— Isagi, Nagi, Barou... — Diego sussurrou os nomes como se fossem notas em uma partitura. — Vocês acham que o ego é um grito. Eu vou lhes mostrar que o ego mais perigoso é aquele que sussurra no ouvido do adversário e o faz errar o passo.
O "Dançarino" estava morto. Naquela escuridão, nasceu algo novo. Algo que Ego Jinpachi vinha buscando desde o início do projeto: um atacante que não apenas via o gol, mas que criava o caminho até ele através da manipulação da realidade do jogo.
O solo de Diego Takamura estava prestes a começar. E o Blue Lock não estava pronto para o clímax.